Em busca do pensamento livre.

Terça-feira, 24.01.17

 

 

 

Foi em 2003 que os concursos de professores iniciaram o movimento descendente. O rol de injustiças (inúmeras já irreparáveis) cresceu e lançou os procedimentos num labirinto em forma de imbróglio. Entre tanta justificação, o mérito no exercício dos professores destacou-se ciclicamente.

O sistema integrado de avaliação do desempenho da administração pública nasceu para resolver de vez, diziam os mentores, esse tipo de "lacuna". O SIADAP reuniu uma linguagem sedutora e bem-pensante como as que deram origem aos totalitarismos. A "meritocracia industrial" é, objectivamente, uma impossibilidade.

SIADAP hibernou, mas sobrevive em regime de faz de conta e degrada o clima das organizações. Para que a comédia tivesse um episódio marcante, em "Outubro de 2012" o Governo eliminou, como corte financeiro, as distinções por "mérito" e os sindicatos exigiram, de modo cínico, obviamente, a continuação da tragédia. É um processo que exige atenção agora que se assiste, nos concursos de professores, ao regresso "inspirador" das ideias datadas que secundarizaram a graduação profissional e permitiram dois desmiolos: bolsa de contratação de escola e prova de ingresso.

 

3e0637022b9895d79ae8b2793c1c4228

 

 



publicado por paulo prudêncio às 18:56 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quinta-feira, 13.02.14

 

 

 

 

 

 

 

A avaliação do desempenho como primeiro critério para o despedimento é algo que poucos do arco da governação contestarão; a menos que sintam na pele os efeitos da meritocracia injusta e brutal que contaminou de vez processos como o SIADAP. No mundo empresarial, e ao que se vai percebendo, acontecem fenómenos semelhantes. A decisão unilateral do Governo beneficiará do silêncio do PS do passado, do actual, do que venha a caminho e até do que se movimente em Marte.

 

Apesar da repetição do óbvio ser um dever, também há limites. Nesse sentido, vou buscar um post que escrevi há dias para não ter que teclar o mesmo.

 

"Nem um calceteiro pode ser avaliado de um modo puramente quantitativo e meritocrático", é uma evidência que devia ser óbvia nas sociedades modernas que se dizem avançadas. Quando um político afirma que com a primazia da avaliação do desempenho o "Governo está a levar o "medo" às empresas", fica a ideia de que a maioria das pessoas sorrirá com a "manifestação de fraqueza" e os comentadores mainstream lá se encarregarão de colocar a "impossibilidade quantitativa" como uma inevitabilidade competitiva da pós-modernidade.

 

A avaliação quantitativa escolar é uma exigência educativa que intervém na formação da personalidade; o aluno é o outro e tem, naturalmente, uma reduzida possibilidade de contestação. O faz-de-conta reduz-se e é quase inexistente. Entre adultos, entre iguais, o faz-de-conta é galopante e a sua absolutização é uma condição de sobrevivência para os intervenientes. Mas isso não impede que o "medo" se instale e que se criem, paulatinamente, condições para um totalitarismo; por explosão ou implosão.

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 13:57 | link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Domingo, 07.07.13

 

 

 

 

 

A esquerda inebriou-se com o facilitismo do "tudo deve obedecer à lógica de mercado" menos os monopólios que garantem poder ilimitado às oligarquias que gravitam na esfera dos governos e deixou-se seduzir por ideias meritocráticas do género SIADAP que deixaram o seu lado do combate político refém da desmobilização, da anti-cooperação e da incapacidade para apontar caminhos alternativos.

 

A democracia dá trabalho e a esquerda seguiu o trajecto mais imediato, sedutor e bem-pensante das teses meritocráticas e deixou que essa totalidade empurrasse a política para o vazio constituído pelo fatal caminho único. É uma esquerda que bem precisa de psiquiatra, mas o modelo de avaliação que criou, ou ajudou a criar, está também sem paciência para traumas e coisas trabalhosas.

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 13:41 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Sexta-feira, 08.02.13

 

 

 

 

A conversa derivou para os tiques totalitários do tempo em que vivemos e introduzi, para relativo espanto dos meus interlocutores, o SIADAP (Sistema Integrado de Avaliação do Desempenho na Administração Pública). Como tínhamos partido do maoismo, do estalinismo e de outros ismos, foi natural a surpresa com a aparente derivação da minha questão e concordámos que para se entender o alcance da afirmação é necessário mergulhar na dilacerante atmosfera relacional que provoca.

