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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

ideologias

09.05.04
E é assim. Hoje apetece-me lançar uma definição para provocar a discussão. Será que o vou conseguir? Lançar uma definição é uma questão que nem se devia colocar, claro, porque as definições pertencem ao universo das ideias que se explicam. E se se explicam não se discutem. Discordo. Isso, discordo do que acabei de dizer. Tudo o que é irrefutável é falso. Bem, mas o problema é outro. O que me interroga é se haverá alguém que se interesse em discutir a definição de que vou pegar mão. Mas também podia dizer, é evidente, uma outra coisa qualquer. Pode-se sempre dizer uma outra coisa qualquer. Há mesmo quem diga que o importante é dizer. É como no fazer. Diz-se que o que verdadeiramente importa é dizer que se faz. Embora, nesse caso, e dado a efemeridade da vida moderna, a amargura do retorno seja tão veloz quanto a sua ascensão. Mas voltemos ao assunto. Poderia ter começado com a seguinte interrogação: será que as pessoas se interessam em discutir definições? Mas mais do que isso, e talvez o cerne da questão, é pensar que serão um ou dois os que vão ler este pequeno emaranhado de palavras. E um deles sou eu. Desgraça. Mas não se perde nada em tentar. Aliás, nunca se perde nada por tentar. Não conheço uma alma sequer, e vejam bem que eu digo alma e não corpo, que tenha dito que se arrependeu por ter tentado. Ideologias. Ah, é esta a palavra de cuja definição vou pegar mão. Definição de ideologia: conjunto de interesses inconfessáveis. Ainda bem que fica aqui marcada a hora a que escrevi esta pequena loucura. Digo-o assim, porque perdi a homilia do professor Marcelo em plena televisão. Ideologias que assentam na definição proposta?

