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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

cimeiras

30.01.08






Reparei na indignação de um dos participantes no programa televisivo "quadratura do círculo": "a cimeira Europa-África foi importante para as lojas mais caras da capital; as comitivas que acompanhavam os políticos dos mais diversos países, gastaram fortunas na aquisição dos produtos mais luxuosos" (a ideia foi esta, as palavras exactas não as retive).

É realmente espantoso este "efeito cimeira". Há pessoas, neste mundo e não noutro, meu caro leitor, que adquirem produtos a preços exorbitantes e que pagam com cartão de crédito; e depois? e depois, meu caro leitor, é que o fazem como quem compra uma meia-dúzia de artigos de primeira necessidade numa qualquer loja de conveniência.

Faz pouco tempo que "embati" nesse "efeito cimeira".

Partimos com destino a Paris e depois logo se veria: é assim que apreciamos mais a ideia de viajar; gostamos das cidades e de caminhar. Ficámos os dias todos na capital francesa. Há muito que percebemos que viajar a correr, sempre a correr, passando por aeroportos e grandes centros de comércio globalizados, registando em imagens digitais os olhares fugazes sobre o mimetismo dos lugares, não faz, definitivamente, o nosso género.

Passar um bom tempo em frente ao auto-retrato de Van Gogh é uma possibilidade. Passear, parar numa esplanada e olhar quem passa, cumprimentar pessoas que a repetição simplifica a recíproca interrogação, ler os jornais locais e tentar captar a racionalidade da agenda, são essências que não têm hora marcada. Entrar na atmosfera do lugar que se visita é um desafio que me recomendo. E mais do que isso: não ter plano e ficar aberto ao improviso. Tem riscos, é certo, mas Paris, embora já não sendo a capital de vanguarda do mundo conhecido, continua a lançar insistentes provocações: aventura sem fim.

E Paris não escapa ao "efeito cimeira": parece-me até que o vive em permanência; basta passar pelos grandes armazéns e estar atento ao ambiente das lojas mais caras: um frenesim sem fim: pessoas de cesto pendurado no braço e armando-se de produtos, e mais produtos, com preços que ultrapassam várias centenas de euros. Mulheres de burca acompanhadas por homens anafados e altivos, no olhar e na expressão, mulheres "africanas" ou "orientais", enfim, pessoas que nos habituámos a considerar do terceiro mundo ou das economias emergentes, endinheiradas e fazendo uso da sua rica e exclusiva condição.

E não nos deveríamos espantar? E se fossem pessoas "ocidentais"? Se as lojas existem é porque têm clientes, os de dentro e os de fora. Qualquer que seja a opinião ou o preconceito, de uma coisa devemos estar seguros: o planeta está doente, e o nosso conhecido e abundante mundo não foge a isso.

manutenção do blogue

26.01.08


Quase quatro anos depois do nascimento deste blogue, devo confessar que nem sempre tem sido fácil realizar a sua manutenção. Houve fases em que quando escrevia um post ele era de imediato publicado. Havia dias com publicações de vários post, o que me deixava de mãos a abanar para os dias seguintes, nomeadamente se a falta de vontade aparecia e instalava-se - deve considerar-se, que nos dois primeiros anos deste espaço, passava, por obrigações profissionais, horas e mais horas a operar em computadores -.

Esta ideia de escrever acompanha-me desde o final da adolescência: várias vezes, durante cada um dos dias, são diversos os motivos que me levam a pensar: tenho de escrever sobre isto. É quase imediato e até gostava de perceber o motivo: vaidade? vontade de comunicar? gostar de escrever? arrumar ideias? consolidar o pensamento e o discurso? estado de alma? Se calhar, uma mistura de tudo isto.

Por vezes, converso com os que me dizem que passam por aqui. Alguns redigem comentários, mas a grande maioria prefere escrever-me um mail com as suas opiniões ou falar comigo e transmitir as suas ideias. Gosto desse tipo de conversas: motivam-me e aumentam a minha responsabilidade (e a propósito, devo fazer outra confissão: sou muito dado a compromissos: poucos mas firmes). Nada de novo, uma vez que quem escreve e publica espera sempre que alguém o leia. Julgo estar dentro da razão.

