Em busca do pensamento livre.
Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

kubrick.jpg

 
 
Há filmes que nos deixam uma marca indelével. Não vou estar com mais rodeios: venho fala-vos de “"eyes wide shut"” - na feliz tradução para português, ficou “"de olhos bem fechados”" - o último filme do genial Stanley Kubrick (1928 - 1999).

Stanley Kubrick era norte-americano, apesar das sua obras mais conhecidas terem sido produzidas em Inglaterra e de toda a sua filmografia escapar à “ideia” "mainstream" de Hollywood.

O seu cinema dependia muito da componente visual. Julgo que a sua primeira longa metragem foi "“fear and desire"”, onde Stanley Kubrick fez de tudo: produtor, realizador, operador de câmara e ainda aquele incrível trabalho de pegar nas horas e horas de cenas e construir um filme.

Seguiu-se o seu primeiro grande êxito, "“glória feita de sangue”", onde retrata os limites, entre o patriotismo e a demência, próprios da guerra. A exibição esteve proibida em França - a acção passa-se nesse país, vejam lá - mas Stanley Kubrick nunca cedeu.
Seguiram-se "“spartacus"”, "“lolita”" - que lhe granjeou o epíteto de cineasta imoral e de ser um perigoso extremista - "“doutor fantástico"” e "“2001 - odisseia no espaço"”, que é para Steven Spielberg o maior clássico de sempre da história do cinema.

Tem novamente um momento alto com “"laranja mecânica"”, um filme inesquecível. Esteve proibido em muitos países. Recordo-me bem de o filme ser para maiores de dezassete anos e de o ter ido ver com dezasseis e com receio de não poder entrar. Só ao rever o filme, uns anos depois, fiz uma leitura mais aproximada das intenções do realizador.

Sucederam-se "“barry lyndon"”, “"o iluminado"”, "“nascido para matar"” e “"eyes wide shut"”. Entre os dois últimos filmes, mediou um espaço de doze anos - Kubrick estava muito doente - , e o filme de que vos falo ficou concluído exactamente no ano da morte do cineasta.

Sabe-se que a elaboração mental de “"eyes wide shut”" foi um processo longo e muito minucioso. Tudo foi tratado ao mais infímo detalhe. Eu diria que “"2001 - odisseia no espaço"”, “"laranja mecânica”" e "“eyes wide shut”" constituem a sua trilogia de clássicos.

A história de“ "eyes wide shut”" anda à volta da vida de um casal de psiquiatras que se envolve em jogos sexuais. Por altura da estreia, alguns críticos de cinema escreverem que dentro de 20 ou 30 anos esta fita será considerada como a obra prima do cinema. Steven Spielberg teve a mesma opinião. Aliás, Spielberg acompanhou Stanley Kubrick durante a produção e a realização do filme. Julgo que participou também na montagem, mas não tenho a certeza. Perece-me que não é necessário esperar tanto tempo. Basta vê-lo.

Devo confessar, que o filme tem um aspecto menos positivo: tem três horas de duração. Talvez resida aí o principal motivo para a sua difícil aceitação na dobragem de milénio. Estou convencido que se Stanley Kubrick o tivesse montado em melhores condições de saúde, teriamos uma obra genial na mesma mas com menos tempo de película cinematográfica. Impressões que nada têm de certezas, claro. Nunca li nada sobre isso e até posso estar a cometer uma enorme heresia.

Mas de que trata o filme, afinal? Da história que já vos falei e de como é possível desejar ardentemente o que se tem. Isso mesmo. Num tempo em que as relações amorosas têm de ser efémeras para acatarem o dogma vigente, Stanley Kubrick filma o contraditório e acorda-nos.

O filme começa com o nu menos gratuito da história do cinema. A mulher - uma psiquiatra, a actriz Nicole Kidman - tira um vestido, de costas para a câmara, e o marido - outro psiquiatra, o actor Tom Cruise - responde, sem olhar para a companheira, quando ela o interroga acerca da beleza do seu penteado.

Ela diz-lhe que ele nem olhou para ela, e ele, sorri, e diz que não é necessário porque ela está sempre bonita. Sucedem-se três horas de um constante interrogar da condição humana, onde se assiste ao permanente convívio das ideias sobre o que é certo e o que é errado.

Estas faces da dialéctica do comportamento dos humanos, convivem e misturam-se a um ritmo alucinante. O génio de Kubrick tem, também aqui, um registo muito profundo.
 
