Em busca do pensamento livre.

Quinta-feira, 09.02.17

 

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No seu grave recanto, os jogadores
Deslocam os peões. O tabuleiro
Tem-nos até à alva do altaneiro
Âmbito em que se odeiam duas cores.

 

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, alta rainha, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.

 

Quando os jogadores se houveram ido,
Quando o tempo os tiver já consumido,
Nem por isso terá cessado o rito.

 

A leste se ateou uma tal guerra
Que hoje se propaga a toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.

 


Jorge Luís Borges,
poemas escolhidos.



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Quinta-feira, 02.02.17

 

 

 

 

A nona elegia.


Porquê, se é possível viver o prazo da existência,
até ao seu termo, como loureiro, um pouco mais escuro do que
todos os outros tons de verde, com pequenas ondas no rebordo
da folhagem (como o sorriso de um vento) -: porquê então esta
forçosa existência humana -, e, evitando o destino,
ter saudades do destino?...

(continua)




Rainer Maria Rilke.
As Elegias de Duíno,
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado,
Assírio & Alvim.



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Terça-feira, 27.12.16

 

 

 

Gosto de pontes. Gosto de olhar para a célebre ponte romana de Chaves. Sempre que estou em trás-os-montes, lembro-me das fragas, de Torga e dos poetas.

 

Recordo o final de um poema que Torga dedicou aos poetas.

 

(...)

Homens do dia-a-dia 
Que levantem paredes de ilusão. 
Homens de pés no chão, 
Que se calcem de sonho e de poesia 
Pela graça infantil da vossa mão.  

Miguel Torga, in 'Odes' 

 

Acrescento uma fotografia, da ponte romana de Chaves, que tirei em 24 de Dezembro de 2016.

 

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Terça-feira, 22.11.16

 

  

 

 

 


Narração de um homem em Maio (1953-60).

 


Mexo a boca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.

 


Herberto Helder em Poesia Toda.

 

Para acompanhar o poema escolhi uma das 100 fotografias mais influentes da história para

a revista Time. 

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Quinta-feira, 17.11.16
 
 




Parte de uma carta de Walt Whitman ao seu editor inglês William Rosseti, em 1867.

"Cálamo é uma palavra corrente. Trata-se da erva ou juncácea aromática de grande porte que cresce nas zonas pantanosas dos vales, cujo caule mede quase um metro de altura;..."

Um dos poemas de Cálamo.

Separando a erva dos prados.

Separando a erva dos prados, aspirando o seu raro aroma,
Dela reclamo a espiritualidade,
Exijo o mais íntimo e abundante companheirismo entre os homens,
Peço que ergam as suas folhas, as palavras, actos, seres,
Esse de límpidos ares, rudes, solares, frescos, férteis,
Esses que traçam o seu próprio caminho, erectos e livres avançando, conduzindo e não conduzidos,
Esses de indomável audácia, de doce e veemente carne sem mácula,
Esses que olham de frente, imperturbáveis, o rosto dos presidentes e governadores como se dissessem Quem és tu?
Esses de natural paixão, simples, nunca constrangidos, insubmissos,
Esses de dentro da América.



Walt Whitman

 

Tradução de José Agostinho Baptista.

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Quarta-feira, 03.08.16

 

 

 

Rilke já nos avisara para a possibilidade terrível dos anjos. Salvador Dalí transformou-os em borboletas, um símbolo da mafia tatuada nas costas dos elementos. A intemporal premonição de Dalí (Os anjos transformam-se em borboletas) está patente no Museu de Belas Artes de Oviedo.

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Sábado, 30.04.16

 

 

 

A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil. Exige leitura repetida. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.

 

Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, que se situa perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático.

 

Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.

 

  

Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias

dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse

para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua

natureza mais potente. Pois o belo apenas é

o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,

e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha

destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.

 

Por isso me contenho e engulo o apelo

deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia

valer? Nem Anjos, nem homens,

e os argutos animais sabem já

que nós no mundo interpretado não estamos

confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez

uma árvore na encosta que possamos rever

diariamente; resta-nos a rua de ontem

e a fidelidade continuada de um hábito,

que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.

 

Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo

nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,

suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente

do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?

Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)



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Sábado, 03.10.15

 

 

 

 

 

 

Há duas ideias a ter em conta nos picos de contestação: o aforismo de Wittgenstein que diz que "as relações humanas seriam muito diferentes se fosse transparente a relação entre dor e linguagem, se sentíssemos a dor do outro ao ouvi-lo enunciando a palavra" e a certeza de Rainer Maria Rilke de que, em qualquer circunstância e por mais rodeados de pessoas que estejamos, "estamos irremediavelmente sós".

 

Os professores não escapam à devastação a que têm sido sujeitos a maior parte dos portugueses. Têm até a particularidade de andarem há anos a fio em "mobilidade especial". A união que se está a verificar neste grupo profissional terá uma estreita relação com a "impossibilidade" de escapar à tragédia e com a necessidade de contrariar o infortúnio em solidão. A catarse colectiva manifesta-se de várias formas e está longe de se esgotar. A distância que nos separa do fim da linha é tão longínqua como a que medeia as "realidades" de 2006 e 2013. Os administradores da mesa negocial devem ponderar muito bem sobre o momento de excepção que vivemos e podem passar os olhos pela última e excepcional obra de Herberto Helder.

 

1ª edição em 10 de Junho de 2013.

 

 

Herberto Helder (2013:78). "Servidões". Assírio e Alvim. Lisboa.

 

 

 

 

 

 



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Sábado, 11.07.15

 

 

 

 

 

Uma lâmpada cheia de azeite vangloriava-se,

uma noite, perante os que passavam ao pé de si,

que era superior à estrela da manhã,

pois projectava uma luz mais forte que todas.

De repente, sacudida por um sopro de vento

que se levantou, apagou-se. Alguém, que a reacendeu,

disse-lhe: "Brilha, mas deixa-te estar calada, ó lâmpada;

a luz dos astros, essa, não morre".

 

 

Bábrio

 

 

 

 

Antologia da Poesia Grega Clássica.

Tradução e notas de Albano Martins.

Lisboa, Portugália Editora, 2009. p. 465.

 

 

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Quinta-feira, 04.06.15

 

 

 

 

Pergunto a mim próprio que razões
Me movem a estudar sem uma esperança
De precisão, enquanto a noite avança,
A língua desses ásperos saxões,
Já gasta pelos anos a memória
Deixa cair a em vão repetida
Palavra e é assim que a minha vida
Tece e destece sua exausta história
Será (disse-me então) que de algum modo
Secreto e suficiente a alma sabe
Que é imortal e que o seu vasto e grave
Círculo abarca tudo e pode tudo.
Pra lém deste cuidado e deste verso
Espera-me inesgotável o universo.




Jorge Luís Borges (1961, p:51)
Poemas escolhidos,
Cadernos de poesia, 20,
Publicações dom quixote.



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Domingo, 24.05.15

 

 

 

 

 

 

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Domingo, 29.03.15

 

 

 

 

A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil e é preciso reler algumas vezes. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.

 

Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno que se situa perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático.

 

Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.

 

 

 

 

 

Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias

dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse

para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua

natureza mais potente. Pois o belo apenas é

o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,

e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha

destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.

 

Por isso me contenho e engulo o apelo

deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia

valer? Nem Anjos, nem homens,

e os argutos animais sabem já

que nós no mundo interpretado não estamos

confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez

uma árvore na encosta que possamos rever

diariamente; resta-nos a rua de ontem

e a fidelidade continuada de um hábito,

que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.

 

Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo

nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,

suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente

do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?

Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)

 



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Terça-feira, 24.03.15

 

 

 

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Herberto Helder (2013:78). "Servidões". 

Assírio e Alvim. Lisboa.

 

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Narração de um homem em Maio (1953-60).




Mexo a boca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.


Herbero Helder em Poesia Toda. 

 

 

17077797_1fIRl.jpeg

 

Herberto Helder (2014:31). "A morte sem mestre". 

Assírio e Alvim. Lisboa.



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Quinta-feira, 11.12.14

 

 

 

 

 

Pergunto a mim próprio que razões

Me movem a estudar sem uma esperança

De precisão, enquanto a noite avança,

A língua desses ásperos saxões,

Já gasta pelos anos a memória

Deixa cair a em vão repetida

Palavra e é assim que a minha vida

Tece e destece sua exausta história

Será (disse-me então) que de algum modo

Secreto e suficiente a alma sabe

Que é imortal e que o seu vasto e grave

Círculo abarca tudo e pode tudo.

