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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

jogos de poder

18.01.08



Viver numa cidade como Caldas da Rainha tem algumas vantagens: permite-nos, por exemplo, um exercício diário tranquilo e sem grandes problemas de mobilidade. Mas tem também desvantagens, nomeadamente na fruição de momentos de cultura no âmbito dos mais variados espectáculos - abri de novo este post, para escrever o seguinte: estou a ver o debate televisivo, no programa "prós e contras" da RTP1, sobre o novo aeroporto e dou com uma intervenção de um autarca das Caldas da Rainha: alguém lembrou-me Miguel Torga: "quem é sujo, suja o que diz" -.

Gosto muito de cinema. Consciente da absoluta dificuldade em assistir, fora de Lisboa, a filmes do denominado cinema alternativo, procuro, nos novos espaços comerciais que nascem nas cidades da província, a oportunidade de ver fitas cinematográficas de "bilheteira" que, de qualquer modo, disse bem, se adequem aos meus gostos. Não é fácil. Por vezes apanho umas valentes secas: riscos assumidos. Parto sempre sem preconceitos e à procura de ser surpreendido.

Desta vez fomos às novas e boas salas de Torres Vedras que, e em relação às de Santarém, têm relevantes vantagens: são mais perto, as portagens da autoestrada têm um custo inferior para o utilizador e a localização não exige a entrada na cidade.

"Jogos de poder" foi o escolhido. Não é grande coisa, mas também não é um daqueles filmes que classificaria como a "não ver". É um filme que fica no limiar e donde retirei uma conclusão paradoxal: poderia ter sido uma boa obra cinematográfica mas não deixa de o ser. Foi assim que fiquei. É inspirado numa história verídica - o que, como se sabe, pode dar "pano para mangas" -.

Actores que já tiveram bons desempenhos, Tom Hanks, Philip Seymour Hoffman e Julia Roberts, e um realizador com créditos, Mike Nichols, são os nomes mais conhecidos da ficha técnica.

"Durante a Guerra Fria, uma milionária americana decide expulsar o exército russo do Afeganistão e consegue-o graças aos "Jogos de Poder" e à diplomacia de um congressista democrata."

Enfim. Talvez, um dia, os afegãos que sobrevivam à desgraçada miséria se espantem com um filme destes.

dúvida

18.01.08




Foi o último espectáculo que vimos no ano de 2007: deslumbrante.

Aquele quarteirão da cidade de Lisboa, onde se situa o conjunto de salas do cinema King - debaixo da eterna ameaça de demolição - e a respectiva livraria - em tempos ocupada, quase na totalidade, pelas edições da Assírio e Alvim, hoje em extinção, parece-me - tem sido responsável por inesquecíveis momentos das belas artes de representar. O Teatro Municipal Maria Matos, situado em paredes meias com os citados espaços, levou à cena a "Dúvida", do americano John Patrick Shanley, prémio "Pulitzer Award 2005", com encenação de Ana Luísa Guimarães. A ficha técnica tinha um dos percussionistas que mais admiro: José Salgueiro. Fiquei atento. No fim, confesso, reparei que nunca mais me lembrei de estar atento às suas batidas.

A extraordinária Eunice Muñoz - uma diva -, o excelente Diogo Infante e as desconhecidas, para mim claro, Isabel Abreu e Lucília Raimundo, compunham um elenco que se certificou ser de primeiríssimo plano. Regressámos a casa preenchidos e sem dúvidas: tínhamos assistido a um dos mais belos espectáculos do ano.

"1964. Uma igreja e escola católicas. Bronx. Nova York. Um Padre é suspeito de assediar sexualmente uma criança de 12 anos. A Madre Superior acusa-o. O Padre reclama a sua inocência. Será ele culpado ou inocente? O que fazer quando não temos a certeza?"

Foi só começar.

Apenas mais uma coisa a que sou particularmente sensível, e que, invariavelmente me distrai do texto: a cenografia. João Mendes Ribeiro realiza um trabalho que acompanha a excelência de toda a produção.