Em busca do pensamento livre.

Quarta-feira, 25.01.17

 

 

 

É a escola do Goldman Sachs. "Oferece 15.000 milhões" por 30.000 milhões de imparidades (registado muito superior ao executável). É o resultado do crédito de neutrões. Ou seja, a bomba de neutrões, a última variante da bomba atómica, é um pequeno dispositivo termonuclear que "só" destrói os organismos vivos. Nessa linha, o Goldman Sachs criou o subprime, também conhecido por crédito de neutrões, que endividou a classe média e levou-a à falência com o edificado intacto. Recupera-o na desesperada banca intermédia por metade do preço e espera que o executável suba.

 

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Quarta-feira, 18.01.17

 

 

Objectivamente, e para além dos resultados da justiça (a Operação Marquês conheceu hoje mais um avanço), estamos a pagar, e vamos continuar (a tal dívida impagável), anos a fio de desvario financeiro; em Portugal, na Europa e no mundo do capitalismo selvagem.



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Terça-feira, 10.01.17

 

 

 

O verbo incentivar será uma das componentes mais críticas do mundo desenvolvido. Essa lógica racional do mercado condicionou a socialização e a estruturação das actividades. Importa sublinhar que, há umas décadas, incentivar era uma palavra-chave educacional e organizacional com uma ubiquidade que se entranhou.

Steven D. Levitt, em "Freakonomics: o estranho mundo da economia" e mais recentemente Michael Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", dedicaram-se ao efeito do verbo. O segundo tem um tópico que intitulou "incentivos e dilemas morais", onde se pode ler (página 93):

"É fácil deixar escapar a novidade desta definição. A linguagem dos incentivos é um desenvolvimento recente do pensamento económico. A palavra "incentivo" não surge nos escritos de Adam Smith nem nas obras de nenhum dos outros economistas clássicos. Na verdade, só viria a ser introduzida no discurso económico no século XX e apenas adquiriu proeminência nas décadas de 1980 e 1990. O Dicionário Oxford de Inglês indica o seu primeiro uso no contexto da economia em 1943; nas Seleções do Reader' s Digest: "O Sr. Charles E. Wilson (...) está a incitar as indústrias da guerra a adoptarem "remunerações de incentivo" - isto é, pagar mais aos trabalhadores se produzirem mais." O uso da palavra incentivo aumentou drasticamente na segunda metade do século XX à medida que o predomínio dos mercados e da lógica racional do mercado se consolidava. Segundo uma pesquisa no Google Books, a incidência deste termo aumentou mais de 400% desde a década de 1940 à década de 1990."

Observa-se, portanto, uma crise moral em paralelo com um inédito desenvolvimento tecnológico que implica uma revolução na organização das sociedades. Se a eliminação do incentivo é uma "impossibilidade" imediata, já o uso mais ponderado na educação das crianças contribuirá para a afirmação de políticas sustentáveis.

Se em Adam Smith o mercado era a mão invisível, para Michael Sandel a generalização dos incentivos tornou-se a mão pesada e manipuladora. O filósofo dá vários exemplos de incentivos monetários nesse sentido, como os que são dados a troco da esterilização ou de boas notas escolares.

A prevalência do incentivo não eliminou a distinção entre economia e ética,

"entre a lógica racional do mercado e o raciocínio moral. A economia simplesmente não transacciona em moralidade. A moralidade representa a maneira como gostaríamos que o mundo funcionasse e a economia mostra como ele funciona na realidade", explicam Levitt e Dubner.

E Michael Sandel acrescenta:

"(...)A noção que a economia é uma ciência isenta de juízos de valor, independente de toda a filosofia moral e política, sempre foi questionável. Contudo, hoje em dia, a jactante ambição da ciência económica torna extremamente difícil defender esta afirmação. Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...)Quando os mercados corroem normas não mercantis, o economista (ou qualquer outra pessoa) tem de decidir se isso representa uma perda que deveria preocupar-nos.(...)"

Neste tópico, Michael Sandel apresenta um conjunto de problemas educacionais e escolares que abordarei noutros posts.

Já usei parte desta argumentação noutro post.



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Terça-feira, 03.01.17

 

 

 

A propósito da revolução, iniciada em 2005 ou até em 2003, que a presença da troika destapou, recordo os teóricos da simcultna actualidade, uma revolução pode ser tão rápida que nem damos conta. Há sinais da contra-revolução. Não sei se será tranquila, mas espero que sim. Que seja tranquila e igualmente rápida. O que me parece é que as personagens carregadas de ideologia ultraliberal ficaram com o discurso descontinuado e datado. Muito do mal não é reparável, embora a mensagem da imagem estimule os contraditórios que, sublinhe-se, não escapam à asserção: é mais rápido e fácil destruir do que construir. Há duas irrefutabilidades de sinal contrário sobre o que é recuperável: não será com a mesma velocidade da queda, mas não depende de vontade divina.

 

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Segunda-feira, 02.01.17

 

 

 

Com todos os riscos de quem retira do contexto uma passagem, não resisto a citar Ulrich Beck (2015:22) "Sociedade de risco mundial - em busca da segurança perdida", Lisboa, Edições 70,

 

"(...)o risco constitui o modelo de percepção e de pensamento da dinâmica mobilizadora de uma sociedade, confrontada com a abertura, as inseguranças e os bloqueios de um futuro produzido por ela própria e não determinada pela religião, pela tradição ou pelo poder superior da natureza, mas que também perdeu a fé no poder redentor das utopias.(...)".

 

A perda da "fé no poder redentor das utopias" indicia um risco de decadência se não se circunscrever ao inevitável cinismo com que a maturidade olha para a prevalência do mal. Se a descrença nas utopias e no combate às desigualdades atravessar todas as gerações, a decadência entranha-se; como a história, de resto, já nos explicou.

