Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

aprender a rezar na era da técnica

18.09.08

 

 

 

Ouvi, na antena 2 e num sábado à tarde, uma entrevista a Gonçalo M. Tavares. Boa parte do tempo foi passado à volta do "aprender a rezar na era da técnica"; e, claro, fiquei com algumas ideias pré-concebidas para escrever sobre este livro.

 

É evidente que o título tem alguma coisa a ver com a história do romance, mas só se o leitor quiser. A relação não é imediata. É preciso pensar um bom bocado para lá chegar. De qualquer modo, Gonçalo M. Tavares reconhece a enorme dificuldade em se aprender a rezar na era da técnica. Qualquer que seja o conceito que se tenha sobra a ideia de rezar - pode ser apenas uma mera meditação - a parafernália tecnológica não nos deixa muito tempo para as coisas demoradas e vagarosas - a propósito, descobri, nestes dias, um belo lugar para ler: sentado numa cadeira em frente ao mar e numa praia quase deserta (fuga à simcult?) -.

 

Lenz Buchmann é a figura central do romance. Filho de um homem férreo mas informado, Lenz começa por ser um médico muito considerado, passa a ser um político muito poderoso e acaba os seus dias numa dependência absoluta. Na viagem pela vida deste homem, o autor percorre, de modo metafórico, muitos dos problemas da sociedade actual. E, como sempre, a sua escrita é bem depurada e vai ao osso.

 

Esta viagem é relatada em cerca de 400 páginas, num somatório de capítulos de uma, duas ou três páginas no máximo. É o livro com mais páginas do autor, parece-me, e acaba por tornar-se um pouco excessivo. Gosto mais da sua escrita quando fica por um registo mais comedido de caracteres.

  

Não resisto em relatar o final do romance. Lenz Buchmann, a exemplo do seu pai, só queria morrer de suicídio. Mas já não tinha forças, nem para isso. Socorreu-se, em vão, da ajuda de um homem deficiente que, por sinal, era filho de um homem que tinha sido assassinado pelo seu pai. Até que:

 

"Depois talvez tenha existido uma pausa e de novo da televisão veio uma luz forte que o chamou pelo nome. E agora ele foi; deixou-se ir."