 

O primeiro alerta da devastação veio da France Telecom onde 35 trabalhadores se suicidaram entre 2008 e 2009. O espírito SIADAP tinha sido levado às últimas consequências.

 

Desta vez o sinal vem de Paul Krugman e dirige-se ao "suicídio económico da Europa". Há, já não restam dúvidas, um qualquer maquiavelismo do género dos ismos enunciados a que não são estranhos os processos portugueses como o mediatizado BPN.

 


"(...)E se o flagelo aparentemente crescente na Europa de suicídios motivados pela crise económica, face ao desespero com o desemprego e falência das empresas, for lido como uma história não tanto sobre casos particulares de indivíduos, mas sobre a aparente determinação dos líderes europeus em cometer um suicídio económico de todo o continente?(...)"



publicado por paulo prudêncio às 15:26 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 05.02.13

 

 

 

 

Luís Valadares Tavares, ex-presidente do Instituto Nacional da Administração, é um adepto do SIADAP (Sistema Integrado de Avaliação do Desempenho na Administração Pública). Bem sei que a linguagem do sistema é sedutora e bem-pensante, mas a sua aplicação é desastrosa.

 

Nas respostas a esta entrevista, levanta uma questão pertinente depois de afirmar que o Governo está a "esmagar" a função pública (é mais um que chegou atrasado à tragédia que ajudou a perpetrar).

 

 

"(...)Cortar nas aquisições.


Sim, mas há cinco administrações públicas. A directa está controlada, o Governo não tem conseguido controlar é as despesas nas empresas públicas, institutos públicos e nas administrações regional e local.(...)"



publicado por paulo prudêncio às 16:27 | link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Terça-feira, 30.10.12

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vi o ontem o jurista Paulo Saragoça da Matta, numa entrevista a Mário Crespo, defender a avaliação dos juízes. Fiquei com a ideia que é também professor de magistrados e advogou a pontuação dos seus pares como um caminho inalienável para a meritocracia e para os ganhos de credibilidade junto da opinião pública. No entanto, Paulo Saragoça da Matta foi enfático num se: é tudo muito interessante se (e frisou bem o se, arrastando-o até) o processo for sério.

 

Assisti a discursos semelhantes por parte de professores que nunca iam à génese da meritocracia, e muito menos à aplicabilidade destes modelos pontuáveis e infernais, e se deixavam envolver pelo temor de enfrentar a linguagem sedutora e bem-pensante dos totalitarismos. Há, como sabemos, modos de mobilizar pessoas que não passam pela meritocracia, só que dão trabalho e requerem convicções democráticas e alguma exemplaridade e competência.

 

O Governo reiterou ontem a intenção de pontuar os juízes pelo número de processos judiciais concluídos como um caminho para "o desta vez é que vai ser". Já estamos cansados desta parábola circular que volta e meia abala os alicerces da democracia que tanto nos custa a construir.

 

Ainda há dias manifestei a esperança na queda livre do espírito SIADAP com o fim da contabilização do número de multas na avaliação dos fiscais da EMEL. Disseram os responsáveis que o modelo teve "efeitos perversos"; pois.



publicado por paulo prudêncio às 16:42 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 22.10.12

 

 

 

O espírito SIADAP (Sistema Integrado de Avaliação do Desempenho na Administração Pública) está, inevitavelmente, em queda livre. Os sistemas como o SIADAP, mesmo que usem a linguagem sedutora e bem-pensante dos totalitarismos, esbarram na natureza humana e na necessidade de se colocar em lugar cimeiro os direitos humanos; pode é levar algum tempo e ceifar (estou a pesar bem) vidas.

 

O inferno da medição em que vivemos é um terreno fértil para os descomplexados competitivos que advogam o avanço das organizações assente em duas premissas (que nunca se aplicam aos próprios): exclusão dos inaptos e meritocracia.

 

É, portanto, natural que a aberração dos salários dos fiscais da EMEl dependerem da quantidade de multas seja considerada perversa e tenha chegado ao fim da linha. É que há modelos em que o faz de conta não funciona.



publicado por paulo prudêncio às 15:33 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Segunda-feira, 01.10.12

 

 

 

 

 

 

 

O sistema integrado de avaliação do desempenho da administração pública (SIADAP) reúne uma linguagem tão sedutora e bem-pensante como as que deram origem aos totalitarismos mais diversos. São cada vez mais os que classificam a meritocracia como uma impossibilidade de génese antidemocrática.