 

www.cartoonstock.com/cartoonview.asp?catref=cgo0149

 



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Quinta-feira, 15.12.16

 

 

 

 

Leia, sff, e tente adivinhar quem fez as declarações seguintes antes de encontrar a solução no parágrafo final; mas sentado como na imagem (prémio 2014 do melhor cartoon da Press Cartoon Europe).

  1. “Não é preciso ser altruísta para apoiar políticas que elevem a renda dos pobres e da classe média. Todos beneficiarão com essas políticas porque são essenciais para gerar crescimento mais alto, mais inclusivo e mais sustentado. Ou seja, para se ter crescimento mais duradouro será necessário gerar crescimento mais equitativo."
  2. "Novos estudos demonstram que elevar em um (1) ponto percentual a parcela da renda dos pobres e da classe média aumenta o crescimento do PIB de um país até 0,38 pontos percentuais em cinco anos. Em contrapartida, elevar em um (1) ponto percentual a parcela da renda dos ricos reduz o crescimento do PIB em 0,08 pontos percentuais. Nossas constatações sugerem que – contrariando a sabedoria popular – os benefícios da renda mais alta estão a "espalhar" para cima e não para baixo. Para além de outras variáveis, constata-se que os ricos gastam uma fracção menor da sua renda o que reduz a procura agregada e enfraquece o crescimento. Os nosso estudos anteriores demonstram que a desigualdade excessiva de renda reduz, e na verdade, a taxa de crescimento económico e torna o crescimento menos sustentável com o tempo."

Está sentado? Fique a saber que são declarações, em Bruxelas, de Christine Lagarde, em Junho de 2015, baseadas no boletim oficial do FMI de 17 de Junho de 2015 que integra o estudo, também de Junho de 2015 e do mesmo FMI"Causes and Consequences of Income Inequality: A Global Perspective". Se Maquiavel estivesse por cá, teria explicação: "disse ao Príncipe: faz a maldade toda em pouco tempo e depois confessa-a; sei lá: afirma-te neoliberal no início e "social-democrata para sempre" no fim; confia na sabedoria popular."

 

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Quinta-feira, 18.08.16

 

 

 

A troika e as avaliações, os fanatismos ideológicos, o casino financeiro, os offshores, os paraísos fiscais também, e há muito, instalados em países europeus, o experimentalismo a que sujeitaram Portugal, a febre dos mercados e os jogos de sombras que capturaram o orçamento do Estado são algumas das razões que transportaram a manipulação para um auge.

 

Por mais que os mentores confessem erros, não existirá desculpa histórica. O prolongamento da crise de 2008 reforça a responsabilidade e as consequências desastrosas tornam-na inapelável.

 

Recordo as 10 estratégias de manipulação enunciadas por Noam Chomsky. Publico as 4 primeiras.

 

"1. A estratégia da manipulação. O elemento primordial do controlo social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou a inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público manifeste interesse pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar".

 

2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

 

3. A estratégia da gradação. Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram empregos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

 

4. A estratégia do diferido. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é sentido imediatamente. Em seguida, porque o público tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento."

 

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Sábado, 02.07.16

 

 

 

 

Quem diria que o verbo incentivar explicaria a encruzilhada civilizacional do mundo desenvolvido. Se recuarmos umas décadas, incentivar era a palavra-chave educacional e organizacional. A sua ubiquidade entranhou-se, fazendo com que a lógica racional do mercado condicionasse a socialização e a estruturação das actividades.

 

Steven D. Levitt, em "Freakonomics: o estranho mundo da economia" e mais recentemente Michael Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", dedicam páginas ao efeito do verbo. O segundo tem um tópico que intitulou "incentivos e dilemas morais", onde se pode ler (página 93):

 

"É fácil deixar escapar a novidade desta definição. A linguagem dos incentivos é um desenvolvimento recente do pensamento económico. A palavra "incentivo" não surge nos escritos de Adam Smith nem nas obras de nenhum dos outros economistas clássicos. Na verdade, só viria a ser introduzida no discurso económico no século XX e apenas adquiriu proeminência nas décadas de 1980 e 1990. O Dicionário Oxford de Inglês indica o seu primeiro uso no contexto da economia em 1943; nas Seleções do Reader' s Digest: "O Sr. Charles E. Wilson (...) está a incitar as indústrias da guerra a adoptarem "remunerações de incentivo" - isto é, pagar mais aos trabalhadores se produzirem mais." O uso da palavra incentivo aumentou drasticamente na segunda a metade do século XX à medida que o predomínio dos mercados e da lógica racional do mercado se consolidava. Segundo uma pesquisa no Google Books, a incidência deste termo aumentou mais de 400% desde a década de 1940 à década de 1990."

 

Esta reflexão explica a crise moral que se observa em paralelo com um inédito desenvolvimento tecnológico que implica uma revolução na organização das sociedades. Se a eliminação do incentivo é uma "impossibilidade" imediata, já o seu uso mais ponderado na educação das crianças contribuirá para a afirmação de políticas sustentáveis.

 

Se para Adam Smith o mercado era uma mão invisível, já para Michael Sandel a generalização dos incentivos tornou-se uma mão pesada e manipuladora. O filósofo dá vários exemplos de incentivos monetários que vão nesse sentido, como os que são dados a troco da esterilização ou de boas notas escolares.

 

Esta prevalência incentivadora não eliminou a distinção entre economia e ética, "entre a lógica racional do mercado e o raciocínio moral. A economia simplesmente não transacciona em moralidade. A moralidade representa a maneira como gostaríamos que o mundo funcionasse e a economia mostra como ele funciona na realidade", explicam Levitt e Dubner.

