Ouvi na TSF a parte final discurso de José Seguro. Dizia o jornalista que já há uma atmosfera de regresso ao poder. Não sei se a aposta é na interrupção do tempo de legislatura, mas, e como sublinhou o desajeitado consenso implorado pelo indizível Cavaco Silva, a antecipação de eleições legislativas está há muito dependente do pé-dentro-pé-fora de Paulo Portas. É até impressionante como um pequeno partido que já foi anti-Europa-e-sei-lá-mais-o-quê e que tem fornecido inenarráveis quadros neste milénio para as acções governativas, o sistema escolar que o diga, adquire esta importância.
Como Seguro pediu uma maioria absoluta mas prometeu um Governo coligado, tudo indica que o almoço secreto que teve com Portas em Agosto de 2012 pode finalmente antecipar o tão desejado, e naturalmente unânime dentro do PS, regresso ao acesso directo ao orçamento de Estado. Dá ideia que Portas é um expert em fugas de informação que alimentem a sua condição de incontornável. São também estes incontornáveis exercícios, dos maiores e dos menores destas coligações, que nos empurraram para um perigoso estado de descredibilização da representação política.
Sem ter a pretensão de enunciar uma análise de conteúdo com acentuado valor empírico, detecto nas forças políticas que têm exercido o poder um léxico comum. Tem sido assim nas últimas décadas.
Quando o exercício da oposição está longe do regresso ao Governo, as pessoas e o estado social têm uma frequência cimeira. Logo que se acentua o perfume do acesso directo ao orçamento de Estado, as empresas e as famílias ocupam esse lugar. Dá ideia que as pessoas e o Estado social ficam arrumadas num voto estruturado à esquerda, mesmo que com uma ou outra nuance, e que a aspiração da maioria absoluta parte em busca das famílias e das empresas. São uma espécie de empreendedores retóricos e "encostados" e que não inovam.
Nem sei se é uma cartilha que os aparelhos vencedores inculcam desde cedo nas universidades de verão.
Para além de ser um pouco cómico, ou trágico, claro, que as pessoas não façam parte das famílias e das empresas, também é risível que o estado social não tenha qualquer relação com as famílias e mais ainda com as inúmeras empresas que se alimentam da sua intocável gordura.
É ainda mais trágico perceber que é a panóplia de grandes escritórios de advogados, de grupos elaboradores de relatórios especializados, de autênticos especialistas em benesses ilimitadas e de interesses PPP´s e swaps que orientam os imutáveis discursos obesos. No que foi dito, o tal de centrão não se distingue.
O Estado tem sido tão vilipendiado e acusado de malfeitorias tal que se as suas paredes falassem nem sei o que aconteceria ao pântano em que mergulhou a sociedade portuguesa.
A advocacia de defesa do Estado já nem vai ao tempo em que português que se prezasse sacava ao bem comum, mesmo que em pequena escala, e que quem não o fizesse era minorado socialmente. Assistimos a um tempo que duvido que tenha paralelo tal o grau de corrupção e de "encostados" ao orçamento que não perdem uma oportunidade para zurzir no "malfeitor".
Há uma espécie de praga que vai das PPP´s aos swaps, passando por estudos, pareceres, reformas, ajudas de custo e por aí fora e em escalas para todos os gostos.
O espectáculo está insuportável. Cansa ver tanto oportunismo e é suficiente passar os olhos pelos sites dos jornais de referência. Detesto os discursos imaculados, mas há alturas em que o basta entra em moda. Também aqui há nojo suficiente para todas as escalas. Nem o "salve-se quem puder" justifica tanta mediocridade. Há quem se passe para todas as latitudes e longitudes com a ideia da invisibilidade e desprezando a inteligência alheia. Espera-se que o tempo faça das suas.
O prós e contras de ontem foi favorável aos defensores da saída do euro que apresentaram um argumentário sensato e despido de sensacionalismos ou de temores infundados. Reconheceram os riscos da decisão, mas fundamentaram com precisão as vantagens em relação à continuidade na moeda única debaixo do poder vigente. Percebe-se que alguma coisa terá de mudar na Europa. Se dentro de um ano não existirem alterações políticas significativas, países como Portugal devem organizar a saída do euro o que não significa o abandono da União Europeia.
Dá ideia que o discurso que vai prevalecendo está recheado de fantasmas que atemorizam as pessoas. Seja a globalização, a austeridade ou a inevitabilidade da superioridade alemã e até o próprio euro ou a ideia de que há europeus de diversas categorias na vocação profissional são usados para defender uma espécie de universo fechado e sem saída.
Os resultados começam a ser desfavoráveis à moeda única, apesar da crise de 2008 ou da habilidade dos norte-americanos que parece ter feito escola no Centro e Norte da Europa.
Há, para já, uma avanço considerável: as pessoas estão a perder o medo de ter medo.
Diz a RTP que dos 500 mil habitantes do Luxemburgo 100 mil são portugueses e que a actualidade de muitos emigrantes é catastrófica. Há pessoas com filhos pequenos que nem a escola frequentam e a total "ilegalidade" impede qualquer rendimento. É já numeroso o regresso promovido pelo consulado português, a exemplo do que acontecia nos tempos que pensávamos irrepetíveis.