 

A desorientação instalou-se no SIADAP e só o faz de conta vai sobrevivendo apesar de degradar o clima das organizações públicas. Para que a comédia fosse verdadeiramente lusitana, só nos faltava um Governo a eliminar distinções por mérito para poupar e sindicatos a pugnar pelo continuação do desmiolo.

 

 

Eliminados artigos sobre a distinção por mérito na função pública



publicado por paulo prudêncio às 21:18 | link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Quarta-feira, 20.06.12

 

 

 

Quando alguém deste Governo diz que um modelo de avaliação é mau, temos de duvidar do que vai acontecer. É que Passos Coelho, o tal do Kafkiano, mentiu em campanha eleitoral e pode ter feito escola.

 

Há dias fiz este post, "O SIADAP, os sem voz e o clima organizacional", em que escrevi assim: "(...)Os grupos profissionais mais capazes de ocupar espaço no mundo mediático, como os professores, os médicos ou os juízes, conseguiram derrubar o desmiolo ou adiar sine die a sua concretização. (...)A avaliação do desempenho dos assistentes administrativos e operacionais está entregue ao arbitrário, à injustiça, à falta de profissionalismo ou de sensatez dos avaliadores, à imensurabilidade dos indicadores, à dilaceração das cotas e por consequência à bajulação, ao despotismo e à utilização da hierarquia como instrumento de sujeição do outro. O que há de pior no clima organizacional é estimulado e consolidado pelo SIADAP.(...)"

 

A sensação que tenho é que o espírito do SIADAP é tão mau que só pode cair. Espera-se não só que caia, mas que sejam anulados todos os seus resultados e efeitos. E repare-se no discurso de um dos mentores: a estratosfera estava certa, os humanos é que se dão mal com práticas totalitárias.

 

Governo vai rever avaliação dos funcionários públicos

 

 

"O secretário de Estado da Administração Pública, Hélder Rosalino, anunciou esta quarta-feira que o Governo vai rever o Sistema Integrado de Avaliação do Desempenho da Administração Pública (SIADAP) por ser “extremamente burocrático”.

(...)Nesse sentido, Hélder Rosalino afirmou que o Governo vai negociar com os sindicatos a revisão do SIADAP, uma vez que este sistema se baseia no “cumprimento de objectivos que não têm reflexo na vida dos funcionários”, uma vez tanto as progressões na carreira quer a atribuição de prémios de desempenho estão congelados. O SIADAP foi criado em 2004 no Governo de Durão Barroso e alterado na primeira legislatura de José Sócrates. A sua aplicação suscitou vários problemas, mas no balanço apresentado em 2009 concluía-se que mais de 90% dos trabalhadores da administração central tinham sido avaliados.

(...)“O sistema foi aplicado. Outra discussão que se abre a seguir é se foi bem ou mal aplicado”, disse o secretário de Estado da Administração Pública da altura, Gonçalo Castilho dos Santos."



publicado por paulo prudêncio às 20:35 | link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Terça-feira, 12.06.12

 

 

 

Uma entrevista a Christophe Dejours, no antigo P2 do Público, foi ao osso do Taylorismo (bem sei que talvez Frederick Taylor tenha as costas largas, que deveria ser avaliado com o pensamento do seu tempo, por aquilo que defendeu e não pelo que fizeram com as suas teorias, embora a lógica empresarial em que "uns quantos, poucos, apenas pensam, e uns tantos, muitos, apenas fazem" tenha provocado inúmeras dilacerações relacionais) e deixou a comunidade que se interessava pela gestão das organizações em estado de choque.

 

A blogosfera também reagiu e, como pode ler aqui, o acento tónico foi óbvio: a entrevista apenas constatou o que há muito se sabia. E o mais grave, é que esse "modus operandi" empresarial foi incutido à força nos outros espíritos planetários.

 

É uma entrevista imperdível. Apresento-a reduzida de acordo com os meus critérios.

 

 

Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, Christophe Dejours dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção – uma das raras equipas no mundo que estuda a relação entre trabalho e doença mental. Esteve há dias em Lisboa... (...) ...falou do sofrimento no trabalho. Não apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realização pessoal.(...)

