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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

a indignação dos professores - o grito

02.03.08

 



(o grito de munch , quadro - alvo de desmedidas cobiças -
que, e ao que julgo saber, continua desaparecido)




Decorria o dia 29 de Maio de 2007 e decidi aderir à greve de professores do dia seguinte. Constatava, na altura, um legítimo mal-estar entre os meus colegas e percebia sinais evidentes de saturação. Detectava, no Ministério da Educação, duas características que explicam o estado de crise a que se chegou: catadupa de medidas baseadas no "eduquês" e ausência de procedimentos integrados no espírito "simplex".

Escrevi, nesse dia, o seguinte texto:


"Estou a fazer greve. É um dia de greve em Portugal.

E grito porquê? Inspirei-me numa entrevista que a "RTP 2" fez a Fernando Nobre da "AMI". Realmente, como bem diz este médico sem fronteiras, as desigualdades entre os humanos acentuam-se de modo vertiginoso: aquilo que sabemos e vemos ou choca ou não choca. E Fernando Nobre sabe bem do que fala: e escreve-o.

Por outro lado, há estudos que indicam uma verdadeira eficácia na arma das greves.

Sabemos do desequilíbrio orçamental do nosso país, sabemos dos novos desafios de competitividade que a globalização encerra, sabemos tudo isso. Mas também sabemos, vemos e lemos, muito mais: péssimos exemplos dos que governam e promiscuidades intoleráveis com o despautério de quem ambiciona lucros em escala vertiginosa; sabemos que a precariedade na contratualização laboral dos nossos jovens, e de muitos menos jovens, alastra-se.
Para benefício de quem? Queda sem fim? Niilismo gerador de desigualdades intermináveis?

Os professores portugueses assistem a um processo de candidatura aos escalões mais elevados da sua carreira assente em brutais (sim, brutais, o adjectivo foi bem pesado) injustiças:
critérios que descriminam, sem qualquer sentido pedagógico e de mérito, docentes que, em final de carreira, deram o seu melhor imbuídos de um discreto, à luz de uma democracia demasiado mediatizada, mas verdadeiro espírito de serviço público - porque generoso e desinteressado -;
olham para os seus colegas posicionados a meio da carreira e vêem o fechamento definitivo das suas legítmas progressões salarias e de estatuto;
vêem, com a indignação espelhada no rosto, jovens professores a leccionarem por cerca de quatro euros a hora e a recibo verde - estas situações verificam-se com a anuência dos responsáveis autárquicos e escolares -;
e vêem o processo para a contratação de jovens candidatos a docentes para substituições temporárias, ser objecto de um sistema igual ao que acontecia há trinta anos;
deve referir-se que, e na maioria das situações referidas, o que está subjacente, mais do que as questões orçamentais graves, é a falta de verdadeira convicção nos méritos democráticos do serviço público.

Choca. Choca muito.

E também choca a tolice graúda que preside ao modo como as escolas públicas vão sendo agrupadas: sem qualquer respeito pela sua autonomia e com uma total ignorância sobre a riqueza e a história do seus projectos educativas. Choca a tábua rasa que é exercida sobre os méritos e os deméritos das escolas públicas portuguesas e sobre os seus actores.

E tudo isto em nome de quê?

Gritemos, pois, na esperança que nos ouçam".



(reedição. Quer ler o que já escrevi sobre educação?
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