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Correntes

em busca do pensamento livre

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pagar para trabalhar

11.03.13

 

 

 

 

"Pagar para trabalhar" é o título de um texto interessante que li no Público de Domingo e que encontrei no facebook na página de um dos autores.

 



MANUEL JOÃO RAMOS E RUI ZINK
Público, Domingo 10 Março 2013 

 

 


"Tiago regressa cansado a casa dos avós mas com um sorriso no rosto. É o seu primeiro dia de trabalho em muitos meses. Sentado no colchão de praia que lhe serve de cama desde que os pais devolveram a casa ao banco, sonha já em alugar finalmente um quarto. O Tiago não é caso único. Como outros jovens da sua geração, acredita que descobriu a solução para o desemprego crónico: decidiu pagar para trabalhar. E, tal como o seu patrão, agradece a oportunidade.

Os jovens portugueses, dos quais 45% nunca experimentaram as dores e alegrias do trabalho, estão fartos de ouvir a geração dos seus pais queixar-se dos cortes salariais, aumento de impostos, insegurança no emprego, da facilitação dos despedimentos. Os jovens não percebem o que isso é. Querem apenas trabalhar, contribuir para o desenvolvimento do país.

Sentem que está em curso uma guerra surda de gerações. Pouco lhes importam as minudências do 14.º mês, TSU, duodécimos. O facto é: os mais velhos têm emprego e eles não. Para eles, os velhos empregados só vêem interesses mesquinhos à frente do nariz, a árvore e não a floresta. Mais: o futuro é dos jovens, e para estes o tempo dos privilégios do emprego seguro (ainda por cima remunerado) nunca existiu.

Mais que ninguém, eles sabem que não há trabalho para todos. Que um velho empregado está a impedir o emprego de um jovem desempregado. O trabalho tornou-se um valor em si, um objecto de luxo. Por isso mesmo o trabalho deve custar cada vez menos. Portugal não pode ser excepção: estamos perante uma nova tendência internacional. Trabalhar por cada vez menos é o preço a pagar para ter um lugar ao sol. Neste novo paradigma económico, o custo do trabalho deve tender não para o zero relativo mas para o zero absoluto, na proporção inversa da sua escassez. Isto significa que:

1) Não havendo trabalho para toda a gente, a sua falta deve ser repartida equitativamente. Quem trabalha deve estar grato por ter trabalho. O espanto não é, então, que quem trabalhe seja mal pago. O absurdo é que quem ainda tem trabalho queira ser pago.

2) Sendo o trabalho um valor em si e um bem escasso, é o direito a usufruir desse privilégio que deve ser pago, não o contrário.

O custo do trabalho tem de baixar, já o disseram vários especialistas. Mas, como de costume, isso é apenas panaceia temporária, remendo a disfarçar a verdadeira essência do problema. A questão é mais estrutural: é preciso dar ao trabalho o seu verdadeiro e justo valor. É verdade que há já muita gente a trabalhar a título gratuito. Os voluntários em campanhas de solidariedade, as famílias que são porteiras a troco de comida, os estagiários que dão aulas nos liceus em troca de uma melhor qualificação profissional. Mas isso não chega. É preciso coragem política para assumir que não é possível, por muito mais tempo, ter trabalho, pago... ou mesmo gratuito. Não há almoços grátis. Qualquer economista o sabe. Por outras palavras: as pessoas têm de compreender que não podem por muito mais tempo trabalhar sem pagar por isso.

Jovens como o Tiago olham para Belmiro de Azevedo ou Pinto Balsemão e invejam-nos. Por que continuam estes idosos a trabalhar, quando podiam estar a jogar golfe numa ilha paradisíaca, ou mesmo em Tróia? Ora, os jovens desempregados sabem o que a maior parte das pessoas ainda não sabe: que o verdadeiro luxo é trabalhar, não é descansar.

Num futuro cada vez mais tecnológico, no qual a presença física seja cada vez menos necessária, o verdadeiro luxo é ter trabalho. Por isso, portugueses, preparem-se para o que é justo. Preparem-se para um Portugal melhor. Preparem-se para um Portugal onde, a bem do progresso, vão ter de pagar para trabalhar."

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