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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

a realidade/parte I

27.05.04
Prometo hoje, dia 27 de Maio de 2004, um texto curto. Mas como a realidade nunca se decifra. as dificuldades são mais do que aceitáveis. São inaceitáveis. Também por isso, muitos de nós vergam-se na frente dela, da realidade. Já nem a relatividade de Einstein nos inspira, nem, tão pouco, o passo em frente da mecânica quântica nos ilumina. Cada um dos Homens condena o presente porque encara a sua realidade como o quadro que se apresenta nas mentes restantes. E a coisa amplia-se na incerteza do futuro, que, quando acentua a sua negritude, desespera cada um e quase todos. O evocar ancoradouro de trechos do passado, serve para aconchegar a retórica descrita ou imaginada e satisfazer as angústias do presente e as projecções do futuro. Desígnios humanos e estados da alma. Homenageio a idade do presente – a adolescência. Faço-o, por ser de todas a mais fustigada. Faço-o, porque, no dia de hoje, me apetece convocar a minha filha que vai terminando o seu tempo presente. Valeu-lhe isso: viver o seu presente, a sua realidade e o seu dia de hoje. Ouviu e voltou a ouvir – no meu tempo é que era. Ouviu mas resistiu. Se ouvisse e aceitasse a outra realidade como sua, vergava e desistia.

a realidade/parte II

27.05.04

DIA DE HOJE Ó dia de hoje, ó dia de horas claras Florindo nas ondas, cantando nas florestas, No teu ar brilham transparentes festas E o fantasma das maravilhas raras Visita, uma por uma, as tuas horas Em que há por vezes súbitas demoras Plenas como as pausas dum verso Ó dia de hoje, ó dia de horas leves Bailando na doçura E na amargura De serem perfeitas e de serem breves. Poema da Sophia de Mello Breyner Andressen.

a auto-estima/parte I

21.05.04
dicionario.jpeg Foi preciso o terceiro dicionário para encontrar a auto-estima. A sério. A coisa está complicada. Passei pelo dicionário mais à mão, o da Porto Editora, um só volume, e nada. Fui ao grande dicionário da língua portuguesa, do Círculo de Leitores, seis volumes, e nada. Não desisti. Recorri ao dicionário Houaiss da língua portuguesa, do Círculo de Leitores, seis volumes, seguramente os mais pesados e por isso ficaram para o fim, e lá encontrei: “qualidade de quem se valoriza, de quem se contenta com o seu modo de ser, e demonstra, consequentemente, confiança nos seus actos e julgamentos” A minha dúvida não estava tanto no significado, situava-se mais na questão da palavra composta o ser por justaposição ou por aglutinação. Ou seja, ter ou não ter hífen. Neste caso tem hífen, porque, e muito justamente, o sujeito até pode não ter muita estima por si próprio. Nada de novo, portanto. Mas para espanto meu, ouvi hoje, dia 20 de Maio do ano da graça de 2004, numa rádio nacional, uma notícia surpreendente: um conjunto de sábios comprovados, ao que julgo saber afectos à maioria que nos desgoverna, vai discutir o porquê da baixa auto-estima dos portugueses. Lembro-me que o painel incluía o inevitável Marcelo Rebelo de Sousa, que nessa noite e muito excepcionalmente não vai ler livro nenhum, a Clara Ferreira Alves, o Vasco Graça Moura, que em 4 anos de deputado europeu editou 64 livros incluindo as traduções e o António Borges, que julgo que seja um empresário bem sucedido. Espera-se que, depois da mesa-redonda (por justaposição porque existem mesas que não são redondas), a auto-estima dos conferencistas suba em flecha.

