Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

do labirinto e da falta de nexo

12.01.12

 

 

Esta crónica de Guilherme Valente, editor da Gradiva, acolheu a ideia que colocou em estado de sítio o sistema escolar português nesta década e que promete continuar: o eduquês é da mesma família do poder democrático da escola e os seus defensores são esquerdistas e despesistas.

 

Há quatro conceitos que se baralham e que importa situar: eduquês, democracia, ideologias e desperdício financeiro.

 

O eduquês, talvez patenteado por Marçal Grilo, resume-se ao pressuposto de que mais burocracia atenua o insucesso escolar e gera igualdade de oportunidades. Temos dados empíricos suficientes para infirmar a hipótese e suspeitar do oposto: a má burocracia e o rol de inutilidades que a sustentam são factores dissuasores da mobilização profissional dos professores, desde logo pela saturação com o desperdício informacional.

 

Tem algum fundamento concluir que a responsabilidade pelo logro organizacional é uma patologia esquerdista, embora se deva considerar que as forças políticas com assento parlamentar só foram capazes de acrescentar esquinas ao labirinto e que para além das etiquetas contam as práticas e quem as apoiou. Há, por exemplo, alguma dúvida sobre a forma entusiasta como a direita apoiou, até 2008, J. Sócrates e L. Rodrigues?

 

Tem ainda menos nexo associar o eduquês à defesa do poder democrático da escola. Está até subjacente um preconceito arrepiante: o eduquês é tão mau como a democracia. A História das sociedades e das ideologias mostra-nos que os totalitarismos sempre objectivaram o controle burocrático dos actores e que a libertação dos processos só foi possível com as conquistas da democracia.

 

Os sistemas escolares democráticos são caros e a igualdade de oportunidades não se faz sem algum desperdício financeiro. Quem queira saber algo sobre o modo de aprender, tem de ser cuidadoso, deve perceber que é mais correcto falar em ignorância do que em conhecimento sobre o modus operandi e que os resultados do ensino medem-se também a longo prazo. As conclusões apressadas e os regressos a passados comprovadamente incompetentes são riscos que nem na falência financeira devem ocorrer.

 

Estamos mergulhados num labirinto e num caldo de cultura bullshit. Dos quatro conceitos que preenchem o lugar com saída improvável, há dois que são indispensáveis ao futuro do sistema escolar: a democracia e a eliminação do eduquês.