Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

hard candy

30.10.06




Comecei por perdê-lo duas vezes: este excelente filme de 2005, quase que me passava ao lado.

Perdi-o, a primeira vez, no seu ano de estreia em Portugal, e nem sequer dei pela sua existência; perdi-o, a segunda vez, em Agosto de 2006, numa das salas da cidade das Caldas da Rainha, onde vivo.
Nesta sua passagem por aqui, a minha mulher e a minha filha foram vê-lo. Nem sei porquê, mas não me apeteceu acompanhá-las nesse dia: nunca tinha lido nada sobre o filme e não tive curiosidade em fazê-lo. Mas vieram tão fascinadas que me obrigaram a comprar um bilhete para o dia seguinte. E tenho de lhes agradecer. Saí do cinema completamente convencido da excelência desta obra cinematográfica realizada por David Slade e superiormente interpretada por Ellen Page.

Uma história que choca: um fotógrafo, cum uma idade próxima dos 30 anos, seduz para o seu apartamento, através da internet, uma jovem adolescente de 14 anos. A jovem começa a fazer misturas de bebidas e a insinuar-se. Embora convencido do cumprimento dos seus planos, o adulto acaba amarrado e a revelar a história do seu passado.

A personagem interpretada pela brilhante Ellen Page, presta uma extraordinária homenagem a todas as jovens adolescentes que são vítimas destes adultos deformados, que se confundem com a inocente insinuação das jovens. As imagens finais são bem elucidativas: enquanto o adulto se suicida deixando evidente que o seu trauma passava pela ausência de “pedalada” para mulheres da sua idade, a personagem feminina, sem identidade conhecida, caminha pela rua com uma determinação que transparece as ideias de justiça pelas próprias mãos e de dever cumprido.

Arrepiante.

excessos dos deputados italianos

29.10.06


fachada da assembleia nacional italiana


Li o título da notícia e fui à procura dos fundamentos: a autoridade italiana para a protecção da privacidade impediu a exibição de um documentário sobre o consumo de drogas por parte dos deputados da assembleia nacional do seu país.

Depois da aprovação por unanimidade de uma lei que penaliza severamente o consumo de drogas, os deputados italianos foram surpreendidos. Num dia duplamente quente, em que ao verão italiano se associava uma acalorada discussão sobre o orçamento de estado, uma empresa produtora de documentários recolhia imagens para um curta metragem sobra a vida dos deputados à assembleia nacional italiana. Para as necessárias maquilhagens, a produção limpou o suor da cara dos políticos italianos.

Estava atingido o verdadeiro objectivo da empresa: a análise ao suor dos deputados, certificou que um terço dos ditos tinha consumido drogas nas últimas 36 horas - 2 em cada 3 tinha consumido cocaína e o restante marijuana -.

Percebe-se a protecção da privacidade, mas não deixa de surpreender a ingenuidade da decisão.

amantes regulares

28.10.06




Foram cerca de 180 minutos sempre a oscilar: entre a harmonia e o arrastar interminável de excessos cinematográficos.

Philippe Garrel, um dos cineastas franceses que nasce com o Maio de 68, filma o acontecimento e as suas repercussões sociais e morais.

A preto e branco, o realizador desconstrói um tempo onde tudo parecia espelhado entre a esfuziante possibilidade e a cruel impossibilidade.

Vi o filme, que foi estreado em 2006, numa das salas do King e gostei.

jorge martins

25.10.06





Foi uma excelente surpresa. Decorria o mês de Agosto de 2006, quando um amigo nos avisou: não percam a exposição de Jorge Martins. Num dos espaços do Centro Cultural de Belém, está patente, até ao dia 27 de Outubro, um conjunto de objectos artísticos que pode ombrear com o que de melhor se faz pelo mundo fora.

“Simulacros, uma antologia” é o título escolhido para a apresentação que confronta a pintura e o desenho  que caracterizou a obra dos últimos 50 anos de Jorge Martins.

“A incorporação dos valores do desenho na pintura concede à obra uma liberdade figurativa onde pose e desordem se fundem, e onde se exploram todas as possibilidades de iconografia do quotidiano contemporâneo, inserindo-o numa narrativa ficcional renovada” - pode ler-se no programa da exposição.

united 93

23.10.06


Comovente, muito comovente mesmo, esta obra cinematográfica de Paul Greengrass.

Fomos vê-la numa das boas salas do centro comercial Vasco da Gama, em Lisboa. Tendo como tema central a revolta dos passageiros do voo “united 93”, a produção norte-americana é uma homenagem a todas as vítimas dos trágicos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001. Ao que se julga saber, um dos aviões desviados não cumpriu a sua missão por obra de uns corajosos e destemidos passageiros: despenhou-se em território inofensivo e muito distante do alvo pretendido.

97 minutos, salvo erro, é o tempo que se pensa que a odisseia tenha durado no fatídico dia. Bem filmada e muito bem interpretada, e recorrendo às gravações de conversas reais entre os passageiros e os seus familiares, esta fita cinematográfica deixou-me com os olhos cheios de lágrimas.