A partir de 9 de Janeiro de 2013 é preciso visto para entrar em Moçambique, disse-me alguém da TAP. A embaixada de Moçambique em Lisboa só emite 30 vistos por dia e as filas de espera formam-se às 04h00 da madrugada, acrescentou. O visto só é concedido com uma série de garantias, tal a degradação da vida em Maputo para muitos dos portugueses, complementou.
Ainda está na nossa memória o que se fazia no aeroporto da Portela com a proibição de entrada a moçambicanos e angolanos que nos imploravam refúgio. Mas que grande lição da história. Muitos, como os que estão na imagem, advogavam a proibição e agora estimulam os seus compatriotas a passarem por esta humilhação como se fosse uma oportunidade. Aos oportunistas nunca escapa o conceito de oportunidade.
O poder tem horror ao vazio, os diversos espaços políticos estão preenchidos e em Portugal também (sem ser o fim da história, obviamente). Temos de tudo na régua ideológica: da direita radical à esquerda radical, passando pelas nuances mais aproximadas ao centro.
Nas últimas três décadas criámos um espécie de arco do poder e ostracizámos para a governação as esquerdas radicais, mesmo que com representação parlamentar, com a ameaça de que a sua presença governativa seria bancarrota pela certa. Somos quase únicos na Europa nesse domínio e talvez os gregos e os espanhóis nos acompanhem nessa discriminação.
Chegámos ao estado actual com o referido arco do poder. Essa governação, dita responsável, trouxe-nos para a falência. E se comecei o post com o facto do poder ter horror ao vazio, foi apenas a pensar que a direita radical está representada em termos parlamentares e governativos. Às tantas, até está bem inserida em todos os partidos do arco governativo. Por incrível que pareça, os tais da esquerda radical são os únicos a quem não se pode apontar o dedo todo. Mas que grande ironia, realmente.
Se o euro terminar em breve, ficamos a saber o que nos acontecerá. Os alemães já se estão a precaver e serão os únicos a ver a moeda valorizada. Portugal ficará no fim da lista, embora ligeiramente acima da Grécia para certificar a prosápia do inenarrável Passos Coelho. As poupanças de cada um cairão para metade e o resto da história será igualmente trágica.
Portugal está irreconhecível e o sistema escolar não escapa a esse estado desolador e desesperançado. Vale o privilégio de se lidar com crianças e jovens, apesar de também transportarem o ambiente do país. Batemos no fundo.
Nada a fazer: quem nos governa quer ir para além da troika sem perder a oportunidade de aplicar o radicalismo ideológico do Estado mínimo num país com a nossa História. Nada os comove, nem sequer a trágica realidade que nos consome.
Por mais que lhes digam que foi um erro desistir do crescimento económico, continuam inamovíveis. O argumento de que não crescemos para suportar esta despesa é infindável e pode ir até ao empobrecimento absoluto: a guerra.
E continuo na senda da promoção externa de Portugal. Agora uma coisa completamente diferente.
Cortesia da Rita Hermenegildo.
Recebi outro vídeo de promoção turística de Portugal. Há aqui qualquer coisa que não se conjuga e não devo conhecer o país; só pode e não estou a falar da paisagem. Desta vez é o Alentejo que é detalhado.
Cortesia da Ana Cristina Sousa.
Um belo e comovente vídeo sobre a juventude, a pecariedade e a emigração; e sobre Portugal.
Recebi por email a referência a um vídeo que pretende promover o turismo em Portugal. Um vídeo oficial, digamos assim. Nem queria acreditar no modo como nos olhamos oficialmente e na imagem que queremos passar para quem nos visita. Lembrei-me do "canalizador polaco". São muitos os que dizem que a nossa bancarrota é, em primeiro lugar, moral e devem ter razão.
Foi interessante regressar ao mundo mediático depois de um apagão de 24 horas e através da impressa do Público. Há muito tempo que não pegava num jornal sem notícias "desactualizadas" pela voracidade da informação.
Sorri com três destaques. Ricardo Salgado do BES, que se dizia ser o "dono" de Portugal, parece começar a apontar o dedo à banca que nos empurrou para o descalabro financeiro, Selassie do FMI demarca-se, como se esperava, do Governo e remete os 4 mil milhões e o relatório para as invenções ideológicas e radicais da PassosCoelho.SA e António Barreto da FMS parece apelar à revolução já ou daqui a um bocado. Veremos se o Governo passa a primavera ou se o bom povo português acaba por reeleger uma espécie de regresso ao Portugal pobre mas orgulhoso.
Fazer bem exige boas ideias (com princípio, meio e fim), trabalho e tempo. São raríssimos os exemplos de geração espontânea. Uma das causas do nosso atraso é que quase que só somos bons a apagar, e a atear, fogos.
Somos uma nação de adultos ressentidos.
Diz-se que quem não incorpora o "impossível" ideológico no final da adolescência jamais o fará e não escapei a essa condição.
