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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

este país não é para velhos

23.03.08


Saímos de casa às 17h30 e chegámos ao cinema Londres por volta das 18h45. Não foi fácil estacionar o automóvel. Tivemos direito a uma molha razoável na breve corrida até às salas do antigo cinema da Avenida de Roma. Reparei na acolhedora renovação do espaço. As cadeiras do cinemas já não são as excelentes poltronas de outrora: deram lugar a assentos de "design" moderno e mantêm o conforto. Éramos umas oito pessoas na sala 1, pareceu-me.

Vamos a isso: "Este país não é para velhos" vai começar.

Bem, que filme, meu deus!
Fiquei completamente incomodado e com dificuldade em descrever aquilo que vi. Não parei de interrogar-me: como é que um tema tão brutal e desconcertante pode resultar numa obra cinematográfica tão bela?

Desde logo, porque assenta numa técnica de realização irrepreensível, num argumento cheio de metáforas que nos rasgam até ao osso e num elenco de actores com um desempenho ao nível do melhor que pode ver-se.

Tem um início que comprometeu-me definitivamente - o que é que vai sair daqui? -: paisagens agrestes mas belíssimas, fortes rajadas de vento, um caçador e o miserável rescaldo de uma combate feroz entre traficantes de droga: agonia e morte. Duro, muito duro.

Seguem-se cenas onde alternam, de modo sabedor, os momentos de violência extrema com a suave narrativa das grandes obras. É um filme de combates, uns mais metafóricos, a maioria, outros mais explícitos. Sofremos todos: os espectadores, em primeiro lugar, mas também as personagens. Confesso: detesto cenas violentas: dou saltos na cadeira, remexo-me e desvio o olhar. Mas a minha confiança nos irmãos Cohen, levou a que não me perturbasse por aí além: mantive-me atento ao essencial. E nunca me arrependi.

Ser velho, perder a energia, e com isso não conseguir sobreviver numa sociedade desumana e destinada aos fortes: dinheiro, dinheiro, dinheiro; armas, armas, armas; traumas da guerra, traumas da guerra, traumas da guerra.

Alucinante e com detalhes difíceis de igualar.

O único que parecia capaz de pôr fim ao descalabro, manifesta o seu cansaço: desiste, reformando-se. Porquê? Só vendo.

A não perder.



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sua excelência, o hermeneuta (3)

17.03.08



Vou abrir uma excepção. Já vai perceber, meu caro leitor.

É que um dos adjuntos de Sua Excelência telefonou-me por causa do “post” “Sua Excelência, o hermeneuta (2)”.

Argumentou, com toda a delicadeza, diga-se, que eu não tinha percebido bem a questão: Sua Excelência estava envolvido num sistema demasiado competitivo e a decisão que tomou tinha uma justificação que favorecia a sua instituição. Um equívoco daqueles era injusto, uma vez que beliscava a extrema devoção de Sua Excelência. Agradeciam que eu publicasse uma rectificação. Lá lhe disse que isto era um blog, mas que ia ter em consideração a delicadeza com que resolveram tratar da questão.

Então, passo a esclarecer o “Sua Excelência, o hermeneuta (2)”: A douta decisão de Sua Excelência tinha uma explicação. A estrutura interna complexa - vulgo, máquina administrativa - da instituição que Sua Excelência encaminhava, tinha, como principal função, certificar indivíduos e expedir declarações.

Por dever de ofício, Sua Excelência vivia num sistema obcecado com a concorrência, numa época em que a virtude das instituições era normalizada a retalho. Havia um indicador que encimava os mais variados estudos: o número de vezes que os familiares dos utentes - os clientes - visitavam a instituição para fins administrativos ou outros.

Contudo, nenhum estudo dava importância à distinção entre administrativos e outros. A instituição de Sua Excelência liderava essa norma.





PS: este post é uma reedição: os números 2 e 1
serão publicados amanhã e depois de amanhã,
respectivamente.



(Reedição. 1ª edição em 7 de Setembro de 2006.
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no vale de elah

11.03.08





A sala dois do cinema Delta, nas Caldas da Rainha, tinha dois espectadores: sentei-me a meio da sala, acomodei a atenção e parti para mais uma emocionante viagem transportado por Paul Haggis: o realizador do premiado "Crash" - e o argumentista de "Million Dollar Baby", "As Bandeiras dos Nossos Pais" e "Cartas de Iwo Jima" -, assina uma obra cinematográfica que comoveu-me.