remédios escolares

09.05.04
remédios.jpg Ciclo preparatório. Registo da patente: início da década de 70 com a reforma “Veiga Simão”. Composição: dois anos de escolaridade. Indicações terapêuticas: preparar a brusca transição entre a escola primária e a escola secundária. Contra-indicações: não são conhecidas. Precauções especiais de utilização: devido ao seu autorizado sucesso, tem tendência para se arrastar aos ciclos antecedentes ou precedentes. Prazo de validade: apesar da sua constante mudança de nome não tem prazo de validade. Interdisciplinaridade. Registo da patente: acredita-se que teve início da década de 80, mas sem registo da patente devido à provisoriedade dos diversos governos de então. Composição: a plenitude dos saberes integrados. Indicações terapêuticas: eliminar todos os bloqueios que impedem a comunicação entre os diversos saberes. Contra-indicações: o seu tempo de eficácia é cirúrgico (julga-se que o medicamento é desconhecido por quem se dedica a fazer programas escolares). Precauções especiais de utilização: quando utilizada de forma demasiado optimista pode provocar sérias indigestões aos alunos de todos os escalões etários. Prazo de validade: resiste a várias intempéries – provoca inúmeros seminários e colóquios sobre a problemática dos prefixos, inter, trans, pluri e multi?; rapidamente pode mudar de nome e transformar-se, ainda, em algo compulsivamente quase obrigatório (área escola) ou mesmo obrigatório (área de projecto). Pedagogia não directiva. Registo da patente: registada pelo psicoterapeuta Carl Rogers, apenas começou a ser falada em Portugal após a reforma “Veiga Simão”. Composição: relações plenas e empáticas. Indicações terapêuticas: elimina conflitos e contradições e dispõe para a aprendizagem como nenhuma outra corrente pedagógica. Contra-indicações: só pode ser aplicada a um aluno de cada vez; Precauções especiais de utilização: quando aplicada a mais do que um aluno tem consequências desastrosas – entra-se e sai-se da sala de aula sem se perceber onde estava o do(c)ente; Prazo de validade: é utilizada todos os dias pelos menos atentos à validade dos medicamentos – mas o autor declinou a responsabilidade no acto de registo da patente. Magistercentrismo. Registo da patente: as suas origens perdem-se nas memórias do tempo; em Portugal teve os maiores laudos doutrinários durante o “Salazarismo”. Composição: relações inexistentes entre o mestre e os outros. Indicações terapêuticas: alimenta a inquestionável e douta sabedoria do mestre; ideal para memorizar os afluentes dos rios ultramarinos e os inúmeros apeadeiros dos caminhos de ferro dos continentes e das ilhas adjacentes. Contra-indicações: não recomendado para estados de patologia democrática. Precauções especiais de utilização: deve administrar-se nos trajes mais cinzentos e formais e nunca, mas nunca, o administrador deve abdicar do ar mais austero e sisudo. Prazo de validade: desconhecido. Plano da turma. Registo da patente: equipa coordenadora dos programas escolares na reforma “Roberto Carneiro” em 1989. Composição: plano miraculoso que descreve o que foi ensinado. Indicações terapêuticas: permite a cada docente conhecer, necessariamente, o que foi ensinado, no ano imediatamente anterior, em cada uma das disciplinas; Contra-indicações: provoca a desflorestação do país e a entropia no sistema das arrecadações das secretarias escolares ao produzir 3 biliões 430 milhões 348 mil e 986 folhas de papel de relatórios pedagógicos. Precauções especiais de utilização: deve administrar-se em dois parágrafos com oito palavras cada um. Prazo de validade: 24 horas. Autonomia e gestão das escolas. Registo da patente: equipa do Ministério da Educação conduzida pelo Ministro Marçal Grilo. Composição: sistema complexo de órgãos de decisão. Indicações terapêuticas: estabelece regimes democráticos eficientes e plenamente participados, em que a repetição das agendas das reuniões consagra o seguinte princípio pedagógico: repetir para aprender; respeitando a posologia e tomado de forma consistente, transforma qualquer escola num espaço organizativo verdadeiramente português – muitos patamares de decisão com órgãos e mais órgãos convenientemente dispersos; Contra-indicações: em estabelecimentos de ensino com menos de 1000 docentes, 300 não docentes e 10000 alunos, tende a tornar-se num processo em que as mesmas pessoas encontram-se vezes sem conta para discutir os mesmos assuntos. Precauções especiais