 

E Michael Sandel acrescenta:

 

"(...)A noção que a economia é uma ciência isenta de juízos de valor, independente de toda a filosofia moral e política, sempre foi questionável. Contudo, hoje em dia, a jactante ambição da ciência económica torna extremamente difícil defender esta afirmação. Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...)Quando os mercados corroem normas não mercantis, o economista (ou qualquer outra pessoa) tem de decidir se isso representa uma perda que deveria preocupar-nos.(...)"

 

Neste tópico, Michael Sandel apresenta um conjunto de problemas educacionais e escolares que abordarei noutros posts.

 

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Sexta-feira, 20.05.16

 

 

 

Os adeptos das políticas do Estado mínimo invocam o liberalismo e Adam Smith para justificarem uma superiorida ética da gestão privada. Era bom que mudassem de disco.

 

A queda dos salários, por exemplo, tem de ser acompanhada pela queda dos lucros e das rendas; e com muito cuidado com a perigosa deflação. Adam Smith via essa queda como uma decisão circunscrita às leis e à política. Se analisasse o que se passou em Portugal, seria tão taxativo como Joseph Stiglitz: houve uma transferência inédita de recursos financeiros das classes média e baixa para a banca desregulada e foi esse radicalismo que provocou o empobrecimento.

 

A queda dos salários provocou a subida dos lucros e a manutenção das rendas (estude-se a EDP e outros monopólios). Não será por acaso que os orientais adquirem rendas (no caso EDP os chineses traziam a lição bem estudada e conheciam o fundamental dos aparelhos partidários) e não se metem nos casinos (que conhecem melhor que ninguém) das dívidas públicas como os investidores ocidentais. O que se percebeu nestes "privados" escolares foi a guloseima das rendas a caminho do monopólio; era (e é?) esse o seu confessado objetivo.

 

 

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Adam Smith (2010:171) em Riqueza das nações, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

 



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Segunda-feira, 14.03.16

 

 

 

 

Por mais que Draghi reme contra a corrente, as imparidades (executável inferior, muito neste caso, ao escriturado), desnudadas em 2007, transformam crescimentos económicos em "pagamento" de dívidas soberanas que requerem reestruturação ou consolidação; no segundo caso creio que só se houver vida em Marte. É um círculo vicioso que o tempo não resolve. A bancocracia absorve as "ofertas" do BCE e nada sobra para a economia.

 

Insistir no retratado na imagem, só acelera várias expressões: "luta de classes", "este capitalismo de saque é uma ofensa ao capitalismo", "a classe dos super-ricos está a fazer a guerra e a ganhá-la", "austeridade ruinosa a favor de uma minoria", "a desigualdade é uma escolha política", "os EUA exportaram o seu modelo de corrupção" e podia ficar a tarde toda a escrever, e a repetir, expressões que não são de radicais de esquerda nem nada que se aproxime. É só pesquisar. 

 

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Quarta-feira, 24.02.16

 

 

As nossas "elites" da alta finança são cómicas. Como o Novo Banco não permite privatização de lucros, bem pelo contrário, estabelece-se um manto de silêncio com as "ideias de nacionalização por parte da esquerda". Até Vìtor Bento já defende a nacionalização que, diga-se, até pode ter efeitos orçamentais positivos. Que tempos, realmente.

 

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Domingo, 21.02.16

 

 

 

Com todos os riscos de quem retira do contexto uma qualquer passagem, não resisto a citar Ulrich Beck (2015:22) "Sociedade de risco mundial - em busca da segurança perdida", Lisboa, Edições 70,

 

"(...)o risco constitui o modelo de percepção e de pensamento da dinâmica mobilizadora de uma sociedade, confrontada com a abertura, as inseguranças e os bloqueios de um futuro produzido por ela própria e não determinada pela religião, pela tradição ou pelo poder superior da natureza, mas que também perdeu a fé no poder redentor das utopias.(...)".

 

A perda da "fé no poder redentor das utopias" indicia um risco de decadência se não se circunscrever ao inevitável cinismo com que a maturidade olha para a prevalência do mal. Se a descrença nas utopias, no combate às desigualdades, por exemplo e se quisermos considerar a sua "totalidade" como tal, atravessar todas as gerações, o risco entranha-se nas sociedades e atinge a escala mundial; como a história, de resto, já nos explicou.

 

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Quinta-feira, 04.02.16

 

 

 

Leia, sff, e tente adivinhar quem fez estas declarações antes de encontrar as soluções no parágrafo final; mas sentado como na imagem (prémio 2014 do melhor cartoon da Press Cartoon Europe).

 

  1. “Não é preciso ser altruísta para apoiar políticas que elevem a renda dos pobres e da classe média. Todos beneficiarão com essas políticas porque são essenciais para gerar crescimento mais alto, mais inclusivo e mais sustentado. Ou seja, para se ter crescimento mais duradouro será necessário gerar crescimento mais equitativo."
  2. "Novos estudos demonstram que elevar em um (1) ponto percentual a parcela da renda dos pobres e da classe média aumenta o crescimento do PIB de um país até 0,38 pontos percentuais em cinco anos. Em contrapartida, elevar em um (1) ponto percentual a parcela da renda dos ricos reduz o crescimento do PIB em 0,08 pontos percentuais. Nossas constatações sugerem que – contrariando a sabedoria popular – os benefícios da renda mais alta estão a "espalhar" para cima e não para baixo. Para além de outras variáveis, constata-se que os ricos gastam uma fracção menor da sua renda o que reduz a procura agregada e enfraquece o crescimento. Os nosso estudos anteriores demonstram que a desigualdade excessiva de renda reduz, e na verdade, a taxa de crescimento económico e torna o crescimento menos sustentável com o tempo."

