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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

analogias

31.05.08

 

 

 

 

Manuel Soares, secretário geral da Associação de Juízes portugueses, escreve um artigo muito interessante no jornal público. Destaco a seguinte frase: 

 

  • "... os tribunais precisam de liderança exercida em ambiente de confiança e consenso, assumido com naturalidade, e não de chefia hierárquica estabelecida em relações de subalternização".

 

 

Poderíamos ler de outro modo, aplicando as mesmas ideias ao novo regime de gestão das escolas:

 

  • As escolas precisam de liderança exercida em ambiente de confiança e consenso, assumindo com naturalidade, e não de chefia hierárquica estabelecida em relações de subalternização.

 

Já por aqui dei conta dos motivos que me opõem, de forma veemente, ao novo modelo de gestão e administração escolar: o fim das eleições directas e tudo o que leva a que se decida ir por aí. E, por mais espantoso que possa ser, essa forma, algo que mistura ingenuidade com atrevimento, de encarar a ideia de liderança vem de um governo do PS.

 

E quais serão os motivos? Julga-se que num regime de chefia hierarquizada se ganha eficácia e, por outro lado, aponta-se com os exemplos de legitimação democrática de pequenos e incompetentes tiranetes. Sabe-se que, com a mudança desenhada, tudo ficará na mesma, ou pior ainda, no que a esse aspecto se refere.

 

 

Também se sabe que as lideranças em ambiente de confiança e consenso dão muito mais trabalho e levam algum tempo a afirmar-se.

 

 

A questão pode ser colocada assim: mas quem é que lhes disse que a democracia não dá trabalho? Pois é, dá muito e é diário.

 

E mais: não se conhece nenhuma grande realização, em escolas, em tribunais, em empresas, sem trabalho cooperativo e em ambiente de confiança e consenso.

 

Acrescentaria um importante detalhe associado a este caminho de suposta modernidade: essa coisa das cotas, dos excelentes, dos muito bons e quejandos, são uma manifestação inequívoca da falta de liderança: de quem as propõe, de quem as advoga e de quem as reconhece.

discordar

30.05.08



 

Lembro-me duma entrevista de José Pinto dos Santos ao canal um da RTP: "certo dia, numa reunião de um conselho de administração de uma grande empresa portuguesa digo, a propósito de uma proposta de outra pessoa - por sinal minha amiga -: isso não tem pés nem cabeça; deixou de me falar."

Queria, o excelente entrevistado, ilustrar a ideia de que em Portugal é muito difícil discordar: e tinha razão.

Recordei-me disso a propósito de uma outra coisa que li do Padre António Vieira, em Sermão de São Francisco Xavier Dormindo, e que também não deixa de ser verdadeira quando as mesmas pessoas se cruzam em inúmeras reuniões, quer em Portugal, quer no resto do mundo.

«Os sonhos são uma pintura muda, em que a imaginação a portas fechadas, e às escuras, retrata a vida e a alma de cada um, com as cores das suas acções, dos seus propósitos e dos seus desejos.»

 

salvem a net

29.05.08

 


Parece impossível, mas não é: a internet aparenta não necessitar de salvadores.

O movimento Save The Internet (www.savetheinternet.com) já conta com mais de um milhão de aderentes para "assegurar que a Internet continue aberta a novas ideias, à inovação e ao progresso."

A iniciativa e a consequente discussão, já têm meses de actividade. Activistas, bloggers, jornalistas e oradores diversos manifestam-se preocupados, no primeiro dia da conferência para a reforma dos média, com a necessidade de se garantir a liberdade na utilização da internet:

"Queremos um internet livre de portagens"
é a palavra de ordem.
 
(Esta parte do post foi publicado em 19 de Janeiro de 2007)
 
Vem isto a propósito de um programa televisivo, cujo vídeo acabei agora de ver: o canal "sic generalista" dedicou uma boa parte do seu "prime-time" de hoje aos blogues, num programa moderado por um jornalista e preenchido por alguns convidados. Tomaram, também, como exemplo alguns blogues assinados mas não convidaram os seus autores. Não houve, portanto, contraditório. E misturaram, na discussão, a generalidade dos blogues com os aspectos mais negativos na utilização da internet.
 
Nem sei que diga. Vivemos tempos de informação livre como nunca se conheceu. Daqui por alguns anos, perceberemos melhor os seus efeitos nos mais diversos domínios.
 