Cinco anos depois, o 11 de Setembro voltou à agenda mediática. Desfilaram os documentários e os filmes: de terror em terror, de horror em horror, as teses que acenam uma conspiração maquiavélica vão perdendo, para uns, e ganhando, para outros, o seu espaço. Para os familiares das vítimas fica a única certeza: continua a ser difícil conviver com a memória.

recomeço

22.10.06


Resolvi recomeçar as edições de originais: depois de um período de dois meses de intensa preguiça, em que tirei partido da possibilidade de editar para a data que bem entender e onde republiquei uma série de textos - alguns tiveram mesmo três ou quatro edições - que fui escrevendo ao longo do primeiro semestre de 2006, volto com o firme compromisso de dar escrita às ideias que percorram o meu espírito.

Escolhi o dia 22 de Outubro por um simples acaso.

Talvez o facto do tempo estar a mudar, anunciando a chegada do inverno, tenha ajudado.

os anjos também vão à escola

20.10.06


 

 

Apetece-me dar voz à escola. Desculpem-me a ousadia e, já agora, a maçada.
Mas elevo-a a uma entidade nivelada pelos anjos de Rilke; ou lembrar-vos-ei que, a Blimunda de Saramago, antes de deglutir a sua côdea, via os Homens mais por dentro do que por fora, como convém.

Elevar a escola e deixá-la ver-nos por dentro terá, porém, algumas desvantagens: da devassa da sua visão resultará a nossa indefesa exposição.

Não pretendo mostrar-vos um libelo acusatório dos encarregados de educação. Elevei-os à categoria dos belos, mas sabemos que esses, e mesmo esses, podem tornar-se terríveis e capazes de nos destruir.

Opina-se com ligeireza sobre o valor da escola. Lá bem por dentro não lhe elevam a importância. Acolhem-se nela quando os argumentos estão aflitos de razão.

Comprovemos, convocando para isso alguns dos nossos encarregados de educação: saibamos quem decide pela localização, e pela insuficiente qualidade, das diversas construções escolares; questionemos quem se queixa do "despesismo" do sistema escolar e perguntemos se têm os educandos em escolas públicas; e façamos perguntas sem fim, como dizia Sócrates, o filósofo: "aqueles que perguntam são sempre os mais perigosos. Uma simples pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas".
Encontraremos, certamente, registos discursivos laudatórios da importância da escola, assinados por encarregados de educação. Discursos.

Pensar que a relação destas duas entidades – a escola e os encarregados de educação - se esgota nos mecanismos formais existentes, é de uma inverdade comprovada: é uma narração cheia de mistérios não explicados e convenientemente imergidos.

A escola vê, com clareza e no amargo jejum conhecido, muito para além dos mensuráveis indicadores. Os problemas educativos sobem aos céus da escola nas formas mais variadas: falam-nos, com um carácter quase decisivo, das insuficiências familiares no acesso aos bens culturais; segredam-nos, com temeridade, da importância da distância que os jovens percorrerem entre a escola e a habitação; quase que desistem quando falam dos problemas relacionados com os filhos dos anjos em queda.

Confidenciam-nos a vivência de momentos de impaciência e mesmo de alguma incredulidade: beliscam-se muito quando observam uma refeição familiar com a comunicação permanentemente ocupada pela tal caixa que mudou o mundo; entristecem-se quando vêem o seu jovem aluno confrontado com a impossibilidade do diálogo por falta de tempo, que é sempre uma outra maneira de dizer, por falta de vontade.

Mas renovam-se de esperança quando se confrontam com as inúmeras presenças dos encarregados de educação. São legiões de gente que ama de verdade e que está sempre sobrevoando. Que aparece, mesmo quando a atmosfera de emancipação juvenil não o aconselha. Que fala aos jovens, que os questiona, que os aborrece. Que lhes diz que NÃO, para que aprendam a fazer o mesmo. E desses, mais ricos ou mais pobres, nota-se a sua permanente presença na escola. Registada, mesmo com a doce aura da invisibilidade.

Não, os belos anjos nem sempre são terríveis.



eles comiam tudo e não deixavam nada (1)

17.10.06





Esta é uma história de arrepiar. Não me parece aconselhável a pessoas insensíveis ao sofrimento alheio. Eu sei que deveria dizer de outro modo: que esta história não é aconselhável a pessoas muito sensíveis, ou então, que a história contém imagens chocantes. Aliás, basta ligarem o título do texto à imagem que aqui coloquei, para se compenetrarem dos perigos que vão correr.

Mas não, o que eu quero é convocar os seres deste mundo e partilhar com eles o destino de uma das minhas memórias. Só tive uma pequena dúvida: se não seria um abuso usar a imagem de um tubarão numa história tão violenta - até porque sei, pela voz da ciência, que estes animais são normalmente inofensivos e que a sua ferocidade é a reacção natural de quem é habitado pelos medos do mundo. Como os humanos, afinal.

Acredito que, no fim da história, serei naturalmente compreendido e absolvido.

