Em busca do pensamento livre.

Segunda-feira, 28.08.17

 

 

 

 

A troika e as avaliações, os fanatismos ideológicos, o casino financeiro, os offshores, os paraísos fiscais instalados, e há muito, em países europeus, o experimentalismo a que sujeitaram Portugal, a febre dos mercados e os jogos de sombras que capturaram o orçamento do Estado, são algumas das razões que transportaram a manipulação para o auge.

 

Por mais que os mentores confessem erros, não existirá desculpa histórica. O prolongamento da crise de 2008 reforça a responsabilidade e as consequências tornam-na inapelável.

 

Recordo as 10 estratégias de manipulação enunciadas por Noam Chomsky. Publico as 4 primeiras.

 

"1. A estratégia da manipulação. O elemento primordial do controlo social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou a inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público manifeste interesse pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar".

2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3. A estratégia da gradação. Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram empregos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4. A estratégia do diferido. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é sentido imediatamente. Em seguida, porque o público tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento."

 

2ª edição

 

 

19845527_N336w

 

 



publicado por paulo prudêncio às 11:37 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Segunda-feira, 12.06.17

 

 

 

Passos Coelho apressou-se a dizer "que não éramos a Grécia (2011)". Foi uma vergonha. Agora, ficamos a saber que um "acordo secreto de Merkel isolou Schäuble e Portugal. A chanceler alemã fez um acordo com a Grécia, em 2015, contra a vontade do seu ministro das Finanças. Numa reunião do Eurogrupo, Schäuble opôs-se, em vão, e só teve o apoio de Portugal e da Espanha, conta Yanis Varoufakis, o ex-ministro grego". Aguardemos os desenvolvimentos.



publicado por paulo prudêncio às 16:44 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 03.06.17

 

 

 

Segundo os OCS, a rede - e que rede; e que rendas -  EDP/REN começou no Governo de Barroso (2004), passou pelo de Santana e cimentou-se no de Sócrates. A rede pode acabar mal 13 anos depois. Pelos vistos, a rede tem ligações ao BES e desagua na lugar habitual: a rotunda do Marquês. Mexia, um dos quatro arguidos conhecidos ontem e que é referido como membro activo da rede, passou por governos e era um dos liberais do Compromisso Portugal. Em 2010, recomendou aos portugueses que aguentassem. Basta googlar um bocadito e encontramos:

 

"António Mexia diz que fez por merecer os 3,1 milhões.

 

António Mexia afirma que o valor recebido em 2009 em prémios é justificado porque "o que está em causa é que ultrapassámos os objectivos definidos em 2006, 2007 e 2008. Foram definidos objectivos ambiciosos e difíceis de atingir para a maioria das pessoas e que foram ultrapassados".(...) As declarações de Mexia surgem na sequência do escândalo causado pela sua remuneração à frente duma empresa onde o Estado é o principal accionista, numa altura em que o governo propõe medidas de austeridade para os mais pobres.(...)

Tirando a passagem pelo GES, António Mexia fez toda a sua carreira nos negócios em empresas com participação estatal, muitas vezes por nomeação política, para além de ter participado nos governos de Cavaco Silva e Santana Lopes. No entanto, Mexia assume-se como um liberal e foi um dos promotores da iniciativa "Compromisso Portugal", que defendia justamente a saída do Estado do capital das empresas onde ainda se mantém. Na sua mensagem aos membros do Compromisso Portugal, Mexia defendeu que a "ambição que é hoje obrigatória para Portugal" exige "sacrifícios no curto prazo por forma a obter vantagens no médio prazo, devendo esta geração evitar carregar inutilmente as próximas".

"Temos que aprender a dar mais e a pedir menos", aconselhava o então presidente da Comissão Executiva da GALP Energia, ainda antes de aceitar o convite de Santana Lopes para entrar no governo. Quando o governo caiu, foi a vez de Mexia convidar Santana para o cargo de assessor jurídico na EDP."