Pra lém deste cuidado e deste verso

Espera-me inesgotável o universo.

 

 

 

 

Jorge Luís Borges (1961, p:51)

Poemas escolhidos,

Cadernos de poesia, 20,

Publicações dom quixote.

 

 

 



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O Caos toma assento como árbitro. 

E o seu juízo apenas agrava 

a querela que assegura o seu reinado. 

Acima dele, é o Acaso o juiz supremo... 

 

 

 

Encontrado num pedaço de papel.

 

 

 



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Terça-feira, 04.11.14

 

 

 

A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil e é preciso reler algumas vezes. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.

 

Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno erigido perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático.

 

Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.

 

 

 

Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias

dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse

para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua

natureza mais potente. Pois o belo apenas é

o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,

e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha

destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.

 

Por isso me contenho e engulo o apelo

deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia

valer? Nem Anjos, nem homens,

e os argutos animais sabem já

que nós no mundo interpretado não estamos

confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez

uma árvore na encosta que possamos rever

diariamente; resta-nos a rua de ontem

e a fidelidade continuada de um hábito,

que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.

 

Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo

nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,

suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente

do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?

Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)

 

 

 

 



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Quarta-feira, 20.08.14

 

 

 

 

 

O Caos toma assento como árbitro.

E o seu juízo apenas agrava

a querela que assegura o seu reinado.

Acima dele, é o Acaso o juiz supremo...

 

 

 

Encontrado num pedaço de papel.



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Domingo, 27.07.14

 

 

 

 

 

 

 

Pergunto a mim próprio que razões

Me movem a estudar sem uma esperança

De precisão, enquanto a noite avança,

A língua desses ásperos saxões,

Já gasta pelos anos a memória

Deixa cair a em vão repetida

Palavra e é assim que a minha vida

Tece e destece sua exausta história

Será (disse-me então) que de algum modo

Secreto e suficiente a alma sabe

Que é imortal e que o seu vasto e grave

Círculo abarca tudo e pode tudo.

Pra lém deste cuidado e deste verso

Espera-me inesgotável o universo.

 

 

 

 

Jorge Luís Borges (1961, p:51)

Poemas escolhidos,

Cadernos de poesia, 20,

Publicações dom quixote.

 

 

 

 

 

 



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Quarta-feira, 18.06.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma lâmpada cheia de azeite vangloriava-se,

uma noite, perante os que passavam ao pé de si,

que era superior à estrela da manhã,

pois projectava uma luz mais forte que todas.

De repente, sacudida por um sopro de vento

que se levantou, apagou-se. Alguém, que a reacendeu,

disse-lhe: "Brilha, mas deixa-te estar calada, ó lâmpada;

a luz dos astros, essa, não morre".

 

 

Bábrio

 

 

 

 

Antologia da Poesia Grega Clássica.

Tradução e notas de Albano Martins.

Lisboa, Portugália Editora, 2009. p. 465.

(1ª edição em 28 de Novembro de 2010)

 

 

 

 

 


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Terça-feira, 10.06.14

 

 

 

 

 

 

 

"A morte sem mestre" de Herberto Helder exigiu o pagamento antecipado para a aquisição de um exemplar de mais uma edição limitada. Já tinha sido assim com o "Servidões", apesar da questão financeira ter seguido a modalidade habitual. Desta vez, somos premiados com um CD com cinco poemas lidos pelo autor.

 

 

 

 

 

O primeiro poema remeteu-me para Rilke, para as suas "Elegias de Duíno" e para os seus anjos. Mais à frente, Herberto Helder parece concordar ao referir "As elegias da morte". É um bom começo.

 

 

 

 

É uma obra que se recomenda (considero-a genial, mas isso já é vulgar em Herberto Helder). Escolhi ainda a página 31, mas podia ter sido outra qualquer. Talvez volte a postar sobre o livro e espero não trair o negócio. O "Servidões" ficou-me por 20 e poucos euros e, segundo o livreiro, já vai em mais de 150 nos nos locais de comércio. Mas até o autor parece concordar com o fastio com tanto número.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Quarta-feira, 30.04.14

 

 

 

 

A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil e é preciso reler algumas vezes. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.