 

Está sentado? Pois fique a saber que são declarações, em Bruxelas, de Christine Lagarde, em Junho de 2015, baseadas no boletim oficial do FMI de 17 de Junho de 2015 que integra o estudo, também de Junho de 2015 e do mesmo FMI"Causes and Consequences of Income Inequality: A Global Perspective". Se Maquiavel estivesse por cá, teria explicação: "disse ao Príncipe: faz a maldade toda em pouco tempo e depois confessa-a; sei lá: afirma-te neoliberal no início e "social-democrata para sempre" no fim; confia na sabedoria popular."

 

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Terça-feira, 02.02.16

 

 

 

 

Aumentam as desigualdades, os tais 1% vencem a guerra (e confessam; lá isso) em modo proporcional à ganância e isso é irrefutável (e se calhar "compreensível" numa sociedade de mercado quase sem limites morais). Não é isso que mais me impressiona e não é de agora. O que mais me intriga (digamos assim porque não me intriga nada) é o apoio fervoroso que os 1% encontram em grupos numerosos dos 99%; são verdadeiros soldados que votam, discutem e sei lá mais o quê. Normalmente acabam como o soldado da imagem, mas o problema é que costumam acordar demasiado tarde.

 

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Domingo, 24.01.16

 

 

 

Quando falamos de cortes a eito nas pessoas, podíamos acrescentar que é ainda mais grave nas administrações públicas porque há muito que não produzem alfinetes como se leu no exemplo de Adam Smith. São inúmeros os exemplos de multinacionais que entraram em espiral recessiva com os cortes a eito nas pessoas. Nas administrações públicas é ainda pior pois alastra-se à economia.

 

Uma multinacional financia-se nos mercados, procura paraísos fiscais e obedece aos desejos lucrativos dos accionistas. Para isso, tem uma desequilibrada relação entre receitas e despesas que tem que ser favorável à primeira coluna da folha de cálculo: as receitas. Se os lucros baixam, o financiamento exige juros mais elevados e a solução é cortar nas despesas ou aumentar a produção. Em regra, cortar a eito nas pessoas é o que está mais à mão.

 

Se substituir multinacional por administração pública terá um retrato do que se passou em Portugal.

 

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Sábado, 23.01.16

 

 

 

 

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Já Adam Smith via a queda dos salários como um decisão circunscrita às leis e à política. Os salários não caem  porque a sociedade empobreceu primeiro. Se analisasse o que se passa em Portugal, seria tão taxativo como Joseph Stiglitzhá uma transferência inédita de recursos financeiros das classes média e baixa para a banca desregulada e é esse radicalismo que provoca o empobrecimento.

 

Os adeptos das políticas do Estado mínimo, que invocam o liberalismo e Adam Smith para justificarem a queda dos salários como uma consequência do empobrecimento da sociedade, eram mais precisos se remetessem a tese para os "soldados" do Goldman Sachs. Como à frente se verá, a queda dos salários tem que ser acompanhada pela queda dos lucros e das rendas e, naturalmente, por uma perigosa deflação.

 

A queda dos salários está a provocar a subida dos lucros e a manutenção das rendas (estude-se a EDP ou as PPPs). Não será por acaso que os orientais adquirem rendas (no caso EDP os chineses traziam a lição bem estudada e conheciam o fundamental dos aparelhos partidários) e não se metem nos casinos das dívidas públicas como os investidores ocidentais.

 

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Adam Smith (2010:171) em Riqueza das nações, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

 

 

3ª edição. Reescrito.

 



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Sexta-feira, 15.01.16

 

 

 

É péssima a imagem dos concursos para directores na administração pública. Para além da gravidade das candidaturas irregulares (pessoas com esse perfil existem em todas as épocas), o que duplica a vergonha é a conivência e a parcialidade dos júris como se pode ler "nesta notíciado DN e na ligação seguinte do mesmo jornal:


"É de bradar aos céus que ele, tendo sido o presidente do júri de um concurso que está mais do que provado que tinha irregularidades, tenha resolvido renomear em regime de substituição os mesmos delegados que eventualmente foram favorecidos", comentou ao DN Maria do Céu Castelo-Branco, que tinha concorrido aos concursos para a região centro e tem neste momento uma ação no Tribunal Administrativo e Fiscal de Aveiro contestando a nomeação de Cristina Oliveira".

 

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Segunda-feira, 11.01.16

 

 

 

Lia o enunciado depois de vigiar um longo exame de português e viajei no tempo. Lembrei-me do professor Pires dos Santos. Pegava numa obra, passava aulas à volta do conteúdo e tratava da gramática e das circunstâncias mais variadas. Um teste com duas ou três perguntas era suficiente para nos avaliar.

 

Mas voltando ao tal exame, impressionou-me a fragmentação das três obras incluídas. Não há belo que resista. Não sei se esse tipo de obsessão métrica não nos está a impedir de olhar para o mundo sem ser numa folha excel onde muito remotamente cabem pessoas. Ou seja: nos interesses dos 1% não cabem com toda a certeza (só os seus) e não paro de me surpreender com a contribuição fervorosa de uma quantidade apreciável dos 99%.

