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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

apparatchik

14.06.08

 



 

 

Não me lembro de uma época onde tanto se tenha escrito sobre o sistema escolar. Para ser mais rigoroso, direi que a necessidade de se expor ideias associada à sociedade em rede e à internet, tem tido um resultado impressionante: circulam textos e mais textos com opiniões muito interessantes.


Voltei a receber, via email, um texto muito curioso.

Pega na palavra russa  "apparatchik" (s.m. Membro da direcção de um partido político ou de um sindicato e que com o tempo adquiriu uma conotação negativa associada ao comportamento totalitário através da muito má burocracia) e desmonta muito do que se tem passado em Portugal nos últimos anos. 


Digamos assim: não traz nada de novo em relação ao que se tem escrito mas consegue fazê-lo de um modo muito incisivo e esclarecido.


Ora leia.


 

"Carta Aberta a um(a) apparatchik:


Obrigado, apparatchik, por existires e insistires.


Mas, apesar de tudo, precisas de ouvir umas vozes que correm por aí.


O apparatchik vive submerso em papéis e cada vez adora mais; se o papel químico já acabou há muito tempo, o apparatchik encontra dezenas de arquivos mortos ou discos rígidos de pcs velhos para guardar essa preciosa tralha. O apparatchik sabe guardar bem e ainda tem saudades do papel selado.

O apparatchik acha que os "agrupamentos de escolas" são o máximo da inovação e da qualidade. Realidades quotidianas muito diferentes podem ser amalgamadas em arrazoados teóricos de baixa estatura e rebarbativa ineficácia. Mas o apparatchik sabe e diz que assim se funciona melhor.

O apparatchik ainda não descobriu que se se agruparem 4 agrupamentos (Ericeira, Venda do Pinheiro, Mafra e Malveira, p.e.) num, os ganhos economicistas são enormes:

1 Conselho Executivo em vez de 4 ;

1 Conselho Pedagógico em vez de 4 ;

1 Assembleia de Escola em vez de 4 ;

1 Presidente de Assembleia de Escola em vez de 4… e assim por diante.

Levada a peito esta teoria, por exemplo, por que não o Agrupamento de Escolas do Distrito de Lisboa? Se é precisa tanta "comunhão" e é tão urgente cortar em despesas inúteis, cortem-se nas tarefeiras da limpeza que deixaram de poder fazer a dita condigna nas escolas públicas, ou não contratação de auxiliares de educação que não servem para nada, principalmente em escolas pequenas, ou nas grandes, quando

aquelas forem arrasadas em nome do progresso e … das fábricas.

O apparatchik às vezes pára para pensar e aflige-se: que horror ter de ir outra vez trabalhar com os meninos e os jovens mal-educados e mal-ensinados! Levada aquela subversiva teoria à prática, largas dezenas de apparatchiks, fugidos como o Diabo da Cruz da realidade das salas de aula, seriam de novo expostos a esse tremendo sacrifício.

O apparatchik acha que os "protocolos curriculares de turma" são a panaceia universal que cura os males da incompetência; desde que esteja escrito, segundo o pré-definido guião, não é muito relevante se foi copiado do sr. Mandrake ou se é só blá-blá-blá para inglês ver: os arquivos mortos e os discos rígidos de pcs obsoletos têm sempre um pedacinho mais de espaço.

O apparatchik não esteve na manifestação de dia 8 de Março de 2008 porque não é bom para a sua carreira. O que é bom para a sua carreira é aceitar piamente o instituído e lusitanamente não levantar ondas.

Que o gasóleo está caro.

O apparatchik respira fundo porque sabe que a sua carreira não está em perigo e vai poder continuar a chafurdar em papéis, e mais papéis e mais papéis. Ainda que também em suporte digital. Que faz mais chique.

O apparatchik não gosta muito de teatro, nem dos Bonecreiros de Santo Aleixo, mas adora melodramas ridículos e grotescos no Auditório Benedita Costa. Que lá moral é com elas.

O apparatchik acha o máximo da competência reuniões que se prolongam para além da meia dezena de horas, até altas horas da noite, ou reuniões absurdas para explicação (?!) de guiões. O apparatchik já sabe ler mas acha que os outros ainda não.

O apparatchik não se rala nada se os professores utilizam o parque desportivo para práticas pedagógicas diferentes; o apparatchik preocupa-se é com o colete de sinalização, hoje rosa, amanhã laranja; o apparatchik não se rala nada com práticas pedagógicas diferentes; o apparatchik quer saber é se a raqueta de sinalização foi levantada na véspera e entregue no dia. O apparatchik é muito cioso das normas.

O apparatchik adora conferir pacotinhos de leite mas não quer saber se as escolas têm auxiliares de acção educativa. O apparatchik quer os mapas sempre impreterivelmente para amanhã mas não quer saber se as escolas têm apoio técnico aos seus computadores em tempo útil. Aliás, o apparatchik adora poder referir que as escolas têm super-salas de informática, mesmo que pouco ou nada utilizadas. O apparatchik nem sabe que existem escolas que têm computadores em rede, dentro da sala, permanentemente ligados e utilizados. O apparatchik é muito competente e profissional e adora a falácia.

O apparatchik tem sempre um primo funcionário na ASAE que fiscaliza se os cabos das facas são ainda de madeira ou se os chouriços ainda contêm muitas bactérias; o apparatchik é o zelota funcionário da ASAE. Mental, puro seguidista dos uniformismos e monolitismos bafientos.

O apparatchik diz que não vivemos numa república das bananas. Verdade insofismável se exceptuarmos o exemplo atlântico. Logo de seguida, nem passa pela cabeça do nosso apparatchik que também não vivemos numa república de galinhas sem brio, nem numa república de ovelhas sem coluna, nem numa república de paus mandados.

O apparatchik é um pequeno Júlio Dantas que nunca leu Almada Negreiros.

Para o apparatchik o verde de hoje pode ser o amarelo de amanhã, ou ter sido o castanho de ontem. A lei é que conta e o resto são más práticas pedagógicas.

O apparatchik acredita muito no chefe e no chefe do chefe e no outro chefe do chefe do chefe. O apparatchik é um pequen(íssim)o chefe e ser presidente-de-qualquer-coisa é um must com muito pedigree.

O apparatchik existe, sempre existiu e, muito provavelmente, continuará a existir. As coisas são o que são e o mundo, como todos sabemos, não é perfeito.



O que o apparatchik precisa de também saber é que o mundo gira, e felizmente, muito para além da sua irrisória existência".


Luís Pires