Brilhante. É um filme inteligentíssimo e belo. Sem igual.




publicado por paulo prudêncio às 08:16 | link do post | comentar | partilhar

10 comentários:
De anónimo a 3 de Fevereiro de 2006 às 01:08
Esse filme faz parte da minha estante top+ cá em casa...um filme de culto sem dúvida.a maior parte das pessoas ke foram ao cinema ver o filme não o entenderam ..foram pk alguém lhes disse ke a Nicole aparecia nua e ao fim da 1º meia hora já bocejavam...já atendiam o telemóvel e já mandavam mensagens...essa é a triste realidade...(eu vi isso a acontecer.)
Na terça feira fui ver o Match Point...outro facto surpreendente : a sala estava quase esgotada...!é a 1ª vez ke um filme do Allen tem tanta afluência, digo eu...resposta do meu amigo : eles sabem lá kem é Woody Allen...vieram pk é fim do mes e o filme tá na moda! gostei, mas faltou ali os problemas existenciais, "as neuroses compatíveis"...no entanto concordámos ke é o melhor filme de WA da última década...gala
(http://trocadeolhares.blogs.sapo.pt)
(mailto:gala.trocadeolhares@gmail.com)


De anónimo a 2 de Fevereiro de 2006 às 22:12
O melhor filme de 2000. Talvez um pouco mais curto. Concordo com a tese. Abraço.joão aniceto
</a>
(mailto:joaniceto@mac.com)


De Lelé Batita a 18 de Maio de 2009 às 18:40
Olá Paulo
Continuando nos filmes de culto, Eyes Wide Shut já me mereceu um post na Pérola de Cultura.
Sou fan incondicional de Kubrick e considero este filme a sua master-piece .
Deixo-te aqui o link do post :
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Olá Paulo <BR>Continuando nos filmes de culto, Eyes Wide Shut já me mereceu um post na Pérola de Cultura. <BR>Sou fan incondicional de Kubrick e considero este filme a sua master-piece . <BR>Deixo-te aqui o link do post : <BR class=incorrect name="incorrect" <a>http</A> :/ peroladecultura.blogspot.com /2009/04 orgia-em-castelo-suico-copia-kubrick.html <BR>Continuação de bons momentos frente à tela. <BR>Abraços.


De Lelé Batita a 18 de Maio de 2009 às 18:45
Depois de fazer a verificação ortográfica mandei publicar o comentário e apareceu tudo cheio de sinais.
O link do meu post que fala do filme Eyes Wide Shut é: http://peroladecultura.blogspot.com/2009/04/orgia-em-castelo-suico-copia-kubrick.html
Sou fan incondicional de Kubrick e considero este filme a sua master-piece.
Continuação de bons momentos em frente da tela.
Abraços.


De paulo prudêncio a 18 de Maio de 2009 às 19:18
Obrigado. Já lá vou.




De Rui a 18 de Maio de 2009 às 22:19
Francamente, esta a obra-prima do Kubrick? (silêncio)


De paulo prudêncio a 19 de Maio de 2009 às 00:57
Sei que não gostas muito do filme. Num cineasta com esta obra, é realmente difícil escolher uma. Ainda por cima, neste caso faltou muito trabalho; quiçá o fundamental. Foi pena. Fui lendo o que se ia fazendo e fiquei com uma enorme espectativa. Depois o Speilberg disse o que disse. Enfim...


De Rui a 19 de Maio de 2009 às 13:03
Não podes saber que não gosto do filme porque gosto. Apenas não o comparo com outras peças, essas sim, que reputo de absolutamente sublimes. Opiniões, já se sabe...


De Lelé Batita a 19 de Maio de 2009 às 13:10
Mantenho. Eyes Wide Shut é uma obra-prima digna de um grande mestre.
Para mim, e pelos vistos para o Spielberg também, é do melhor que já se fez em cinema no género intimista e psicológico.
Muito Bom em muitos parâmetros: interpretação, direcção, fotografia, décors..
O rigor com que este filme foi feito é milimétrico, por isso demorou um ano. Não foi só por Kubrick estar doente.
O tipo de emoções que este filme transmite interpelam-nos até ás entranhas!
E isso, desculpem lá, só um grande mestre sabe fazer!
Não foi o faustoso Barry Lindon nem o perturbador Laranja Mecânica que conseguiram deixar-me tão "bouleversée"...
Desde os longínquos anos do 2001 Odisseia no Espaço que Kubrick não se superava desta forma.
Desculpe, Rui, mas sugeria um segundo visionamento.
Se quiser dar-se ao trabalho, poderemos falar depois.
:-) Abraços.


De paulo prudêncio a 19 de Maio de 2009 às 16:30
Tens razão Helena: interpela-nos constantemente até às entranhas: vai ao osso; é um argumento soberbo e conduzido pela mão de uma grande mestre. Ainda ontem vi um bom filme (do ciclo do CCC) o "bitter moon" de Polansky que vai pelo mesmo caminho mas que fica a anos luz ao nível da realização. Mas, claro, são os nosso olhos.

Já o referi e repito: cometi a heresia de dizer que o filme não foi acabado por Kubrick; sei que foi assim pela entrevista do Spielberg, mas tb sei que isso só deve ser valorizado se se quiser ter em consideração a importante textura global da obra. Nem sei se o Kubrick lhe mexia: ou melhor, sei, ou tenho ideia, que mexeria em todos sempre que lhes passasse os olhos. Mas já cá não está para o fazer e ponto final.

Abraço aos dois.


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