 

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Terça-feira, 22.12.15

 

 

 

"Luta de classes", "este capitalismo de saque é uma ofensa ao capitalismo", "a classe dos super-ricos está a fazer a guerra e a ganhá-la", "austeridade ruinosa a favor de uma minoria", "a desigualdade é uma escolha política", "os EUA exportaram o seu modelo de corrupção" e podia ficar aqui a noite toda a escrever expressões-chave deste ultraliberalismo (ou totalitarismo) que capturou os estados e o poder político e que tenta convencer as pessoas que é o fim da história. As expressões que escrevi não são de radicais de esquerda nem nada que se pareça. É só pesquisar. É evidente que as imparidades (executável inferior, muito neste caso, ao escriturado) desnudadas com a crise de 2008 (o auge deste radicalismo e que não tem solução pela mão da bancocracia que o criou) estão a ser pagas pelo aumento das dívidas públicas da forma retratada pela imagem.

 

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Quarta-feira, 30.09.15

 

 

 

Não é rigoroso, e é até pior do que isso, generalizar a ideia: não querem é ser avaliados.

 

Como a "prestação de contas" foi a expressão-chave mais repetida no que levamos de milénio pelos que a exigiam aos outros, o esmagamento das classes média e baixa usou essa formatação burocrática em clima de totalidade enquanto a classe de casino se movimentava na libertada engenharia financeira. Foram poucos os que resistiram (não queriam ser avaliados, claro), e não era mesmo nada fácil, e sofreram com isso. 

 

As administrações públicas foram alvos semelhantes às empresas, com uma analogia mais evidente com as de grande escala. A avaliação de desempenho burocrática, com fuga aos "olhos nos olhos", foi o método de controle escolhido que se transformou em "tormento". Está comprovado que os processos administrativos de avaliação não introduziram aumentos na produtividade. A robotização, que consegue, grosso modo, que uma pessoa produza o mesmo que três é uma discussão cada vez mais presente e aumentam as vozes que "exigem" aos robots descontos para a segurança social. Mas isso já é tergiversar e nada tem a ver com a avaliação burocrática.

 

Por outro lado, a redução de salários foi um objectivo plenamente conseguido; mas não foi o único aspecto negativo.

 

A democracia foi desaparecendo das organizações. A possibilidade da pergunta de proximidade foi substituída pela burocracia numa engrenagem diabólica que favoreceu o controle como método relacionado com o temor. A atmosfera relacional intoxicou-se e a produção reduziu-se desde logo pelo tempo gasto em registos repetidos e inúteis pomposamente designados pelo vocabulário da má burocracia. As organizações abandonaram os ideais de inovação e simplificação e deram lugar ao controle mútuo das pessoas. A cooperação foi substituída pela obsessão individualista associada aos fenómenos mais conhecidos do mundo do trabalho actual: desesperança, saturação, fuga, burnout out e medicação excessiva e sem controle.

 

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Domingo, 23.08.15

 

 

 

 

 

Pensámos, em 2007, que a hecatombe financeira correspondeu a uma lição "definitiva" para o ultraliberalismo. Constatamos, em 2015, que o modelo se reinventou e que regressa de forma ainda mais gulosa e menos escrupulosa.

 

 

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Mumok museum. Viena. Agosto de 2015.



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Terça-feira, 30.06.15

 

 

 

... o que diremos dos para além da troika?



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Quinta-feira, 18.06.15

 

 

 

A não derrota em toda a linha dos gregos descontrola a direita europeia, com particular incidência nos "bons alunos" ou que tenham eleições à vista.

 

O insucesso do programa de afundamento, outrora ajustamento, é já impossível de esconder. Ainda por cima, e Tsipras joga com isso, Putin espreita uma qualquer tábua de salvação com a segurança de que a multiplicação do grexit arruinaria uma União Europeia que não consegue sequer salvar uma pequena economia; e Pequim observa.

 

Os revisionismos são agora mais difíceis. A Grécia era um país do sólido centrão europeu, mas com o programa referido, o arco governativo esfumou-se, os "radicais" diversos entraram no parlamento, os excluídos passaram a grupo maioritário, o PIB caiu acima dos 20%, os inúmeros desenhos económicos falharam e olhamos para o presidente português e revemos os mentores que mais parecem os últimos inconscientes da tragédia do Titanic. Alguém que acorde o senhor, que lhe mude a receita ultraliberal e que lhe segrede que o mundo pula e avança. Quanto ao PS, percebe-se a desorientação e o compasso de espera com a ideia dos prognósticos no fim do jogo.

 

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Sexta-feira, 12.06.15

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 10.06.15

 

 

 

Os povos deste mundo são, há umas três décadas, metidos numa espécie de roleta com as incontestadas regras dos casinos bancários. Os ultraliberais não se cansam de advogar esse fim da história libertador da humanidade. Nesse sentido, não se percebe a irritação pelo facto do ministro das finanças grego, o tal de Varoufakis, ser um especialista em jogos de computador aplicados à política económica. Não sei, nem há quem saiba, como a coisa estará daqui a uns meses, mas regista-se a ousadia e a coragem (insinuar que Merkel e Schäuble se detestam é dominar o lance, como ontem fez Varoufakis). Podem perder, é certo que assim é, também não vão seguramente vencer em toda a linha, mas não era a mesma coisa e nada será como antes.

 

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Domingo, 24.05.15

 

  

 

 



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Domingo, 10.05.15

 

 

 

 

É tal o estado febril, que se uma criança passar umas horas a brincar entregue às suas ideias e às dos seus amigos alguém será apontado como mau gestor do tempo e promotor do desperdício de capacidades competitivas.



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Quinta-feira, 23.04.15

 

 

 

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"Apoteose.

 

Já não faz sentido falar dos sinais do descalabro da Escola Pública. Trata-se de um facto, ainda não plenamente consumado, mas em adiantado estado de concretização. E quanto mais notório ele se torna, mais se erguem as vozes que apregoam o contrário, mais se agigantam os gráficos e os números, as folhas de Excel e as outras, maior se torna a pressão negativa exercida sobre aqueles que, no terreno, são manuseados como marionetas. Enfim, a escola real sofre de septicémia, mas a escola de papel vai bem e (auto)recomenda-se.

