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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

festas felizes e bom ano de 2007 - a eternidade das palavras.

23.12.06
eternidadepalavras.jpg

 

Minhas Caras e Meus Caros.

Decidi optar por esta via: quem sabe, se assim, e através dum blog, a mensagem não será lida por todos os seres que, um dia, habitaram este planeta?

 

Numa época de crise de identidades, tal é a voracidade das suas danças, desejava enviar-vos uma belíssima mensagem de boas festas. Pensei num postal electrónico, mas embirro com isso. Todos os que me enviaram coisas dessas podem continuar a fazê-lo, pois o embirrento sou eu.

Até nem desgosto de receber cumprimentos por essa via, quer dizer, quem sou eu para desgostar de uma coisa que é enviada com tanto carinho? Também tenho recebido muitos sms´s. Mas limito-me a responder. Faço ponto final nessa via.

Não estou lá muito inspirado. Se nunca receberam uma mensagem de boas festas tão longa e tão sensaborona a culpa também não é minha.

É que os Amigos são peças únicas da nossa engrenagem. O meu desejo é mostrar como estimo mesmo a vossa amizade. Pretendia ser substantivo, não queria um simples bom ano ou bom natal. Queria dizer algo que desse as mãos aos amigos de todo o mundo, sei lá, olhem: vou dar uma abraço aqui ao meu portátil e espero que vocês todos o sintam. Estão a sentir? Pois é, estas máquinas hão-de ser sempre assim.

E é assim. A Maria do Céu e a Filipa ajudam-me nesse abraço. E como não o posso fazer aos meus Amigos, faço-o muito a elas. Também com a vossa força. Olhem, divirtam-se um dia de cada vez.

Da Maria do Céu, da Filipa e do Paulo Prudêncio.

descobertas

06.12.06







Recebi um texto que diz mais ou menos isto, ora leia:

"Um estudo, anunciado em grandes parangonas, e realizado por sociólogos do ISCTE (instituição universitária a cujos quadros pertencem os últimos ministros da educação - e a actual -), efectuado em quatro (repito: quatro) escolas conclui uma coisa espantosa - certamente com o investimento de «sofisticadíssimas» técnicas de pesquisa -, inédita e que deixará toda a gente de boca aberta:

"os alunos de famílias com recursos económicos têm melhores desempenhos escolares do que os alunos de famílias carenciadas".

Nunca tínhamos pensado nisso! Muito obrigado, ó senhores doutores do ISCTE, por nos terem abertos os olhos para uma realidade que sempre nos passara despercebida"!


Mas que espantoso centro de investigação. Realmente.

mia couto

05.12.06



Estou sempre atento ao que se passa numa das minhas terras: Moçambique. Ora leia, meu caro leitor, este texto de Mia Couto sobre a sociedade desse belo país.

Receita para um "jet-set" nacional, Mia Couto

Já vimos que, em Moçambique, não é preciso ser rico. O essencial é parecer rico. Entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença entre um tropeço e uma trapaça.
No nosso caso, a aparência é que faz a essência. Daí que a empresa comece pela fachada, o empresário de sucesso comece pelo sucesso da sua viatura, a felicidade do casamento se faça pela dimensão da festa. A ocasião, diz-se, é que faz o negócio. E é aqui que entra o cenário dos ricos e candidatos a ricos: a encenação do nosso "jet-set".
O "jet-set" como todos sabem é algo que ninguém sabe o que é. Mas reúne a gente de luxo, a gente vazia que enche de vazio as colunas sociais. O jet-set moçambicano está ainda no início. Aqui seguem umas dicas que, durante o próximo ano, ajudarão qualquer pelintra a candidatar-se a um jet-setista. Haja democracia! As sugestões são gratuitas e estão dispostas na forma de um pequeno manual por desordem alfabética:

Anéis - São imprescindíveis. Fazem parte da montra. O princípio é: quem tem boa aparência é bem aparentado. E quem tem bom parente está a meio caminho para passar dos anéis do senhor à categoria de Senhor dos Anéis O jet-setista nacional deve assemelhar-se a um verdadeiro Saturno, tais os anéis que rodeiam os seus dedos. A ideia é que quem passe nunca confunda o jet-setista com um magaíça*, um pobre, um coitado. Deve-se usar jóias do tipo matacão, ouros e pedras preciosas tão grandes que se poderiam chamar de penedos preciosos. A acompanhar a anelagem deve exibir-se um cordão de ouro, bem visível entre a camisa desabotoada.

