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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

estado de sítio na educação

06.10.08
porta-garrafas
de Marcel Duchamp)


 

Impressiona-me o estado a que chegou o sistema escolar em Portugal: considero-o em estado de sítio.

O governo decreta um modelo de avaliação do desempenho de professores e ninguém o consegue cumprir: inacreditável ou nem tanto assim. Tenho escrito sobre as causas que parecem-me mais evidentes e continuo convencido da bondade dos argumentos que tenho aduzido e não vou voltar, neste post, à sua exposição.

Vi ontem mais um programa televisivo de "prós e contras", no canal público, sobre Educação. Penso, uma vez que estive uns dias desconectado com o metabolismo do país, que teve origem num vídeo feito numa sala de aula e publicado num sítio, muito popular, na internet. Estive atento ao debate e não me surpreendi por aí além. Registei com agrado as excelentes intervenções de dois professores: Paulo Guinote e Isabel Fevereiro. Percebi a radicalização, na discussão acalorada e ideológica, das intervenções mais políticas; quase todas.

Mas a caricatura mais evidente do estado de sítio em que nos encontramos esteve a cargo do emérito professor, e filósofo, José Gil. Devo confessar que respeito muito o autor do "medo de existir". Tem uma obra, publicada em 1996, intitulada "a imagem-nua e as pequenas percepções", sobre estética, que ensinou-me de modo significativo e que estudei com todo o detalhe: um dos aspectos que mais me fascinou, na época, foi a discussão à volta dos efeitos teóricos e práticos da invenção dos readymade e nomeadamente a obra de Marcel Duchamp (onde se inclui o objecto que pode ver-se na foto que acompanha a presente publicação: o célebre porta-garrafas).

 

O professor fez duas intervenções. Estava sentado na plateia e na primeira intercessão elevou o debate: foi ainda na primeira parte do programa. Do que conheço de José Gil, é uma pessoa muito sabedora, sensata e estudiosa, e que mantém, nas suas conversas, uma postura muito calma e muito profunda. E assim foi.

Depois, ficou por lá a ouvir; julgo eu. Pelo menos estava presente.

Uma hora depois, a moderadora pede-lhe uma nova lição (palavras de Fátima Campos Ferreira, a coordenadora). Nesta fase, em que até eu já estava cansado com o turbilhão em presença, o professor pareceu-me meio perdido. É verdade. A sério. Pode parecer inverosímil, mas foi a sensação que me transmitiu. E dei com uma cena impensável: a certa altura, José Gil, que falava de pé e que tinha um conjunto de papéis nas mãos, começou a bater com a papelada na própria cabeça com uma veemência meio descontrolada. Impensável. Por momentos, nem se percebia bem o que dizia. A papelada tapava-lhe a face e o seu discurso não tinha a eloquência habitual. Parecia uma busca desesperada da substância que garantiria a necessária assertividade: em vão. O estado de sítio surpreendeu um dos pensadores mais lúcidos que conheço e levou-o a bater na própria cabeça como quem se interroga: mas onde é que estou? O que é isto? Como é que posso racionalizar o discurso e dar um sentido inteligível a este vórtice sem fim?

O programa acabou a desoras e tive alguma dificuldade em adormecer: lembrava-me dos gestos surpreendentes do professor e não conseguia aceitar a sonolência: até ele.





(Reedição. 1ª edição em 1 de Abril de 2008.
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