a auto-estima/parte II

21.05.04
carta.jpeg Dividi isto em duas partes. Para além de ter uma explicação para o problema, não me interessava estar, de maneira alguma, misturado com as personagens referidas na parte I. A coisa começou a desanimar, a meu ver, muito antes de 2002. Conhecem aquela ideia, dos cientistas da educação, que diz que a educação de uma criança começa 20 anos antes dela nascer? Aqui o problema é parecido. A diferença, é que neste caso começou dois anos antes, em 2000. Como o governo de então não teve maioria no parlamento, e como o frenesim da oposição era tão descarado, o processo de desânimo teve contornos nunca vistos. Vai daí, demitiu-se o primeiro ministro, coisa também nunca vista num país de lapas ao poder. Entram os novos governantes. Dão os sinais de inquietação que quem recebeu um poder inesperado. Escolhem como estratégia culpabilizar, por tudo e por nada, os seus antecessores. Ora, qualquer Hannah Arendt, Chantal Mouffe ou mesmo Nicolau Maquiavel, lhes explicaria que essa técnica deve ser usada apenas na dose certa. O seu exagero pode provocar uma factura elevadíssima. Atente lá na seguinte história e veja lá se percebe o que quero dizer: na tomada de posse de um lugar de poder, o antecessor deixa ao seu seguinte duas cartas fechadas e numeradas com 1 e 2. Diz-lhe que quando se visse muito aflito e sem saber o que fazer, que abrisse a carta com o número 1. Quando voltasse a ter uma situação de aperto, deveria socorrer-se da carta com o número 2. E assim foi feito. O novato nas funções, quando se encontrou na primeira situação de incompetência, abriu a carta 1 e leu: culpe o seu antecessor. Dito e feito. Nova situação de aperto e o recurso passa a ser a carta número dois que inscreve em arial 36 bold: escreva duas cartas. Se é que me fiz entender, rapidamente se conclui que metade do país entrou de baixa. Mas o padecimento é ainda mais exclusivo. Então não é que a garotice vai ao ponto de excluir 95% dos portugueses. Propala-se uma lei que considera que em cada departamento de uma instituição ou empresa não pode haver mais do que 5% de muito bons e 25% de bons. O resto é para excluir. Só uma gestão imberbe pode ter uma ideia destas. Prova provada que só resulta no primeiro ano e em 5% dos casos. Talvez só se aplique mesmo num governo que tem uma ideia destas. E é assim. Todos sabemos que as políticas inclusivas dão mais trabalho e demoram mais tempo. Todos sabemos que negociar pontos de vista cansa que se farta. Mas quem opta pela oportunidade de modo tão descarado, não pode, depois queixar-se da auto-estima dos excluídos. Os sábios estão de tanga porque os outros vivem para além disso. E, se calhar, alguns riem-se. Ah, desculpe esta coisa das percentagens mas não fui eu que as inventei.

idades

10.05.04
idades.gif Queiramos ou não, as nossas IDADES e os nossos nomes condicionam-nos em quase todos os dias das nossas vidas. Eleutério Jasmim Florido Sousa dos Santos Silva acreditava estar bem consciente do problema. Era um Homem com uma determinação fora do comum. Tudo na sua vida obedecia a um plano meticulosamente concebido. Ter um filho, por exemplo, era objecto de uma verdadeira preparação. Refira-se como ponto prévio que, Eleutério, provou a ciência anos depois, tinha inscrito no seu código genético uma irresistível tentação para contrariar as decisões de seu pai. Fatalmente, os seus filhos, herdariam esse costume. Está bom de ver que o nascimento do seu primeiro filho obedeceu a um plano digno de ser contado. O dia do nascimento foi escolhido em função do longínquo dia de entrada na escola. O nome, esse outro peso, encontrou-o no meio de uma divagação interessantíssima. Como Homem aprumado, recto, completamente independente e até inquestionável, defendia com unhas e dentes a tese do efeito nefasto que os diminutivos dos nomes exerciam