O suicídio ligado ao trabalho é um fenómeno novo? 
O que é muito novo é a emergência de suicídios e de tentativas de suicídio no próprio local de trabalho. Apareceu em França há apenas 12, 13 anos. E não só em França – as primeiras investigações foram feitas na Bélgica, nas linhas de montagem de automóveis alemães. É um fenómeno que atinge todos os países ocidentais. O facto de as pessoas irem suicidar-se no local de trabalho tem obviamente um significado. É uma mensagem extremamente brutal, a pior do que se possa imaginar – mas não é uma chantagem, porque essas pessoas não ganham nada com o seu suicídio. É dirigida à comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, à empresa. Toda a questão reside em descodificar essa mensagem. 

Afecta certas categorias de trabalhadores mais do que outras? 
Na minha experiência, há suicídios em todas as categorias – nas linhas de montagem, entre os quadros superiores das telecomunicações, entre os bancários, nos trabalhadores dos serviços, nas actividades industriais, na agricultura.(...) 

O que é que mudou nas empresas? 
A organização do trabalho. Para nós, clínicos, o que mudou foram principalmente três coisas: a introdução de novos métodos de avaliação do trabalho, em particular a avaliação individual do desempenho; a introdução de técnicas ligadas à chamada “qualidade total”; e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário. 

A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.” 

Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe…

Mas o assédio no trabalho é novo? 
Não, mas a diferença é que, antes, as pessoas não adoeciam. O que mudou não foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador – é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de viver uma traição – a traição dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos são cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que não querem falar connosco.(...) 

Uma formação para o assédio? 
Exactamente. Há estágios para aprenderem essas técnicas. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc.. E, no fim do estágio, o director do estágio deu a todos a ordem de… matar o seu gato. 

Está a descrever um cenário totalmente nazi... 
Só que aqui ninguém estava a apontar uma espingarda à cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for, um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensação aguda e eu tive de tratá-la – foi assim que soube do caso. Mas os outros 14 mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, uma aprendizagem do assédio.(...) 

E os sindicatos? 
Penso que os sindicatos foram em parte destruídos pela evolução da organização do trabalho. Não se opuseram à introdução dos novos métodos de avaliação. Mesmo os trabalhadores sindicalizados viram-se presos numa dinâmica em que aceitaram compromissos com a direcção. Em França, a sindicalização diminuiu imenso – as pessoas já não acreditam nos sindicatos porque conhecem as suas práticas desleais.(...)

Falou de “qualidade total”. O que é exactamente?
É uma segunda medida que foi introduzida na sequência da avaliação individual. Acontece que, quando se faz a avaliação individual do desempenho, está-se a querer avaliar algo, o trabalho, que não é possível avaliar de forma quantitativa, objectiva, através de medições. Portanto, o que está a ser medido na avaliação não é o trabalho. No melhor dos casos, está-se a medir o resultado do trabalho. Mas isso não é a mesma coisa. Não existe uma relação de proporcionalidade entre o trabalho e o resultado do trabalho. 

É como se em vez de olhar para o conteúdo dos artigos de um jornalista, apenas se contasse o número de artigos que esse jornalista escreveu.(...).

Os médicos sempre foram considerados uma classe muito solidária… 
Foram. Já não são. Eu trabalhei anos nos hospitais, e adorava trabalhar lá, porque existia um espírito de equipa fantástico. Éramos felizes no nosso trabalho. Hoje, as pessoas não querem trabalhar nos hospitais, não querem fazer bancos, tentam safar-se. São todos contra todos. Bastaram uns anos para destruir a solidariedade no hospital. O que aconteceu é aterrador.

O que é importante perceber é que a destruição dos elos sociais no trabalho pelos gestores nos fragiliza a todos perante a doença mental. E é por isso que as pessoas se suicidam. Não quer dizer que o sofrimento seja maior do que no passado; são as nossas defesas que deixaram de funcionar.

Portanto, as ferramentas de gestão são na realidade ferramentas de repressão, de dominação pelo medo. 
Sim, o termo exacto é dominação; são técnicas de dominação.

Então, é preciso acabar com essas práticas? 
Eu não diria que é preciso acabar com tudo. Acho que não devemos renunciar à avaliação, incluindo a individual. Mas é preciso renunciar a certas técnicas. Em particular, tudo o que é quantitativo e objectivo é falso e é preciso acabar com isso. Mas há avaliações que não são quantitativas e objectivas – a avaliação dos pares, da colectividade, a avaliação da beleza, da elegância de um trabalho, do facto de ser conforme às regras profissionais. Trata-se de avaliações assentes na qualidade e no desempenho do ofício. Mesmo a entrevista de avaliação pode ser interessante e as pessoas não são contra. 

