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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

do meu vizinho e da rua

23.08.15

 

 

 

 

 Maputo, 7 de Setembro de 1974.

Encontrei a imagem aqui.

 

 

 

O meu vizinho era em tudo insuportável: racista, machista, fascista, mal-educado, brejeiro e por aí fora. Tinha três filhos: um da minha idade, outro dois anos mais novo e um terceiro uns quatro anos mais velho e um verdadeiro fora-da-lei. Das raras vezes que entrei na casa dele saí com a convicção de que não voltaria. Os filhos eram meus amigos, principalmente o da minha idade.

 

Estávamos em Setembro de 1974 e a Frelimo tinha iniciado pelo norte a jornada do "Rovuma ao Maputo (a capital, bem a sul)" que finalizaria o poder português através de um Governo provisório que prepararia a independência em Junho de 1975. Tinha uns 16 anos e despertava para o tema de todas as horas e discussões: a política. Nessa altura, o exército português depôs as armas e iniciou com os guerrilheiros da Frelimo uma força mista que patrulhava Maputo. As pessoas como o meu vizinho detestavam a mistura.

 

Em 7 de Setembro de 1974 a baixa da cidade estava cheia. Ao que confirmei depois, um automóvel passeava pelas ruas arrastando uma bandeira portuguesa. Gerou-se um tumulto que originou o "Movimento Moçambique Livre". Foram tomados o Jornal de Notícias e a Rádio Clube de Moçambique. Durante dois a três dias transmitiram-se comunicados a favor do movimento e contra a Frelimo. Instalou-se a violência. As populações moçambicanas dos subúrbios viraram e queimaram carros com pessoas lá dentro e invadiram as ruas da capital armadas com catanas. Alguns portugueses agiram como snipers e atingiram os "invasores". Foram dias de terror. Fiz três coisas de que me recordo bem: morava perto do hospital e assisti à chegada de várias camionetas de caixa aberta com cadáveres, refugiei-me em casa e, no segundo dia, fui com os meus pais ver o que se passava na Rádio Clube de Moçambique. Vi aí um dos chefes do movimento a discursar e a ser fortemente aplaudido: era o meu vizinho.

 

Dito tudo isto para relembrar uma coisa óbvia: da rua só saíram ditaduras.

 

Vi isso naquela altura (embora aquele movimento tenha durado três dias), já o tinha lido na História e confirmei-o ao longo dos anos com tantos lutadores a estalarem o verniz por coisas que "nada" tinham a ver com política.

 

Como fazer então a "revolução" sem ser a partir da rua (ou antes que parta da rua) é o grande desafio da sociedade portuguesa.

 

 

 

 1ª edição em 28 de Outubro de 2013.

4 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Anónimo

    28.10.13

    Os extremos tocam-se e chocam-se! Depois entram em acção os partidos do arco da governação com pele de cordeiro e falinhas mansas, e por fim quem se lixa é o povão .
  • Sem imagem de perfil

    Vasco Tomás

    29.10.13

    Paulo
    É pena sabermos tão pouco de Moçambique, tanto da atualidade (política, económica, social, cultural) como do seu passado. Excepto das trivialidades costumeiras que pouco nos dizem e que pouco ajudam a que dirijamos a nossa atenção para o povo moçambicano. E há os seus escritores, os seus poetas, os seus artistas, que o serviço público poderia tornar mais visível e presente na nossa vida. E há o trabalho de todos os que, no terreno, procuram trazer Moçambique para patamares de mais desenvolvimento social e de crescimento económico.
    E quando ouvimos falar do conflito que está sempre latente entre a Renamo e a Frelimo ficamos surpresos, pensando que isso eram águas do passado sem retorno. Mas não. É a minha (nossa?) ignorância que vem à tona. Assim, Paulo: vai falando de Moçambique, que tens na alma, e assim contribui para a sua/nossa descoberta.
  • Obrigado Vasco.

    Gostava de usar mais este registo, mas os tempos têm-me ocupado muito a escrita noutros registos.

    O "eterno" conflito entre a Frelimo e a Renamo tem picos. Já foi mais político do que me parece agora.

    Apesar de Moçambique não ter um subsolo tão rico para os negócios como outras regiões de África, existem áreas muito apetecíveis que geram conflitos.

    Ao que me dizem, a corrupção também por ali faz das suas; naturalmente. Veremos como distribuem os interesses e se chegam a uma qualquer plataforma mais pacífica.

    Anda pela rede um texto muito recente de Mia Couto sobre o estado da sociedade moçambicana.

    http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=3498445&seccao=CPLP
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