No "Vale de Elah" é mais um filme sobre as consequências da guerra. As guerras, do Iraque e do Afeganistão, continuam a dilacerar os Estados Unidos da América. Serão incontáveis as vítimas deste morticínio, cujas repercussões deverão ocupar as próximas gerações. Neste caso, o retrato de Paul Haggis, abrange o sofrimentos dos jovens militares e dos seus familiares e amigos mais chegados. E já se sabe: tornar-se-á numa psicose colectiva que rasgará em pedaços e com violência a sociedade americana.


Mike Deerfield (Jonathan Tucker), filho de Hank (Tommy Lee Jones), um veterano da guerra, e de Joan (Susan Sarandon), regressa do Iraque. Fica incontactável e recebe o estatuto de desertor. Quando os pais recebem o telefonema com a notícia - ainda não tinham visto o filho - Hank decide iniciar uma busca. Emily Sanders (Charlize Theron), uma detective, ajuda-o na investigação. Com o decurso da minuciosa indagação, Hank contacta com os horríveis detalhes da missão do filho no Iraque. O ambiente do filme é muito silencioso mas suficientemente ensurdecedor: por vezes, numa rádio ou numa televisão, percebe-se que passa mais um discurso do trágico George W. Bush.
Num argumento construído para um final arrepiante e surpreendente, destaquei a derrota das crenças do veterano da guerra, num excelente desempenho de Tommy Lee Jones.

Deixei-me ficar um bom bocado na sala, recompus-me, e saí.

Valeu.


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professores a caminho - caldas da rainha, seis de março de 2008

07.03.08



 

(no percurso, a "rua das montras" tinha este aspecto:
uma metade da rua, na direcção contrária à praça da fruta,
estava cheia; a outra metade, apresentava-se como certifica
a outra fotografia que inseri neste post;
foto tirada em seis de março de 2008)

 

Saímos de casa por volta das vinte e quarenta e cinco. Estava uma noite de céu limpo, mas fria. A manifestação estava marcada para as vinte e uma horas, na Praça da República (a famosa, mas muito desleixada, Praça da Fruta). Moramos perto e fomos a pé. Íamos expectantes com o que ia acontecer ao nível da adesão dos professores. Durante a pequena caminhada, tentámos captar os sinais: as ruas da cidade esvaziavam-se.

Ao entrarmos na praça, faltavam uns cinco minutos para as vinte e uma, ficámos estarrecidos: duas pessoas lá no meio, cafés fechados e um movimento residual. Não as conhecíamos, mas na aproximação a interrogação foi recíproca: "são professores?". O que é que se passa? Estaremos enganados? O que fazer? Que raio de coisa esta".

Toca a telefonar ao generoso organizador, o António Ferreira, para tentar desfazer equívocos: "não, é mesmo aí. Os colegas devem estar a chegar".

E assim foi. Foram chegando professores das mais variadas escolas das Caldas da Rainha e dos concelhos vizinhos, até se atingir um número entre as quinhentos e as seiscentos. Impressionante. Reencontros, gestos fraternos e solidários, desabafos e mais desabafos e a alegria de estarmos juntos. Cansados mas cheios de força interior. Sensibilizou-me o olhar profundo de grandes profissionais em fim de carreira, que foram excluídos no acesso a professor titular.

Mas era do diabólico processo de avaliação do desempenho de professores que mais ouvi falar. Dizia-me alguém, que chegou atrasado em consequência de mais uma reunião: "parece incrível. Há escolas na região que se esforçam por aplicar este modelo de avaliação: são aquelas onde nunca se reconheceu qualquer exercício de referência no seu modelo organizativo, bem pelo contrário. Será nestes exemplos que a senhora ministra sustenta a ideia de dispensar os razoáveis e seculares processos de - este processo de avaliação do desempenho, no mínimo, não tem nem pés nem cabeça - experimentar um modelo antes de o aplicar a milhares de pessoas?".

 

Tirei várias fotografias. Tenho pena de não ter em boas condições as imagens do único cartaz. A manifestação, silenciosa e tranquila, seguiu um pequeno percurso para voltar ao lugar inicial. Registei um momento sonoro: uma valente salva de palmas

As ruas da cidade voltariam a ficar despovoadas e poucos deram pela nossa presença: não estranhámos. O processo segue o seu imparável percurso e fizemos uma boa preparação para a ida a Lisboa no dia 8 de Março de 2008.