Blogue 16 Mar 2017 1a

 



publicado por paulo prudêncio às 18:05 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Domingo, 28.05.17

 

 

Captura de Tela 2017-05-28 às 19.49.12

 

Os neoliberais entraram em "revisionismo". É espantoso. Schäuble, com eleições à porta, "elogiou" Centeno enquanto ironizava com a antecipação de 10 mil milhões ao FMI. É uma maldade mais sofisticada que a de Moedas. Há, desde logo, uma evidência: Schäuble não pode impor a Portugal uma tragédia semelhante à grega através doutro duelo com o FMI; isto não apaga a responsabilidade histórica das "elites" gregas; nem das portuguesas. Esperemos que a história o evidencie, já que as principais figuras do FMI fazem o seu papel assumindo responsabilidades em tanto mal irreparável: "Olivier Blanchard (2017): Portugal não deve apressar decida do défice" ou "Christine Lagarde (2015): elevar num (1) ponto percentual a parcela da renda dos pobres e da classe média aumenta o crescimento do PIB de um país até 0,38 pontos percentuais em cinco anos. Em contrapartida, elevar num (1) ponto percentual a parcela da renda dos ricos reduz o crescimento do PIB em 0,08 pontos percentuais. Nossas constatações sugerem que – contrariando a sabedoria popular – os benefícios da renda mais alta "espalham" para cima e não para baixo."



publicado por paulo prudêncio às 19:49 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 27.05.17

 

 

 

A propósito da revolução que a presença da troika destapou, recorda-se os teóricos da simculta revolução, na actualidade, pode ser tão rápida que nem damos conta. Há sinais da contra-revolução? Há sempre sinais; até existiram alguns, mas não sobreviveram. Nunca se sabe se uma contra-revolução será tranquila, mas espera-se que sim e igualmente rápida. Desta vez, percebe-se que as personagens carregadas de ideologia neoliberal ficaram com o discurso descontinuado e datado. Muito do mal não é reparável, embora a mensagem da imagem estimule os contraditórios que, sublinhe-se, não escapam à asserção: é mais rápido e fácil destruir do que construir. Há duas irrefutabilidades de sinal contrário sobre o que é revertível: não será com a mesma velocidade da queda, mas não depende de vontade divina.

 

31960639731_3f29ef7847

 



publicado por paulo prudêncio às 13:57 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quarta-feira, 24.05.17

 

 

 

Leia, sff, e tente adivinhar quem fez as declarações seguintes antes de encontrar a solução no parágrafo final.

  1. “Não é preciso ser altruísta para apoiar políticas que elevem a renda dos pobres e da classe média. Todos beneficiarão com essas políticas porque são essenciais para gerar crescimento mais alto, mais inclusivo e mais sustentado. Ou seja, para se ter crescimento mais duradouro será necessário gerar crescimento mais equitativo."
  2. "Novos estudos demonstram que elevar em um (1) ponto percentual a parcela da renda dos pobres e da classe média aumenta o crescimento do PIB de um país até 0,38 pontos percentuais em cinco anos. Em contrapartida, elevar em um (1) ponto percentual a parcela da renda dos ricos reduz o crescimento do PIB em 0,08 pontos percentuais. Nossas constatações sugerem que – contrariando a sabedoria popular – os benefícios da renda mais alta estão a "espalhar" para cima e não para baixo. Para além de outras variáveis, constata-se que os ricos gastam uma fracção menor da sua renda o que reduz a procura agregada e enfraquece o crescimento. Os nosso estudos anteriores demonstram que a desigualdade excessiva de renda reduz, e na verdade, a taxa de crescimento económico e torna o crescimento menos sustentável com o tempo."

