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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

do bairro I - senhor calvino

22.06.07
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"Em determinados dias, o seu cérebro emocionava-o o suficiente, e por isso podia evitar outras emoções circunstanciais. Pelo menos, aquelas eram controláveis. Lembrava-se bem, aliás, da infelicidade que acontecera a um seu amigo que, como tinha uma paralisia facial, estava sempre a rir, acontecesse o que acontecesse."


Gonçalo M. Tavares.




ideias sobre o sistema escolar

20.06.07



 

Li, noutro blogue, um texto interessante, da autoria de Luís Filipe Torgal, professor de História do 3.º ciclo do ensino básico, que é um ponto de partida para uma discussão importante. Não resisto a publicar uma parte:

 

"Acontece que não é admissível pensar o ensino fora do binómio Ciência/Pedagogia. Importa, pois, compreender que não há elixires pedagógicos que possam salvar um professor que não domine os conteúdos da disciplina que lecciona, assim como, num outro registo, não existem panaceias que possam iluminar um professor que prescinda de adequada formação humanística e cultural para dirigir uma escola. Por outras palavras, a leitura, a escrita, a investigação e a reflexão, a formação e a actualização científicas devem constituir para qualquer professor práticas contínuas, sem as quais ele arrisca tornar-se num mero animador social e numa espécie de vendedor de "banha de cobra", sempre pronto a oferecer aos seus incautos alunos, por detrás de uma redundante retórica balofa e de um exímio folclore "pedagógico", um saber sem base científica ou uma ciência obsoleta.

A escola massificada de hoje está, portanto, mais burocratizada, mais pragmática, mais folclórica, mais niilista, mais cínica e menos séria. Só as (virtuais) estatísticas do sucesso educativo interessam. E, em nome deste dogma intangível, este ME resolveu, de facto, abdicar da cultura científica e da educação cívica dos seus alunos e até dos seus professores."

 


narciso

15.06.07



Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho!


José Régio, Narciso

do bairro II - senhor brecht

09.06.07
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"Esse animal tinha a anatomia de um burro, na parte da frente, e a anatomia de um cavalo, na parte de trás. Como estavam convencidos de que as duas partes de trás (de cavalo) eram bem mais rápidas que as patas da frente (do burro), cada gémeo queria montar a parte de trás do animal, deixando a parte da frente para o irmão. Cada um deles estava convencido de que, em viagem, chegaria primeiro o que estivesse montado sobre as patas mais rápidas."


Gonçalo M. Tavares.



delírio

08.06.07






Procuro escrever, e pensar, sobre assuntos que me obriguem a raciocinar; por vezes, e como sou professor, não resisto à tentação de ancorar em temas relacionados com a minha actividade profissional; se não é docente, meu caro leitor, peço-lhe desde já as minhas desculpas.

Passei algum dos meus últimos tempos à volta da candidatura a professor titular. Por via disso, e por causa da ajuda que me foi solicitada na minha escola e também pelo apoio a alguns colegas que sentem um menor conforto no preenchimento de formulários electrónicos, acabel por ter de perscrutar o raciocínio de quem gerou e criterizou o tipo e as regras deste concurso.

Só consigo imaginar o delírio que tudo isto deve ter estabelecido: pensar e inventar as regras; discutir os critérios e estabelecê-los; seleccionar o modelo de concurso; estabelecer os formulários electrónicos; analisar e programar os sistemas de informação; enfim, é só dar asas à imaginação.

E digo delírio porquê?

Consultemos um dicionário: "delírio - desvio mórbido da razão contra o qual não valem a experiência nem a argumentação lógica e em virtude do qual o indivíduo se afasta cada vez mais da realidade".

Daqui uns tempos ficaremos a saber se valeu a pena tanta angústia, tanto trabalho burocrático, tanta mesquinhez, tanta zanga, tanta humilhação e tanta indisposição: e com tanto por fazer.

do bairro IV - senhor henri

05.06.07
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"... é verdade que se um homem misturar absinto com a realidade fica com a realidade melhor. ... mas também é certo que se um homem misturar absinto com a realidade fica com um absinto pior. ... muito cedo tomei as opções essenciais que há a tomar na vida - disse o senhor Henri. ... nunca misturei o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto."

Gonçalo M. Tavares.



do bairro V - senhor juarroz

03.06.07
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"O Senhor Juarroz por vezes punha uma venda nos olhos para não ser distraído pelas formas e cores das coisas. Quando as coisas além de existirem também faziam sons, o Senhor Juarroz, em apoio da venda, utilizava algodão nos ouvidos. Porém, certas coisas, devido aos seus aromas fortes, insistiam em infiltrar-se pelo nariz do senhor Juarroz, o que o levava, por vezes, a tapá-lo com uma mola."


Gonçalo M. Tavares.