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Correntes

em busca do pensamento livre

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expectativas

28.01.06
D. Quixote.jpg Dei comigo a comparar o que senti com dois espectáculos que vi ultimamente: a peça “Ella”, levada à cena pelo Teatro da Rainha - de que já dei nota por aqui - e o D. Quixote, interpretado pela Companhia Nacional de Bailado. Sei que não se deve comparar teatro com bailado, mas pode-se falar dos nossos gostos e da nossa sensibilidade. E entre estes espectáculos, existe um mar de diferenças; desde logo de meios - a lavandaria de um hospital termal e o Teatro Camões -; no número de profissionais: de um lado uma meia dúzia e do outro, eu sei lá, a Companhia Nacional de Bailado e a Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São Carlos, dirigida pelo Maestro, James Tuggle, ambas em peso; no número de espectadores: uns quinze e uma sala completamente cheia com bilhetes comprados com meses de antecedência. Duas realidades de uma mesma vontade. A primeira exaltou-me o espírito e a mente, a segunda desiludiu-me. Dito isto, podemos falar de duas grandes produções. A sério. Duas grandes produções; a primeira, de um texto pouco conhecido e traçado pela miséria de muitas condições humanas; a, segunda, confirmou a relação próxima que existe entre dois clássicos, da literatura e do ballet. Direi, a propósito, que o bailado até é minha arte performativa de eleição: seduz-me a sua intensa totalidade. No entanto, fico-me mais pelo bailado moderno. Agora, sem a extraordinária companhia do ballet gulbenkian, ficámos um pouco órfãos. Por isso, ou talvez não, quando decidimos ir ver um “must” da dança clássica, esperávamos uma parte da noite bem passada. Também, o mês de dezembro tinha sido muito quixotesco: não só foi publicada mais uma muito discutida tradução da obra, como o canal dois da televisão portuguesa nos tinha oferecido uma série espanhola, soberba, sobre a obra. A coisa prometia. Não sei o que aconteceu. Não quero ser injusto, mas acho que o desempenho do coreógrafo escolhido, o turco Mehmet Balkan, esteve muito longe do brilhantismo esperado. Que raio, com aqueles profissionais todos... e ainda com o privilégio de ter a presença do Carlos Acosta, primeiro bailarino do Royal Ballet, que teve como “partenaire” Ana Lacerda, bailarina principal por excelência da CNB, exigia-se muito mais. A combinação entre as danças de folclore espanhol e a dança de tradição clássica não resultou: esta associação, teve momento sonoros que nos parecia vindos de uma banda de coreto de uma orquestra de bombeiros voluntários, com todo o respeito que esses músicos merecem. Deixou a desejar. Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.