São declarações, em Bruxelas, de Christine Lagarde, em Junho de 2015, baseadas no boletim oficial do FMI de 17 de Junho de 2015 que integra o estudo, também de Junho de 2015 e do mesmo FMI"Causes and Consequences of Income Inequality: A Global Perspective". Se Maquiavel estivesse por cá, teria explicação: "disse ao Príncipe: faz a maldade toda em pouco tempo e depois confessa-a; sei lá: afirma-te neoliberal no início e "social-democrata para sempre" no fim; confia na sabedoria popular."

 

liar

 

 



publicado por paulo prudêncio às 14:39 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 22.04.17

 

 

 

Não se vislumbra a inversão da queda dos salários. O Governo já anuncia que não aumentará os funcionários públicos até 2021. Pode ser apenas uma carta de intenções dirigida às instituições financeiras e a Bruxelas e depois se verá. Mas importa recordar que a queda dos salários tem de ser acompanhada da queda dos lucros e das rendas; e com muito cuidado com a perigosa deflação. Já Adam Smith via essa queda como uma decisão circunscrita às leis e à política. Se analisasse o que se passou em Portugal, seria tão taxativo como Joseph Stiglitz: houve uma transferência inédita de recursos financeiros das classes média e baixa para a banca desregulada e foi esse radicalismo que provocou o empobrecimento. Por incrível que pareça à esquerda europeia que tem governado, a queda dos salários provocou a subida dos lucros e a manutenção das rendas (estude-se a EDP e outros monopólios). Não será por acaso que os orientais adquirem rendas (no caso EDP os chineses traziam a lição bem estudada e conheciam o fundamental dos aparelhos partidários) e não se metem nos casinos (que conhecem melhor que ninguém) das dívidas públicas como os investidores ocidentais.

Neste contexto, é impossível escapar à análise da globalização que foi considerada inicialmente uma ideologia. Estamos, isso é já visível, perante um novo modo de produção - que aumenta a produtividade, mas que concentra o lucro nas rendas e não cria empregos nos países mais ricos - e de organização planetária que reduziu a pobreza mundial para números inéditos. São estas contradições que têm de ser resolvidas dentro de cada bloco numa espécie de regressão temporal. Não se vê outro caminho na impossibilidade de um governo mundial. E, já agora, os neoliberais podem ainda recuar mais um bocado e lerem quem não se cansam de citar.

 

17649059_PaDRp

17649073_6LAz9

 

Adam Smith (2010:171) em "Riqueza das nações", Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.



publicado por paulo prudêncio às 16:28 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Sábado, 01.04.17

 

 

 

OCDE veio dizer que há professores na Europa a precisar de tutorias e há quem pense de imediato em Portugal e no regresso dos professores titulares. Não é assim. Há países onde já não há professores, tal os tratos a que o grupo profissional tem sido alvo. No Reino Unido e na Alemanha, por exemplo e lido assim de repente, precisam de tutorias porque há pessoas sem formação académica, e muito menos profissional, que recorrem ao ensino "apenas" para terem um salário. Em Portugal, como na França ou na Espanha, ainda não é assim. Mas não tarda. Por cá, lá abrirão os telejornais com a falta de professores que começa a ser uma preocupação porque a insanidade organizacional, e os excessos no tempo para a aposentação nos do costume, provoca baixas médicas em catadupa.



publicado por paulo prudêncio às 14:29 | link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Sexta-feira, 17.03.17

 

 

 

O verbo incentivar será uma das componentes mais críticas do mundo desenvolvido. Essa lógica racional do mercado condicionou a socialização e a estruturação das actividades. Importa sublinhar que, há umas décadas, incentivar era uma palavra-chave educacional e organizacional com uma ubiquidade que se entranhou.