Mas sobretudo, a avaliação não deve ser apenas individual. É extremamente importante começar a concentrar os esforços na avaliação do trabalho colectivo e nomeadamente da cooperação, do contributo de cada um. Mas como não sabemos analisar a cooperação, analisa-se somente o desempenho individual.(...)


Não haverá por detrás desta nova organização do trabalho objectivos de controlo das pessoas, de redução da liberdade individual, que extravasam o âmbito empresarial? 
É uma questão difícil. Acho que qualquer método de organização do trabalho é ao mesmo tempo um método de dominação. Não é possível dissociar as duas coisas. Há 40 anos que os sociólogos trabalham nisto. Todos os métodos de organização do trabalho visam uma divisão das tarefas, por razões técnicas, de racionalidade, de gestão. Mas não há nenhuma divisão técnica do trabalho que não venha acompanhada de um sistema de controlo, em virtude do qual as pessoas vão cumprir as ordens.

Há tecnologias da dominação. O sistema de Taylor, ou taylorismo, é essencialmente um método de dominação e não um método de trabalho. O método de Ford é um método de trabalho.

Contudo, não penso que a intenção do patronato (francês, em particular), nem dos homens de Estado seja instaurar o totalitarismo. Mas é indubitável que introduzem métodos de dominação, através da organização do trabalho que, de facto, destroem o mundo social.

Qual é a diferença entre taylorismo e fordismo? 
Taylor inventou a divisão das tarefas entre as pessoas e a interposição, entre cada tarefa, de uma intervenção da direcção, através de um capataz. Há constantemente alguém a vigiar e a exigir obediência ao trabalhador. A palavra-chave é obediência. “Quando eu disser para parar de trabalhar e ir comer qualquer coisa, você vai obedecer. Se concordar, será pago mais 50 cêntimos pela sua obediência.” A única coisa que importa é a obediência. O objectivo é acabar com o ócio, os tempos mortos.

Só muito mais tarde é que Ford introduziu uma nova técnica, a linha de montagem, que é uma aplicação do taylorismo. Na realidade, não é o progresso tecnológico que determina a transformação das relações sociais, mas a transformação das relações de dominação que abre o caminho a novas tecnologias. 

O toyotismo [ou Sistema Toyota de Produção] utiliza um outro método de dominação, o ohnismo [inventado por Taiichi Ohno (1912-1990)], diferente do taylorismo. É um método particular que extrai a inteligência das pessoas de uma forma muito mais subtil que o taylorismo, que apenas estipula que há pessoas que têm de obedecer e outras que mandam.(...)

O que fizeram? 
Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas.(...).

 

(Utilizei este texto num post em 21 de Fevereiro de 2010)



publicado por paulo prudêncio às 10:58 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 10.06.12

 

 

 

 

 

 

 

 

O SIADAP (Sistema Integrado de Avaliação do Desempenho da Administração Pública), com as suas cotas e pontuações em indicadores imensuráveis, está na génese de uma série de dilacerações na atmosfera relacional em diversas organizações. Os grupos profissionais mais capazes de ocupar espaço no mundo mediático, como os professores, os médicos ou os juízes, conseguiram derrubar o desmiolo ou adiar sine die a sua concretização.

 

Se o clima organizacional é um indicador fundamental para se perceber a qualidade de uma organização escolar, há um conjunto de variáveis que acontecem fora das salas de aula e que influenciam o estado de espírito de professores e alunos.

 

A avaliação do desempenho dos assistentes administrativos e operacionais está entregue ao arbitrário, à injustiça, à falta de profissionalismo ou de sensatez dos avaliadores, à imensurabilidade dos indicadores, à dilaceração das cotas e por consequência à bajulação, ao despotismo e à utilização da hierarquia como instrumento de sujeição do outro. O que há de pior no clima organizacional é estimulado e consolidado pelo SIADAP.