Estou numa boa fase. Tenho posts escritos até ao mês de Março. Claro que questiono-me da validade deste meu exercício - e do tempo que me exige - que, entre os aspectos que já referi, garante-me a liberdade de publicação, sem estar sujeito aos condicionalismos de edição que tantos referem, mas que, francamente, desconheço em absoluto. E aqui entro num domínio que tem sido objecto de algumas conversas: o da publicação em livro de alguns dos escritos. Algumas pessoas falam-me nisso, talvez, e apenas, por cortesia ou simpatia. Não sei. Não as levo muito a sério, e não estou a armar ao imodesto, e sou sincero: tenho a ideia que não trazia para casa um livro com escritos do género dos meus. Sei que se escreve e publica como nunca, mas não me reconheço com condições para isso. Já nem me socorro das insondáveis questões do talento: refiro, apenas, a necessidade de dedicar muitas horas mais ao exigente exercício de escrever: e, principalmente, ao de ler.

tempos que são de guerra

24.01.08
guerrafria.jpg



Estávamos em plena guerra fria - nunca percebi o nome de fria, a não ser que tenha sido pela incapacidade de aquecer o coração dos beligerantes do "topo" -. As grandes potências usavam, até à exaustão, as suas armas de propaganda: e nada melhor que a arte para iluminar as vontades indecisas.

O corpo, com as suas múltiplas acções e representações, foi elevado muito para além dos limites conhecidos. Aguardavam-se os momentos da realização dos Jogos Olímpicos, como se de uma feira de material bélico se tratasse.

Contavam-se as medalhas ganhas como quem confere as mais polidas e ofuscantes das cruzes de guerra. Eram necessários anos a fio para que os resultados atingissem os incrédulos e alimentassem os crédulos; e não havia tempo a perder. Duas décadas, no mínimo, para que cada "Fábrica do Corpo Humano" desempenhasse o seu papel estratégico.

Encontrou-se, como não podia deixar de ser, uma táctica de efeito cirúrgico: adiantou-se o tempo. Aparecerem génios, ainda quase de fraldas e com o peluche em vez da bandeira, a fazerem o serviço patriótico. Foi uma louca corrida ao ouro. Os garimpeiros de então, muniram-se dos mais sofisticados avanços científicos e tecnológicos.

Conheço a história de duas pessoas produzidas nessa maquinaria infernal. Uma ginasta dourada e um xadrezista consagrado e totalmente especializado. Ambos ensinam, na data em que esta questão se torna pública, no mesmo país, que não é o de origem de nenhum dos dois. Percebe-se. As "altas esferas" desuniram-se. Gostam muito pouco de falar do passado. Menos ainda do caminho tortuoso que os lançou para a celebridade efémera. Sabe-se que a ginasta, aos 24 anos, colecciona hérnias e problemas nos tecidos que ligam as diversas partes do corpo. O xadrezista só não tem tendinites crónicas no dedo mindinho da mão esquerda, porque, segundo consta, o seu mestre tinha-o perdido numa acidente doméstico: "Um génio à minha imagem e semelhança".

Nadia Zedong, a ginasta, nasceu de um cruzamento manipulado pelo conhecimento genético de então. Filha de um romeno, exímio na arte circense, e de uma chinesa contursionista, raptada numa digressão dos famosos circos chineses.

Anatoly Fisher Brahms, o xadrezista, foi produzido num processo mais erudito mas semelhante, em tudo, ao de Nadia. Filho do mais persistente dos xadrezistas russos e de uma alemã, bisneta do conhecido compositor Joannes Brahms. E o Fisher? Bem, necessidades da contra-informação. Era preciso seduzir vários públicos, e Fisher era uma garantia de não alinhamento.

Nadia e Anatoly ensinam, no mundo livre, numa Escola Superior de Artes do Espectáculo.



(reedição em homenagem a Bobby Ficher - reescrito)

bobby fisher

22.01.08

Um grande apontamento na história do xadrez e uma pequena ajuda na compreensão do fenómeno da "guerra fria": a vida, e o jogo, de Bobby Ficher.