sobre a autonomia das crianças. Afirmava sem hipótese de refutação, que tal era exclusivo da língua portuguesa, e originava um elevado grau de dependência dos cidadãos lusos. Eleutério, de tanto magicar, descobriu para o seu filho um nome impossível de diminuir – Olegário Silva. Não pensem que era só a economia dos nomes, não, era sobretudo a impossibilidade de se chamar alguém de Olegarzinho, ou Olegarinho, ou outro inho qualquer. Afirmaria assim, o seu filho, uma só IDADE no tempo todo. Foi, portanto, neste ambiente que o nosso Olegário Silva foi acrescentando dias e mais dias à sua IDADE. Foi sempre a criança mais azul que terá existido por aquelas bandas. Todos o achavam demasiado desenvolvido para a IDADE que tinha. Conta-se até que, de tanto usar sapatos com atacadores, era de uma precocidade, no seu atar, digna de realce. Ainda no pré-escolar e após a tradicional sesta das crianças, apertava não só os atacadores dos seus SAPATOS, como num abrir e fechar de olhos punha a turma toda de SAPATILHAS bem atadas. Imaginem o seu primeiro dia de escola primária. Uma pose mais direita e mais segura era pedir o impossível. Acrescentem-lhe então, um belo sapato de verniz com dois berloques, meias brancas quase até ao joelho, uns calções bermudas, com dobra, vincados de forma irrepreensível, camisa branca, casaco a condizer e papillon preto. Impressionante. O verdadeiro homúnculo, de que já nos falavam no século XVIII. Decorria tudo como decerto fora planeado. Mas as IDADES mudam, e de que maneira, as vontades. Chegava Olegário à IDADE da escolha profissional. Começava a experimentar os limites da verdadeira autonomia. Reparava, o nosso Olegário, num paradoxo fundamental para o desenrolar da nossa estória. Seu pai, que trajava sempre os melhores e mais elegantes fatos, desatava a usar aos fins de semana e feriados uma roupa um tanto esquisita. Não abandonava o fio de ouro ou mesmo a pulseira do referido metal precioso. Vestia um reluzente fato de treino e passeava alegremente pelas grandes superfícies de então. Que valente fonte de inspiração. Olegário ansiava afanosamente pelo dia da liberdade. E que tal inverter esta coisa toda? Decidiu, vou ser professor de educação física. Usaria, assim, o traje da liberdade. É claro que mesmo um leigo em desporto, pois uma criança de sapatos de verniz não pode ser, em regra, outra coisa, pode, por mais incrível que pareça, ensinar aquilo que nunca aprendeu. Olegário fará prova provada daquilo que acabo de afirmar. No meio de alguma desilusão familiar, embora os profissionais do desporto já tivessem ganho a maiorIDADE, lá conseguiu a sua carta de alforria. Não foi sem esforço que conseguiu fazer o curso. Sempre tinha um “handicap” poderoso. Foi até determinante a disciplina em que foi educado. Aprendeu nos manuais da didáctica da educação física que um bom professor demonstra sempre, e de forma adulta, os exercícios físicos a serem aprendidos. Que desafio. Era uma tarefa inatingível para quem não os exercitou na IDADE adequada. Acrescenta-se, que Olegário também não era talentoso. No entanto, começou a desbravar um novo conceito didáctico, consideremos mesmo um nova teoria da didáctica no ensino dos desportos. Foi recorrendo a inovadoras práticas pedagógicas. Nada exemplificava, mas os alunos quase tudo aprendiam. Era mestre para todas as IDADES. Em todos os desportos conseguia usar o seu método, e, não esqueçamos, as matérias a ensinar eram cada vez mais variadas. Eis que estava no auge da sua sabedoria. Mas não no da IDADE. Recebeu a carta da Caixa Geral de Aposentações. Já não o queriam para nada. De nada valia a sua exímia mestria. Ia para férias o resto da vida. Incompreensível para quem, como se disse, teria a mesma IDADE o tempo todo. Mas não era tudo. Chegou a casa. Abriu a porta e uma voz disse: “Já tens tempo para brincar avozINHO?”