(no percurso, a "rua das montras" tinha este aspecto:
uma metade da rua, na direcção à praça da fruta,
estava cheia; a outra metade, apresentava-se como certifica

a outra fotografia que inseri neste post;
foto tirada em seis de março de 2008)









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no country for old men

06.03.08


Estamos numa altura em que há muito e bom cinema para ver. Desejo  ir ao encontro do filme que mais óscares obteve na edição de 2008. Para isso, teremos de deslocar-nos a Lisboa, uma vez que "Este País Não é Para Velhos" ainda não corre nas salas de cinema da cidade onde vivo nem nas salas das cidades mais próximas: Leiria, Torres Vedras e Santarém.

Esperamos estar na capital a 8 de Março, para participarmos numa manifestação de professores, e, quem sabe, aproveitar o resto do tempo com uma ida a uma sala de cinema.

Já dei nota das minhas preferências cinematográficas. Tenho um grande respeito pela produção independente, onde se insere o cinema dos irmãos Coen. Nem sei se a aventura de não depender das multinacionais é um exercício muito difícil nos Estados Unidos da América: estou, até, convencido do contrário.

"Fargo" é um filme dos famosos irmãos e uma obra-prima: um clássico.

Regressam à ribalta e de que maneira. Premiados pela mais conhecida academia de cinema e com um argumento baseado num romance de Cormac McCarthy. Tenho lido tudo o que me aparece, com destaque para as páginas do suplemento do jornal público. Promete e voltarei ai assunto.

No público, pode ler-se:

""Este País Não é Para Velhos" é um hipnótico "thriller". Nos dias de hoje, os ladrões de gado deram lugar a traficantes de droga e as cidades pequenas tornaram-se campos de batalha. Llewelyn Moss (Josh Brolin) descobre uma carrinha, rodeada por cadáveres, com um carregamento de heroína e dois milhões de dólares em dinheiro. Moss resolve ficar com o dinheiro e o seu acto desencadeia uma série de acontecimentos extremamente violentos, que nem mesmo a lei, na figura do velho e desiludido Xerife Bell (Tommy Lee Jones), consegue travar. À medida que Moss procura fugir aos seus perseguidores, sobretudo a um misterioso homem (Javier Bardem) que atira uma moeda ao ar para decidir se poupa ou não a vida aos seus inimigos, o filme retrata de forma dramática temas tão antigos como a Bíblia e as manchetes sanguinárias dos jornais. "Este País Não é Para Velhos" foi nomeado para oito Óscares, vencendo quatro: melhor filme, melhor realizador, melhor actor secundário e melhor argumento adaptado".







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sua excelência (3)

05.03.08
duascabecas.jpg

Sua Excelência tinha um escrupuloso respeito pelas hierarquias: era déspota para os que lhe estavam abaixo e servil e excessivamente delicado para os que lhe estavam acima; ficava sempre temeroso quando se dirigia a reuniões externas: movimentava-se com a determinação mental de pôr em prática a doutrina que lhe ordenassem.

Certa vez, deu-se a uma conferência com um orador muito acima da sua escala. A divisa estava estampada à entrada: duas cabeças fazem - fazem em letra “bold” - muito melhor de que uma e por aí adiante.

Fixou-se mais nas duas cabeças, apenas; desconhecia o conceito de adiante.

Sua Excelência, não regressou sem antes passar por uma loja de espelhos: colocou um à frente e outro atrás, no lugar onde sempre se via ao acordar. Passadas semanas, elevou - para o espanto geral - a um posto superior, o funcionário que considerava como o mais inábil.

- Só se foi, porque, na semana passada, e quando Sua Excelência acabou de atender dois telefones em simultâneo, disse-lhe: Sua Excelência é tão competente que parece que tem duas cabeças - relatou, ainda incrédulo, o promovido.




(Reedição. 1ª edição em 11 de Setembro de 2006.
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sua excelência (4)

04.03.08
circulo.jpg




Sua Excelência adoptava o padrão da complexidade.

Era como se lhe tivessem explicado o mito de Sísifo de pernas para o ar: a pedra redonda desce num infinito movimento uniformemente acelerado, e, nunca mais sobe.

