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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

as ideias do meu avô (2)

14.02.06
Tenho andado a pensar num dos dias que marca presença no meu calendário: 17 de Fevereiro, a data do aniversário do meu pai; não quis, a vida, que ele fizesse 82. Entretanto, estive a arrumar o meu “blog” e encontrei um texto que escrevi em 27 de Abril de 2004. Sintetiza muito daquilo que aprendi com ele. Reescrito, diz assim: “Devo fazer-vos uma confissão. Ao que julgo saber, esta ideia de confessar é mais uma bisbilhotice com aquela marca muito beata de quem espia os seres que ultrapassaram a primeira barreira à liberdade: o baptismo. Só fui baptizado, quase de modo compulsivo e com o ar contrariado do meu pai, aos sete anos de idade. Vê-se logo que eu sou ateu. Contudo, fico sempre com a consciência pesada quando cometo uma qualquer falsificação à verdade. Cultura judaico-cristã, diz-se. Mas a minha confissão prende-se com uma ideia que eu quero que seja do meu avô. Não é que a ideia não seja dele, o que acontece é que eu quero que ele só a tenha contado a mim e a mais ninguém. Nunca vos aconteceu nada de semelhante? Talvez? E se eu vos disser que nunca conheci os meus dois avôs? Já tinham falecido quando eu tive a feliz ideia de nascer. Talvez assim, comecem a desculpar-me. A questão é a seguinte: lá por minha casa, sempre ouvi dizer que a melhor forma de se conhecer o nível cultural de um país é visitando as suas casas de banho públicas. Concordem ou não com a ideia, e isso para este caso é pouco relevante, o registo da patente é de um dos meus avôs. De qual deles é que não me lembro bem. Mas vamos lá ao pecado que justifica a confessada confissão. Estava eu a fazer uma conferência sobre o desempenho da escola onde exerço funções e a falar na importância que damos ao bom estado das casas de banho dos alunos – citando este exemplo para reforçar a necessidade de se ser persistente e nunca desistente quando se quer educar para a cidadania – quando me vem ao discurso a seguinte afirmação: “foi o meu avô que me disse … e eu nunca mais me esqueci”. Podia ter dito o que vos disse a vós, mas não, romanceei. Nos breves momentos em que revelava a ideia era como se um dos meus imaginários avôs me estivesse a segredar. Naquele lugar e naquele momento, o facto da ideia me ter sido revelada em exclusividade tornou-se verdadeira: mais ninguém naquela sala podia partilhar do nosso segredo.” Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.