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Correntes

em busca do pensamento livre

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o velho e o mar (3)

23.12.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Este post é de 25 de Dezembro de 2012)

 

 

 

O romance "O Velho e o Mar"” (The old man and the sea), de Ernest Hemingway (1952), é uma obra-prima. 

Li-o pela primeira vez na adolescência, na época do "Moby Dick", de Herman Melville - o autor do também fascinante “Bartleby” -, e julgo que nunca mais o voltei a ler. 

 

É a história de um velho e pobre pescador que tinha uma forte amizade com um rapaz. Há muito que não conseguia pescar. Certo dia, pescou o maior peixe da sua vida. Voltou a terra apenas com o esqueleto do enorme espadarte porque não conseguiu impedir o furioso ataque de esfomeados tubarões. Reencontrei-me com a história e fiquei com a ideia que está tudo ali. 

Não resisto a transcrever-vos um pedaço da tradução de Jorge de Sena:


- Que tens para comer? – perguntou o rapaz. 
- Um tacho de arroz de peixe. Queres? – perguntou o velho. 
- Não. Como em casa. Queres que eu acenda o lume? 
- Não. Acendo-o eu depois. Ou como o arroz frio.
- Posso levar a rede? 
- Claro que podes.

 

Não havia rede, o rapaz lembrava-se de quando a tinham vendido, mas todos os dias representavam esta cena. Também não havia tacho de arroz, o que o rapaz também sabia. 

5 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Fernanda

    27.12.12

    "Manolin é um miúdo que já não existe, símbolo de uma admiração dos mais novos pelos mais velhos que tende a desaparecer, de uma solidariedade, respeito e ternura que o ritmo desenfreado do quotidiano, os novos valores e a sociedade dita de moderna se vão encarregando de aniquilar."

    Nunca me tinha passado pela cabeça esta ideia. E por muitas voltas que dê e por muito que me lembre da história, ela é muito para além deste conflito entre gerações. Antes pelo contrário.
  • Sem imagem de perfil

    ana

    28.12.12

    Não entendeu bem o que eu escrevi.
    Não falei em conflito geracional na acção desta obra, mas sim numa relação de profunda admiração entre uma criança e um velho e acrescento: pela dignidade que o velho mostra ao lutar com a Natureza, com o mar e com a fauna marinha, ao avaliar a legitimidade dessa luta, pelo respeito que a Natureza lhe merece, de que se destaca o grande peixe como símbolo principal, mesmo quando as suas forças já não o aconselhariam, mas fazendo jus à experiência que acumulou ao longo da vida, para contrariar ou escrever o próprio destino e o simples jogo de sorte/azar.

    A haver conflito geracional será nos dias de hoje, por isso esta leitura continua a ser recomendada, assim escrevi. É nos dias de hoje que a sociedade (inclusive os mais jovens) menospreza as capacidades dos velhos, que considera já um fardo e não um exemplo de dignidade, inspirador e merecedor de respeito.
    Toda a questão das gerações situei-a no presente, entendendo que esta leitura seria uma mais-valia para o reconhecimento da importância da experiência, da dignidade e do valor da terceira idade, que, actualmente, tende a ser subestimada.

    Já li e estudei esta obra mais de dez vezes e vai desculpar-me mas vai muito para além da "luta pela vida, o respeito pela vida e dignidade". Se não como explicaria a importância do papel da criança (Manolin), porquê uma criança que contraria os desígnios dos seus próprios pais, a par com o descrédito dos outros pescadores que escarnecem das capacidades do velho pescador? Porquê a importância que o velho atribui ao transporte da carcaça do enorme peixe para terra, mesmo depois de se ter questionado sobre a sua verdadeira supremacia sobre o animal?
    Recomendo mais uma leitura para apreciar esta vertente inter-relacional da obra.
  • Sem imagem de perfil

    Fernanda

    28.12.12

    Agradeço a resposta da ana.

    E concordo com o que escreveu neste último comentário.

    Provavelmente não entendi o que tinha escrito antes.

    Gosto muito desta história, tal como a ana. E sempre que me lembro dela, há algo mais que nos chama a atenção.