Ora clique. São só dois minutos e dezasseis segundos, meu caro leitor.




peões em jogo

20.01.08





Alguns anos depois, cerca de cinco, de umas escassas pessoas perderem a guerra e de milhões de outras (somadas os dum lado e os do outro) terem sofrido com as consequências do seu início, como sempre, aliás - neste caso, refiro-me à derrota de Portugal na guerra colonial -, dei-me com um dos primeiros dilemas do meu estado de adulto - é sempre assim, o estado de adulto começa sem aviso prévio e só anos depois é que damos conta que já lá estamos -: fazer o serviço militar com um recrutamento obrigatório no curso de oficiais dos "comandos" ou ser um dos primeiros objectores de consciência - na altura, ainda com estatuto muito precário -: depois de alguma reflexão e de muitas e interessantes discussões com o líder do movimento pela objecção de consciência - não me recordo do nome, mas lembro-me que era um docente, não padre, da disciplina de moral católica numa escola secundária da cidade do Porto - decide-me pelo engajamento na ideia de defesa da pátria.

Vem isto a propósito do filme que acabei de ver: "peões em jogo". As guerras do Afeganistão e do Iraque chegaram a Hollywood. Robert Redford pega num bom argumento e constrói um filme que se vê: não retirei nada de novo nem a fita acrescenta algo de importante ao que já se sabe: mas reforça a ideia de que, seis anos após o início deste trágico acontecimento histórico, o efeito Vietnam não serviu de lição: a obstinação pela guerra de alguns homens e o eterno sacrifício de jovens adultos, convencidos, em muitos dos casos, dos méritos dos seus propósitos, são os ingredientes que mais chocam. Até ao dia em que...

"O papel dos media, da política e da educação na América de hoje em análise num filme cujos protagonistas estão envolvidos de alguma forma no combate contra o terrorismo. Um senador (Tom Cruise) está prestes a dar a uma jornalista (Meryl Streep) uma notícia explosiva sobre estratégias de guerra. Porém, ela terá de decidir se segue a história ou se cede a tornar-se num instrumento de propaganda política. Numa universidade, um professor de Ciência Política, Stephen Malley (Robert Redford), confronta um estudante, que dado o seu desinteresse pode nunca atingir o seu potencial.
Do outro lado do planeta, nas montanhas do Afeganistão, dois antigos alunos do professor Malley, longe dos debates políticos e dos discursos dos seus mentores, lutam pela sobrevivência.". Pode ler-se no site do jornal público.

jogos de poder

18.01.08



Viver numa cidade como Caldas da Rainha tem algumas vantagens: permite-nos, por exemplo, um exercício diário tranquilo e sem grandes problemas de mobilidade. Mas tem também desvantagens, nomeadamente na fruição de momentos de cultura no âmbito dos mais variados espectáculos - abri de novo este post, para escrever o seguinte: estou a ver o debate televisivo, no programa "prós e contras" da RTP1, sobre o novo aeroporto e dou com uma intervenção de um autarca das Caldas da Rainha: alguém lembrou-me Miguel Torga: "quem é sujo, suja o que diz" -.

Gosto muito de cinema. Consciente da absoluta dificuldade em assistir, fora de Lisboa, a filmes do denominado cinema alternativo, procuro, nos novos espaços comerciais que nascem nas cidades da província, a oportunidade de ver fitas cinematográficas de "bilheteira" que, de qualquer modo, disse bem, se adequem aos meus gostos. Não é fácil. Por vezes apanho umas valentes secas: riscos assumidos. Parto sempre sem preconceitos e à procura de ser surpreendido.

Desta vez fomos às novas e boas salas de Torres Vedras que, e em relação às de Santarém, têm relevantes vantagens: são mais perto, as portagens da autoestrada têm um custo inferior para o utilizador e a localização não exige a entrada na cidade.