risos e sorrisos

10.05.04
sidney.jpg As actividades desportivas estão cheias de risos. É conhecida a tradicional assembleia de risos provocada pela exibição televisiva dos gestos desportivos mais bizarros. Quando a atmosfera motora exige a perfeição ou o controle milimétrico do tempo, os proscritos são sempre premiados com uma valente salva de gargalhadas. Quem não se riu com a prova realizada pelo nadador africano nas Olimpíadas de Sidney? Sim, aquele que quase morria afogado nos primeiros vinte e cinco metros. Mesmo que se considere, posteriormente, que o jovem da Guiné-Equatorial tinha apenas treinado num charco com vinte metros de comprimento, ou que as suas condições de vida e de treino, estão a anos luz das dos outros concorrentes, esse foi um exemplo flagrante de que ou se ri ou não se ri. E daí só vem bem ao mundo. Mas mais do que rir, sorrir é a questão que agora nos interessa. Digo nós, porque se o meu caro leitor chegou até aqui, então, é só fazer mais um pequeno esforço e vá até ao fim da história. Não sei é se vale a pena. Deste e doutros dualismos viveu o pensamento ocidental. Muitos tentaram, da forma mais erudita possível, diga-se, ultrapassar esta fatalidade. Hegel, Marx e tantos outros, quiseram assegurar o princípio da simultaneidade. Todavia, ninguém foi capaz de encontrar a fórmula mágica. Seria arrasadora, por exemplo, a mestria docente capaz de ensinar em ambiente de pleno riso e sorriso. O riso é imediato, aparentemente ingénuo ou inocente. Rir às gargalhadas só está ao alcance do gesto espontâneo. Por isso, só depois de muito rir, alguém poderá questionar o significado do seu acto. O sorriso, por sua vez, é mais elaborado e claramente mais enigmático. Pode ser de encantamento mas também de troça. Quantas vezes não foi um simples sorriso que mudou o nosso mundo de angustias e preocupações? Quantas vezes não foi um simples sorriso que despertou e absorveu toda a nossa atenção? O sorriso mais saboroso é sempre aquele que ou se prolonga no tempo ou é o resultado de um tempo quase todo. Mas, mesmo no desporto, o sorriso também pode ser elaborado ou prolongado. Lembro-me de um jogo de basquetebol escolar, disputado por intervenientes já muito sérios e profissionais. No início da segunda parte, quando é suposto as equipas trocarem de campo, nada disso foi feito. O equívoco durou uns 30 segundos, mas só uns quantos deram conta. Seguiram-se momentos perfeitamente hilariantes. Colegas de equipa em perfeita discórdia não verbal. Um jogador insistia em meter a bola no próprio cesto, mas era impedido de forma decidida pelo colega esclarecido. Nunca mais o jogo foi o mesmo. Todos sorriam. Estabeleceu-se um clima de perfeita harmonia. Conseguiu-se um momento único de “fairplay”. As teias que o humor tece. Mas eu sou, confesso, um adepto fanático do sorriso. Principalmente, daquele que resulta de um tempo longo de espera, de um jogo de paciência. Privilegio, sem hesitações, os sorrisos provocados pela quebra de um dogma. Qual Galileu ao ouvir o anúncio papal na segunda metade do século xx. Sempre foram trezentos anos de espera. Desculpem fulanizar a questão, mas não resisto a contar-vos mais um dos meus sorrisos. Durante muitos anos, foi norma inquestionável, na Educação Física, a impossibilidade de se tocar nas bolas de Voleibol com os membros inferiores. Um dogma dos verdadeiros. Foram muitos os alunos excluídos, sim, excluídos das aulas por cometerem tal sacrilégio. Nem a leveza sonhadora da bola, acompanhada da sua cor tão branca como a da paz, demovia os docentes mais crédulos. Durante anos, vivi este problema seriamente. Acreditem. Não dar uns habilidosos toques com esta bola ou não poder jogar algo parecido com uma mistura de futebol e de ténis, foram das frustrações mais emergentes na minha carreira como aluno da disciplina de Educação Física. Ao usar, como docente, as bolas de voleibol nas aulas de futebol, por considerar que os meus alunos beneficiariam muito com isso, recebi sempre a incompreensão dos meus colegas de especialidade. Das discussões intermináveis, nunca consegui receber um apoio que fosse. Nem um mísero sorriso. Ao fim de uns anos, sorri. A entidade máxima que regulamenta o jogo decide-se pela possibilidade de se jogar com os pés. Considera mesmo esta decisão fundamental para a evolução do dito jogo. Já falámos de Galileu. E como falar do sorriso dos inquisidores?