Steven D. Levitt, em "Freakonomics: o estranho mundo da economia" e mais recentemente Michael Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", dedicaram-se ao efeito do verbo. O segundo tem um tópico que intitulou "incentivos e dilemas morais", onde se pode ler (página 93):

"É fácil deixar escapar a novidade desta definição. A linguagem dos incentivos é um desenvolvimento recente do pensamento económico. A palavra "incentivo" não surge nos escritos de Adam Smith nem nas obras de nenhum dos outros economistas clássicos. Na verdade, só viria a ser introduzida no discurso económico no século XX e apenas adquiriu proeminência nas décadas de 1980 e 1990. O Dicionário Oxford de Inglês indica o seu primeiro uso no contexto da economia em 1943; nas Seleções do Reader' s Digest: "O Sr. Charles E. Wilson (...) está a incitar as indústrias da guerra a adoptarem "remunerações de incentivo" - isto é, pagar mais aos trabalhadores se produzirem mais." O uso da palavra incentivo aumentou drasticamente na segunda metade do século XX à medida que o predomínio dos mercados e da lógica racional do mercado se consolidava. Segundo uma pesquisa no Google Books, a incidência deste termo aumentou mais de 400% desde a década de 1940 à década de 1990."

Observa-se, portanto, uma crise moral em paralelo com um inédito desenvolvimento tecnológico que implica uma revolução na organização das sociedades. Se a eliminação do incentivo é uma "impossibilidade" imediata, já o uso mais ponderado na educação das crianças contribuirá para a afirmação de políticas sustentáveis.

Se em Adam Smith o mercado era a mão invisível, para Michael Sandel a generalização dos incentivos tornou-se a mão pesada e manipuladora. O filósofo dá vários exemplos de incentivos monetários nesse sentido, como os que são dados a troco da esterilização ou de boas notas escolares.

A prevalência do incentivo não eliminou a distinção entre economia e ética,

"entre a lógica racional do mercado e o raciocínio moral. A economia simplesmente não transacciona em moralidade. A moralidade representa a maneira como gostaríamos que o mundo funcionasse e a economia mostra como ele funciona na realidade", explicam Levitt e Dubner.

Michael Sandel acrescenta:

"(...)A noção que a economia é uma ciência isenta de juízos de valor, independente de toda a filosofia moral e política, sempre foi questionável. Contudo, hoje em dia, a jactante ambição da ciência económica torna extremamente difícil defender esta afirmação. Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...)Quando os mercados corroem normas não mercantis, o economista (ou qualquer outra pessoa) tem de decidir se isso representa uma perda que deveria preocupar-nos.(...)"

Neste tópico, Michael Sandel apresenta um conjunto de problemas educacionais e escolares que abordarei noutros posts.

2ª edição.

 



publicado por paulo prudêncio às 09:33 | link do post | comentar | partilhar

Quarta-feira, 25.01.17

 

 

 

É a escola do Goldman Sachs. "Oferece 15.000 milhões" por 30.000 milhões de imparidades (registado muito superior ao executável). É o resultado do crédito de neutrões. Ou seja, a bomba de neutrões, a última variante da bomba atómica, é um pequeno dispositivo termonuclear que "só" destrói os organismos vivos. Nessa linha, o Goldman Sachs criou o subprime, também conhecido por crédito de neutrões, que endividou a classe média e levou-a à falência com o edificado intacto. Recupera-o na desesperada banca intermédia por metade do preço e espera que o executável suba.

 

Captura de Tela 2017-01-25 às 20.38.55

 



publicado por paulo prudêncio às 20:39 | link do post | comentar | partilhar

Quarta-feira, 18.01.17

 

 

Objectivamente, e para além dos resultados da justiça (a Operação Marquês conheceu hoje mais um avanço), estamos a pagar, e vamos continuar (a tal dívida impagável), anos a fio de desvario financeiro; em Portugal, na Europa e no mundo do capitalismo selvagem.



publicado por paulo prudêncio às 19:47 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 10.01.17

 

 

 

O verbo incentivar será uma das componentes mais críticas do mundo desenvolvido. Essa lógica racional do mercado condicionou a socialização e a estruturação das actividades. Importa sublinhar que, há umas décadas, incentivar era uma palavra-chave educacional e organizacional com uma ubiquidade que se entranhou.