de utilização: sempre que se verifiquem as contra-indicações indicadas, todos devem fazer, o mais possível, de conta. Prazo de validade: depende da capacidade de resistência às doenças. Gestão flexível dos currículos. Registo da patente: equipa do Ministério da Educação conduzida pelo Ministro Marçal Grilo. Composição: sistema complexo que pretende reduzir o número de aulas dos alunos. Indicações terapêuticas: a sua principal finalidade terapêutica é permitir aos alunos o estudo acompanhado e, finalmente, realizar projectos com integração de saberes. Contra-indicações: para respeitar o aforismo lusitano, em que o que se faz em dois anos pode-se fazer em três ou em quatro, este medicamento inclui as disciplinas todas nos anos todos (a saber, sequência disciplinar) – nem que seja com uma aula semanal por disciplina. Precauções especiais de utilização: tomada em doses elevadas, pode obrigar alunos dos 2º e 3º ciclos a terem que frequentar aulas nocturnas para completarem todo o currículo flexível. Prazo de validade: espera-se a eternidade considerando o seu carácter flexível. Avaliação contínua. Registo da patente: foi registada, em 1974, por Gilbert de Landsheere, docente de docimologia na Universidade de Liége; era correcto defendê-la em Portugal a partir de 1976. Composição: sistema composto, entre outros, por diversos momentos e tipos de avaliação . Indicações terapêuticas: a sua principal finalidade terapêutica é garantir solidez a todo o edifício escolar; garante aos docentes horas e mais horas de trabalho. Contra-indicações: medicamento concebido para eliminar os exames escolares sujeita, no entanto, - e na maioria das vezes- os alunos a frequentes exames mensais em todas as disciplinas dos currículos; Precauções especiais de utilização: respeitada na integra a posologia pode provocar curvas de Gauss de valor médio infinito. Prazo de validade: como não foi concebida para ser aplicada nos diversos sistemas escolares também não se estabeleceu o prazo de validade. Taxonomias. Registo da patente: taxonomia do domínio cognitivo registada por Bloom em 1948; taxonomia do domínio psicomotor registada por Harrow em 1972; taxonomia do domínio afectivo registada por Krathwohl em 1966; a sua divulgação em Portugal ocorreu, principalmente, a partir de 1976. Composição: listagem hierarquizada dos comportamentos humanos. Indicações terapêuticas: ilumina a prática docente reforçando a arrumação dos alunos em gavetas (em linguagem científica – níveis de aprendizagem). Contra-indicações: à sua medicação deve ser associada um anti-depressivo, pois os medicados perdem-se nas listagens hierarquizadas, porque na maioria das vezes é necessário um ano lectivo para caracterizar um só aluno. Precauções especiais de utilização: transforma-se facilmente em dogma e origina autênticas perturbações na percepção docente, ou seja, os docentes esquecem-se com facilidade da presença dos alunos. Prazo de validade: não passou da fase de laboratório. Objectivos. Registo da patente: Viviane e Gilbert de Landsheere em 1976; em Portugal divulgou-se no mesmo ano. Composição: listagens de indicadores, digo, de conteúdos, digo de competências, apresentadas com a conjugação do verbo no imperativo, digo, no presente do indicativo, digo, no pretérito perfeito do indicativo. Indicações terapêuticas: ordena a prática docente, clarifica o que tem que ser ensinado e elimina o que tem que ser aprendido. Contra-indicações: pode provocar sobredosagem se tomado em associação com concorrentes ou derivados (por exemplo - conteúdos, indicadores, competências, gerais, específicos, terminais, operacionais, iniciais...). Precauções especiais de utilização: se não está muito seguro não o utilize. Prazo de validade: três séculos e 23 dias. Propedêutico. Registo da patente: VII Governo Constitucional Português em 1978. Composição: conteúdos multimédia da idade média. Indicações terapêuticas: entretém os jovens enquanto as universidades não abrem; prepara os jovens para o século XXI. Contra-indicações: tomado sem vigilância médica, pode provocar alterações filogenéticas; nessas circunstâncias, alguns jovens podem começar a indiciar o nascimento de uma pequena cauda ou sentirem pequenas saliências no topo da cabeça que, nos casos testados, se supõe serem umas intrigantes antenas. Precauções especiais de utilização: exige a máxima concentração e implica a utilização de televisores sem comando à distância. Prazo de validade: três