Boas maneiras - Não se devem ter. Nem pensar. O bom estilo é agressivo, o arranhão, o grosseiro. Um tipo simpático, de modos afáveis e que se preocupa com os outros? Isso, só uma pessoa que necessita de aprovação da sociedade. O jet-setista nacional não precisa de aprovação de ninguém, já nasceu aprovado. Daí os seus ares de chefe, de gajo mandão, que olha o mundo inteiro com superioridade de patrão. Pára o carro no meio da estrada atrapalhando o trânsito, fura a bicha**, passa à frente, pisa o cidadão anónimo. Onde os outros devem esperar, o jet-setista aproveita para exibir a sua condição de criatura especial. O jet-setista não espera: telefona. E manda. Quando não desmanda.

Cabelo - O nosso jet-setista anda a reboque das modas dos outros. O que vem dos americanos: isso é que é bom. Espreita a MTV e fica deleitado com uns moços cuja única tarefa na vida é fazer de conta que cantam. Os tipos são fantásticos, nesses video-clips: nunca se lhes viu ligação alguma com o trabalho, circulam com viaturas a abarrotar de miúdas descascadas. A vida é fácil para esses meninos. De onde lhes virá o sustento? Pois esses queridos fazem questão em rapar o cabelo à moda militar, para demonstrar a sua agressividade contra um mundo que os excluiu mas que, ao que parece, lhes abriu a porta para uns tantos luxos. E esses andam de cabelo rapado. Por enquanto.

Cerveja - A solidez do nosso matreco vem dos líquidos. O nosso candidato a jet-setista não simplesmente bebe. Ele tem de mostrar que bebe. Parece um reclame publicitário ambulante. Encontramos o nosso matreco de cerveja na mão em casa, na rua, no automóvel, na casa de banho. As obsessões do matreco nacional variam entre o copo e o corpo (os tipos ginasticam-se bem). Vazam copos e enchem os corpos (de musculaças). As garrafas ou latas vazias são deitadas para o meio da rua. Deitar a lata no depósito do lixo é uma coisa demasiado "educadinha". Boa educação é para os pobres. Bons modos são para quem trabalha. Porque a malta da pesada não precisa de maneiras. Precisa de gangs. Respeito? Isso o dinheiro não compra. Antes vale que os outros tenham medo.

Chapéu - É fundamental. Mas o verdadeiro jet-setista não usa chapéu quando todos os outros usam: ao sol. Eis a criatividade do matreco nacional: chapéu ele usa na sombra, no interior das viaturas e sob o tecto das casas. Deve ser um chapéu que dê nas vistas. Muito aconselhável é o chapéu de cowboy, à la Texana. Para mostrar a familiaridade do nosso matreco com a rudeza dos domadores de cavalos. Com os que põe o planeta na ordem. Na sua ordem.

Cultura - O jet-setista não lê, não vai ao teatro. A única coisa que ele lê são os rótulos de uíque. A única música que escuta são umas "rapadas e hip-hopadas" que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade. Os tipos da cultura são, no entender do matreco nacional, uns desgraçados que nunca ficarão ricos. O segredo é o seguinte: o jet-setista nem precisa de estudar. Nem de ter Curriculum Vitae. Para quê? Ele não vai concorrer, os concursos é que vão ter com ele. E para abrir portas basta-lhe o nome. O nome da família, entenda-se.

Carros - O matreco nacional fica maluquinho com viaturas de luxo. É quase uma tara sexual, uma espécie de droga legalmente autorizada. O carro não é para o nosso jet-setista um instrumento, um objecto. É uma divindade, um meio de afirmação. Se pudesse o matreco levava o automóvel para a cama. E, de facto, o sonho mais erótico do nosso jet-setista não é com uma Mercedes. É, com um Mercedes.