A libertação de Moçambique (a minha pátria de nascimento) empurrou-me para a construção de uma espécie de utopia real que queria habitar. A veloz formação política, até aí subentendida por corajosos símbolos clandestinos que só mais tarde racionalizei, e a vivência de um regime totalitário de partido único marcou-me e desencantou-me de alguma forma.
O também acelerado conhecimento da história e do contexto (e o amor à terra, claro) atrasaram a fuga, mas as ideias vincadas de liberdade e de justiça determinaram a partida.
Mais tarde, Nelson Mandela (e Frederik De Klerk, sublinhe-se), em condições algo semelhantes e mesmo mais adversas do que as verificadas em Moçambique, confirmaram o imperativo de que os regimes têm sempre de considerar que as sociedades são constituídas por pessoas em ambiente de contradição.
Devo a Portugal quase quatro décadas de paz e de democracia e a convicção de que o discurso anti-político é nefasto para que se construam outros tantos anos no mesmo registo.
São já inúmeras as vezes que me convidaram a integrar partidos políticos e, mesmo sem a inscrição, foram também variados os convites para cargos de eleição assegurada ou para disputas que prometiam. A "indisciplina", que cedo se apoderou de mim, fez-me traçar um caminho que mistura a independência com a incomodidade (com desvantagens para a vidinha, é certo, mas com vantagens que me escuso de elencar e a que não renunciarei), apesar de manter amizades, com respeito mútuo, em grande parte dos convites rejeitados e nas mais diversas áreas políticas.
Dito isto, e a propósito de uma ou outra interessante discussão noutros posts, há dois substantivos, memória e maniqueísmo, que se devem divorciar na análise histórica.
Há várias figuras da democracia portuguesa que aglutinam correntes ideológicas e o actual presidente da República é a que mais me desgosta.
Vivíamos, em 1985, o final de uma intervenção do FMI e com um Governo de bloco central. Cavaco Silva assinou uma cavalgada populista com predominância para o anti-político global (nem Mota Pinto ou Balsemão escaparam à perigosa deriva) que me impressionou e tomou o poder, num país carente de infra-estruturas, no momento em que se iniciou uma chuva de euros da comunidade europeia. Dez anos depois, o país estava mais endinheirado, com muito mais edificado por metro quadrado, com défices sempre superiores a 5% de 1990 a 1995 e saturado do anti-político como se constatou nas presidenciais de 1996.
O antipolítico ficou em banho-maria, mas com voz sibilina, para regressar em 2006: com a decisiva (em termos eleitorais) promessa da segurança económica (a memória em política é curta, como se sabe), com a concretizada cooperação estratégica com Sócrates e com o aplauso a Maria de Lurdes Rodrigues, como não se cansou de deixar claro.
Nos últimos tempos, tem cultivado o silêncio e sua voz só se levantou para implorar que o deixem trabalhar na economia e para ser deselegante com quem fazia greve. É, na minha modesta opinião, uma das correntes mais nocivas para a democracia portuguesa. Estimula a não participação e a infantilização e dá espaço para o mais nefasto dos comportamentos: a corrupção. Aliás, e sem querer ser populista e injusto, basta olhar para os factos e para o percurso do núcleo duro do cavaquismo.
A história não se repete, mas há uma ou outra semelhança entre o que vivemos e o PREC (prometo que não vou escrever sobre o modelo de gestão escolar em curso que é, sublinhe-se, único no mundo conhecido). Desde logo por causa da colectivização em curso, mesmo que de sinal contrário.
Há um aspecto que não sei se se repete: na actualidade há cada vez mais pessoas sem qualquer rendimento e que caem no registo "não-há-mais-nada-a-perder" e não me lembro se no PREC a situação era sequer parecida. Quero deixar esta questão bem clara.
Mas há nas manifestações mais violentas uma tónica comum: no PREC tínhamos os MRPP, os AOC, os UDP e por aí fora que eram instrumentalizados, até internacionalmente, e que apareciam para criarem confusão e desmobilizarem as pessoas. É bom observar por onde andam principalmente os primeiros, os tais do MRPP, e isso leva-nos a pensar que há uns infiltrados (às tantas, financiados e com "rica" mobilidade) a fazer o jogo do costume e com treinadores com décadas de experiência.
Não tem sido fácil a condição de português e de professor, mas tem de haver mais vida. Gosto de ensinar e de praticar desporto e não escapo à mediatização do desporto profissional. Tento ser um consumidor-quanto-baste. Tenho-me divertido muito pouco com o meu Sporting que mais parece um espelho do país. Tenho sempre o refúgio da NBA, a minha liga favorita, e acompanho os inigualáveis Lakers. Mas nem esses: começaram a época com zero vitórias e treze derrotas (leram bem).
Mas na madrugado de anteontem os ventos mudaram. Os Lakers conseguiram a primeira vitória e de forma concludente e muito promissora.
Espero que hoje Obama vença, que a democracia ganhe uma nova embalagem e que Portugal e o sistema escolar encontrem algures um momento de viragem. Noto algum nervosismo nos tea party deste mundo, e por cá também, e isso não deve ser desprezível. A vida e os símbolos também dependem do sentido do vento.