o meu pé na lua

10.05.04

aldrin_pisando.jpg É uma história que atravessa o tempo, com três personagens do século passado e seguramente, (só pode ser), com o mesmo código genético. A avó, a sua filha e a neta. A avó nasceu em vinte e oito, a sua filha em cinquenta e nove e a neta em oitenta e seis. Apesar disso, o destino reservou-lhes as mesmas surpresas, traçou-lhes os mesmos obstáculos e, por mais incrível que pareça, em idades iguais. A avó, influenciada pelo imaginário das conversas dos adultos do seu tempo sobre as primeiras corridas de bicicleta para ciclistas masculinos, tinha um sonho quase obsessivo : vestir um par de calças e pedalar numa bicicleta de verdade. Ora, que coisa mais avançada. No Natal dos seus cinco anos, e apesar do mesmo pedido que seu irmão – uma bicicleta de verdade – apenas ele foi contemplado. A avó, o melhor que conseguiu foi um conjunto para o ponto cruz, com a agravante de, nessa época, a indústria dessas coisas para as crianças ainda ser incipiente, e portanto, o dedal era enorme e as picadelas das agulhas inevitáveis. Todavia, a sua filha, está mais que visto, desde logo se transformou numa ciclista de corpo inteiro. Contra ventos e marés, convém que conste. Mas há sempre um mas, que raio. Pois a sua filha, apesar dos seus quatro anos, não entendia porque é que a bicicleta do irmão tinha um quadro em forma de triângulo e o dela não. É que ambos vestiam um par de calções, comprados até na mesma loja de roupas para crianças, embora a cor... mas já lá vamos. Vivia-se então a época da primeiras emissões televisivas e os campeonatos de hóquei em patins preenchiam o imaginário das glórias lusitanas. Foi com o espanto de todos que a filha, então com cinco anos, pediu no Natal, "imitando" o irmão, o mesmo equipamento completo da selecção nacional do dito jogo. Que momento. Conseguiu receber um par de patins com uma bota muito branca mas para um pé 36 (era hábito nesse tempo, como em muitos outros, dar às crianças algo que só usariam quando dominassem a razão) acompanhado de um vestido de cor ROSA, cheio de folhos, cópia literal dos usados pelas meninas patinadoras que abrilhantavam os invisíveis cinco minutos dos intervalos dos jogos. Foi parar ao sótão onde ficou para a eternidade. Claro que a neta cedo patinou, de camisola rosa ou azul era indiferente. Bicicletas, teve sempre e mais que uma. Os tempos eram outros, tanto mudava a fralda das bonecas ou brincava às cozinhas com os meninos amigos, como se juntavam para dar uns pontapés na bola. Tudo estava já assumido. Para a neta, as tarefas domésticas, os passeios de carro e todas essas coisas tanto eram feitas com o pai como com a mãe. Mas, (não disse já que há sempre um mas ?), também vos digo que talvez ou ainda bem. Era agora o tempo das conversas intermináveis sobre os jogos de futebol. E como o código genético se manteve acordado eis que a neta começa a sonhar, até porque parece que tinha um certo jeito, pela prática é claro, nada de mais portanto; mas dizia, começa a sonhar em poder jogar umas futeboladas na escola com os amigos rapazes, e quem sabe, um dia jogar num estádio verdadeiro com um equipamento verdadeiro. Então, tinha a neta os seus cinco anos, estava no último ano do jardim de infância e surge a primeira oportunidade de concretizar o seu sonho. A "educadora" da turma decide que na festa de final de ano a turma da neta iria fazer um jogo de futebol entre as crianças e os pais. Ideia brilhante. Deixou todos em polvorosa. A noite anterior foi para a neta interminável. No dia grande, tal festa de natal já nossa conhecida, a "educadora" toma a sábia decisão – os rapazes, e só os rapazes, formariam a equipa, as raparigas seriam a "claque". Nem conto mais. Digo-vos só, que as encontrei num mês de Maio de 1999, as três, a avó a sua filha e a neta, sentadas num mesmo sofá. Estavam com o sorriso tão bonito que nem sei descrever, e viam um jogo na televisão. Era a final do campeonato do mundo de futebol feminino. Percebi tudo num instante. É certo que a neta não jogava, mas também quando o Neil Armstrong pôs o primeiro pé na lua não fomos todos que o fizemos?

ideologias

09.05.04
E é assim. Hoje apetece-me lançar uma definição para provocar a discussão. Será que o vou conseguir? Lançar uma definição é uma questão que nem se devia colocar, claro, porque as definições pertencem ao universo das ideias que se explicam. E se se explicam não se discutem. Discordo. Isso, discordo do que acabei de dizer. Tudo o que é irrefutável é falso. Bem, mas o problema é outro. O que me interroga é se haverá alguém que se interesse em discutir a definição de que vou pegar mão. Mas também podia dizer, é evidente, uma outra coisa qualquer. Pode-se sempre dizer uma outra coisa qualquer. Há mesmo quem diga que o importante é dizer. É como no fazer. Diz-se que o que verdadeiramente importa é dizer que se faz. Embora, nesse caso, e dado a efemeridade da vida moderna, a amargura do retorno seja tão veloz quanto a sua ascensão. Mas voltemos ao assunto. Poderia ter começado com a seguinte interrogação: será que as pessoas se interessam em discutir definições? Mas mais do que isso, e talvez o cerne da questão, é pensar que serão um ou dois os que vão ler este pequeno emaranhado de palavras. E um deles sou eu. Desgraça. Mas não se perde nada em tentar. Aliás, nunca se perde nada por tentar. Não conheço uma alma sequer, e vejam bem que eu digo alma e não corpo, que tenha dito que se arrependeu por ter tentado. Ideologias. Ah, é esta a palavra de cuja definição vou pegar mão. Definição de ideologia: conjunto de interesses inconfessáveis. Ainda bem que fica aqui marcada a hora a que escrevi esta pequena loucura. Digo-o assim, porque perdi a homilia do professor Marcelo em plena televisão. Ideologias que assentam na definição proposta?