anos, salvo seja. Desenvolvimento pessoal e social (DPS). Registo da patente: equipa coordenadora dos programas escolares na reforma “Roberto Carneiro” em 1989. Composição: 3 mg de creme de flores de harmonia, 4 mg de extractos de pétalas de entendimento e 3 ml de soluto de sódio de resolução de todos os problemas. Indicações terapêuticas: desenvolve os jovens pessoal e socialmente; prepara os jovens para a sua vida pessoal e social; ajuda os jovens a encarar o futuro, quer na vertente pessoal quer na vertente social; e é, ainda, totalmente eficaz no desenvolvimento pessoal e social dos jovens com problemas; Contra-indicações: pode provocar sérias perturbações na normal e abençoada aplicação da concordata. Precauções especiais de utilização: não pode ser utilizado em alternativa à educação moral e religiosa católica. Prazo de validade: 50 minutos. Escola cultural. Registo da patente: não tem a patente registada, mas podemos considerar o ano de 1984 como o momento da sua divulgação em Portugal. Composição: práticas culturais intensivas; hábitos culturais com elevado grau de contágio; resumos concentrados do manual “tudo é cultura”. Indicações terapêuticas: estimula, de forma irreversível, os apetites culturais de toda uma nação em apenas meia geração; estimula a ideia que a produção cultural requer apenas 10 por cento de esforço e 90 por cento de inspiração; Contra-indicações: cria a sensação de que tudo é mesmo cultura; tomado nas doses certas, pode provocar, anos depois, o aparecimento de incómodas erupções cutâneas com o nome científico de “músicas de uma nota só” (outros investigadores optaram pela denominação “pimba”). Precauções especiais de utilização: só pode ser vendido mediante receita médica; só deve ser receitado após, o suposto utilizador, ter frequentado 254 colóquios, 367 seminários e ter obtido 196,45 unidades de crédito devidamente certificadas pelo conselho científico de uma qualquer faculdade da universidade técnica de Lisboa. Prazo de validade: não se chegou a estabelecer. Sociometria. Registo da patente: os estudos nesta área foram iniciados por Northway em 1967 e introduzidos em Portugal em 1972. Composição: matrizes sociométricas, gráficos sociométricos, diagramas sociométricos, sociogramas sociométricos, folhas pautadas sociométricas e canetas sociométricas. Indicações terapêuticas: indica, com clareza, qual é o aluno em que o docente se deve apoiar em momentos de aperto; permite conduzir à porta de saída os alunos problemáticos, com a certeza antecipada da popularidade do seu (docente) gesto. Contra-indicações: para o tratamento dos dados são necessários conhecimentos básicos de mecânica quântica. Precauções especiais de utilização: em humanos dos 0 aos 18 anos tem que ser feita uma verificação horária considerando as naturais oscilações das suas preferências. Prazo de validade: com toda a segurança, meia hora. Créditos. Registo da patente: em 1992 pela equipa do Ministério da Educação conduzida pelo Ministro Roberto Carneiro. Composição: três folhas A4 devidamente encadernadas, sendo a primeira destinada à capa e a última preenchida pelas unidades de crédito devidamente certificadas. Indicações terapêuticas: estimula o desempenho escolar dos docentes; justifica as avultadas despesas com os diversos programas de formação contínua financiados pela Europa dos quinze. Contra-indicações: não é recomendado a docentes exigentes e ou insatisfeitos; Precauções especiais de utilização: devido ao grande volume de matérias docimológicas nele contidas, exige-se a sua apresentação, impreterivelmente, 60 dias antes do fim do prazo de validade. Prazo de validade: um escalão. Perfil do aluno. Registo da patente: equipa coordenadora dos programas escolares na reforma “Roberto Carneiro” em 1989. Composição: registo preciso e rigoroso do estado do “produto aluno” somados x anos de laboração. Indicações terapêuticas: impede desvios acentuados nos complexos processos de apreciação global dos alunos; facilita a criação de mecanismos rigorosos de análise transversal do desempenho de humanos sujeitos ao agressivo contexto escolar. Contra-indicações: pode provocar ligeiras dores de cabeça quando verificada a sua articulação com os programas escolares das disciplinas dos anos terminais de ciclo. Precauções especiais de utilização: não deve ser aplicado a alunos muito curiosos nem a alunos que se posicionem de frente ou de costas. Prazo de validade: um ciclo escolar, precisamente.