Os números anuais da economia paralela em Portugal já vão em 43 mil milhões (mais de dez vezes do que os cortes anunciados no desespero da refundação) e os milhares de milhões na corrupção dos paraísos fiscais são mais elevados, muito mais, e incontáveis. Se a eliminação dos primeiros desvios depende também da acção comum (embora o destino das quantias não fique nos bolsos das classes baixas), os segundos não deviam escapar às organizações internacionais que nos controlam e financiam. A corrupção é a doença fatal da nossa sociedade e ponto final.
Não admira que, depois de todos os cortes que se verificaram, Portugal continue a derrapar para a bancarrota, com fortes suspeitas de um segundo resgate e com uma quebra significativa da actividade económica, e que a Europa esteja numa situação muito preocupante.
Não há luz "ao fundo do túnel", diz Stiglitz
"(...)Não é verdade que a Europa está próxima de superar a crise e sem mudanças na resposta não haverá “luz ao fundo do túnel”, adverte o economista norte-americano Joseph Stiglitz.(...)"
Entrámos no milénio e rapidamente percebemos que as contas derrapavam e que a grande corrupção se tinha consolidado. O discurso do país da tanga institucionalizou entre nós a vitória da malta-do-subpraime, o socratismo acentuou o desmiolo e o regresso da AD volta a ser desastroso. É muito, mesmo para um país com tanta história.
Teixeira dos Santos recorria sem descanso ao argumento dos amendoins, "(...)dava a vida pelas contas públicas (disse-o num programa na RTP1) e que os cortes financeiros resultantes da reorganização da máquina (desculpem o eufemismo) do estado (fim dos governos civis, diminuição de autarquias, redução do pessoal de gabinetes, não recurso do estado a escritórios de advogados e mordomias ilimitadas) eram amendoins e que o importante eram a redução de funcionários e os cortes nos salários (dito no expresso da meia-noite)(...)" e deixou escola.
Não haverá dia televisivo sem que se repita a tese. Ontem ouvi Miguel Beleza a desmerecer nos cortes em automóveis e motoristas do Governo, nas fundações e por aí fora. Para este economista os professores são o alvo primeiro seguindo-se os despesistas do costume.
O que não chego a perceber nesta trupe-dos-amendoins é a indignação com a economia paralela. Se podemos prescindir dos cortes em banquetes-pagos-pelos-contribuintes, por que é que não devemos "ignorar" facturas em quantias até uns míseros 500 euros? A população apreende a coisa e implementa-a porque o exemplo vem sempre de cima.
Elegemos a ideia de singularidade, testámos o devir do ser qualquer e construímos o imaginário do insuperável. Não queremos um igual, precisamos do carácter universal do indivíduo e ansiamos pela descoberta da coisa comum (a religião, a ideologia política, a filiação associativa e a identidade por género, como se diz agora).
Existe a diversidade regional ditada pela geografia e pela história. Portugal é uma zona semi-periférica e tem as suas categorias: uma densidade inigualável de inhos e de supervisores. Fiquemo-nos pelos inhos .
A utilização acentuada dos diminutivos (somos únicos no assunto) na nossa Educação tem de fazer efeito e pode dar maus resultados.
Somos uns adultos com egos elevados. Fui fazer umas pesquisas por ego-história convencido que era uma invenção nossa. Mas não: Freud, e o seu eu psicanalítico, influenciou meio-mundo.
Mas não desisto e passo a sentenciar: temos de ser os melhores do bairro. É uma alta competição generalizada. Reconhecer (que é diferente de anunciar) o sucesso alheio magoa. Parece que o mote é viver na alteridade.
Ai de quem se distinga, ai de quem faça bem aquilo que sempre se espera que corra mal, ai de quem fuja do lugar comum e não se pareça com a formatação estipulada pelo horizonte do nosso quarteirão. Portugal sofre de uma dilatação tal dos egos que o espaço público tornou-se uma impossibilidade e o exterior passou a ser o sítio oxigenado; a não ser que se consiga viver fora cá dentro ou que a queda-sem-fim nos garanta alguma redenção.
Já usei algumas ideias deste texto noutro post.
É a aritmética, parece que foi a resposta de Bill Clinton aos jornalistas depois da intervenção, muito aplaudia, na convenção do Partido Democrático. Dois mais dois continuam a ser quatro.
Este apelo ao equilíbrio é um contraponto às ideias de um Partido Republicano que estimula políticos e tecnopolíticos em todo mundo e no Governo português também.
Afinal tem sido sempre assim e o próprio Bill Clinton herdou de Ronald Reagan o mesmo que Obama recebeu de Bush. Foi um tempo de picos económicos e políticos de sinal contrário que parece não se repetir. O Ocidente estruturou-se numa sociedade de consumo em espiral e o triunfo do capitalismo selvagem provocou um desequilíbrio que não se redime. A solução não é fácil, sabemos isso. Se olharmos para o nosso corpo ou para a nossa economia doméstica, percebemos a sensata resposta de Bill Clinton.