O empobrecimento do Estado está a ser fatal para os mais despecuniados, para os mais débeis, para os mais desamparados, enfim, para quem dá à Escola Pública a sua principal razão de existir. Deixou de haver dinheiro, os empregos tornaram-se muito raros, e o Estado não está para encarecer a mão-de-obra por excesso de qualificações. Nestas situações, é conveniente que o povo adquira as competências mínimas para servir, mas que não desenvolva muito as asas, que o espaço aéreo está congestionado. Assim, torna-se contraproducente o investimento nesta fábrica de esperanças, de expectativas, de igualdades... Há até quem pense que somos mais competitivos e menos contestatários, se formos um pouco mais ignorantes. Pois é, a educação ― a verdadeira, a informada, a culta ― traz inquietações e aspirações que não se coadunam com tempos de escassez. Daí todo este desinteresse do Estado ― de quem o controla ― pela sua mais prodigiosa criação, juntamente com o Serviço Nacional de Saúde. E como não pode assumi-lo, porque, para os devidos efeitos, ainda somos uma democracia, abandona-a, enquanto lhe declara amor incondicional e eterno. A coisa privada, tal como a proibida, parece-lhe agora muito mais apetecida. É por ela que o seu coração bate mais forte.

Aceitando como válida ― ainda que de forma simplista ― a ideia de que a escola prepara para a vida (a vida que se perspetiva em cada momento histórico), impõe-se a eterna questão: o rosto “desta escola” tem alguma semelhança com o rosto da vida que espera os alunos que não têm outro apoio senão aquele que a Escola Pública lhes dá (aqueles que David Justino quer “salvar” das retenções)? A resposta é um rotundo NÃO! Lá fora, a vida real é cada vez mais exigente, mais precária, mais seletiva, mais severa com a impreparação, com a indisponibilidade, com a falta de responsabilidade… Lá fora, a vida real exige cada vez mais esforço, mais capacidade de sofrimento e de abdicação… E o que faz a escola atual para preparar os jovens para esse mundo? Ensina-lhes tudo ao contrário: podem faltar quando querem, que as faltas são meros registos; podem chegar à sala às horas que querem, que a porta está sempre aberta; podem faltar ao respeito a quem quiserem, desde que não matem nem escochem, que nada de substantivo lhes acontecerá; podem nunca fazer os trabalhos de casa, não levar o material necessário para as aulas ou nem sequer ter apontamentos no caderno, que isso apenas dará azo a uns ridículos recaditos na caderneta; podem “baldar-se” o ano inteiro, que ainda transitarão, desde que ponham umas asas pelo Stº. António ou pelo S. João. Enfim, esta escola ensina a irresponsabilidade, a boçalidade, a petulância, a falta de respeito, a falta de ambição, a mediocridade, a inércia, a externalização das causas do insucesso… Esta escola é tão honesta com estes jovens como os produtos de emagrecimento instantâneo com gordos e obesos: tudo sem esforço, sem privações, sem sofrimento… A Escola Púbica está a tornar-se um verdadeiro logro. Dentro de uma década, será apenas um serviço mínimo de instrução destinado àqueles que têm rendimentos mínimos, para os preparar para uma vida mínima, minimamente vivida.

E qual é o papel dos professores em todo este processo? Cumprem ordens, como bons amanuenses. Os que se tornaram diretores cumprem ordens da tutela e dos que se tornaram inspetores. Fazem o que for preciso para apresentar papéis e folhas Excel com os resultados solenemente encomendados e despudoradamente prometidos. Querem é descalçar a sua bota, que os joanetes doem que se fartam! Grandes anfiteatros ― autênticos coliseus ― cheios de alunos e de encarregados de educação, no dia da festa dos Quadros de Mérito, de Valor e de Excelência! Tambores a rufar, trombetas a gritar, holofotes a doirar, jornalistas a “flashar”, parangonas a contar… APOTEOSE! Xerifes de Nottingham. Os professores que continuaram a ser apenas professores ficaram cada vez menos professores e… praticamente, já só cumprem ordens, praticamente de toda a gente. Se os mandam aceitar, aceitam; se os mandam admitir, admitem; se os mandam calar, calam; se os mandam avisar, avisam; se os mandam telefonar, telefonam; se os mandam entreter, entretêm; se os mandam justificar, justificam; se os mandam passar, passam; se os mandam ir, vão. Quando os alunos não cumprem, não estudam e não têm resultados positivos, é sempre aos professores que a tutela e todos os membros da comunidade escolar perguntam “O que é que os senhores vão fazer?”. E eles tiram sempre mais um coelho da cartola. Ai deles que não tirem!

Estes anos de terrorismo sobre os professores estão a matar a classe (que dá esmola para o seu próprio funeral). Mas não estão a aniquilar apenas a massa crítica dos docentes, estão a ferir de morte as sementes do livre pensamento, aquelas que fazem os homens livres, os cidadãos conscientes e interventivos, as democracias sãs, os países civilizados. E porque ensinamos muito mais o que somos do que aquilo que sabemos, devemos esperar que a História se vista a rigor e seja implacável com tanta demissão."

 

Luís Costa, 18 /04/2015



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Quarta-feira, 22.04.15

 

 

 

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«(...)Quando a destruição estiver concertada e o afastamento temporal permitir a análise desapaixonada, de Crato serão claras as marcas que sobram para a história: brutal redução do financiamento da Educação, subjugação do público ao privado e do personalismo ao utilitarismo e deriva desvairada para tudo subordinar a metas grotescas e exames inadequados.(...)»