Tiques do estado excepção?

divergências

29.05.08

 




 

 

 

 

Marçal Grilo foi o Ministro da Educação do XIII Governo Constitucional no final do século XX, numa equipa liderada por António Guterres. 


Deu, no último fim-de-semana, uma entrevista ao jornal público.


Li-a com atenção. Encontrei sinais evidentes de divergências com as políticas do actual Governo em relação à Educação: e noto que, essas diferenças, nada têm a ver com as importantes questões financeiras.


Começa a ser recorrente: algumas pessoas do PS têm tornado público o seu estado de alma. 


Da peça jornalística, destaco estes aspectos:



Mas não é esse o problema das mexidas na educação?
Aí estou com os professores, que se queixam muito das alterações sucessivas. Precisamos de serenidade e bom senso, porque as grandes guerras já não se ganham. Há um tempo para dialogar, decidir, unir, para separar, fazer a paz e a guerra. Neste momento é tempo para dialogar.



Fez sentido o tempo da guerra?
Quando se tem uma grande vontade de atingir um determinado objectivo, tem de se ser muito determinado e mobilizar os meios necessários para atingir o objectivo. É como numa operação militar.
Portanto, estamos a falar da avaliação dos professores.
Isto não se aplica só à educação, é para quando se tem uma política pública para atingir um determinado objectivo. Quando esse objectivo leva a que se criem condições tão negativas, o objectivo passa a ser secundário em relação a ter o sistema a funcionar minimamente. Se queremos reformas na área da saúde ou educação, não podemos separar-nos completamente dos protagonistas que estão no terreno, porque são eles que vão dar corpo ao que se pretende fazer.
Temos um conjunto de professores que fazem todos os dias o milagre de fazer funcionar muito bem as escolas públicas e privadas. Para que esses professores mantenham a sua capacidade e empenho no que fazem têm que ter estabilidade.
Um estudo feito há uns anos sobre o stress dos professores mostrou que um dos factores é a contínua mudança de regras, obrigando a uma sobrecarga de preenchimento de papéis. A certa altura, têm dificuldade em acomodar essas mudanças e as escolas têm de ser verdadeiras organizações. Há ainda um número significativo de escolas sem liderança, equipa formada, objectivos definidos e meios mobilizados. As escolas vão ter de ser autónomas, por definição
.

philip roth

28.05.08

 

 

Peguei no livro "O animal moribundo" de Philip Roth aconselhado pela opinião da minha mulher: é um livro surpreendente. Li-o com um entusiasmo crescente.

Para David Lodge, do New York Review of Books, o premiado e conceituado escritor americano escreveu "uma pequena e perturbante obra-prima".

"Uma obra de apaixonada premência e uma impressionante exploração de afecto e liberdade. O Animal Moribundo é intelectualmente ousado, impetuosamente sincero, inteiramente do nosso tempo e absolutamente sem precedentes - uma história de descoberta sexual contada a respeito de si próprio por um homem de setenta anos, uma história acerca do poder de Eros, da passagem do tempo e da morte".

Incontornável, meu caro leitor.

woody allen at pompeu fabra university, barcelona

27.05.08



Woody Allen é um dos realizadores que mais admiro. Comecei a vê-lo na década de setenta, nunca mais parei e raramente me aborreci.

 

Sempre apreciei os argumentos e as tramas dos seus filmes: muito numa linha psicanalítica e abordando temas com flagrante oportunidade. Como actor, tem um registo muito desajeitado e permanece num limbo trágico-cómico.

 

Mas vamos ao vídeo: trata-se do discurso de aceitação, por Woody Allen, do doutoramento honoris causa pela Universidade Pompeu Fabra (UPF), Barcelona; o discurso do realizador descreve na perfeição os sinais que sempre me foi dando.

 

Ora clique.

 





indiferença

26.05.08

 

Primeiro levaram os comunistas,
mas eu não me importei
porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
mas a mim não me afectou
porque não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
mas eu não me incomodei
porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
de alguns padres, mas como
não sou religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
e quando percebi,
já era tarde.


Bertolt Brecht.





central

25.05.08

 

 




"Mudam os homens não mudam as políticas", 
A engrenagem, Jean-Paul Sartre

 

 

Constato-o cada vez com mais evidência: o bloco central tomou conta dos interesses da vida política portuguesa. Não é uma novidade, dirão alguns. Claro que não é uma novidade, mas, nesta fase de cooperação estratégica, entre a Presidência da República e o Governo, torna-se ainda mais evidente.