O Governo português está numa rota tal de desequilíbrio, que dá ideia que os portugueses foram escolhidos como um laboratório económico e social que Wall Street olha com atenção e gulosice. Não se brinca coma a vida de milhões de pessoas e isso pode ser trágico. A equação que se coloca continua do domínio da aritmética e falta saber se o equilíbrio só se recuperará pela força. Esperemos que não.
Embora este comentador tenha sido um indefectível das políticas educativas de José Sócrates, mesmo depois de comprovadamente nefastas, faz uma análise abrangente sobre o actual Governo.
Francamente: tropeçamos em tantos casos de clientelismo e de má despesa pública que admiro-me com a revolta silenciosa da população. Sempre notei uma inundação de comportamentos destes, mas surpreendem-me ainda mais numa fase de bancarrota.
Vila Real, uma das capitais de Trás-os-Montes, está descaracterizada, foi vítima do pato-bravismo e de outras coisas do género, mas mantém a Pastelaria Gomes (desde 1925) bem no centro da cidade e com as imperdíveis empadas conhecidas por covilhetes.
Gosto que leiam o que escrevo e tenho sempre um contador para saber quantas pessoas frequentam o blogue e as suas proveniências. Tento não perder muito tempo como isso, e não perco mesmo, e não faço cedências para aumentar audiências.
O Correntes tem entre 1000 a 1500 visitas diárias, as páginas lidas têm uma média superior, e julgo que entre 800 e 1000 são leitores diários.
Quando faço um post sobre futebol ou gastronomia, e se ainda por cima fica em destaque na página do sapo como está a acontecer com o post de ontem sobre a selecção de Portugal, as visitas sobem vertiginosamente e entram comentários que estabelecem um debate diferente do habitual.
Discutir se o futebol é pão e circo tem pertinência, mas já não tenho muita paciência para esse registo. É como em tudo na vida: a sensatez deve prevalecer e não conheço aparelho de televisão que não possua um botão de desligar. É claro que tudo isso não é assim tão simples e os poderes formais usam os acontecimentos de massas com o habitual cinismo histórico, para além do futebol, a exemplo de outras actividades, movimentar recursos financeiros de origem muito duvidosa.
Portugal dominou de tal forma o jogo com a República Checa que nem me lembro de ver o guarda-redes Rui Patrício a fazer uma defesa difícil. Depois de ter criado uma dezena de oportunidades de golo, Portugal marcou e esteve quase três minutos na posse de bola. É um dado importante para certificar a capacidade desta equipa que tem no fenomenal Cristiano Ronaldo um factor que desequilibra. Nestes jogos, com esta carga emocional, é raro um grande jogador ser tão determinante.
Estamos de tal modo que a repetição tornou-se o nosso modo de ser e o sistema escolar não escapa ao alçapão em que estamos metidos, mesmo que se considere que para aprender é necessário repisar muitas vezes.
Os exames são um metabolismo útil e basal nos sistemas escolares que incluem mais do que um aluno. Desta vez, o eduquês (ou rol de inutilidades, e de má burocracia, inventado por quem tem falta de terreno), que vem sempre de onde menos se espera, baptizou-os (sim, porque também existe no modo católico) de prova final.
Num sistema como o nosso, generalizar a coisa em doses industriais pode criar um peso burocrático que transforme um procedimento docimológico num pesadelo organizacional redundante, que apenas confirme o que já se sabia e que se vire contra o próprio, como comprova a história das correntes ideológicas e pedagógicas.
E já que estamos em maré de exaustivas repetições, e para além de não nos devermos esquecer que a primeira regra para aferir a saúde de uma sociedade é verificar se a retórica coincide com a realidade, repito um post de há uns dias:
Discutir em que anos é que há exames, e em que disciplinas, é uma matéria interessante. Tornar a questão numa contenda ideológica só é possível em sociedades imaturas ou em crise (não estou a ser ingénuo, não). E como me tenho cansado de escrever, a nossa sociedade é a parte maior do problema. Proponho a leitura deste comentário da Ana aqui no blogue. É interessante seguir o raciocínio e chocar com o último parágrafo.
A exibição de Portugal foi brilhante. A equipa tem um jogo consistente, equilibrado e beneficia do fenomenal Cristiano Ronaldo. Ninguém sabe como terminará o torneio, mas tenho a certeza que as outras equipas reconhecem a selecção portuguesa como favorita.
Quando os professores que têm blogues começaram a usar, algures em 2007 e em 2008 e para classificar as políticas do sistema escolar, adjectivos como destruidoras, nefastas, desmioladas, incompetentes, monstruosas e por aí fora, eram considerados uns radicais e exagerados que não queriam prestar contas e outras coisas do género.
Nem cinco anos depois, qualquer colunista que se preze generaliza tropeçando nesses adjectivos.
É claro que num país dominado pela cultura PPP, os assuntos do sistema escolar continuam entregues aos blogues de professores porque o pessoal beneficiário de forma directa e indirecta pela referida cultura socorre-se de colégios privados com privatização de lucros (com ou sem pagamento de propinas). Mas o que me faz abanar ainda mais vezes a cabeça na horizontal são os substantivos: de ladrões e abutres para cima é o que está a dar.