Parece-me palpitante começar uma narrativa desta maneira. Estou entusiasmado. Mas ainda antes de vos subir o pano não resisto a fazer uma declaração de princípios: sempre que assisto a um discurso do tipo ministeriável para uma plateia de professores – e assisti a uma coisas dessas, recentemente, num congresso de professores de história – reforça-se, com veemência, a necessidade dos jovens treinarem a memória através dos exercícios de cálculo na matemática. Pergunto-me sempre: então e a história?

Ficarão eles, os jovens, mais bem preparados para enfrentarem os domínios da razão e do afecto com a tabuada na ponta da língua ou com o conhecimento da história nos serviços de recepção da memória? Se tivesse que optar, escolhia a segunda via. E, para ilustrar esta minha excêntrica conclusão, vou dar-vos a conhecer como os encantos da infância podem ser ensombrados pelos relatos da investigação histórica.




Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.

eles comiam tudo e não deixavam nada (2)

17.10.06





A história passa-se em duas praias. Tohofinho, uma das belas praias de Inhambane, cidade moçambicana, e Foz do Arelho, a praia das Caldas da Rainha, cidade portuguesa. Entre uma e outra, assistiu-se ao esboroar de um encantamento que durou mais de 30 anos.

Decorria o ano de 1971 - tinha eu os meus 11 para 12 anos – e vivia na cidade de Maputo, então Lourenço Marques, capital de Moçambique. As férias escolares, principalmente as grandes, eram momentos de tempo interminável.

Nesse ano, tive o convite de uns vizinhos chegados – um casal com um filho sensivelmente da minha idade - para ir com eles passar um período alargado –cerca de um mês dos três que essas férias nos abençoavam - à cidade de Inhambane. Era uma viagem de mais de mil kms.

Com a autorização dos meus pais, lá partimos, num belo carocha, rumo à cidade da boa gente – designação escolhida belo célebre navegador Vasco da Gama. A cidade era suave. Lembro-me que tinha uma imponente catedral e que era habitada por imensos cidadãos indianos e paquistaneses. Tinha a marca – aparente ou não, vá lá saber-se - de uma pacífica coabitação entre essas culturas. Era rodeada por imensas praias. Bastava percorrer qualquer coisa como trinta quilómetros para que uma bela praia nos fosse presenteada.

Nessa altura, a escolhida foi o Tohofo (lê-se tofo). Praia quente e muito bonita, de águas imaculadas, impossível de descrever. Local pouco habitado – um hotel, uma estância balnear de ferroviários e pouco mais.

Todavia, a uns poucos quilómetros de se chegar ao Tohofo, aparecia uma picada para uma outra praia – só ao alcance dos todo o terreno – o Tohofinho. E é deste segundo lugar que a minha memória guarda imagens inesquecíveis.

Nós, crianças, chegávamos ao Tohofinho pela praia. Centenas de metros percorridos, de modo pedonal já se vê, e sempre com a mente desperta para o aviso dos perigos mortais – o Tohofinho tem uma rebentação fortíssima e é um albergue de tubarões.

Na fronteira destas praias, erguia-se um invulgar rendilhado rochoso. Na maré vazia, a natureza oferecia-nos por ali um belo complexo (digo complexo para ser moderno, já que aquilo não era mais do que um “simplexo” - desígnio pós-moderno) de piscinas naturais.

E foi numa dessas piscinas que tive a sensação única de tocar num tubarão vivo – pequeno é certo, já que esta história não vos é contada por um caçador de leões ou de elefantes.

Guardo dessas férias a ideia de ter estado no paraíso.

Passados 33 anos, e imaginem como cenário uma esplanada da não menos bela Foz do Arelho, praia de cidade das Caldas da Rainha, lia eu uma entrevista à historiadora portuguesa, Dalila Mateus. Um arrepio apoderou-se de todo o meu ser. A tese desta investigadora, apresenta argumentos para se considerar como um verdadeiro genocídio a presença portuguesa nos antigos territórios coloniais. E entre outros relatos, Dalila Mateus conta algumas atrocidades cometidas pela PIDE, e entre estas, refere a prática comum de se lançar aos tubarões do Tohofinho – em plena primeira metade da década de 70 do século XX - os presos políticos de pele negra.

Em que águas límpidas terei eu tocado? Como foi isto possível?



Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.

soweto

10.10.06
soweto.jpg

Um jovem sul-africano está no centro do debate no seu país, porque defende uma tese considerada traidora dos ideais da resistência e da liberdade: quer que os seus conterrâneos agarrem a primeira oportunidade que lhes apareça para mudar de bairro - deixando de vez o eterno Soweto -, para passarem a habitar uma casa com luz eléctrica e com água canalizada.

Argumenta: o famoso bairro só serve de ponto de interesse para os turistas mais variados e representa o que de pior teve a colonização e o racismo; o bairro deve desaparecer. Diz que só assim se combaterá a miséria que teima em grassar nos “sowetos” que proliferam pelo mundo fora.

Subscrevo.

Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.

Pág. 1/2