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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

pequenos passos

05.05.12

 

 

 

 

 

(da ontogénese da humilhação à filogénese da implosão)

 

 

Teria uns 12 anos e viajava com o meu pai numa estrada moçambicana fora dos centros urbanos. Estava, como quase sempre, um dia muito quente. Parámos numa "cantina" - espécie de áreas de serviço que eram, em regra, propriedade de comerciantes portugueses (os conhecidos metrôpoles) imbuídos do pior espírito colonial e que, talvez por isso, foram as primeiras vítimas da ira do povo moçambicano - e deparámos com uma dezena de homens, em tronco nu, de pele negra e bem suada e à volta de uma mesa que tinha uma bazuca - uma cerveja de litro e meio - no centro. Enquanto esperavam por uma qualquer refeição, o filho do comerciante, com uma idade igual à minha, atirava pão para os homens e repetia em tom jocoso: "hoje é dia de festa".

 

O meu pai esteve em silêncio e à saída disse-me qualquer coisa assim: "serão os primeiros a sofrer no dia da revolução". Lá me explicou o que é que queria dizer com o desabafo. Anos depois, a revolta "legitimou" a tragédia e as áreas de serviço arderam, e em muitos casos, com os comerciantes lá dentro. Foi também assim noutros capítulos dessa revolução. A cor da pele era o primeiro critério implosivo para humilhações acumuladas durante séculos.

 

As sociedades actuais não se devem considerar livres da ontogénese da humilhação. O bodo aos pobres deixa marcas. Os pobres não têm vergonha (a condição não o permite, sequer) e invadem os grandes espaços de gatas para afagarem a fomeÉ certo que o fazem, como também é de saber filogenético que um dia manifestarão em implosão social as sucessivas humilhações.

2 comentários

  • Viva Caro Lúcio.

    Muito interessante. Claro que percebo a analogia :)

    Parece-me que a discussão sobre estes temas, e à medida que se desenvolvem os argumentos, persegue o mesmo caminho das conversas sobre os valores: a liberdade, ou as liberdades, são o valor primeiro e fundador.

    A história recente, e a propósito do relativismo cultural ou dos direitos das pessoas no comércio livre, ensinou-nos muito. O tal relatório Delors ( http://correntes.blogs.sapo.pt/501382.html ) em que se propõe passar do multiculturalismo para o interculturalismo, por causa do véu das raparigas do secundário, é interessante. A questão que sempre me pareceu mais cortante é a posição que se deve tomar em relação à excisão genital feminina. Pois é. A melhor resposta parece-me a óbvia: a nossa liberdade acaba quando entramos na do outro.

    É. Concordo que o povo não precisa de iluminados tutores e arrepiam-me de igual modo os defensores fanáticos das práticas tipo Goldman Sachs. A defesa da intransigente da liberdade e da democracia é o único e difícil caminho.

    Abraço.
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