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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

e accionei o botão de desligar

30.06.06


Sou muito sensível à preguiça. Eu sei que até pode parecer uma confissão rodeada de esoterismos, própria de um iniciado nos prazeres da vida e do corpo, mas não, a coisa bate-me ainda mais fundo. Vivo, muitas vezes, o eterno dilema da falta de tempo.

E tudo isto por causa dos feixes hertzianos. Não sabe o que são feixes hertzianos? Pois eu também não sei lá muito bem. E também não temos de saber tudo. Mas não interessa. O que me traz aqui é essa espantosa invenção a que chamamos televisão e partilhar consigo os minhas angústias com o uso que dela faço.

Antes de mais duas premissas: nem sou um grande consumidor dos citados feixes, nem me sobra muito tempo para a ansiada e mais do que merecida preguiça – embora eu seja ateu, e, quem sabe, se por isso… sim, se por isso, não vou chegar ao fim da vida com horas e mais horas de preguiça por gozar.

Está tudo muito bem encaminhado para lhe contar que guardei um tempo de ouro para, refastelado no sofá, ter uma hora de notícias na televisão portuguesa. Escolhi a sociedade independente de comunicação – pareceu-me bem, pelo nome - e o seu canal generalista.

Debalde. Ao fim de pouco tempo dei comigo sobressaltado. Parece que uns espanhóis conhecidos tiveram a ideia de aderir ao matrimónio.
Notícia? A monarquia não se questiona, ou seja, uns nascem mais dotados do que outros. Notícia? A noiva teve direito a qualquer coisa como isto: a rapariga agora já veste bem; ora vejam lá, que em 1995 tinha este aspecto – e tratam de passar umas imagens da época em que a jovem aparece… com um ar de jovem… não acredita… com um ar de jovem… a sério. Já nem se pode preguiçar?
 
Recomendo a leitura do título deste conto.




Paulo Guilherme Trilho Prudêncio (texto escrito em Maio de 2004).

a dignidade e a greve de professores

14.06.06





Não me interessa a discussão a propósito de quem convoca as greves de professores e muito menos o calendário escolhido para a convocação da suspensão voluntária das tarefas docentes.

Quando ouço argumentar que estas greves têm uma agenda exclusivamente partidária, francamente, apetece-me dizer que isso é tão válido como dizer-se que o que os governantes querem é desvalorizar a escola pública para a entregar, como negócio altamente apetecível, aos interesses privados. Cada um falará, sempre e só, do que sabe: aliás, como é possível alguém falar do que não sabe?

Hoje fiz greve e fiquei muito orgulhoso com o comportamento dos professores portugueses.

A ideia de avaliar o mérito dos docentes - fazendo o paralelismo com  os militares - e depois instituir cotas no acesso à categoria de docente titular é impossível de aceitar.

Foi uma greve justa.

Por muito que se diga o contrário, existe hoje uma desvalorização quase absoluta do percurso do nosso sistema escolar. Generaliza-se de modo leviano. É grave o modo como se passa por cima da organização autónoma da cada escola: este último despacho que remete para os docentes "faltosos" a incumbência da realização das tarefas de planeamento do ano lectivo é lapidar. É o total desrespeito por cada uma das escolas. Só é possível no "estado de sítio" actual. As escolas estão incluídas num regime de autonomia e gestão e devem ser avaliadas enquanto tal.

As generalizações são sempre desadequadas - "não fazem parte deste tempo" -, perigosas e tremendamente injustas.

Quer ver, meu caro leitor. Vou pegar no último ministro da Educação.
O ex-ministro David Justino que é, hoje, assessor para a educação do actual presidente da República, passava o tempo todo a dizer que a gestão das escolas tinha de ser profissionalizada e depois deu os exemplos de gestão que todos conhecemos - sendo o exemplo mais mediático o inenarrável concurso de docentes, não devemos esquecer as incursões destemperadas na lei de bases ou na lei orgânica do próprio ministério -; agora aconselha, de modo sábio, já se vê, a presidência do país.
Será a voz do presidente?
Será que os ministros, principalmente os ex-docentes de sociologia, são todos deste nível de competência?

O que nos vale é que existem muitos docentes, como existem profissionais de outras áreas, certamente, que se orgulham do seu exercício profissional em Portugal e do trabalho que têm realizado: e lembrei-me, de novo, de Vergílio Ferreira.




"... porque há uma invencível lei do homem
que é a da sua libertação,
a sua conquista inexorável
de uma cada vez maior dignidade."



Vergílio Ferreira, Alegria Breve



Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.

dia do cão

05.06.06



Tenho tido, ao longo da minha, vários animais domésticos: gatos, principalmente estes, cães, peixes e periquitos. Tenho um gato em minha casa e em casa dos meus pais sempre houve "felinos". Tivemos alguns cães e, se bem me recordo, a generosa coabitação também contemplou um peixe e um periquito. Não me lembro de, alguma vez, ter tratado mal os animais domésticos, pelo contrário.

Vem isto a propósito da proposta feita por alguns deputados: vamos comemorar o dia do cão e, se possível, numa data próxima do dia da criança. Fiquei estarrecido.
 
Nem sei como é que os partidos políticos organizam a formação dos seus quadros, mas esta preocupação canina está muito enraizada no partido social-democrata.

Para além desta ridícula proposta, lembro-me de uma outra situação do género e que aconteceu comigo. Foi em Maio de 2005, salvo erro.

Nessa altura, dirigia uma instituição escolar da cidade das Caldas da Rainha. Havia um assunto que necessitava da urgente articulação entre os dirigentes das escolas e os autarcas: as transferências de alunos, às centenas, que estavam em regime de sobrelotação. Um problema grave e que ocorria ano após ano. Contacto o vereador respectivo, do PSD, para convocarmos o encontro e verifico que a agenda estava de tal modo saturada, ou a vontade não era muita, vá lá saber-se, que a reunião não se realizou. Fiquei aborrecido, mas comecei a estudar o assunto sem os dados essenciais. O costume.

No dia seguinte, alguém do gabinete do vereador telefona para a direcção da escola. A minha colega que recebe a chamada é informada de um convite para os mesmos intervenientes da reunião por nós solicitada, mas com outro ponto de agenda: wc caninos. A sério. Fiquei indignado. De tal modo o fiquei, que tornei o facto público.

Estranha, e recorrente, preocupação.


Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.

buena vista social club

03.06.06



 



Fascinante.

Começou por ser um projecto de pesquisa, do guitarrista e produtor norte-americano Ry Cooder, em 1998, sobre antigas jóias da música cubana, já sossegadas pelo tempo.

O álbum "Buena Vista Social Club" ganhou o Grammy e, no ano seguinte, a obra dos músicos cubanos foi levada para o cinema num lindíssimo documentário, com o mesmo título, feito pelo cineasta alemão Wim Wenders.

Foi o primeiro dvd que vi, e ouvi, no meu computador, com auscultadores. Mas que banda sonora.

Chegou-me o cd, tarde, mas chegou. Não me canso.




Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.