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Correntes

em busca do pensamento livre

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em busca do pensamento livre

os privilégios que interessam

26.01.06

ella.jpg Estava uma noite fria, ontem, quarta-feira. Chegámos ao estacionamento mais próximo da lavandaria do hospital termal e quase que não havia carros. Eram nove horas e o teatro começava às nove e trinta. Entrámos na sala - éramos uns quinze, se tanto -, uns minutos antes do começo da peça e ficámos no centro da primeira fila. Os actores já estavam no palco. El(l)a, a mãe, já muito velha, estava silenciada em frente a um televisor - a mesma causa para o parco número de espectadores? - e calada ficaria até ao último minuto da peça. No fatídico minuto não falou, deu um grito. Ele, o filho, estava sentado na cama e esperava que nos calássemos. Deparámos com um fascinante cenário: a casa toda numa assoalhada. A parede mais próxima de nós era constituída por uma rede de capoeira. El(l)a, a mãe, a actriz Clara Joana, teve uma vida desgraçada: uma infância de muita pancada; vendida pelo pai ao noivo, passou por muitos hospitais psiquiátricos até acabar os seus dias na capoeira da irmã. Ele, o filho, o actor Fernando Mora Ramos - que está soberbo e segundo Ricardo Pais, director do Teatro Nacional São João, no Porto, é o seu melhor trabalho - não tem existência autónoma e relata-nos a vida da mãe na primeira pessoa. Os dois fazem a peça. Ela calada, ele em monólogo e preprando um café. Também alimentou as galinhas e lavou umas peças de roupa. A encenação tem uma beleza muito profissional. A hora e meia passou como se de quinze minutos se tratasse. Um verdadeiro enigma, esta coisa do tempo. Repito. A peça "Ella" (1970) é uma produção do Teatro da Rainha com encenação de Fernando Mora Ramos e texto de Herbert Achternbusch. Está em cena no lindo espaço que é a lavandaria do hospital termal, nas Caldas da Rainha. Um privilégio.