Steven D. Levitt, em "Freakonomics: o estranho mundo da economia" e mais recentemente Michael Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", dedicaram-se ao efeito do verbo. O segundo tem um tópico que intitulou "incentivos e dilemas morais", onde se pode ler (página 93):

"É fácil deixar escapar a novidade desta definição. A linguagem dos incentivos é um desenvolvimento recente do pensamento económico. A palavra "incentivo" não surge nos escritos de Adam Smith nem nas obras de nenhum dos outros economistas clássicos. Na verdade, só viria a ser introduzida no discurso económico no século XX e apenas adquiriu proeminência nas décadas de 1980 e 1990. O Dicionário Oxford de Inglês indica o seu primeiro uso no contexto da economia em 1943; nas Seleções do Reader' s Digest: "O Sr. Charles E. Wilson (...) está a incitar as indústrias da guerra a adoptarem "remunerações de incentivo" - isto é, pagar mais aos trabalhadores se produzirem mais." O uso da palavra incentivo aumentou drasticamente na segunda metade do século XX à medida que o predomínio dos mercados e da lógica racional do mercado se consolidava. Segundo uma pesquisa no Google Books, a incidência deste termo aumentou mais de 400% desde a década de 1940 à década de 1990."

Observa-se, portanto, uma crise moral em paralelo com um inédito desenvolvimento tecnológico que implica uma revolução na organização das sociedades. Se a eliminação do incentivo é uma "impossibilidade" imediata, já o uso mais ponderado na educação das crianças contribuirá para a afirmação de políticas sustentáveis.

Se em Adam Smith o mercado era a mão invisível, para Michael Sandel a generalização dos incentivos tornou-se a mão pesada e manipuladora. O filósofo dá vários exemplos de incentivos monetários nesse sentido, como os que são dados a troco da esterilização ou de boas notas escolares.

A prevalência do incentivo não eliminou a distinção entre economia e ética,

"entre a lógica racional do mercado e o raciocínio moral. A economia simplesmente não transacciona em moralidade. A moralidade representa a maneira como gostaríamos que o mundo funcionasse e a economia mostra como ele funciona na realidade", explicam Levitt e Dubner.

E Michael Sandel acrescenta:

"(...)A noção que a economia é uma ciência isenta de juízos de valor, independente de toda a filosofia moral e política, sempre foi questionável. Contudo, hoje em dia, a jactante ambição da ciência económica torna extremamente difícil defender esta afirmação. Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...)Quando os mercados corroem normas não mercantis, o economista (ou qualquer outra pessoa) tem de decidir se isso representa uma perda que deveria preocupar-nos.(...)"

Neste tópico, Michael Sandel apresenta um conjunto de problemas educacionais e escolares que abordarei noutros posts.

Já usei parte desta argumentação noutro post.



publicado por paulo prudêncio às 14:15 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 03.01.17

 

 

 

A propósito da revolução, iniciada em 2005 ou até em 2003, que a presença da troika destapou, recordo os teóricos da simcultna actualidade, uma revolução pode ser tão rápida que nem damos conta. Há sinais da contra-revolução. Não sei se será tranquila, mas espero que sim. Que seja tranquila e igualmente rápida. O que me parece é que as personagens carregadas de ideologia ultraliberal ficaram com o discurso descontinuado e datado. Muito do mal não é reparável, embora a mensagem da imagem estimule os contraditórios que, sublinhe-se, não escapam à asserção: é mais rápido e fácil destruir do que construir. Há duas irrefutabilidades de sinal contrário sobre o que é recuperável: não será com a mesma velocidade da queda, mas não depende de vontade divina.

 

19611397_ZBdGB

 

 



publicado por paulo prudêncio às 15:22 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 02.01.17

 

 

 

Com todos os riscos de quem retira do contexto uma passagem, não resisto a citar Ulrich Beck (2015:22) "Sociedade de risco mundial - em busca da segurança perdida", Lisboa, Edições 70,

 

"(...)o risco constitui o modelo de percepção e de pensamento da dinâmica mobilizadora de uma sociedade, confrontada com a abertura, as inseguranças e os bloqueios de um futuro produzido por ela própria e não determinada pela religião, pela tradição ou pelo poder superior da natureza, mas que também perdeu a fé no poder redentor das utopias.(...)".

