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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

eles comiam tudo e não deixavam nada – parte I.

05.05.04
blueshark2.jpg Esta é uma história de arrepiar. Não me parece aconselhável a pessoas insensíveis ao sofrimento alheio. Eu sei que deveria dizer o contrário, deveria dizer que esta história não é aconselhável a pessoas muito sensíveis, ou então, que a história contém imagens chocantes. Aliás, basta ligarem o título do texto à imagem que aqui coloquei, para se compenetrarem dos perigos que vão correr. Mas não, o que eu quero é convocar os seres deste mundo e partilhar com eles o destino de uma das minhas memórias. Só tive uma pequena dúvida: se não seria um abuso usar a imagem de um tubarão numa história tão violenta - até porque sei, pela voz da ciência, que estes animais são normalmente inofensivos e que a sua ferocidade é a reacção natural de quem é habitado pelos medos do mundo. Como os humanos, afinal. Acredito que, no fim da história, serei naturalmente compreendido e absolvido. Parece-me palpitante começar uma narrativa desta maneira. Estou entusiasmado. Mas ainda antes de vos subir o pano não resisto a fazer uma declaração de princípios. Sempre que assisto a um discurso do tipo ministeriável para uma plateia de professores – e assisti a uma coisas dessas, recentemente, num congresso de professores de história – reforça-se, com veemência, a necessidade dos jovens treinarem a memória através dos exercícios de cálculo na matemática. Pergunto-me sempre: então e a história? Ficarão eles, os jovens, mais bem preparados para enfrentarem os domínios da razão e do afecto com a tabuada na ponta da língua ou com o conhecimento da história nos serviços de recepção da memória? Se tivesse que optar, escolhia a segunda via. E, para ilustrar esta minha excêntrica conclusão, vou dar-vos a conhecer como os encantos da infância podem ser ensombrados pelos relatos da investigação histórica.

eles comiam tudo e não deixavam nada – parte II

05.05.04
inhamb1.jpg A história passa-se em duas praias. Tohofinho, uma das belas praias de Inhambane, cidade moçambicana, e Foz do Arelho, a praia das Caldas da Rainha, cidade portuguesa. Entre uma e outra, assistiu-se ao esboroar de um encantamento que durou mais de 30 anos. Decorria o ano de 1971 - tinha eu os meus 11 para 12 anos – e vivia na cidade de Maputo, então Lourenço Marques, capital de um país conhecido por Moçambique. As férias escolares, principalmente as grandes, eram momentos de tempo interminável. Nesse ano, tive o convite de uns vizinhos chegados – um casal com um filho sensivelmente da minha idade - para ir com eles passar um período alargado –cerca de um mês dos três que essas férias nos abençoavam - à cidade de Inhambane. Era uma viagem de mais de mil kms. Com a autorização dos meus pais, lá partimos, num belo carocha, rumo à cidade da boa gente – designação escolhida belo célebre navegador Vasco da Gama. A cidade era suave. Lembro-me que tinha uma imponente catedral e que era habitada por imensos cidadãos indianos e paquistaneses. Tinha a marca – aparente ou não, vá lá saber-se - de uma pacífica coabitação entre essas culturas. Era rodeada por imensas praias. Bastava percorrer qualquer coisa como trinta quilómetros para que uma bela praia nos fosse presenteada. Nessa altura, a escolhida foi o Tohofo (lê-se tofo). Praia quente e muito bonita, de águas imaculadas, impossível de descrever. Local pouco habitado – um hotel, uma estância balnear de ferroviários e pouco mais. Todavia, a uns poucos quilómetros de se chegar ao Tohofo, aparecia uma picada para uma outra praia – só ao alcance dos todo o terreno – o Tohofinho. E é deste segundo lugar que a minha memória guarda imagens inesquecíveis. Nós, crianças, chegávamos ao Tohofinho pela praia. Centenas de metros percorridos, de modo pedonal já se vê, e sempre com a mente desperta para o aviso dos perigos mortais – o Tohofinho tem uma rebentação fortíssima e é um albergue de tubarões. Na fronteira destas praias, erguia-se um invulgar rendilhado rochoso. Na maré vazia, a natureza oferecia-nos por ali um belo complexo (digo complexo para ser moderno, já que aquilo não era mais do que um “simplexo”) de piscinas naturais. E foi numa dessas piscinas que tive a sensação única de tocar num tubarão vivo – pequeno é certo, já que esta história não vos é contada por um caçador de leões ou de elefantes. Guardo dessas férias a ideia de ter estado no paraíso. Passados 33 anos, e imaginem como cenário uma esplanada da não menos bela Foz do Arelho, praia de cidade das Caldas da Rainha, lia eu uma entrevista à historiadora portuguesa, Dalila Mateus. Um arrepio apoderou-se de todo o meu ser. A tese desta investigadora, apresenta argumentos para se considerar como um verdadeiro genocídio a presença portuguesa nos antigos territórios coloniais. E entre outros relatos, Dalila Mateus conta algumas atrocidades cometidas pela PIDE, e entre estas, refere a prática comum de se lançar aos tubarões do Tohofinho – em plena primeira metade da década de 70 do século XX - os presos políticos de pele negra. Em que águas límpidas terei eu tocado? Como foi isto possível?