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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

depende do olhar

28.01.06

olhos.jpg Não consigo ficar sem sorrir quando leio declarações que demonstram uma grande preocupação com a expressiva vitória do Movimento Islâmico Hamas, na Palestina. Então George Bush é paradigmático: nunca negociarei com essa gente. Dava para rir, se a coisa não fosse tão séria. Já olharam bem para o senhor que está na imagem que acompanha este texto? Francisco Lopes da Cruz, o novo embaixador da Indonésia em Portugal. Lembram-se bem dele? Têm razão os que defendem a tese da negociação com os movimentos ditos terroristas. É só mudarem-lhes a fatiota... Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.

expectativas

28.01.06
D. Quixote.jpg Dei comigo a comparar o que senti com dois espectáculos que vi ultimamente: a peça “Ella”, levada à cena pelo Teatro da Rainha - de que já dei nota por aqui - e o D. Quixote, interpretado pela Companhia Nacional de Bailado. Sei que não se deve comparar teatro com bailado, mas pode-se falar dos nossos gostos e da nossa sensibilidade. E entre estes espectáculos, existe um mar de diferenças; desde logo de meios - a lavandaria de um hospital termal e o Teatro Camões -; no número de profissionais: de um lado uma meia dúzia e do outro, eu sei lá, a Companhia Nacional de Bailado e a Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São Carlos, dirigida pelo Maestro, James Tuggle, ambas em peso; no número de espectadores: uns quinze e uma sala completamente cheia com bilhetes comprados com meses de antecedência. Duas realidades de uma mesma vontade. A primeira exaltou-me o espírito e a mente, a segunda desiludiu-me. Dito isto, podemos falar de duas grandes produções. A sério. Duas grandes produções; a primeira, de um texto pouco conhecido e traçado pela miséria de muitas condições humanas; a, segunda, confirmou a relação próxima que existe entre dois clássicos, da literatura e do ballet. Direi, a propósito, que o bailado até é minha arte performativa de eleição: seduz-me a sua intensa totalidade. No entanto, fico-me mais pelo bailado moderno. Agora, sem a extraordinária companhia do ballet gulbenkian, ficámos um pouco órfãos. Por isso, ou talvez não, quando decidimos ir ver um “must” da dança clássica, esperávamos uma parte da noite bem passada. Também, o mês de dezembro tinha sido muito quixotesco: não só foi publicada mais uma muito discutida tradução da obra, como o canal dois da televisão portuguesa nos tinha oferecido uma série espanhola, soberba, sobre a obra. A coisa prometia. Não sei o que aconteceu. Não quero ser injusto, mas acho que o desempenho do coreógrafo escolhido, o turco Mehmet Balkan, esteve muito longe do brilhantismo esperado. Que raio, com aqueles profissionais todos... e ainda com o privilégio de ter a presença do Carlos Acosta, primeiro bailarino do Royal Ballet, que teve como “partenaire” Ana Lacerda, bailarina principal por excelência da CNB, exigia-se muito mais. A combinação entre as danças de folclore espanhol e a dança de tradição clássica não resultou: esta associação, teve momento sonoros que nos parecia vindos de uma banda de coreto de uma orquestra de bombeiros voluntários, com todo o respeito que esses músicos merecem. Deixou a desejar. Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.

os privilégios que interessam

26.01.06

ella.jpg Estava uma noite fria, ontem, quarta-feira. Chegámos ao estacionamento mais próximo da lavandaria do hospital termal e quase que não havia carros. Eram nove horas e o teatro começava às nove e trinta. Entrámos na sala - éramos uns quinze, se tanto -, uns minutos antes do começo da peça e ficámos no centro da primeira fila. Os actores já estavam no palco. El(l)a, a mãe, já muito velha, estava silenciada em frente a um televisor - a mesma causa para o parco número de espectadores? - e calada ficaria até ao último minuto da peça. No fatídico minuto não falou, deu um grito. Ele, o filho, estava sentado na cama e esperava que nos calássemos. Deparámos com um fascinante cenário: a casa toda numa assoalhada. A parede mais próxima de nós era constituída por uma rede de capoeira. El(l)a, a mãe, a actriz Clara Joana, teve uma vida desgraçada: uma infância de muita pancada; vendida pelo pai ao noivo, passou por muitos hospitais psiquiátricos até acabar os seus dias na capoeira da irmã. Ele, o filho, o actor Fernando Mora Ramos - que está soberbo e segundo Ricardo Pais, director do Teatro Nacional São João, no Porto, é o seu melhor trabalho - não tem existência autónoma e relata-nos a vida da mãe na primeira pessoa. Os dois fazem a peça. Ela calada, ele em monólogo e preprando um café. Também alimentou as galinhas e lavou umas peças de roupa. A encenação tem uma beleza muito profissional. A hora e meia passou como se de quinze minutos se tratasse. Um verdadeiro enigma, esta coisa do tempo. Repito. A peça "Ella" (1970) é uma produção do Teatro da Rainha com encenação de Fernando Mora Ramos e texto de Herbert Achternbusch. Está em cena no lindo espaço que é a lavandaria do hospital termal, nas Caldas da Rainha. Um privilégio.

excelência

23.01.06
chopin.jpg Tenho regressado aos Nocturnos de Chopin na interpretação de Maria João Pires: álbum duplo com quase duas horas de sons de uma serena exaltação. Os clássicos nunca cansam e têm esse saboroso requisito: a repetição e o tempo é que os tornam verdadeiramente habitáveis. Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.

sonhos cortados

19.01.06

sonhos cortados.jpg

 

Custa-me muito ver Mário Soares e Manuel Alegre a protagonizarem candidaturas às mesmas eleições presidenciais. Custa-me mesmo. Espero que haja uma segunda volta; e também espero que, nessa circunstância, se unam verdadeiramente e sem reservas.

as intermitências da morte I

16.01.06

morte.jpg

Fui lendo José Saramago com um prazer crescente que atingiu o auge com o “Memorial do Convento”. Fiquei completamente fascinado com esta obra. Achei a atribuição do Nobel uma coisa mais do que obrigatória. Li, depois, o “Evangelho segundo Jesus Cristo” e o “Ensaio sobre a Cegueira. Gostei mais do segundo. Daí para cá, só passei os olhos pelo “Todos os Nomes” e pelo “Homem Duplicado”. Agora vou seguir “As Intermitências da Morte”. Darei notícias. Já reparei que começa e que acaba com a mesma frase: “no dia seguinte ninguém morreu”. Um dia sem a visita da morte. Promete.




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