"Jogos de poder" foi o escolhido. Não é grande coisa, mas também não é um daqueles filmes que classificaria como a "não ver". É um filme que fica no limiar e donde retirei uma conclusão paradoxal: poderia ter sido uma boa obra cinematográfica mas não deixa de o ser. Foi assim que fiquei. É inspirado numa história verídica - o que, como se sabe, pode dar "pano para mangas" -.

Actores que já tiveram bons desempenhos, Tom Hanks, Philip Seymour Hoffman e Julia Roberts, e um realizador com créditos, Mike Nichols, são os nomes mais conhecidos da ficha técnica.

"Durante a Guerra Fria, uma milionária americana decide expulsar o exército russo do Afeganistão e consegue-o graças aos "Jogos de Poder" e à diplomacia de um congressista democrata."

Enfim. Talvez, um dia, os afegãos que sobrevivam à desgraçada miséria se espantem com um filme destes.

dúvida

18.01.08




Foi o último espectáculo que vimos no ano de 2007: deslumbrante.

Aquele quarteirão da cidade de Lisboa, onde se situa o conjunto de salas do cinema King - debaixo da eterna ameaça de demolição - e a respectiva livraria - em tempos ocupada, quase na totalidade, pelas edições da Assírio e Alvim, hoje em extinção, parece-me - tem sido responsável por inesquecíveis momentos das belas artes de representar. O Teatro Municipal Maria Matos, situado em paredes meias com os citados espaços, levou à cena a "Dúvida", do americano John Patrick Shanley, prémio "Pulitzer Award 2005", com encenação de Ana Luísa Guimarães. A ficha técnica tinha um dos percussionistas que mais admiro: José Salgueiro. Fiquei atento. No fim, confesso, reparei que nunca mais me lembrei de estar atento às suas batidas.

A extraordinária Eunice Muñoz - uma diva -, o excelente Diogo Infante e as desconhecidas, para mim claro, Isabel Abreu e Lucília Raimundo, compunham um elenco que se certificou ser de primeiríssimo plano. Regressámos a casa preenchidos e sem dúvidas: tínhamos assistido a um dos mais belos espectáculos do ano.

"1964. Uma igreja e escola católicas. Bronx. Nova York. Um Padre é suspeito de assediar sexualmente uma criança de 12 anos. A Madre Superior acusa-o. O Padre reclama a sua inocência. Será ele culpado ou inocente? O que fazer quando não temos a certeza?"

Foi só começar.

Apenas mais uma coisa a que sou particularmente sensível, e que, invariavelmente me distrai do texto: a cenografia. João Mendes Ribeiro realiza um trabalho que acompanha a excelência de toda a produção.

enjoo

14.01.08




Há sinais evidentes de um enjoo na utilização das chamadas "novas tecnologias da comunicação e informação". Treze anos após o uso generalizado da internet, e muito aquém dos evidentes progressos conseguidos na organização, obtenção e fornecimento da informação, a introdução de novas formas de comunicação, com particular saliência para as "redes sociais", começa a revelar uma natural saturação por parte dos utilizadores.

Era de prever.

injustiça e brutalidade

08.01.08
 

Ouvi um encenador e actor de teatro referir-se ao momento final como a "Grande Empresa da Morte". Foi a primeira vez que escutei tal expressão.

Lembro-me de ter pensado mais ou menos isto: a "Grande Empresa da Morte" é brutal, não olha a equidades nem a virtudes, apanha-nos sempre desprevenidos e actua quando menos se espera; tem uma tentacular máquina - de matérias, de sentimentos e de encenações - montada à sua volta; a "Grande Empresa da Morte" é implacável e invencível.

Dias depois recebo a trágica notícia: faleceu a minha querida amiga Maria da Purificação Nunes Santos Sebastião, uma pessoa muito superior.
Foi duro, muito duro. Passei por aqui e a única coisa que consegui teclar foi o título, brutalidade e injustiça, e um ponto final. Suspendi as publicações para os dias seguintes e partilhei com os familiares e amigos a mais profunda das dores.

A dor substituiu as palavras e restou-nos a lembrança de uma grande amizade significada em cada um dos dias.

Obrigado Purificação. Descansa em paz.