remédios escolares

09.05.04
remédios.jpg Ciclo preparatório. Registo da patente: início da década de 70 com a reforma “Veiga Simão”. Composição: dois anos de escolaridade. Indicações terapêuticas: preparar a brusca transição entre a escola primária e a escola secundária. Contra-indicações: não são conhecidas. Precauções especiais de utilização: devido ao seu autorizado sucesso, tem tendência para se arrastar aos ciclos antecedentes ou precedentes. Prazo de validade: apesar da sua constante mudança de nome não tem prazo de validade. Interdisciplinaridade. Registo da patente: acredita-se que teve início da década de 80, mas sem registo da patente devido à provisoriedade dos diversos governos de então. Composição: a plenitude dos saberes integrados. Indicações terapêuticas: eliminar todos os bloqueios que impedem a comunicação entre os diversos saberes. Contra-indicações: o seu tempo de eficácia é cirúrgico (julga-se que o medicamento é desconhecido por quem se dedica a fazer programas escolares). Precauções especiais de utilização: quando utilizada de forma demasiado optimista pode provocar sérias indigestões aos alunos de todos os escalões etários. Prazo de validade: resiste a várias intempéries – provoca inúmeros seminários e colóquios sobre a problemática dos prefixos, inter, trans, pluri e multi?; rapidamente pode mudar de nome e transformar-se, ainda, em algo compulsivamente quase obrigatório (área escola) ou mesmo obrigatório (área de projecto). Pedagogia não directiva. Registo da patente: registada pelo psicoterapeuta Carl Rogers, apenas começou a ser falada em Portugal após a reforma “Veiga Simão”. Composição: relações plenas e empáticas. Indicações terapêuticas: elimina conflitos e contradições e dispõe para a aprendizagem como nenhuma outra corrente pedagógica. Contra-indicações: só pode ser aplicada a um aluno de cada vez; Precauções especiais de utilização: quando aplicada a mais do que um aluno tem consequências desastrosas – entra-se e sai-se da sala de aula sem se perceber onde estava o do(c)ente; Prazo de validade: é utilizada todos os dias pelos menos atentos à validade dos medicamentos – mas o autor declinou a responsabilidade no acto de registo da patente. Magistercentrismo. Registo da patente: as suas origens perdem-se nas memórias do tempo; em Portugal teve os maiores laudos doutrinários durante o “Salazarismo”. Composição: relações inexistentes entre o mestre e os outros. Indicações terapêuticas: alimenta a inquestionável e douta sabedoria do mestre; ideal para memorizar os afluentes dos rios ultramarinos e os inúmeros apeadeiros dos caminhos de ferro dos continentes e das ilhas adjacentes. Contra-indicações: não recomendado para estados de patologia democrática. Precauções especiais de utilização: deve administrar-se nos trajes mais cinzentos e formais e nunca, mas nunca, o administrador deve abdicar do ar mais austero e sisudo. Prazo de validade: desconhecido. Plano da turma. Registo da patente: equipa coordenadora dos programas escolares na reforma “Roberto Carneiro” em 1989. Composição: plano miraculoso que descreve o que foi ensinado. Indicações terapêuticas: permite a cada docente conhecer, necessariamente, o que foi ensinado, no ano imediatamente anterior, em cada uma das disciplinas; Contra-indicações: provoca a desflorestação do país e a entropia no sistema das arrecadações das secretarias escolares ao produzir 3 biliões 430 milhões 348 mil e 986 folhas de papel de relatórios pedagógicos. Precauções especiais de utilização: deve administrar-se em dois parágrafos com oito palavras cada um. Prazo de validade: 24 horas. Autonomia e gestão das escolas. Registo da patente: equipa do Ministério da Educação conduzida pelo Ministro Marçal Grilo. Composição: sistema complexo de órgãos de decisão. Indicações terapêuticas: estabelece regimes democráticos eficientes e plenamente participados, em que a repetição das agendas das reuniões consagra o seguinte princípio pedagógico: repetir para aprender; respeitando a posologia e tomado de forma consistente, transforma qualquer escola num espaço organizativo verdadeiramente português – muitos patamares de decisão com órgãos e mais órgãos convenientemente dispersos; Contra-indicações: em estabelecimentos de ensino com menos de 1000 docentes, 300 não docentes e 10000 alunos, tende a tornar-se num processo em que as mesmas pessoas encontram-se vezes sem conta para discutir os mesmos assuntos. Precauções especiais de utilização: sempre que se verifiquem as contra-indicações indicadas, todos devem fazer, o mais possível, de conta. Prazo de validade: depende da capacidade de resistência às doenças. Gestão flexível dos currículos. Registo da patente: equipa do Ministério da Educação conduzida pelo Ministro Marçal Grilo. Composição: sistema complexo que pretende reduzir o número de aulas dos alunos. Indicações terapêuticas: a sua principal finalidade terapêutica é permitir aos alunos o estudo acompanhado e, finalmente, realizar projectos com integração de saberes. Contra-indicações: para respeitar o aforismo lusitano, em que o que se faz em dois anos pode-se fazer em