É evidente que Portugal tem feito progressos, como se constata em diversos indicadores, mas em matérias como a corrupção, o caciquismo, o tráfico de influências, o saque ao Estado e por aí fora, não saímos do registo denominado como terceiro mundo. É também evidente que a redução da classe média favorece os mais interessados no caos.
Cortes salariais põe Portugal a caminho do Terceiro Mundo
"Presidente do Conselho de Finanças Públicas, Teodora Cardoso, considera um erro os cortes salariais. E admite que os impostos podem descer dentro de cinco anos, se o país limpar as contas públicas.(...)"
O fosso que separa a nossa população jovem das formas tradicionais de fazer política é gigantesco e pode implodir o status quo a qualquer momento.
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça esta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Camões (Citado por Eduardo Lourenço em
"O labirinto da saudade", 1972, p.17)
A saudade é uma inscrição portuguesa e tem todas as condições para se intrometer na actualidade. Os portugueses já não conseguem ver em frente sem a nostalgia a empurrar-lhes o olhar para o passado. É interessante nomear que, dois anos depois do célebre país da tanga, em 2004, a convocação mediática da auto-estima era moda e terapia obrigatória. Seria ainda mais interessante, ouvir o que têm a dizer agora os assinantes dos receituários.
O país está deprimido. Vive-se a delapidação a cada passo. Não há nação que se levante sem um sistema escolar vivo de esperança. Se a depressão é um fenómeno geral, as escolas reflectem um sentimento duplicado: à pré-bancarrota acrescentam a devastação dos últimos anos.
Se os efeitos educativos são quase sempre a longo prazo, intuo que os resultados da desgastante luta de muitos professores portugueses também o serão. Talvez só no final desta década se sentirão os efeitos. Contudo, importa fazer um esforço de memória e pensar como seria o momento se os professores titulares ainda existissem, se o monstro burocrático da avaliação ainda nutrisse tanta simpatia desconhecedora, se o modelo de gestão escolar não estivesse descredibilizado e se o estatuto do aluno não tivesse os alicerces em desconstrução acelerada para benefício da condição dos discentes.
(Já usei parte deste texto noutro post.)
José Adelino Maltez, no seu facebook, escreve um parágrafo que me parece importante para a democracia portuguesa:
"Se o PS conseguir ser pós-socrático e até pós-soarista, talvez o PSD possa ser pós-cavaquista e pós-barrosista. Isto é, se ambos renunciarem à dependência face ao egoísmo dos monopólios das companhias majestáticas, com as suas rendas feudais e os seus escritórios agenciadores, e se deixarem de proteccionismos face a empresas de regime, com os sucessivos emplastros partidocráticos e autárquicos."
Cada vez me convenço mais que a questão chave da democracia portuguesa é a corrupção. Todos os dias lemos coisas como o "Governo socialista liderado por José Sócrates autorizou o pagamento de 38,4 milhões de euros relativos à construção da linha de alta velocidade ferroviária Poceirão-Caia, no último dia de mandato" e ficamos com a sensação que é uma prática antiga e que se repetirá. E podíamos ficar o dia todo a dar exemplos parecidos e que envolvem saques de milhares de milhões de euros.
Volta e meia, o parlamento é convocado para ajudar a resolver o problema. Qual será o destino do desafio que é referido na notícia?
Laborinho Lúcio desafia Parlamento a criar estratégia de combate à corrupção
"O ex-ministro da Justiça Laborinho Lúcio desafiou a Assembleia da República a produzir uma estratégia efectiva de combate à corrupção, ultrapassando os “princípios e manifestações de boa vontade” que já emanou.(...)"
Basta estarmos com atenção ao que nos rodeia para certificarmos a institucionalização do laxismo cívico, da pequena corrupção, do deixa-me-estar-sem-fazer-ondas-a-ver-se-m
Depois é só aumentar a escala, desenhar o país e sorrir com o leque de posições através desse caso Pingo Doce em que pobres combateram com pobres, literal, e ainda há pensadores que se refugiam nas filas de trapos ou de gadgets tecnológicos para um safanço sociológico da nação. Somos assim: nas manifestações, nas greves, nas tomadas de posição, na afirmação da cidadania e na veneração à corrupção e aos instintos totalitários. Estamos sempre preparados para apontar o dedo a quem protesta e para duvidar dias-sem-fim dos corruptos encartados que, e normalmente, até são absolvidos pelo voto.
O que é que podia ser ainda pior?
Justiça vulnerável à corrupção
Portugal "chumbou" num estudo sobre combate à corrupção. Há falta de vontade política, excesso de tolerância e incompetência. "Portugal é vulnerável à corrupção" e entre aquilo que a lei determina como formas de a combater e a prática das instituições "há uma enorme disfunção". Motivos? Há vários e nenhum deles abonatório para o país: incompetência, uma cultura cívica demasiado permissiva e, como cereja em cima do bolo, "uma enorme falta de vontade política".(...)"