30 horas escolares

09.05.04

 

 

 

 

 

 

 

Primeiro que tudo, e convém esclarecer, 30 horas é uma questão pessoal. Não consigo resumir nada a tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me nas horas quase todas. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Adoro elaborar as ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

 

Falar das 30 (ou das 32, ou das 34, ou, mesmo, das 36) horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Educámos, educamos e educaremos de acordo com a pressa dos tempos que, entretanto, correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

 

Tantos – e quase todos - querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de mais tempos escolares. Desde as associações científicas de professores aos sindicatos de docentes, passando pelos membros dos governos ou das respectivas oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo.

 

Os argumentos repetiram-se. Até podemos imaginar um lapidar diálogo. Diz o docente da disciplina x: “Têm que reduzir o número de aulas escolares, nem sei como é que os alunos aguentam isto”. Responde o docente da disciplina y: “Sim, sim. Mas nas aulas da disciplina z, pois nas minhas, ou nas tuas, seria o caos, não te esqueças”.

 

Tarefa inumana para o decisor. Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará, cada vez mais, uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos –muitos e intermitentes- períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem (entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. Mas não compliquemos). A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade. A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

 

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias). É tudo curto, rápido e preciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes. Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós. Um postulado para a eternidade, digo eu.

os anjos também vão à escola

09.05.04

anjo.gif Apetece-me dar voz à escola. Desculpem-me a ousadia e, já agora, a maçada. Mas elevo-a a uma entidade nivelada pelos anjos de Rilke. Ou ainda, lembrar-vos-ei que, a Blimunda de Saramago, antes de deglutir a sua côdea via os Homens mais por dentro do que por fora, como convém. Elevar a escola e deixá-la ver-nos por dentro terá, porém, algumas desvantagens. Da devassa da sua visão resultará a nossa indefesa exposição. E por lá, nos lugares mais altos, ela encontrará, com frequência, apenas alguns dos Homens. Certo e sabido. Não pretendo mostrar-vos um libelo acusatório dos encarregados de educação. Elevei-os à categoria dos belos, mas sabemos que esses, e mesmo esses, podem tornar-se terríveis e capazes de nos destruir. Opina-se com ligeireza sobre o valor da escola. Lá bem por dentro não lhe elevam a importância. Acolhem-se nela quando os argumentos estão aflitos de razão. Culpam-na de tanta e mais alguma coisa, até de não consolidar as asas de uma boa educação. Comprovemos, convocando para isso alguns dos nossos encarregados de educação. Saibamos quem decide pela localização, e pela insuficiência de qualidade, das diversas construções escolares. Ou então, questionemos quem reduz, ou não aumenta, a percentagem do P.I.B. (produto interno em bruto) para a educação. Por lá encontraremos, certamente, registos discursivos laudatórios da importância da escola, assinados por encarregados de educação. Nuvens negras. Pensar que a relação destas duas entidades – a escola e os encarregados de educação - se esgota nos mecanismos formais existentes, é de uma inverdade comprovada. Mais do que o tradicional encontro com o director de turma, associado à ténue proliferação de presenças, ou ausências, nos diversos órgãos de gestão das escolas, esta é uma relação cheia de mistérios não explicados e convenientemente imergidos. São feitos de matéria nem sempre estéril, composta de duras, e mútuas, acusações. Mais do que erradicar a “restrita” exclusão escolar, pede-se à escola a nobre tarefa de eliminar a exclusão educativa. Continua certo que o famigerado “índice socio-económico das famílias”, representa o princípio dos obstáculos. São certas as desvantagens das crianças mais pobres de riquezas materiais. Mas a escola vê, com clareza e no amargo jejum conhecido, muito para além desse mensurável indicador. E importa falar-vos dessas outras confidências. Os problemas educativos sobem aos céus da escola nas formas mais variadas. Falam-nos, com um carácter quase decisivo, das insuficiências familiares no acesso aos bens culturais. Segredam-nos, com temeridade, da importância da distância que os jovens percorrerem entre a escola e a habitação. Quase que desistem quando falam dos problemas relacionados com os filhos dos anjos em queda. Requerem-se soluções de longo prazo. Confidenciam-nos, no entanto, a vivência de momentos de impaciência e mesmo de alguma incredulidade: beliscam-se muito quando observam uma refeição familiar com a comunicação permanentemente ocupada pela tal caixa que mudou o mundo; entristecem-se quando vêem o seu jovem aluno confrontado com a impossibilidade do diálogo por falta de tempo, que é sempre uma outra maneira de dizer, por falta de vontade. Mas renovam-se de esperança quando se confrontam com as inúmeras presenças dos encarregados de educação. São legiões de gente que ama de verdade e que está sempre sobrevoando. Que aparece, mesmo quando a atmosfera de emancipação juvenil não o aconselha. Que fala aos jovens, que os questiona, que os aborrece. Que lhes diz que NÃO, para que aprendam a fazer o mesmo. E desses, mais ricos ou mais pobres, nota-se a sua permanente presença na escola. Registada, mesmo com a sua doce aura de invisibilidade. Não, os belos anjos nem sempre são terríveis.