 

A perda da "fé no poder redentor das utopias" indicia um risco de decadência se não se circunscrever ao inevitável cinismo com que a maturidade olha para a prevalência do mal. Se a descrença nas utopias e no combate às desigualdades atravessar todas as gerações, a decadência entranha-se; como a história, de resto, já nos explicou.

 

www.cartoonstock.com/cartoonview.asp?catref=cgo0149

 



publicado por paulo prudêncio às 21:39 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 15.12.16

 

 

 

 

Leia, sff, e tente adivinhar quem fez as declarações seguintes antes de encontrar a solução no parágrafo final; mas sentado como na imagem (prémio 2014 do melhor cartoon da Press Cartoon Europe).

  1. “Não é preciso ser altruísta para apoiar políticas que elevem a renda dos pobres e da classe média. Todos beneficiarão com essas políticas porque são essenciais para gerar crescimento mais alto, mais inclusivo e mais sustentado. Ou seja, para se ter crescimento mais duradouro será necessário gerar crescimento mais equitativo."
  2. "Novos estudos demonstram que elevar em um (1) ponto percentual a parcela da renda dos pobres e da classe média aumenta o crescimento do PIB de um país até 0,38 pontos percentuais em cinco anos. Em contrapartida, elevar em um (1) ponto percentual a parcela da renda dos ricos reduz o crescimento do PIB em 0,08 pontos percentuais. Nossas constatações sugerem que – contrariando a sabedoria popular – os benefícios da renda mais alta estão a "espalhar" para cima e não para baixo. Para além de outras variáveis, constata-se que os ricos gastam uma fracção menor da sua renda o que reduz a procura agregada e enfraquece o crescimento. Os nosso estudos anteriores demonstram que a desigualdade excessiva de renda reduz, e na verdade, a taxa de crescimento económico e torna o crescimento menos sustentável com o tempo."

Está sentado? Fique a saber que são declarações, em Bruxelas, de Christine Lagarde, em Junho de 2015, baseadas no boletim oficial do FMI de 17 de Junho de 2015 que integra o estudo, também de Junho de 2015 e do mesmo FMI"Causes and Consequences of Income Inequality: A Global Perspective". Se Maquiavel estivesse por cá, teria explicação: "disse ao Príncipe: faz a maldade toda em pouco tempo e depois confessa-a; sei lá: afirma-te neoliberal no início e "social-democrata para sempre" no fim; confia na sabedoria popular."

 

19240254_eFjtC

 



publicado por paulo prudêncio às 16:20 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 18.08.16

 

 

 

A troika e as avaliações, os fanatismos ideológicos, o casino financeiro, os offshores, os paraísos fiscais também, e há muito, instalados em países europeus, o experimentalismo a que sujeitaram Portugal, a febre dos mercados e os jogos de sombras que capturaram o orçamento do Estado são algumas das razões que transportaram a manipulação para um auge.

 

Por mais que os mentores confessem erros, não existirá desculpa histórica. O prolongamento da crise de 2008 reforça a responsabilidade e as consequências desastrosas tornam-na inapelável.

 

Recordo as 10 estratégias de manipulação enunciadas por Noam Chomsky. Publico as 4 primeiras.

 

"1. A estratégia da manipulação. O elemento primordial do controlo social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou a inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público manifeste interesse pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar".

 

2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

 

3. A estratégia da gradação. Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram empregos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

 

4. A estratégia do diferido. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é sentido imediatamente. Em seguida, porque o público tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento."