Mesmo que se possa desconfiar da manipulação dos dados, a leitura do gráfico deixa-nos perplexos. Quem lucrou com tudo isto continua a alimentar a ganância? É bom que se diga que muitos países ocidentais não estão em melhor situação.
José Gil foi, ontem, director do Público e escreveu este editorial. Muitos professores não deixarão de considerar acertadas as suas palavras.
"Vivemos num país desconhecido. Por baixo da informação tangível, dos números e das estatísticas, correm fluxos de acontecimentos inquantificáveis e que, no entanto, condicionam decisivamente a nossa vida. Quantas doenças psíquicas foram desencadeadas pela crise? Quanta energia vital se desperdiça na fabricação da imagem de um rosto jovem necessário exigido por tal profissão? São "dados" incognoscíveis ou imateriais, não susceptíveis de se tornarem informação. São não-notícias."
A herança é o título da crónica de ontem de Vasco Pulido Valente no Público. Conhece-se a sua posição ideológica, de direita e conservador, e o seu registo pessimista sobre o país. É insuspeito de escritos esquerdistas radicais ou optimistas em relação ao futuro.
Há tempos escrevi este post, União Nacional, que começou assim: "Peso bem o que escrevo e recebi alguns emails a propósito deste post onde escrevi que "(...)mesmo entre nós, e no caso do sistema escolar, o arco-governativo não descansou enquanto não eliminou o poder democrático das escolas substituindo-o por uma amálgama com o pior do PREC e da ditadura de Salazar.(...)". Dizem-me que posso estar a exagerar na preocupação com o regresso a um passado que parecia arredado da possibilidade histórica e do futuro.(...)"
Repare-se como termina Vasco Pulido Valente a referida crónica: "(...)Com alguns brevíssimos sobressaltos pelo meio, a herança que a ditadura legou foi uma herança de conformismo e obediência, que permanece viva, e frequentemente dominante, no Portugal de hoje, com a sua complacência e a sua democracia. Verdade que o PREC não se recomenda. Mas não durou muito e a velha ordem depressa voltou com a sua dignidade postiça e as mediocridades do costume. A troika escusa de se preocupar. Cá na terra nós fazemos sempre, ou quase sempre, o que nos mandam. E não gostamos nada de aventuras."
"Os portugueses se atormentam, se perseguem e se matam uns aos outros, por não terem entendido que o Reino, tendo feito grandes conquistas, viveu por mais de três séculos do trabalho dos escravos, e que perdidos os escravos era preciso criar uma nova maneira de existência, criando os valores pelo trabalho próprio".
Mouzinho da Silveira, 1832
(Citado por Eduardo Lourenço em
"O labirinto da saudade", 1972:9)
(1ª edição em 22 de Setembro de 2011)
Os portugueses têm a percepção que vivem numa sociedade corrupta. O título da notícia diz que a mediatização do flagelo despertou as consciências. Não há corrupção nesta escala sem ambiente propício e a nossa sociedade ofereceu os alicerses: "cunha", pequeno desvio e pequena corrupção.
Era vigente, e talvez ainda seja, que quem não fosse expedito na chico-espertice recebesse a classificação de ingénuo ou demasiado honesto. Houve, e ainda há, uma maioria silenciosa que viveu, e ainda vive, desses expedientes e que se movimentou, e ainda se movimenta, ao sabor da maré e dos poderes de ocasião. Temos uma "escola" de oportunistas que se convencem que ninguém-os-vê e que se acolhem na cumplicidade dos semelhantes. É todo um caldo que nos empurrou para onde estamos, nas instituições e no país.
Portugal entrou num processo de queda sem fim? Os sinais começam a evidenciar o que em 16 de Abril do ano passado escrevi aqui. A obstinação dos governos com o modelo de avaliação de professores, colocando-o como ponto central da governação do país, só podia servir de cortina de fumo para algo preocupante. Não se perdoa aos que perpetraram a farsa, mas também aos que fizeram um coro comprometido. Sabiam que era outra a verdade, mas estavam acomodados aos mesmos privilégios.
No estado em que estamos, é difícill inverter a queda e manter o sistema que a originou. Exige-se uma qualquer refundação e recordo um parágrafo de um texto de José Bragança de Miranda.
"A imagem da queda é das mais profundamente incrustradas na cultura ocidental, tendo uma remota origem teológica, mas também correspondendo ao desejo milenar de escapar às forças gravitacionais que fazem cair todos os corpos para a terra. A queda era então um momento, talvez dramático mas provisório, da ascensão ou elevação. Na modernidade a imagem da queda sofreu uma mutação considerável. A leitura do conto de Poe, Descida ao Maelstrõm, serve de pretexto para apreender tal metamorfose, cuja compreensão se torna mais imperativa no momento em que se vai impondo uma cultura da "imaterialização" ou do "incorporal."
Na ordem inversamente proporcional às redes de auto-estradas e de centros comerciais.
A nossa organização administrativa é o que se sabe: em vez de um quadro, como seria moderno e razoável, temos mais de quarenta. O sistema escolar não escapa à voracidade. Tenho evidências empíricas que me permitem afirmar que o caos administrativa em que está mergulhado o sistema de informação do MEC se deve também a esse estado de sítio.