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Domingo, 19.04.15

 

 

 

"Mas Mariano Gago fez parte do Governo de Sócrates e Lurdes Rodrigues. Esteve nos conselhos de ministros onde se decretou a guerra aos professores e à escola pública, conforme confessou António Costa". Foi mais ou menos assim que ouvi uma crítica que se repetirá.

 

Mariano Gago foi um muito bom ministro da ciência nos governos de Guterres e acumulou o ensino superior nos de Sócrates onde aprofundou ideias políticas sobre o desenvolvimento da ciência. Não lhe conheço uma declaração pública de apoio ou de rejeição (tenho ideia que se demarcou no pico de contestação) ao desmiolo de Lurdes Rodrigues, mas recordo a imagem seguinte da última página do Expresso e convenço-me que olharia para tudo isso do mesmo modo que criticou com veemência os achamentos ultraliberais de Passos e Crato. Há uma "falha" geracional por causa da emigração forçada que Portugal já está a pagar, que se acentuará e que será muito difícil de recuperar.

 

 

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Segunda-feira, 13.04.15

 

 

 

 

A propósito da revolução tranquila que este Governo assumiu, recordo os teóricos da simcult que afirmaram que, na actualidade, uma revolução pode ser tão rápida que nem damos conta.

 

Há sinais da contra-revolução. Não sei se será tranquila, mas espero que sim. Que seja tranquila e igualmente rápida. O que me parece é que as personagens carregadas de ideologia ultraliberal, e que usam gerentes no modelo P. Coelho, podem ficar com o discurso descontinuado e datado. Contudo, muito do mal não é reparável.



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Domingo, 12.04.15

 

 

 

 

Não é recente a sensação de que o país está no pano verde. O caso GES, mais propriamente o BES e as empresas da saúde e dos seguros, deixaram valores fundamentais da comunidade à mercê do casino puro e duro. E convenhamos: os estados licenciaram os privados com base em três pressupostos: geriam melhor, faziam mais com menos e garantiam uma superioridade ética.

 

A exemplo dos negócios da água ou da luz, os denominados "sempre a facturar", a questão obedecia a um simples raciocínio: os licenciados sentavam-se em cima do que recebiam (poupanças, seguros obrigatórios ou pagamento de tratamentos de saúde) e era impossível que saíssem a perder.

 

A entrada da troika coincidiu com a chegada ao poder de uma confessada ideologia radical crente nas virtudes do mercado desregulado. A propagação foi rápida e apoiada no mainstream. Os resultados estão aí e não houve quem impedisse a transferência histórica de recursos financeiros para a classe alta somada ao desplante, no mínimo isso, dos "cofres cheios".



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Sábado, 11.04.15

 

 

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"Diminuíram as camas nos hospitais públicos, mas isso não significa redução da despesa porque aumentámos muito as camas privadas financiadas pelo Estado", confessou um dos SE da saúde num fórum TSF durante a semana. Esta constituição de monopólios privados que capturaram o Estado foi também desenhada para a Educação.

O que acabei de escrever dá razão à comentarista Helena Matos: "a proliferação de candidatos a PR recorda o fim do PREC em 1976". O que esta colunista de direita disse no último expresso da meia-noite foi uma espécie de acto falhado (teve vários e foi corando): as suas hostes perpetraram um PREC de sinal contrário. Estará o estado de protectorado a chegar, finalmente, ao fim e assistiremos de novo à eleição, como em 1976, de um PR acima dos monopólios?



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Quinta-feira, 02.04.15

 

 

 

Pensei que o erro informático nas eleições da Madeira fosse uma mentira do 1 de Abril. Afinal, parece que não. Se fosse há uns tempos, apareceria o "Compromisso Portugal", devidamente sponsoriado pelo BES, a exigir a privatização da CNE. Mas, e como o descaramento não paga mesmo impostos, nunca se sabe.



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Quarta-feira, 01.04.15

 

 

 

E se o primeiro objectivo da municipalização escolar for a redução do orçamento para a Educação numa lógica neoliberal que capturou os partidos do arco?

 

No caso português, a ideia passa pela candidatura dos municípios a verbas europeias que financiarão os salários dos profissionais da Educação, professores incluídos, como já acontece há algum tempo com os cursos profissionais (o tal POPH que é hiperburocratizado como precaução da inspiração na letra seis do modelo "complexo" do subprime).

 

Esse objectivo é faseado: nos tempos mais próximos a desorçamentação faz-se à custa dos poderes descentralizados que introduzirão modelos de gestão inspirados nas cooperativas de ensino (o conhecido GPS foi um contratempo). Os mentores do arco esperam conseguir ainda um objectivo antigo: retirar as escolas públicas da esfera de influência do PCP. Esta mistura de falácias com fantasmas tem sido fatal para o ensino público, impede o seu progresso e consegue cíclicos atrasos civilizacionais.



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Segunda-feira, 30.03.15

 

 

 

 

O futebol pode estar em paz.

 

BES, a PT, o BPI e por aí fora, como outrora o BPN, o BCP, o BANIF e os investidores GOLD do BPP, talvez não continuem a alimentar o poço sem fundo da industria do futebol, mas haverá sempre russos e árabes para juntar aos offshores regulamentados por quem cortou, corta e cortará a eito nos do costume.

 

É certo que cortam, mas também se reconheça que lhes dão alegria, emoções fortes e muito para pensar, imaginar, discutir, suspeitar, adivinhar, desmontar e até concordar. E convenhamos: o investimento no Ronaldo, por exemplo, tem um valor de mercado superior à despesa com uns 200 mil pensionistas.