 

media-spoonfeeding-cartoon.jpg

 



publicado por paulo prudêncio às 18:30 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Sábado, 02.07.16

 

 

 

 

Quem diria que o verbo incentivar explicaria a encruzilhada civilizacional do mundo desenvolvido. Se recuarmos umas décadas, incentivar era a palavra-chave educacional e organizacional. A sua ubiquidade entranhou-se, fazendo com que a lógica racional do mercado condicionasse a socialização e a estruturação das actividades.

 

Steven D. Levitt, em "Freakonomics: o estranho mundo da economia" e mais recentemente Michael Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", dedicam páginas ao efeito do verbo. O segundo tem um tópico que intitulou "incentivos e dilemas morais", onde se pode ler (página 93):

 

"É fácil deixar escapar a novidade desta definição. A linguagem dos incentivos é um desenvolvimento recente do pensamento económico. A palavra "incentivo" não surge nos escritos de Adam Smith nem nas obras de nenhum dos outros economistas clássicos. Na verdade, só viria a ser introduzida no discurso económico no século XX e apenas adquiriu proeminência nas décadas de 1980 e 1990. O Dicionário Oxford de Inglês indica o seu primeiro uso no contexto da economia em 1943; nas Seleções do Reader' s Digest: "O Sr. Charles E. Wilson (...) está a incitar as indústrias da guerra a adoptarem "remunerações de incentivo" - isto é, pagar mais aos trabalhadores se produzirem mais." O uso da palavra incentivo aumentou drasticamente na segunda a metade do século XX à medida que o predomínio dos mercados e da lógica racional do mercado se consolidava. Segundo uma pesquisa no Google Books, a incidência deste termo aumentou mais de 400% desde a década de 1940 à década de 1990."

 

Esta reflexão explica a crise moral que se observa em paralelo com um inédito desenvolvimento tecnológico que implica uma revolução na organização das sociedades. Se a eliminação do incentivo é uma "impossibilidade" imediata, já o seu uso mais ponderado na educação das crianças contribuirá para a afirmação de políticas sustentáveis.

 

Se para Adam Smith o mercado era uma mão invisível, já para Michael Sandel a generalização dos incentivos tornou-se uma mão pesada e manipuladora. O filósofo dá vários exemplos de incentivos monetários que vão nesse sentido, como os que são dados a troco da esterilização ou de boas notas escolares.

 

Esta prevalência incentivadora não eliminou a distinção entre economia e ética, "entre a lógica racional do mercado e o raciocínio moral. A economia simplesmente não transacciona em moralidade. A moralidade representa a maneira como gostaríamos que o mundo funcionasse e a economia mostra como ele funciona na realidade", explicam Levitt e Dubner.

 

E Michael Sandel acrescenta:

 

"(...)A noção que a economia é uma ciência isenta de juízos de valor, independente de toda a filosofia moral e política, sempre foi questionável. Contudo, hoje em dia, a jactante ambição da ciência económica torna extremamente difícil defender esta afirmação. Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...)Quando os mercados corroem normas não mercantis, o economista (ou qualquer outra pessoa) tem de decidir se isso representa uma perda que deveria preocupar-nos.(...)"

 

Neste tópico, Michael Sandel apresenta um conjunto de problemas educacionais e escolares que abordarei noutros posts.

 

image.jpeg

 



publicado por paulo prudêncio às 13:59 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Sexta-feira, 20.05.16

 

 

 

Os adeptos das políticas do Estado mínimo invocam o liberalismo e Adam Smith para justificarem uma superiorida ética da gestão privada. Era bom que mudassem de disco.

 

A queda dos salários, por exemplo, tem de ser acompanhada pela queda dos lucros e das rendas; e com muito cuidado com a perigosa deflação. Adam Smith via essa queda como uma decisão circunscrita às leis e à política. Se analisasse o que se passou em Portugal, seria tão taxativo como Joseph Stiglitz: houve uma transferência inédita de recursos financeiros das classes média e baixa para a banca desregulada e foi esse radicalismo que provocou o empobrecimento.