Sempre considerei as Direcções Regionais (DRE´S) como excrescências, porque se diluem no nível macro e nas competências do poder central. No início da década de noventa surgiram 23 Centros de Área Educativa (CAES´s). Mais uma divisão administrativa, mas que foi dando corpo a uma necessidade mais próxima da realidade. Apesar de 23, eram estruturas muito menos pesadas, a todos os níveis, do que as desnecessárias 5 Direcções Regionais (serviam para entreter professores sem sala de aula e infernizar a vida das escolas).
Em 2002, a Aliança Democrática (AD) pôs um fim abrupto às CAE´S. Verifiquei a falta de estudo da decisão, mas a mediatização destas questões era nula e o imperativo do país da tanga fez lei. Dez anos depois, a mesma AD parece querer pôr um ponto final nas DRE´S e criar mega-agrupamentos mais próximos do território das CAE´S. Impõem-se duas perguntas: como é que um país assim não podia falir? Até quando se manterá a divisão? Tenho, por indução e suposição, resposta para a segunda: até que uma nova maioria do mainstream avance com um novo quadro de regionalização.
Só agora reparei neste comentário que não tem relação com o post onde entrou, mas que aborda a questão do BPN. Há quem saiba, decerto que há, o que se passou nesse banco e no BPP, e também no BCP, e que são as causas maiores da nossa bancarrota. Por mais cortes que se façam, por mais impostos que se subam, as crateras de financiamento criadas nessas instituições devem ser de tal ordem que não passamos do pagamento dos juros cobrados sobre os juros dos empréstimos e com zero de amortização.
A ideia que fica é que há um envolvimento que compromete as chefias do estado e o respectivo poder político. É redutor falar em teoria da conspiração; esse argumento gastou-se com tanta evidência. Até quando é que se pode manter esta situação é a pergunta a que ninguém quer, ou sabe, responder. Entretanto, as fugas de informação parecem surgir ao ritmo de um jogo em que agora ameaças tu e a seguir ameaço eu.
As crises financeiras portuguesa, europeia e norte-americana têm um denominador comum: ausência de regulação bancária e corrupção. Se não fosse assim, não existiam casos do tipo Madeira. Os governos, aprisionados como estão, cortam onde é certa a poupança imediata: funcionários públicos, pensionistas e por aí fora. Quem não for fanático, sabe que isso é circunstancial e que não vai ao fundo do problema. É no sentido que acabei de escrever que leio as duas notícias que se seguem.
Carlos Moreno está reformado. Há quase um ano lançou o livro "Como o Estado gasta o nosso dinheiro." Defende que para haver uma democracia séria os cidadãos têm o direito e o dever de exigir que o dinheiro de todos seja gasto criteriosamente. Para ele, a crise que vivemos começou no desperdício dos recursos públicos.
O Presidente norte-americano, Barack Obama, afirmou esta segunda-feira que a crise financeira que a Europa está a viver está a assustar o mundo e elevou o tom das críticas, atribuído o fracasso da Zona Euro à ausência de regulação do sector da banca e ao atraso na resposta aos problemas que foram surgindo.
Escola e crise viajam sempre de braço dado e ocupam a agenda mediática desde que esta existe. Mesmo sabendo-se que o escolar também é educação, nada justifica a ausência mediática da educação sem escolar. É que ainda por cima, essa é a fatia que leva a responsabilidade maior pelo abandono escolar.
Se continuarmos obcecados com o escolar tout court, não só não sairemos do mesmo sítio como daremos argumentos válidos aos que nos dizem que estamos condenados a empobrecer e a desaparecer.
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça esta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Camões (Citado por Eduardo Lourenço em
"O labirinto da saudade", 1972, p.17)
A saudade é uma inscrição portuguesa e tem todas as condições para se intrometer na actualidade. Os portugueses já não conseguem ver em frente sem a nostalgia a empurrar-lhes o olhar para tempos idos. É interessante nomear que, dois anos depois do célebre país da tanga, em 2004, a convocação mediática da auto-estima era moda e terapia obrigatória. Seria ainda mais interessante, ouvir o que têm a dizer agora os assinantes dos receituários.
O país está deprimido. Vive-se a delapidação a cada passo. Não há nação que se levante sem um sistema escolar vivo de esperança. Se a depressão é um fenómeno geral, as escolas reflectem um sentimento duplicado: à pré-bancarrota acrescentam a devastação dos últimos anos.
Se os efeitos educativos são quase sempre a longo prazo, intuo que os resultados da desgastante luta de muitos professores portugueses também o serão. Talvez só no final desta década se sentirão os efeitos. Contudo, importa fazer um esforço de memória e pensar como seria o momento se os professores titulares ainda existissem, se o monstro burocrático da avaliação ainda nutrisse tanta simpatia desconhecedora, se o modelo de gestão escolar não estivesse descredibilizado e se o estatuto do aluno não tivesse os alicerces em desconstrução acelerada para benefício da condição dos discentes.
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