três ou em quatro, este medicamento inclui as disciplinas todas nos anos todos (a saber, sequência disciplinar) – nem que seja com uma aula semanal por disciplina. Precauções especiais de utilização: tomada em doses elevadas, pode obrigar alunos dos 2º e 3º ciclos a terem que frequentar aulas nocturnas para completarem todo o currículo flexível. Prazo de validade: espera-se a eternidade considerando o seu carácter flexível. Avaliação contínua. Registo da patente: foi registada, em 1974, por Gilbert de Landsheere, docente de docimologia na Universidade de Liége; era correcto defendê-la em Portugal a partir de 1976. Composição: sistema composto, entre outros, por diversos momentos e tipos de avaliação . Indicações terapêuticas: a sua principal finalidade terapêutica é garantir solidez a todo o edifício escolar; garante aos docentes horas e mais horas de trabalho. Contra-indicações: medicamento concebido para eliminar os exames escolares sujeita, no entanto, - e na maioria das vezes- os alunos a frequentes exames mensais em todas as disciplinas dos currículos; Precauções especiais de utilização: respeitada na integra a posologia pode provocar curvas de Gauss de valor médio infinito. Prazo de validade: como não foi concebida para ser aplicada nos diversos sistemas escolares também não se estabeleceu o prazo de validade. Taxonomias. Registo da patente: taxonomia do domínio cognitivo registada por Bloom em 1948; taxonomia do domínio psicomotor registada por Harrow em 1972; taxonomia do domínio afectivo registada por Krathwohl em 1966; a sua divulgação em Portugal ocorreu, principalmente, a partir de 1976. Composição: listagem hierarquizada dos comportamentos humanos. Indicações terapêuticas: ilumina a prática docente reforçando a arrumação dos alunos em gavetas (em linguagem científica – níveis de aprendizagem). Contra-indicações: à sua medicação deve ser associada um anti-depressivo, pois os medicados perdem-se nas listagens hierarquizadas, porque na maioria das vezes é necessário um ano lectivo para caracterizar um só aluno. Precauções especiais de utilização: transforma-se facilmente em dogma e origina autênticas perturbações na percepção docente, ou seja, os docentes esquecem-se com facilidade da presença dos alunos. Prazo de validade: não passou da fase de laboratório. Objectivos. Registo da patente: Viviane e Gilbert de Landsheere em 1976; em Portugal divulgou-se no mesmo ano. Composição: listagens de indicadores, digo, de conteúdos, digo de competências, apresentadas com a conjugação do verbo no imperativo, digo, no presente do indicativo, digo, no pretérito perfeito do indicativo. Indicações terapêuticas: ordena a prática docente, clarifica o que tem que ser ensinado e elimina o que tem que ser aprendido. Contra-indicações: pode provocar sobredosagem se tomado em associação com concorrentes ou derivados (por exemplo - conteúdos, indicadores, competências, gerais, específicos, terminais, operacionais, iniciais...). Precauções especiais de utilização: se não está muito seguro não o utilize. Prazo de validade: três séculos e 23 dias. Propedêutico. Registo da patente: VII Governo Constitucional Português em 1978. Composição: conteúdos multimédia da idade média. Indicações terapêuticas: entretém os jovens enquanto as universidades não abrem; prepara os jovens para o século XXI. Contra-indicações: tomado sem vigilância médica, pode provocar alterações filogenéticas; nessas circunstâncias, alguns jovens podem começar a indiciar o nascimento de uma pequena cauda ou sentirem pequenas saliências no topo da cabeça que, nos casos testados, se supõe serem umas intrigantes antenas. Precauções especiais de utilização: exige a máxima concentração e implica a utilização de televisores sem comando à distância. Prazo de validade: três anos, salvo seja. Desenvolvimento pessoal e social (DPS). Registo da patente: equipa coordenadora dos programas escolares na reforma “Roberto Carneiro” em 1989. Composição: 3 mg de creme de flores de harmonia, 4 mg de extractos de pétalas de entendimento e 3 ml de soluto de sódio de resolução de todos os problemas. Indicações terapêuticas: desenvolve os jovens pessoal e socialmente; prepara os jovens para a sua vida pessoal e social; ajuda os jovens a encarar o futuro, quer na vertente pessoal quer na vertente social; e é, ainda, totalmente eficaz no desenvolvimento pessoal e social dos jovens com problemas; Contra-indicações: pode provocar sérias perturbações na normal e abençoada aplicação da concordata. Precauções especiais de utilização: não pode ser utilizado em alternativa à educação moral e religiosa católica. Prazo de validade: 50 minutos. Escola cultural. Registo da patente: não tem a patente registada, mas podemos considerar o ano de 1984 como o momento da sua divulgação em Portugal. Composição: práticas culturais intensivas; hábitos culturais com elevado grau de contágio; resumos concentrados do manual “tudo é cultura”. Indicações terapêuticas: estimula, de forma irreversível, os apetites culturais de toda uma nação em apenas meia geração; estimula a ideia que a produção cultural requer apenas 10 por