- Como o universo é curvo, dizia, o círculo é a forma geométrica da excelência.

O lema de Sua Excelência deixava perplexos os geómetras da sua instituição. Considerava-se um caso exemplar de eficiência: mantinha todos ocupados o tempo todo e nunca admitia o fim de um procedimento.

Encontrava sempre pequenos pormenores a serem corrigidos: nem que fosse pela cor da tinta da caneta. Tinha o decreto respectivo na ponta da língua e emoldurado na parede, atrás da sua cadeira.

A instituição que Sua Excelência chefiava, movimentava-se aparentemente e obedecia ao princípio zero da reinvenção. O veredicto de Sua Excelência era aguardado no mais temeroso e pálido silêncio e nada circulava sem passar por Sua Excelência.

Sua Excelência confundia-se com o conceito de fim: tinham-lhe falado no fim da história. Isso intrigava-o e desesperava-o: qual seria o seu lugar? Passava horas a ler as crónicas de história contemporânea, no semanário regional editado na sua pequena cidade, à procura de luz. Nunca a encontraria, desconfiava ele ao adormecer.





(Reedição. 1ª edição em 11 de Setembro de 2006.)

tantas e tão poucas

04.03.08




"Tantas e tão poucas" é uma homenagem a Maria de Lurdes Pintassilgo. Lembro-me bem de a ter ouvido dizer: "o espírito do 25 de Abril está a fugir".

Cristã convicta, ao que julgo saber, e uma democrata de corpo inteiro. Conseguia associar duas características fundamentais: determinação nas suas acções e confiança e respeito pelos outros.

Foi a primeira mulher a desempenhar, por pouco tempo, é certo, as funções de primeira-ministra de Portugal. Candidatou-se à presidência da república no início da década de oitenta do século passado e foi derrotada: os eleitores escolheram Mário Soares.

A Fundação Cuidar o Futuro, dedica-se a isso mesmo: permitir que a sua obra, e o seu exemplo cívico e de participação, nos ajude a iluminar os conturbados tempos que se vivem e a encontrar caminhos de progresso e de equidade.



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tudo deve partir da sala de aula para aí voltar

03.03.08

(fotografia, de Xaneca, datada de fevereiro de 2008;
refere-se a uma aula de área de projecto;
os alunos discutem, temas diversos, em regime
de assembleia, e vão registando, em tempo real,
as suas impressões no seu blogue individual;
ah, claro, a escola é portuguesa, pública
e já esteve classificada,
algures no século passado, como
"território de intervenção prioritário")


Tem quase quarenta anos, é mil vezes repetida, mas raramente encontra verdadeiro eco em quem tem a responsabilidade de decidir no domínio da administração e gestão das escolas.

L. Lefèvre, professor de pedagogia na sorbone em 1972, no seu livro "O professor observador e actor", edição da Livraria Almedina, tem na página 51, uma frase marcante: "tudo deve partir da sala de aula para aí voltar".

É, também, esta simples e lúcida asserção, a causadora do vórtice de descontentamentos a que assistimos em Portugal. Os professores leccionam centenas de aulas em cada ano lectivo e milhares durante uma carreira. Nuns dias, as aulas decorem melhor do que noutros. A exigente avaliação do seu desempenho é diária e aula a aula.

Mais do que distinguir ou punir, o que esperam é um exercício conhecedor de observação de aulas, assente em premissas cooperativas e bem fundamentadas, que os auxilie a melhorar o seu desempenho profissional. E isso deve fazer-se no domínio científico dos seus conhecimentos, através da acção em rede dos departamentos curriculares da sua área científica, dos centros de formação de professores, das universidades e do conselho de formação científica (E esperam conhecer, antecipadamente, como é moderno e razoável, as vagas e as cotas estipuladas para o patamar seguinte da sua carreira).

Esperam assim que "tudo deve partir da sala de aula para aí voltar".

E o que é que está a acontecer em Portugal?

Nada disto.

Deixa-se à administração e gestão escolar, central e local, uma grande parte do controle do desempenho dos professores. Numa lógica centralizada, a cúpula tudo quer determinar: emana documentos normalizados para o registo detalhado de todas as informações; por absurdo (e aqui o absurdo é bem pesado, uma vez que, como se sabe e já se viu em tempo bem recente, o eduquês que contamina o poder central alastra-se a uma velocidade tal que ultrapassa o próprio progenitor), os docentes teriam de registar, hora a hora, minuto a minuto, todas as suas decisões do domínio científico e didáctico, para além de uma parafernália de outros parâmetros de avaliação que quase nada têm a ver com o bom desenvolvimento de cada um das suas aulas. Isto não acontece em nenhuma outra actividade profissional. Não há quem tenha de certificar os seus passos profissionais numa lógica tão diabólica como esta.