o sabor das linguagens

09.05.04

sabores.gif Sei que muitos de vós pegarão nesta publicação e limitar-se-ão ou a ler os títulos ou a salpicar as mentes com uma, mais que diagonal, leitura do primeiro parágrafo. Garanto-vos que se estiverem cheios de pressa para irem a lugar nenhum, que saltem, sim, que saltem já para os dois últimos parágrafos e que fiquem logo com o mais importante desta crónica. Não quero, contudo, condicionar o vosso apetite literato nem tão pouco ilustrar uma estimável característica da personalidade – a generosidade. Serei apenas considerado pelos mais atentos e eruditos – um verdadeiro realista. Escrever em prosa, também podia ter sido outro o género escolhido se para aí tivesse alma e sabedoria, sobre a atmosfera das funções que actualmente exerço é, para mim, uma verdadeira odisseia. E como sou um presidente em fim de mandato e em que a coisa até nem correu nada mal, é preciso uma certa dose de coragem, pois corre-se o risco de se ser considerado um laudatório em causa própria. Não quero, contudo, começar a correr por aqui fora sem vos dar a conhecer algumas das minhas preocupações quando me iniciei nestas andanças. Existirá alguém que não conheça o arquétipo do director de escola? Sempre tive um certa desafectação por essa figura. E que raio, todos gostamos de fazer boa figura. Ouvi, vezes sem conta, que alguém que ocupa lugares de poder passa logo a ser suspeito. Nunca mais o olham da mesma maneira. “Vais fazer isso? Por esse dinheiro? É só chatices.” Confidencio-vos que não foi preciso mudar uma vírgula no que quer que eu fosse. Aos putativos candidatos, aconselho-os a estarem preparados e a irem aos treinos ou então… e se não houver limitação de mandatos auto-limitem-se. Depois, é preciso não nos levarmos demasiado a sério mas ouvirmos os outros exactamente na medida oposta. A linguagem exprime emoções, aconselha e organiza os nossos conhecimentos e o nosso mundo. E isso não se faz sozinho. Passadas as sempre protocolares questões prévias, entramos na parte mais difícil da crónica. Até a mim me apetece escrever já os últimos parágrafos. Mas ficavam coisas importantes para dizer, quem sabe se as mais fundamentais. Pois bem, tudo se resume a coisas muito simples. Ideias, claras e distintas - com princípio, meio e fim - muita dedicação e uma boa equipa, no sentido mais moderno do termo. Um apelo constante a uma mais do que instintiva capacidade para sobrevoar. Uma discrição absolutamente religiosa nas questões que envolvem cada uma das pessoas - mesmo com as mais mesquinhas e maldizentes. Uma vontade firme em aplicar as boas ideias dos outros. Para além dos tradicionais suplementos profissionais dos docentes – enfermeiro, médico, psicólogo, assistente social, engenheiro, arquitecto, autarca, decifrador de ofícios e circulares e prospector dos grandes desígnios da nação – a pós-modernidade requer: analista e programador informático, especialista em informática na óptica do utilizador, gestor de sites, electricista e mecânico de impressoras e cabos de rede e um domínio fluente dos diversos idiomas usados nos quinze da união europeia e nos países do antigo leste europeu. Feita a súmula eis que nos confrontamos com os tão desejados últimos parágrafos. Vou contar-vos dois acontecimentos, passados num mesmo mandato. O primeiro no início e o segundo no fim. Façam as devidas interpretações sem deixarem de considerar a sua localização temporal. Estava eu a tentar arrumar a casa quando me confronto com uma porta, que se destinava a fechar um dos corredores, prostrada no chão. A avaria relacionava-se com a faixa lateral que suporta as dobradiças, que tinha sido arrancada através de um desajeitado e adolescente empurrão. Solicito a presença imediata da pessoa experiente neste tipo de arranjos e questiono-a sobre as possibilidades de salvação da dita. Resposta pronta: “isso não é um problema, não vai ser necessário comprar outra. Tem arranjo. Coloca-se uma faixa etária à volta da porta e prontos”. Uns anos mais tarde, estava eu a fazer um daqueles intermináveis telefonemas que são vitais para o futuro da instituição. Escolho sempre as horas de menor movimento e deixo a porta do gabinete estrategicamente encostada. Não estava de frente para a porta, mas sentia que alguém a abria e a voltava a fechar. A cena repetiu-se umas cinco vezes. Quando finalmente o telefonema acabou, dirigi-me ao hall e encontrei-o vazio. Nada a fazer. Encontro, horas depois, a professora de uma das turmas do 1º ano de escolaridade (a escola é uma básica integrada). Conta-me que tinha enviado um aluno brasileiro, de seis anos apenas, ao gabinete do conselho executivo, para solicitar umas informações imprescindíveis. O miúdo, depois de uns bons quinze minutos, regressou e com um ar contrafeito sentenciou: “o cara está barricado e não larga o telefone”.