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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

do sorriso

07.07.11

 

(Este texto não é inédito. Foi reescrito e adaptado.

O original foi publicado pela revista Risco,

da Porto Editora, algures na mudança de milénio)

 

 

 

As actividades desportivas estão cheias de risos. É conhecida a assembleia televisiva para os gestos desportivos mais bizarros. Quando a atmosfera motora exige a perfeição, os proscritos são premiados com uma valente salva de gargalhadas.

Quem não se riu com o nadador africano nas Olimpíadas de Sidney, que quase morria afogado nos primeiros vinte e cinco metros? Mesmo que se considere que o jovem da Guiné-Equatorial treinava num charco com vinte metros de comprimento, esse foi um exemplo flagrante de que ou se ri ou não se ri. E daí só vem bem ao mundo.

É o sorriso que me apetece convocar. Se o meu caro leitor chegou até aqui, então faça mais um pequeno esforço e vá até ao fim.

 

Vários dualismos atravessam o pensamento ocidental. O riso e o sorriso são mais uma dimensão. Não o são exactamente, mas ajeita-me os escritos que os consideremos. Muitos eruditos tentaram ultrapassar esse maniqueísmo binário. Hegel e Marx quiseram assegurar o princípio da simultaneidade. Todavia, ninguém foi capaz de encontrar a fórmula mágica. Seria genial a mestria docente capaz de ensinar em ambiente de pleno riso e sorriso. O riso é imediato, aparentemente ingénuo ou inocente. Rir às gargalhadas só está ao alcance do gesto espontâneo. Por isso, só depois de rir alguém questionará o significado do seu acto. O sorriso é mais elaborado e enigmático. Pode ser de encantamento, mas também de troça. Quantas vezes não foi um simples sorriso que mudou o nosso mundo de angustias e preocupações? Quantas vezes não foi um simples sorriso que despertou e absorveu toda a nossa atenção? O sorriso mais saboroso é aquele que se prolonga no tempo ou que é o resultado de um tempo quase todo.

 

Mesmo no desporto, o sorriso pode ser elaborado ou prolongado. Lembro-me de um jogo de basquetebol escolar. No início da segunda parte, quando é suposto as equipas trocarem de campo, nada disso foi feito. O equívoco durou uns 30 segundos, mas só uns quantos deram conta. Seguiram-se momentos muito engraçados. Colegas de equipa em perfeita discórdia não verbal. Um jogador insistia em meter a bola no próprio cesto, mas era impedido de forma decidida pelo colega esclarecido. Nunca mais o jogo foi o mesmo. Todos sorriam. Estabeleceu-se um clima de perfeita harmonia. Conseguiu-se um momento único de “fairplay”.

 

Sou um adepto do sorriso. Principalmente do que resulta de um tempo longo de espera e de um jogo de paciência. Privilegio, sem hesitações, os sorrisos provocados pela quebra de um dogma. Qual Galileu ao ouvir o anúncio papal na segunda metade do século xx. Sempre foram trezentos anos de espera. E já agora: como é que se poderá falar do sorriso dos inquisidores?

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