E acrescento dois pormenores fundamentais: tudo o que nesse domínio tem sido feito em Portugal, recorre a procedimentos anteriores à sociedade da informação e do conhecimento; toda a papelada exige, em norma, reuniões e mais reuniões onde as agendas se repetem e cujo conteúdo não tem qualquer significado. É explosivo: desgasta e satura.

Resultado:

A administração não faz o que deve e quer fazer o que não deve: e o mais espantoso, é que temos um grupo de pessoas a governar o ministério da educação que acredita em todo este atávico conjunto de procedimentos; e ainda mais espantoso, é verificar que recebem o apoio de quem se afirma moderno, determinado e simplificador.






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a indignação dos professores - o grito

02.03.08

 



(o grito de munch , quadro - alvo de desmedidas cobiças -
que, e ao que julgo saber, continua desaparecido)




Decorria o dia 29 de Maio de 2007 e decidi aderir à greve de professores do dia seguinte. Constatava, na altura, um legítimo mal-estar entre os meus colegas e percebia sinais evidentes de saturação. Detectava, no Ministério da Educação, duas características que explicam o estado de crise a que se chegou: catadupa de medidas baseadas no "eduquês" e ausência de procedimentos integrados no espírito "simplex".

Escrevi, nesse dia, o seguinte texto:


"Estou a fazer greve. É um dia de greve em Portugal.

E grito porquê? Inspirei-me numa entrevista que a "RTP 2" fez a Fernando Nobre da "AMI". Realmente, como bem diz este médico sem fronteiras, as desigualdades entre os humanos acentuam-se de modo vertiginoso: aquilo que sabemos e vemos ou choca ou não choca. E Fernando Nobre sabe bem do que fala: e escreve-o.

Por outro lado, há estudos que indicam uma verdadeira eficácia na arma das greves.

Sabemos do desequilíbrio orçamental do nosso país, sabemos dos novos desafios de competitividade que a globalização encerra, sabemos tudo isso. Mas também sabemos, vemos e lemos, muito mais: péssimos exemplos dos que governam e promiscuidades intoleráveis com o despautério de quem ambiciona lucros em escala vertiginosa; sabemos que a precariedade na contratualização laboral dos nossos jovens, e de muitos menos jovens, alastra-se.
Para benefício de quem? Queda sem fim? Niilismo gerador de desigualdades intermináveis?

Os professores portugueses assistem a um processo de candidatura aos escalões mais elevados da sua carreira assente em brutais (sim, brutais, o adjectivo foi bem pesado) injustiças:
critérios que descriminam, sem qualquer sentido pedagógico e de mérito, docentes que, em final de carreira, deram o seu melhor imbuídos de um discreto, à luz de uma democracia demasiado mediatizada, mas verdadeiro espírito de serviço público - porque generoso e desinteressado -;
olham para os seus colegas posicionados a meio da carreira e vêem o fechamento definitivo das suas legítmas progressões salarias e de estatuto;
vêem, com a indignação espelhada no rosto, jovens professores a leccionarem por cerca de quatro euros a hora e a recibo verde - estas situações verificam-se com a anuência dos responsáveis autárquicos e escolares -;
e vêem o processo para a contratação de jovens candidatos a docentes para substituições temporárias, ser objecto de um sistema igual ao que acontecia há trinta anos;
deve referir-se que, e na maioria das situações referidas, o que está subjacente, mais do que as questões orçamentais graves, é a falta de verdadeira convicção nos méritos democráticos do serviço público.

Choca. Choca muito.

E também choca a tolice graúda que preside ao modo como as escolas públicas vão sendo agrupadas: sem qualquer respeito pela sua autonomia e com uma total ignorância sobre a riqueza e a história do seus projectos educativas. Choca a tábua rasa que é exercida sobre os méritos e os deméritos das escolas públicas portuguesas e sobre os seus actores.

E tudo isto em nome de quê?

Gritemos, pois, na esperança que nos ouçam".



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