 

A queda dos salários provocou a subida dos lucros e a manutenção das rendas (estude-se a EDP e outros monopólios). Não será por acaso que os orientais adquirem rendas (no caso EDP os chineses traziam a lição bem estudada e conheciam o fundamental dos aparelhos partidários) e não se metem nos casinos (que conhecem melhor que ninguém) das dívidas públicas como os investidores ocidentais. O que se percebeu nestes "privados" escolares foi a guloseima das rendas a caminho do monopólio; era (e é?) esse o seu confessado objetivo.

 

 

ad1.jpeg

14799082_nP6J8.jpeg

 

 

Adam Smith (2010:171) em Riqueza das nações, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

 



publicado por paulo prudêncio às 15:46 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 14.03.16

 

 

 

 

Por mais que Draghi reme contra a corrente, as imparidades (executável inferior, muito neste caso, ao escriturado), desnudadas em 2007, transformam crescimentos económicos em "pagamento" de dívidas soberanas que requerem reestruturação ou consolidação; no segundo caso creio que só se houver vida em Marte. É um círculo vicioso que o tempo não resolve. A bancocracia absorve as "ofertas" do BCE e nada sobra para a economia.

 

Insistir no retratado na imagem, só acelera várias expressões: "luta de classes", "este capitalismo de saque é uma ofensa ao capitalismo", "a classe dos super-ricos está a fazer a guerra e a ganhá-la", "austeridade ruinosa a favor de uma minoria", "a desigualdade é uma escolha política", "os EUA exportaram o seu modelo de corrupção" e podia ficar a tarde toda a escrever, e a repetir, expressões que não são de radicais de esquerda nem nada que se aproxime. É só pesquisar. 

 

Caridade.jpg

 



publicado por paulo prudêncio às 17:25 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quarta-feira, 24.02.16

 

 

As nossas "elites" da alta finança são cómicas. Como o Novo Banco não permite privatização de lucros, bem pelo contrário, estabelece-se um manto de silêncio com as "ideias de nacionalização por parte da esquerda". Até Vìtor Bento já defende a nacionalização que, diga-se, até pode ter efeitos orçamentais positivos. Que tempos, realmente.

 

Captura de Tela 2016-02-24 às 16.42.05.png

 



publicado por paulo prudêncio às 16:42 | link do post | comentar | partilhar


Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
Discordâncias:
Mais até por uma questão estética, este blogue discorda ortograficamente
arquivo
comentários recentes
Estava a referir-me ao documento do tribunal de co...
Certamente conhecerá este documento: http://aerbp....
Os professores sabem bem disso. - "Alguém question...
Boa noite.Não se vai importar, mas vou copiar e co...
Compreendo o seu ponto de vista e parece-me import...
Obrigado pelo comentário.As suas opiniões têm dado...
Para aqueles que se preocupam com o cumprimento da...
subscrever feeds
mais sobre mim
Por precaução
https://www.createspace.com/5386516
ligações
blog participante - Educaá∆o - correntes .jpg
tags

antero

avaliação do desempenho

bancarrota

blogues

campanhas eleitorais

cartoon

circunstâncias pessoais

coisas tontas

concursos de professores

contributos

corrupção

crise da democracia

crise da europa

crise financeira

desenhos

direitos

economia

educação

efemérides

escolas em luta

estatuto da carreira

falta de pachorra

filosofia

fotografia

gestão escolar

história

humor

ideias

literatura

movimentos independentes

música

paulo guinote

política

política educativa

professores contratados

público-privado

queda de crato

rede escolar

ultraliberais

vídeos

todas as tags

favoritos

bloco da precaução

pensar o sistema escolar ...

escolas sem oxigénio

e lembrei-me de kafka

as minhas calças brancas ...

as minhas calças brancas ...

reformas e remédios (1) -...

sua excelência e os númer...

posts mais comentados
Razões de uma candidatura
https://www.createspace.com/5387676