Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

frases

23.06.08

 

 

Sempre me impressionou a suprema importância que uma simples frase pode tomar. Não falo da beleza que um conjunto de palavras pode assumir ou mesmo transmitir, pois já são demais os exemplos que suportam tamanha evidência: quem não cede perante os poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen? Quem não ascende com as elegias do eterno Rilke?

 

Duas ou três frases conseguidas e combinadas no modo mais suado que seja, e eis que ventos de elevação nos despertam. Vivemos um tempo de muitas falas e de muitos escritos. Assisti a uma apresentação do já célebre “"Ensaio sobre a lucidez"”.

 

José Saramago mostrou-se muito indignado com a seguinte frase, dita pelo actual Presidente da República Jorge Sampaio: “"Portugal é um país viável"”.

 

Para o nosso prémio nobel, tal nunca se pode questionar num país com esta História. Ao dizer a frase que disse, o Presidente cedeu, e um de modo muito perigoso, ao capitalismo sem rosto. Por uma frase? Para os mais curiosos recomendo a frase de vinteuil.

 

 

 

 

(Reedição. 1ª edição em 24 de Julho de 2004)

eleição

23.06.08

 

 

 

 

Recebi, por email, mais um texto muito interessante.

  

 

Desconheço a fonte, mas tenho ideia que o autor é um cronista de que já ouvi falar.

 

 

Vale a pena ler.

 

 

 

 

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê.

 

Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição. 

 

 

 

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho, as quecas de sonho. Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. 

 

 

 

É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. 

 

 

O que não deixa de ser uma lástima. Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!'

 


 
 

João Pereira Coutinho.