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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

ultimato

28.03.05
Recebi um ultimato da sapo. Ou escrevo ou morro. Ando muito preguiçoso. Aqui vai um poema de Fernando Pessoa, bem, de Alberto Caeiro, para ser mais preciso. O Guardador de rebanhos (original e, por isso, com algumas imperfeições gramaticais - língua viva, dirão outros) IX Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e com os pés E com o nariz e com a bôca. Pensar uma flôr é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido. Por isso quando um dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto E me deito ao comprido na erva, E fecho os olhos quentes, Sinto o meu corpo deitado na realidade, sei a verdade e sou feliz.

pé direito

12.03.05
liceu.jpg Sempre que o tema da minha ocupação cerebral se relaciona com o pé direito, dois conceitos condicionam de imediato as minhas opiniões. Do lado a que sou menos dado, “o das religiosidades”, condiciona-me a abençoada, eterna e discriminatória (só para o pé esquerdo, é claro) entrada com o pé mais à mão – o direito. Seguramente, foram tantos os seguidores desta superstição, na passagem de ano da mudança de milénio, que esgotadas deverão ter ficado as possibilidades de refutar os mais crentes. Do lado que mais me entusiasma, o do pé direito dos edifícios erguidos pelo esforço dos menos favorecidos dos Homens, podem contar com opiniões mais ousadas. Suponho, definitivamente, que este pé direito foi mesmo o verdadeiro motor da minha consciência cívica. Sei que buscar a origem da consciência dos Homens é tarefa só ao alcance de uns quantos. Mas da minha, é algo que no mínimo fica ao critério do meu imaginário. Atrevo-me mesmo a dizer que, quem em criança nunca quis tocar no tecto do mundo não pode ter uma boa consciência social. Eu, apenas fui persistentemente tentando tocar nos tectos das minhas casas, embora a altura dos pés direitos me exigisse a adolescência para obter alguns saborosos sucessos. Na atmosfera do lugar onde nasci e depois cresci, vivia-se num constante apelo a duas actividades desportivas: o futebol e o basquetebol. A primeira mais do lado das religiosidades e a segunda mais do lado das ousadias. Era com um sentimento de verdadeira transcendência que, ao fim de semana, de mãos dadas com os pais, avós ou tios, as crianças assistiam a esses rituais de boa convivência. É certo que, por vezes, na ânsia humana de ser mais veloz, ser mais forte ou chegar mais alto, as coisas azedavam e, num ápice, travestiam-se de aspectos assustadores. Mesmo assim, as crianças desde cedo iniciavam os primeiros exames exploratórios. A minha primeira e última experiência como jogador de futebol num clube a sério ocorreu por volta dos meus onze anos. Fiquei evidentemente vacinado. Como o campo de jogo era em tudo igual ao dos adultos, “o fenómeno pé direito” aparentemente só se manifestava no tamanho das balizas. Nada mais enganador. As dimensões intermináveis do campo e o peso insuportável da bola gigantesca não me deixaram alternativa. Via, com uma surpresa ingénua, como os adultos desses sítios e doutros nossos conhecidos sentiam uma alegria esfuziante com as dificuldades das crianças. As gargalhadas eram demasiado ruidosas. A imbecilidade chegava ao ponto de equiparem “os miúdos” com calções enormes, para assim o espectáculo ser mais completo. Fiquei para sempre nos jogos de rua com os meus amigos, onde eram as crianças que escolhiam o tamanho do campo, das balizas, da bola ou dos calções. Mas havia algo que começava a despertar a tal consciência de direitos (ousadias?) de que vos falei antes. Para a divulgação do jogo de basquetebol, os seus responsáveis construíam campos só para crianças onde o “fenómeno pé direito” era o inimigo número um. As dimensões do espaço do jogo, dos cestos ou das bolas eram apropriadas. Ideias avançadas, sem dúvida, de alguém que não se acomodou ao facto dos tectos parecerem, por vezes, estar a uma altura fora do alcance do comum dos mortais. Foi também nesta altura que entrei para o liceu. Estávamos em 1971, em plena era marcelista. O liceu era ao melhor estilo da época, o inevitável liceu Salazar. O edifício era monumental e todo cheio de mármores brancos. Reinavam os espaços de amplitude arrasadora. A construção obedecia a ângulos absolutamente rectos. A altura do pé direito era de tal dimensão que parecia desenhada com a única intenção de impossibilitar veleidades, até ao mais reverente. Lembro-me, a propósito desta nossa conversa, de uma das primeiras aulas de matemática. Para fundamentar o facto de duas linhas paralelas nunca convergirem, o pedagogo pediu-nos que olhássemos para as colunas da sala de aula e imaginássemos a possibilidade delas, de interminável pé direito, se encontrarem. Nunca. É certo, que uns anos depois, um colega segredou-me que ouviu alguém autorizado afirmar o encontro das rectas paralelas no infinito. É certo ainda, e antes disso, convém lembrar, que o arquitecto catalão Gaudi iniciou a construção da igreja da Sagrada Família, desrespeitando a tese das colunas que nunca se encontram. Obra incabada. Morreu em 1917 e em 1999 os catalães ainda não conseguiram pôr fim ao pesadelo. Muito tenho pensado sobre esta esquisita maneira de considerar que as crianças, os idosos ou os inadaptados não têm direito a querer tocar nos tectos dos seus mundos. Mais tarde fez-se uma pequena luz, percebi um pouco das razões… quando em 1983 me pediram uma opinião sobre a construção de umas instalações desportivas destinadas a crianças do pré-escolar. Manifestei a minha surpresa pela altura dos lavatórios, que só serviriam os adultos. Obtive a resposta pronta de um dos técnicos presentes: “meu caro, não percebe que as crianças vão crescer?”