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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

culpados

08.07.08

 

 

 

Mia Couto é o escritor que se sabe. Estou-lhe ligado por um factor determinante: depois de muitos anos afastado fisicamente da minha pátria de nascimento, regressei muitas vezes a "casa" através da sua escrita. Mia Couto escreve muito bem e retrata como ninguém as idiossincrasias moçambicanas.

 

Já o conhecia de Moçambique, embora ele seja um pouco mais velho do que eu: 4 anos, coisa pouca. Mas na adolescência fazia muita diferença. Mia Couto era um jornalista de intervenção, digamos assim. Voltei a lê-lo, como escritor, a partir de 1987.

 

Hoje peguei no "Pensatempos". Coisa para ler numa tarde, já que o livro é naquele jeito de junção de crónicas já publicadas.

 

E dei com uma pérola que não resisto a contar-lhe.

 

Ora leia:

 

 

"Vou contar-vos um episódio curioso que envolve uma senhora africana chamada Honória Bailor-Caulker num momento em que ela visitava os Estados Unidos da América. Dona Honória Bailor-Caulker é presidente da câmara da vila costeira de Shenge, em Serra Leoa. A vila é pequena mas carregada de História. Dali partiram escravos, aos milhares, que atravessavam o Atlântico e trabalhavam nas plantações americanas de cana-de-açúcar.


Dona Honória foi convidada para discursar nos Estados Unidos da América. Perante uma distinta assembleia a senhora subiu ao pódio e fez questão de exibir os seus dotes vocais. Cantou, para espanto dos presentes, o hino religioso Amazing Grace. No final, Honória Bailor-Caulker deixou pesar um silêncio. Aos olhos dos americanos parecia que a senhora tinha perdido o fio à meada. Mas ela retomou o discurso e disse: quem compôs este hino foi um filho da escravatura, um descendente de uma família que saiu da minha pequena vila de Shenge.


Foi como que um golpe mágico, e o auditório se repartiu entre lágrimas e aplausos. De pé, talvez movidos por uma mistura de sentimento solidário e alguma má consciência, os presentes ergueram-se para aclamar Honória.


- Aplaudem-me como descendente de escravos?, perguntou ela aos que a escutavam.


A resposta foi um eloquente "sim". Aquela mulher negra representava, afinal, o sofrimento de milhões de escravos a quem a América devia tanto.


- Pois eu, disse Honória, não sou uma descendente de escravos. Nem eu nem o autor do hino. Somos, sim, descendentes de vendedores de escravos. Meus bisavós enriqueceram vendendo escravos".

 

 

 

Quer ouvir o belo Amazing Grace?

 

Ora clique.