 

Se em período, mesmo que ilusório, de facilidades financeiras os resultados do SIADAP são humanamente desastrosos, imagine-se nos tempos actuais. Receio que a paciência das pessoas tenha limites e que todos estes laboratórios humanos acabem em climas inimagináveis.



publicado por paulo prudêncio às 20:59 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quinta-feira, 05.01.12

 

 

Se protestam muito ainda apanham com o SIADAP (sistema integrado de gestão e avaliação do desempenho na Administração Pública). Era assim que muitos socialistas, crentes fervorosos das políticas de J. Sócrates, tentavam anestesiar a luta dos professores no momento mais sobreaquecido. O link que indiquei remete para uma série de entradas que fiz sobre o desmiolado e totalitário SIADAP (peso bem o que escrevo, podem crer).

 

Quando ouvia essas ameaças não conseguia deixar de sorrir. O governo de então desdobrava-se na aplicação do modelo com a bênção esmagadora da opinião publicada, e do arco-governativo e dos seus anexos, e os seus dirigentes ameaçavam com a coisa-má num exercício um bocado cómico para quem acredite que a democracia é uma vantagem e que os socialistas portugueses pugnam por isso. Nos casos que conheço mais de perto, os ameaçadores não só cumpriam o perfil mencionado como eram dirigentes escolares ou afins. A suprema ironia verificou-se: os dirigentes escolares foram os únicos professores a quem se aplicou o SIADAP na versão mais originalos seus protestos surgem misturados com os agrupamentos de escolas e isso não ajuda nada. 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 12:34 | link do post | comentar | partilhar

Quarta-feira, 04.01.12

 

 

 

Percebo o Paulo Guinote quando classifica, neste post, como perdida "a guerra da democracia nas escolas" a propósito da recente mediatização da avaliação dos dirigentes escolares. Sei que está inerente ao seu desabafo a difícil conjuntura que envolveu o poder democrático das escolas nos últimos anos, mas também sabemos que estamos longe do fim da História e que a desistência não é conjugável com a razão. Apesar da adversidade actual que tanto abala a democracia, considero que é precisamente nestas alturas que se devem renovar os esforços na defesa do que é justo e inalienável.

 

Do que tenho lido, ressalvam alguns aspectos que ajudam a explicar a derrota momentânea. Se reparamos nesta declaração sindical "(...)Sindicatos da FENPROF, como o SPN, contestam o SIADAP, considerando que este tipo de avaliação “deveria ser uma extensão dos regimes avaliativos aplicáveis a todos os professores, com as necessárias adaptações.(...)" percebemos a "captura" sindical à kafkiana avaliação de professores, designando-a como um mal menor. Isso explica muito da derrota. A falta de convicção e o medo do lumpen, que foi manipulado pelo "eles não querem é ser avaliados", é um esclarecimento decisivo.

 

Nesta notícia também se percebe algum atirar de pedras entre os professores. O maniqueísmo exacerbado foi demonstrativo da ausência de ideias claras e de estudo.

 

Repare-se nos detalhes que seleccionei e nas incongruências. Todos os actores mencionados são professores e só não temos que nos envergonhar porque não são as profissões que fazem as pessoas. Convenhamos: assim não era nada fácil, mas também sabiamos que o belo é difícil.

 

"(...)A contestação ao processo de avaliação nas escolas tornou-se uma doença contagiosa. Começou com os professores, alastrou aos directores, que se revoltaram por não conhecerem os critérios, e atingiu por fim os subdirectores e adjuntos nas escolas da Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) que ontem pediram à tutela a suspensão deste processo por considerarem “arbitrários” os critérios para atribuir as notas de mérito.

O ciclo está completo. Não resta mais ninguém que possa vir à praça pública contestar a forma como o processo de avaliação está a ser conduzido.

“Quando na base da atribuição de quotas está uma diversidade de critérios aplicados ao gosto e sensibilidade de cada director, não pode haver uma avaliação justa”, defende ao i Fátima Inácio Gomes, adjunta da direcção da Escola Secundária de Barcelos e uma das subscritoras do protesto.

O resultado terá sido a confusão total e a adjunta da secundária de Barcelos dá um exemplo para ilustrar a “injustiça” que esta recomendação terá criado: “Os cargos de assessoria ou de vogal não contam para avaliação dos directores, o que já não acontece com a restante equipa da direcção.”

