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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

tudo deve partir da sala de aula para aí voltar

03.03.08

(fotografia, de Xaneca, datada de fevereiro de 2008;
refere-se a uma aula de área de projecto;
os alunos discutem, temas diversos, em regime
de assembleia, e vão registando, em tempo real,
as suas impressões no seu blogue individual;
ah, claro, a escola é portuguesa, pública
e já esteve classificada,
algures no século passado, como
"território de intervenção prioritário")


Tem quase quarenta anos, é mil vezes repetida, mas raramente encontra verdadeiro eco em quem tem a responsabilidade de decidir no domínio da administração e gestão das escolas.

L. Lefèvre, professor de pedagogia na sorbone em 1972, no seu livro "O professor observador e actor", edição da Livraria Almedina, tem na página 51, uma frase marcante: "tudo deve partir da sala de aula para aí voltar".

É, também, esta simples e lúcida asserção, a causadora do vórtice de descontentamentos a que assistimos em Portugal. Os professores leccionam centenas de aulas em cada ano lectivo e milhares durante uma carreira. Nuns dias, as aulas decorem melhor do que noutros. A exigente avaliação do seu desempenho é diária e aula a aula.

Mais do que distinguir ou punir, o que esperam é um exercício conhecedor de observação de aulas, assente em premissas cooperativas e bem fundamentadas, que os auxilie a melhorar o seu desempenho profissional. E isso deve fazer-se no domínio científico dos seus conhecimentos, através da acção em rede dos departamentos curriculares da sua área científica, dos centros de formação de professores, das universidades e do conselho de formação científica (E esperam conhecer, antecipadamente, como é moderno e razoável, as vagas e as cotas estipuladas para o patamar seguinte da sua carreira).

Esperam assim que "tudo deve partir da sala de aula para aí voltar".

E o que é que está a acontecer em Portugal?

Nada disto.

Deixa-se à administração e gestão escolar, central e local, uma grande parte do controle do desempenho dos professores. Numa lógica centralizada, a cúpula tudo quer determinar: emana documentos normalizados para o registo detalhado de todas as informações; por absurdo (e aqui o absurdo é bem pesado, uma vez que, como se sabe e já se viu em tempo bem recente, o eduquês que contamina o poder central alastra-se a uma velocidade tal que ultrapassa o próprio progenitor), os docentes teriam de registar, hora a hora, minuto a minuto, todas as suas decisões do domínio científico e didáctico, para além de uma parafernália de outros parâmetros de avaliação que quase nada têm a ver com o bom desenvolvimento de cada um das suas aulas. Isto não acontece em nenhuma outra actividade profissional. Não há quem tenha de certificar os seus passos profissionais numa lógica tão diabólica como esta.

E acrescento dois pormenores fundamentais: tudo o que nesse domínio tem sido feito em Portugal, recorre a procedimentos anteriores à sociedade da informação e do conhecimento; toda a papelada exige, em norma, reuniões e mais reuniões onde as agendas se repetem e cujo conteúdo não tem qualquer significado. É explosivo: desgasta e satura.

Resultado:

A administração não faz o que deve e quer fazer o que não deve: e o mais espantoso, é que temos um grupo de pessoas a governar o ministério da educação que acredita em todo este atávico conjunto de procedimentos; e ainda mais espantoso, é verificar que recebem o apoio de quem se afirma moderno, determinado e simplificador.






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