cento de esforço e 90 por cento de inspiração; Contra-indicações: cria a sensação de que tudo é mesmo cultura; tomado nas doses certas, pode provocar, anos depois, o aparecimento de incómodas erupções cutâneas com o nome científico de “músicas de uma nota só” (outros investigadores optaram pela denominação “pimba”). Precauções especiais de utilização: só pode ser vendido mediante receita médica; só deve ser receitado após, o suposto utilizador, ter frequentado 254 colóquios, 367 seminários e ter obtido 196,45 unidades de crédito devidamente certificadas pelo conselho científico de uma qualquer faculdade da universidade técnica de Lisboa. Prazo de validade: não se chegou a estabelecer. Sociometria. Registo da patente: os estudos nesta área foram iniciados por Northway em 1967 e introduzidos em Portugal em 1972. Composição: matrizes sociométricas, gráficos sociométricos, diagramas sociométricos, sociogramas sociométricos, folhas pautadas sociométricas e canetas sociométricas. Indicações terapêuticas: indica, com clareza, qual é o aluno em que o docente se deve apoiar em momentos de aperto; permite conduzir à porta de saída os alunos problemáticos, com a certeza antecipada da popularidade do seu (docente) gesto. Contra-indicações: para o tratamento dos dados são necessários conhecimentos básicos de mecânica quântica. Precauções especiais de utilização: em humanos dos 0 aos 18 anos tem que ser feita uma verificação horária considerando as naturais oscilações das suas preferências. Prazo de validade: com toda a segurança, meia hora. Créditos. Registo da patente: em 1992 pela equipa do Ministério da Educação conduzida pelo Ministro Roberto Carneiro. Composição: três folhas A4 devidamente encadernadas, sendo a primeira destinada à capa e a última preenchida pelas unidades de crédito devidamente certificadas. Indicações terapêuticas: estimula o desempenho escolar dos docentes; justifica as avultadas despesas com os diversos programas de formação contínua financiados pela Europa dos quinze. Contra-indicações: não é recomendado a docentes exigentes e ou insatisfeitos; Precauções especiais de utilização: devido ao grande volume de matérias docimológicas nele contidas, exige-se a sua apresentação, impreterivelmente, 60 dias antes do fim do prazo de validade. Prazo de validade: um escalão. Perfil do aluno. Registo da patente: equipa coordenadora dos programas escolares na reforma “Roberto Carneiro” em 1989. Composição: registo preciso e rigoroso do estado do “produto aluno” somados x anos de laboração. Indicações terapêuticas: impede desvios acentuados nos complexos processos de apreciação global dos alunos; facilita a criação de mecanismos rigorosos de análise transversal do desempenho de humanos sujeitos ao agressivo contexto escolar. Contra-indicações: pode provocar ligeiras dores de cabeça quando verificada a sua articulação com os programas escolares das disciplinas dos anos terminais de ciclo. Precauções especiais de utilização: não deve ser aplicado a alunos muito curiosos nem a alunos que se posicionem de frente ou de costas. Prazo de validade: um ciclo escolar, precisamente.

30 horas escolares

09.05.04

 

 

 

 

 

 

 

Primeiro que tudo, e convém esclarecer, 30 horas é uma questão pessoal. Não consigo resumir nada a tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me nas horas quase todas. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Adoro elaborar as ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

 

Falar das 30 (ou das 32, ou das 34, ou, mesmo, das 36) horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Educámos, educamos e educaremos de acordo com a pressa dos tempos que, entretanto, correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

 

Tantos – e quase todos - querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de mais tempos escolares. Desde as associações científicas de professores aos sindicatos de docentes, passando pelos membros dos governos ou das respectivas oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo.

 

Os argumentos repetiram-se. Até podemos imaginar um lapidar diálogo. Diz o docente da disciplina x: “Têm que reduzir o número de aulas escolares, nem sei como é que os alunos aguentam isto”. Responde o docente da disciplina y: “Sim, sim. Mas nas aulas da disciplina z, pois nas minhas, ou nas tuas, seria o caos, não te esqueças”.

 

Tarefa inumana para o decisor. Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará, cada vez mais, uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos –muitos e intermitentes- períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem (entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. Mas não compliquemos). A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade. A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

 

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias). É tudo curto, rápido e preciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes. Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós. Um postulado para a eternidade, digo eu.

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