E foi assim que quem usou as regras da comissão de avaliação não terá permitido aos adjuntos ou subdirectores pontuar e, por oposição, quem decidiu utilizar os seus próprios critérios poderá ou não ter beneficiado os seus colegas com um bónus: “Não houve concertação da CCA no sentido de harmonizar os procedimentos”, denuncia a adjunta da Escola Secundária de Barcelos, acusando ainda o conselho de ter validado as notas de mérito com base em diferentes conceitos.

Na base desta queixa está portanto o uso de critérios subjectivos para avaliar dados objectivos, censuram os 18 subscritores da carta enviada à tutela: “Se avaliar o desempenho de funções pode acarretar alguma subjectividade, o mesmo não poderia nunca acontecer com informações curriculares como é o caso das habilitações académicas ou cargos ocupados.”



publicado por paulo prudêncio às 19:42 | link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Segunda-feira, 22.08.11

 

 

 

Degrada a condição profissional e pessoal dos professores, derruba governos e governantes, enfraquece sindicatos, incompatibiliza bloggers e movimentos de professores, alimenta a queda no supérfluo de muitos órgãos de comunicação social, provoca desânimo e conflitualidade na atmosfera organizacional das escolas e apenas satisfaz quatro dos atributos da nossa falência: a inveja, a ganância, a mesquinhez e a ignorância.

 

Há um princípio ancestral que parece governar a sociedade portuguesa e que é sempre contado em nome da avó: na passagem do neto como o único de passo trocado na marcha militar, a culpa era dos outros. Com a avaliatite dos professores o problema é semelhante e está há muito identificado: a má burocracia, monstruosa e kafkiana, começa por querer medir dimensões fora da sala de aula e o desmiolado SIADAP faz o resto. Enquanto não se cortarem as raízes ao processo que destruiu o poder democrático da escola, a dilaceração continuará obstinada e presunçosa e a culpa será dos do primeiro parágrafo.



publicado por paulo prudêncio às 14:03 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Domingo, 31.07.11

 

 

 

 

Dá ideia que a encruzilhada ocidental está sem receita. Estamos estonteados e apenas os gananciosos conhecem o caminho que lhes é habitual.

 

A crise da escola é antiga. Está num auge e adequada aos tempos. A contradição mais evidente é uma espécie de bússola desmagnetizada. Por um lado, pedem-se mais políticas de mérito para todos (alunos professores e funcionários) e por outro advoga-se a necessidade de inclusão. A organização é avaliada, simultaneamente, por indicadores de inclusão e de exclusão. Uma charada sem solução.

 

Para incluir alunos, a escola tem de ter um clima organizacional correspondente e uma atmosfera relacional que estimule a cooperação e a mobilização (dois nomes proscritos).

 

A síntese destes opostos revela uma face da encruzilhada ocidental e mereceria uma aturada atenção dos mentores do nefasto SIADAP e dos sistemas semelhantes. É imperdoável não aprender com a história; mais ainda, quando o desconhecimento se relaciona com o que acabámos de viver e nos levou ao desespero em que estamos. Excluir garante um aura mais austera e popular nos tempos que correm, mas revelar-se-á muito mais dispendiosa e perdedora no médio prazo.



publicado por paulo prudêncio às 18:55 | link do post | comentar | ver comentários (9) | partilhar

Sexta-feira, 29.07.11

 

 

O governo e os sindicatos começam hoje a negociar o novo modelo de avaliação de professores e afirmam ter como ponto de partida o modelo das escolas privadas e cooperativas que é bandeira do CDS. A nossa situação de nivelamento por baixo não permite grandes rasgos, realmente. Os últimos acontecimentos no parlamento sobre o assunto, associados aos sinais destas privatizações, ao tratamento da segurança social e por aí fora, revelam um país a saque.

 

Evidenciam-se algumas situações embaraçosas. Há artigos do estatuto da carreira que têm de ser revogados e os princípios do SIADAP não se aplicam no regime em vigência nas escolas cooperativas.

Quotas podem perturbar negociação do novo modelo de avaliação docente



publicado por paulo prudêncio às 12:00 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quarta-feira, 08.06.11

 

 

Os professores portugueses sabem que, nos tempos mais próximos, não vão recuperar os cortes salariais e que as progressões na carreira vão continuar congeladas. Todavia, esperam que haja mudanças nos assuntos sem implicações financeiras.