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Segunda-feira, 09.03.15

 

 

 

 

O estado a que chegaram as reduções por idade dos professores são um bom exemplo da aplicação de legislação, salpicada por incompetência, por liberais do além troika ou da terceira via.

 

Como escrevi aqui, a lei de 2007 não está a ser aplicada. Há professores com direito a horas extraordinárias sem fim (e quanto mais o tempo passa...), há questões da mais elementar justiça de protecção da profissionalidade (os profissionais de saúde, por exemplo, não fazem urgências a partir dos 50) por resolver e há, naturalmente, contratações por fazer nas escolas (a tal geração que emigra aos milhares).

 

blogue do Arlindo Ferreira publicou uma pérola. É um power point de 2008 (julgo que de Valter Lemos) a explicar aos presidentes de Conselhos Executivos (o PS ainda estava indeciso sobre a má partidarização definitiva das escolas que foi legislada em 2009) a aplicação da lei. Quem conhece a lei e o processo considerará hilariante o esclarecimento, mas não deixará de observar que o legislador comungava da ideia que é justa e favorável aos professores.

 

Um estado de sítio protege provisoriamente o Estado e seria aconselhável que se iniciasse a aplicação da lei em todo o território.

 

Repare-se no slide de Valter Lemos.

 

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Aliás, é essa a leitura que o demissionário director da DGAE enviou ao tribunal em 2014 e que foi recentemente contrariada pela sua substituta com a circular nº B150947745 que está contaminada pelo espírito dos eternos carentes de formação jurídica mas com a tendência vigente para a decisão de sentido único.

 

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publicado por paulo prudêncio às 12:56 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 08.03.15

 

 

 

 

Abriu o concurso interno de professores e as "inúmeras" vagas negativas têm uma qualquer relação com o mercado escolar. A regra, para o apuramento de vagas, do actual MEC considera 25 horas lectivas para os lugares do 1º ciclo e 22 para os do 2º e 3º ciclos e do ensino secundário. Como existem reduções e outras situações análogas, para além dos cortes a eito de Nuno Crato, as vagas negativas subiram em flecha (o Arlindo Ferreira apura-as aqui) e nem há 3 anos os ultraliberais embriagavam-se com 50 mil professores para a mobilidade.

 

Sejamos claros e peguemos num exemplo: se num grupo de recrutamento (antes da militarização taylorista designava-se disciplinar) existem 4 vagas negativas, só se 5 lugares ficarem vagos é que alguém é colocado nessa escola. Como se sabe, nada disto se relaciona com mobilidade especial e por aí fora. Só quem quiser jogar grãos de areia para as retinas menos atentas é que pode encontrar outra consequência.

 

Um dos concelhos mais mediatizados na relação público-privado do mercado escolar é o das Caldas da Rainha. Nem por acaso, o ranking das vagas negativas coloca um dos seus agrupamentos destacadíssimo em primeiro lugar. Os defensores, mesmo que em voz oculta e articulada, da situação vigente alarmam-se e lá terão construído as tácticas. É muito embaraçoso para a existência das cooperativas de ensino um número elevado de vagas negativas. Aliás, e a par do já descrito neste post, é a conclusão que resta.

 

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Quarta-feira, 18.02.15

 

 

 

A actual maioria, e de resto o arco dos poderes europeus no que levamos de milénio, fez o que estava ao alcance, e até para lá disso, para diminuir o estado social e favorecer os tais um por cento que não param de se endinheirar (claro que há uns quantos que caíram em desgraça). É factual e não adiantam meias-palavras: puseram-se do lado mais neoliberal que escolheu a Europa como alvo primeiro.

 

O sistema de saúde está em estado-de-falhas-graves-diárias. É uma espécie de estado de sítio. Ontem foram os directores do Hospital Amadora-Sintra que se demitiram.

 

É evidente que a Educação não apresenta casos tão dramáticos. Mas os cortes a eito (curriculares, mais alunos por turma e aumento dos horários dos professores) associados ao empobrecimento, e ao desinvestimento nas escolas "não-parque-escolar", fazem-se sentir e recordam um passado que se julgava distante. Dá ideia que se nada acontecer, o plano inclinado do sistema escolar chegará também a números negativos.

 

Houve, no que levamos de inverno, salas de aula, e outros espaços lectivos, com um clima impossível, pavilhões desportivos gelados e gabinetes de "trabalho" com temperaturas negativas. Um professor, mesmo que bem agasalhado, que passasse noventa minutos num gabinete assim, sabia que tinha uma forte probabilidade de adoecer. Se isso acontecesse, se fosse ao médico e se este "exigisse" uma baixa, os três primeiros dias seriam sem salário.

 

Há professores com a carreira congelada há mais de uma década, em que as famílias não aguentam mais cortes financeiros e que se apresentaram ao serviço em estado febril e com outros sintomas gripais graves. Bem sei que este discurso não parece bem num país do euro, mas a realidade é ainda mais crua do o que o que acabou de ler; bastava relatar histórias de actores de outros grupos do sistema escolar.

 

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Terça-feira, 17.02.15

 

 

 

É notório o receio europeu, do poder vigente, obviamente, com a possível sensatez do fenómeno Syriza.

 

Olhando para o que aconteceu na Grécia com o arco do poder, os poderes governativos europeus temem o esvaziamento eleitoral. Seria uma espécie de dominó: sempre que havia uma eleição, a contagem imediata apontava a queda do mainstream que se colocou do lado neoliberal e que favoreceu, de modo inédito na história conhecida, os tais um por cento. Só um detalhe fundamental: o Syriza afirmou-se sem cedências ao arco governativo e isso torna o fenómeno ainda mais "assustador".

 

 

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Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
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