    Ana, vou reler a história um dia destes.

    Um bj e bom ano.
  • Sem imagem de perfil

    ana

    28.12.12

    Isso! Não se arrependerá. :-)

    Para corroborar as nossas interpretações e motivar para a análise que lhe proponho desta vez, deixo um excerto, relativamente recente, de um artigo de tese de doutoramento de Renato Nunes Bittencourt, publicado no Número 4, de Março de 2010, da REVISTA LITTERIS:

    «Hemingway desenvolve como tema central de O Velho e o Mar o problema universal do ser humano, quando este se encontra marcado pelo estado de declínio nas suas disposições de ânimo e na sua própria estrutura vital, situação que decorreria
    imediatamente do avanço do tempo na vida individual, ocasionando, em algumas circunstâncias, a perda da sua capacidade produtiva e criativa. Tal transtorno, numa sociedade caracterizada acima de tudo pelo estímulo desenfreado pela insana
    competitividade, motiva geralmente, nesse tipo de homem, a angústia pela sua própria incapacidade de empreender novamente ações valorosas tais como as que foram realizadas outrora. Por conseguinte, esse problema cria um distanciamento existencial
    do indivíduo que sofre da improdutividade em relação ao seu próprio mundo circundante, de maneira que as valorosas lembranças do seu passado glorioso, digno de apreço e respeito, tornam-se o um nostálgico alento na condução de sua vida no momento presente.
    [...]
    Hemingway insere magistralmente tais características na personalidade de Santiago, um experiente pescador que, em decorrência do peso da idade, pelo fato de exercer uma profissão que requer o constante uso da destreza e da força física, não consegue realizar as suas funções laborais de forma satisfatória, chegando ao ponto de permanecer 84 dias sem pescar qualquer peixe.
    [...]
    Santiago, um velho homem solitário, não tem muitos amigos ao redor para partilhar da sua experiência de vida, sobretudo após receber dos seus colegas de labuta o estigma de “azarado”, em decorrência da dificuldade em realizar grandes pescas.
    Ao longo do texto, podemos ver que um dos poucos contatos sociais que Santiago ainda estabelece é com um jovem aprendiz de pescador que muito o admira, Manolin. Esse menino, que não raro auxilia inclusive no sustento de Santiago, é o alento para que este persevere na sua castigada vida, pois, dentre os muitos indivíduos que giram em torno do mundo da pesca, ele é o único que ainda acredita do potencial criativo do velho homem do mar.
    [...]
    Conforme já enunciado, Santiago sofre da manifestação do declínio da vitalidade em seu corpo, problema que, por ser de conhecimento dos demais membros da comunidade dos pescadores, desperta nestes apenas sentimentos de desdém para com o
    experiente homem do mar. Alvo de diversas chacotas, Santiago, ao invés de se preocupar em retrucar os impropérios dos patifes, se interioriza, para que possa reunir forças físicas que lhe possibilitem mais uma vez desafiar o seu segundo lar, o mar. Afinal, as manifestações desrespeitosas dos pescadores mais jovens são utilizadas por Santiago como um estímulo para que ele possa superar esse estado de decadência física, profundamente amargo para um tipo de homem acostumado a sempre manifestar a sua potência através da efetivação de ações vigorosas. Por conseguinte, podemos considerar que os estímulos externos de caráter agressivo podem ser, em determinadas circunstâncias, muito mais proveitosos para o fortalecimento e engrandecimento moral de um homem ofendido, do que os elogios amistosos dirigidos para ele, ainda que tais cortesias venham a ser proferidas na mais pura sinceridade pelo interlocutor. As agressões e ofensas sofridas por um homem valoroso ao longo de sua vida geralmente são utilizadas por ele como uma espécie de tônico estimulante das disposições ativas, capaz de fortalecer a sua própria personalidade diante das intempéries e flutuações humanas, pois sabemos que os indivíduos comuns, volúveis, tendem a mudar de opinião sobre outrem com extrema facilidade, sobretudo quando
    essas massas são açuladas por hábeis manipuladores da consciência popular.
    [...]

    CONTINUA (no comentário seguinte)
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