 

E ao nível local verifica-se o mesmo: nas conversas que vou tendo com alguns militantes do PS, verifico que, na oportunidade de exercer um qualquer lugar de poder, o fariam num partido ou no outro. E mais: entendem que quando o PSD voltar a governar seguirá as mesmas linhas estratégicas, os mesmos "tiques" e os mesmos propósitos. Aliás, em relação aos propósitos das políticas não concebem alternativa. Não vêem diferenças. Parece que acreditam no fim da história. Uma coisa descomunal.

 

Um outro sinal apareceu a nível nacional: os dirigentes do PS indicam a sua preferência, nas eleições internas do PSD, por Manuela Ferreira Leite, a candidata da simpatia de Cavaco Silva, parece-me. Nunca tinha visto nada assim.

 

É grave. Pode asfixiar a participação política e atrasar ainda mais o desenvolvimento do país. Os portugueses devem exigir uma clarificação do cenário partidário.

 

Não se deve dizer que é igual aquilo que a história nos diz que é diferente.

 

Li, hoje, a seguinte ideia de Vasco Pulido Valente, que conhece muito bem o PSD:

 

"... é preciso dizer que Manuela Ferreira Leite representa o que há de mais genuíno e profundo no partido: a tradição autoritária que vem de Salazar e Marcelo e que Sá Carneiro e depois Cavaco manifestamente receberam".

 

Estará o PS do presente nesta mesma linha? Não há clivagens políticas e ideológicas significativas na história de cada um dos partidos? Ou tudo se resume à oportunidade de encher a agenda mediática com os seguintes objectivos:

 

  • Conquistar o poder;
  • Manter o poder.


Visto de fora, alguém autorizado como Eduardo Lourenço diz o seguinte:

 


"... o jogo político deixou de ter qualquer componente, digamos, de um dinamismo suficiente para que nós nos interessemos por este tipo de luta. A paisagem neste capítulo é muito desertificada, [tal] como se vive em regime único. A superioridade política, neste momento, do PS, é tal que… Pode ser também uma aparência. Mas PSD e PS não são opositores, numa oposição agressiva e dinâmica, como foi em tempos. São duas alternativas à mesma coisa. Isso arrasta uma dramatização menor da cena nacional e quem está lá fora, realmente, não se pode interessar por uma espécie de drama que não existe". 

 

Quem capitulou? Quem desistiu? Não se avizinha nada de bom, parece-me.

sobre a política contemporânea

25.05.08


jerusalem.jpg


Já declarei, por aqui também, a minha grande admiração pelo escritor Gonçalo M. Tavares - autor de "Jerusalém".

Li, em tempos, no jornal “Público”, numa interessante rubrica intitulada “o discurso que nunca foi feito”, um texto escrito pelo Gonçalo MT, a que ele chamou “sobre a politica contemporânea”.

Escreveu duas epígrafes, uma de Harold Brodkey e outra de José Bragança de Miranda.

A citação do José Bragança de Miranda diz assim: "“Sendo a politica um agir livre, tudo pode recomeçar, mas não de qualquer maneira nem em qualquer lugar"”.

“Tentando ultrapassar a espuma dos dias e ir para além do que é o debate superficial ou a ausência de debate que caracteriza as campanhas” (texto da responsabilidade da edição do jornal), o Gonçalo MT divide o seu pensamento em 10 pontos.

Fiquemos com os dois primeiros.

1 – Na politica contemporânea recomeça-se quase sempre de novo – o que se traduz numa violência: iniciar é eliminar o que existia antes. Recomeça-se permanentemente, não por ignorância (do que existia antes), não por oposição absoluta em relação ao anterior (como existe no germe de uma revolução), mas por vaidade.

2 – A politica parece cada vez mais uma administração de palavras e não de coisas. Não se trata já de transportar pesos, de “deslocar” acontecimentos de um lado para outro, trata-se antes, e primeiro, de um transporte de vocábulos.

 

guantanamo

24.05.08

 

 


foto de Noé Sendas






Acordas tarde,
certo é o destino,
da natureza foges,
inapelável é o seu recado:

consome-se a carne,
tanto a sage como a estulta.


(reedição)

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