Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

eles comiam tudo e não deixavam nada (1)

17.10.06





Esta é uma história de arrepiar. Não me parece aconselhável a pessoas insensíveis ao sofrimento alheio. Eu sei que deveria dizer de outro modo: que esta história não é aconselhável a pessoas muito sensíveis, ou então, que a história contém imagens chocantes. Aliás, basta ligarem o título do texto à imagem que aqui coloquei, para se compenetrarem dos perigos que vão correr.

Mas não, o que eu quero é convocar os seres deste mundo e partilhar com eles o destino de uma das minhas memórias. Só tive uma pequena dúvida: se não seria um abuso usar a imagem de um tubarão numa história tão violenta - até porque sei, pela voz da ciência, que estes animais são normalmente inofensivos e que a sua ferocidade é a reacção natural de quem é habitado pelos medos do mundo. Como os humanos, afinal.

Acredito que, no fim da história, serei naturalmente compreendido e absolvido.

Parece-me palpitante começar uma narrativa desta maneira. Estou entusiasmado. Mas ainda antes de vos subir o pano não resisto a fazer uma declaração de princípios: sempre que assisto a um discurso do tipo ministeriável para uma plateia de professores – e assisti a uma coisas dessas, recentemente, num congresso de professores de história – reforça-se, com veemência, a necessidade dos jovens treinarem a memória através dos exercícios de cálculo na matemática. Pergunto-me sempre: então e a história?

Ficarão eles, os jovens, mais bem preparados para enfrentarem os domínios da razão e do afecto com a tabuada na ponta da língua ou com o conhecimento da história nos serviços de recepção da memória? Se tivesse que optar, escolhia a segunda via. E, para ilustrar esta minha excêntrica conclusão, vou dar-vos a conhecer como os encantos da infância podem ser ensombrados pelos relatos da investigação histórica.




Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.

eles comiam tudo e não deixavam nada (2)

17.10.06





A história passa-se em duas praias. Tohofinho, uma das belas praias de Inhambane, cidade moçambicana, e Foz do Arelho, a praia das Caldas da Rainha, cidade portuguesa. Entre uma e outra, assistiu-se ao esboroar de um encantamento que durou mais de 30 anos.

Decorria o ano de 1971 - tinha eu os meus 11 para 12 anos – e vivia na cidade de Maputo, então Lourenço Marques, capital de Moçambique. As férias escolares, principalmente as grandes, eram momentos de tempo interminável.

Nesse ano, tive o convite de uns vizinhos chegados – um casal com um filho sensivelmente da minha idade - para ir com eles passar um período alargado –cerca de um mês dos três que essas férias nos abençoavam - à cidade de Inhambane. Era uma viagem de mais de mil kms.

Com a autorização dos meus pais, lá partimos, num belo carocha, rumo à cidade da boa gente – designação escolhida belo célebre navegador Vasco da Gama. A cidade era suave. Lembro-me que tinha uma imponente catedral e que era habitada por imensos cidadãos indianos e paquistaneses. Tinha a marca – aparente ou não, vá lá saber-se - de uma pacífica coabitação entre essas culturas. Era rodeada por imensas praias. Bastava percorrer qualquer coisa como trinta quilómetros para que uma bela praia nos fosse presenteada.

Nessa altura, a escolhida foi o Tohofo (lê-se tofo). Praia quente e muito bonita, de águas imaculadas, impossível de descrever. Local pouco habitado – um hotel, uma estância balnear de ferroviários e pouco mais.

Todavia, a uns poucos quilómetros de se chegar ao Tohofo, aparecia uma picada para uma outra praia – só ao alcance dos todo o terreno – o Tohofinho. E é deste segundo lugar que a minha memória guarda imagens inesquecíveis.

Nós, crianças, chegávamos ao Tohofinho pela praia. Centenas de metros percorridos, de modo pedonal já se vê, e sempre com a mente desperta para o aviso dos perigos mortais – o Tohofinho tem uma rebentação fortíssima e é um albergue de tubarões.

Na fronteira destas praias, erguia-se um invulgar rendilhado rochoso. Na maré vazia, a natureza oferecia-nos por ali um belo complexo (digo complexo para ser moderno, já que aquilo não era mais do que um “simplexo” - desígnio pós-moderno) de piscinas naturais.

E foi numa dessas piscinas que tive a sensação única de tocar num tubarão vivo – pequeno é certo, já que esta história não vos é contada por um caçador de leões ou de elefantes.

Guardo dessas férias a ideia de ter estado no paraíso.

Passados 33 anos, e imaginem como cenário uma esplanada da não menos bela Foz do Arelho, praia de cidade das Caldas da Rainha, lia eu uma entrevista à historiadora portuguesa, Dalila Mateus. Um arrepio apoderou-se de todo o meu ser. A tese desta investigadora, apresenta argumentos para se considerar como um verdadeiro genocídio a presença portuguesa nos antigos territórios coloniais. E entre outros relatos, Dalila Mateus conta algumas atrocidades cometidas pela PIDE, e entre estas, refere a prática comum de se lançar aos tubarões do Tohofinho – em plena primeira metade da década de 70 do século XX - os presos políticos de pele negra.

Em que águas límpidas terei eu tocado? Como foi isto possível?



Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.