 

Logo que haja parlamento, esperam que o desmiolo da avaliação de professores seja suspenso de vez e arrumado no baú das desumanidades com a companhia dos efeitos em concursos e das inteligências que deram corpo ao SIADAP.



publicado por paulo prudêncio às 21:34 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quinta-feira, 26.05.11

 

 

 

 

Ou seja: os génios do SIADAP descobriram o seguinte milagre de resolução de problemas: uma pessoa está doente, vai ao médico e no momento da alta do hospital debruça-se sobre uma série de indicadores e escolhe os descritores adequados à pontuação referente à atitude profissional e de comunicação dos médicos.

Para além dos papéis com as prescrições médicas e dos que justifiquem as faltas profissionais, até à satisfação das receitas e ao mal-estar provocado pela maleita, o doente ainda tem que se concentrar numa avaliação que, para ter rigor, deve estudar previamente?

É claro que tudo isto passará por conhecer também os objectivos individuais do avaliado e relacioná-los com os da instituição hospitalar e com os desígnios do serviço nacional de saúde (ou do privado ou do social). Mas esta gente vai mesmo aos hospitais? Se não vai devia ir e exigir um internamento de longuíssima duração. 

 

A saga do esmagamento burocrático das classes profissionais está apenas adormecida.

 

Atitude dos médicos vai contar para a avaliação de desempenho

 

"(...)A atitude profissional e comunicação dos médicos nomeadamente perante os doentes vai ser um dos parâmetros obrigatórios na avaliação de desempenho da classe, que só terá efeitos práticos em 2012, de acordo com a portaria que procede à adaptação do Sistema Integrado de Avaliação de Desempenho (SIADAP) aos trabalhadores integrados na carreira especial médica.(...)"



publicado por paulo prudêncio às 10:00 | link do post | comentar | ver comentários (12) | partilhar

Segunda-feira, 14.03.11

 

 

Os mentores do SIADAP (sistema integrado de gestão e avaliação do desempenho na Administração Pública), e os especialistas que acompanharam a lucubração, têm de dar a mão à palmatória. Criar um quase fascismo por via administrativa pode não ter sido a intenção, até acredito que não, mas o resultado, e à medida que o tempo passa, aproxima-se desse registo.

 

Sem querer continuar num registo mais radical, posso afirmar que o sistema que inclui indicadores pontuados em descritores que excluem as pessoas por quotas é uma invenção de tecnocratas que se escondem e que são incapazes de avaliar quem quer que seja num sistema de olhos nos olhos. Temos o direito de olhar assim para quem inventou esta tamanha aberração neotaylorista.

 

Os professores são vítimas de uma espécie de SIADAP e têm voz. Há outros funcionários públicos que ficam entregues aos bichos e todos conhecemos histórias aberrantes a esse nível. As que envolvem os assistentes administrativos e operacionais das escolas começam também a dilacerar as atmosferas relacionais. Não adianta tergiversar: o SIADAP utiliza uma linguagem bem-pensante e sedutora e é totalitário.



publicado por paulo prudêncio às 21:48 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar


Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
Discordâncias:
Mais até por uma questão estética, este blogue discorda ortograficamente
arquivo
comentários recentes
uma opinião favorável aos profs nos jornais, é um ...
fica registado como facto cientifico que 'paga-se ...
Muito preocupante.
Também preocupante...
O texto de António Guerreiro é muito interessante.
Pois... é tudo muito bonito, mas estou farto de am...
Enfim. Parece Roma à beira do fim.
subscrever feeds
mais sobre mim
Por precaução
https://www.createspace.com/5386516
ligações
blog participante - Educaá∆o - correntes .jpg
tags

antero

avaliação do desempenho

bancarrota

blogues

campanhas eleitorais

cartoon

circunstâncias pessoais

coisas tontas

concursos de professores

contributos

corrupção

crise da democracia

crise da europa

crise financeira

desenhos

direitos

economia

educação

escolas em luta

estatuto da carreira

falta de pachorra

filosofia

fotografia

gestão escolar

história

humor

ideias

literatura

luís afonso

movimentos independentes

música

paulo guinote

política

política educativa

professores contratados

público-privado

queda de crato

rede escolar

ultraliberais

vídeos

todas as tags

favoritos

bloco da precaução

pensar o sistema escolar ...

escolas sem oxigénio

e lembrei-me de kafka

as minhas calças brancas ...

as minhas calças brancas ...

reformas e remédios (1) -...

sua excelência e os númer...

posts mais comentados
9 comentários
6 comentários
4 comentários
Razões de uma candidatura
https://www.createspace.com/5387676