Fatos - Têm de ser de Itália. Para não correr o risco do investimento ser em vão, aconselha-se a usar o casaco com os rótulos de fora, não vá a origem da roupa passar despercebida. Um lencinho pode espreitar do bolso, a sugerir que outras coisas podem de lá sair.

Simplicidade - A simplicidade é um pecado mortal para a nossa matrecagem. Sobretudo, se se é filho de gente grande. Nesse caso, deve-se gastar à larga e mostrar que isso de país pobre é para os outros. Porque eles (os meninos de boas famílias) exibem mais ostentação que os filhos dos verdadeiros ricos dos países verdadeiramente ricos. Afinal, ficamos independentes para quê?

Óculos escuros - Essenciais, haja ou não haja claridade. O style - ou em português, o estilo - assim o exige. Devem ser usados em casa, no cinema, enfim, em tudo o que não bate o sol directo. O matreco deve dar a entender que há uma luz especial que lhe vem de dentro da cabeça. Essa a razão do chapéu, mesmo na maior obscuridade.

Telemóvel - Ui, ui, ui! O celular ou telemóvel já faz parte do braço do matreco, é a sua mais superior extremidade inferior. A marca, o modelo, as luzinhas que acendem, os brilhantes, tudo isso conta. Mas importa, sobretudo, que o toque do celular seja audível a mais de 200 metros. Quem disse que o jet-setista não tem relação com a música clássica? Volume no máximo, pelo aparelho passam os mais cultos trechos: Fur Elise de Beethoven, a Rapsódia Húngara de Franz Liszt, o Danúbio Azul de Strauss. No entanto, a melodia mais adequada para as condições higiénicas de Maputo é o Voo do Moscardo.

Última sugestão: nunca desligue o telemóvel! O que em outro lugar é uma prova de boa educação pode, em Moçambique, ser interpretado como um sinal de fraqueza. Em Conselho de Ministros, na confissão da Igreja, no funeral do avô: mostre que nada é mais importante que as suas inadiáveis comunicações. Você é que é o centro do universo!

Mia Couto

josé pinto dos santos

02.12.06





José Pinto dos Santos é professor numa famosa escola de gestão, em França, onde passou a leccionar depois de anos a fio ligado à administração de empresas multinacionais.
José Pinto dos Santos foi convidado para realizar uma conferência, para gestores reconhecidos no mundo dos negócios multinacionais, sobre os desafios da globalização. No dia anterior deu uma “grande entrevista”, à jornalista Judite de Sousa, no primeiro canal da televisão portuguesa. Excelente, na forma e no conteúdo. Nem dei pelo tempo: ficava por ali mais umas horas a ouvir o senhor, e desconfio que a Judite de Sousa também.
José PInto de Sousa, de modo informal e competente, falou muito sobre Portugal e sobre os portugueses e também sobre a gestão no mundo da sociedade da informação e do conhecimento. E de globalização. Mas só vendo e ouvindo, claro.

A reter a a seguir atentamente.

restauração

01.12.06



Rafael Valladares, historiador espanhol, lançou um livro sobre a restauração da independência em Portugal em 1640 .

"A Independência de Portugal - Guerra e Restauração 1640 - 1680" é o título da obra, editado pela A Esfera dos Livros.

Pode ler-se:

"Ao contrário do que dizia a historiografia nacionalista dos séculos XIX e XX, a Restauração não foi um movimento geral da nação portuguesa contra Castela e muito menos contra a Espanha. Foi uma revolta das elites portuguesas, principalmente uma parte da nobreza e da Igreja, que viam os seus privilégios, e "liberdades", como eles diziam, atacadas pela política reformista de Filipe IV"

"O que triunfou em Portugal foi uma economia senhorial, de rendas, e que não privilegiava os investimentos nem nada que fosse inovador".

Interessante. Para ler, para meditar, para comparar.