 

Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno que se situa perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático.

 

Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.

 

 

 

 

 

Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias

dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse

para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua

natureza mais potente. Pois o belo apenas é

o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,

e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha

destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.

 

Por isso me contenho e engulo o apelo

deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia

valer? Nem Anjos, nem homens,

e os argutos animais sabem já

que nós no mundo interpretado não estamos

confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez

uma árvore na encosta que possamos rever

diariamente; resta-nos a rua de ontem

e a fidelidade continuada de um hábito,

que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.

 

Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo

nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,

suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente

do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?

Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)

 

 

 

 

 



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Terça-feira, 29.04.14

 

 

 

 

 

 

 

A nona elegia.


Porquê, se é possível viver o prazo da existência,
até ao seu termo, como loureiro, um pouco mais escuro do que
todos os outros tons de verde, com pequenas ondas no rebordo
da folhagem (como o sorriso de um vento) -: porquê então esta
forçosa existência humana -, e, evitando o destino,
ter saudades do destino?...

(continua)

 

 

 

 

Rainer Maria Rilke.
As Elegias de Duíno,
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado,
Assírio & Alvim.

 



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Domingo, 27.04.14

 

 

 

 

Faleceu Vasco Graça Moura, "um intelectual renascentista do Século XXI".

 

O escritor tem uma obra vasta que vai da poesia ao ensaio passando pela ficção e pelo teatro. Gosto da sua poesia e devo-lhe, acima de tudo e através das traduções, o acesso a duas obras maiores: "A divina comédia" de Dante Alighieri (e essa espécie de introdutório o "A vita nuova") e "Os sonetos a orfeu" do enormíssimo Rainer Maria Rilke. Que descanse em paz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Quinta-feira, 24.04.14

 

 

 

 

 

 

 

 

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

 

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

 

 



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Terça-feira, 11.03.14

 

 

 

 

Roseira

 

 

 



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Terça-feira, 11.02.14

 

 

 

 

Há duas ideias que me ocupam a mente nos picos de contestação que envolvem grupos de pessoas: o aforismo de Wittgenstein que diz que "as relações humanas poderiam ser muito diferentes se fosse transparente a relação entre dor e linguagem, se sentíssemos a dor do outro ao ouvi-lo enunciando a palavra" e a certeza de Rainer Maria Rilke de que, em qualquer circunstância e por mais rodeados de pessoas que estejamos, "estamos irremediavelmente sós".

 

Os professores não escapam à devastação a que têm sido sujeitos a maior parte dos portugueses. Têm até a particularidade de andarem há anos a fio em "mobilidade especial". A catarse colectiva manifesta-se de várias formas. A distância que nos separa do fim da linha é uma incógnita. Os administradores da mesa negocial devem ponderar muito bem sobre o momento de excepção que vivemos e podem passar os olhos pela última obra de Herberto Helder.

 

 

 

 

Herberto Helder (2013:78). "Servidões".

Assírio e Alvim. Lisboa.

 

 

 



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Quinta-feira, 26.12.13

 

 

 

 

 

 

"Mal D´Amores" é o primeiro livro de João Daniel Pereira, da comissão de representantes do movimento "Em defesa da escola pública no Oeste". Li nestes dias e recomendo. Pode encomendar no site da Chiado Editores.

 

O livro foi apresentado nas Caldas da Rainha.

 

 

 

 

 

Encontrei no facebook do autor o primeiro texto do livro.

 

 

 

 



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Domingo, 08.12.13

 

 

 

 

 

 

 

A  lâmpada



Uma lâmpada cheia de azeite vangloriava-se,

uma noite, perante os que passavam ao pé de si,

que era superior à estrela da manhã,

pois projectava uma luz mais forte que todas.

De repente, sacudida por um sopro de vento

que se levantou, apagou-se. Alguém, que a reacendeu,

disse-lhe: "Brilha, mas deixa-te estar calada, ó lâmpada;

a luz dos astros, essa, não morre".


Bábrio

 



Antologia da Poesia Grega Clássica.

Tradução e notas de Albano Martins.

Lisboa, Portugália Editora, 2009. p. 465.

(1ª edição em 28 de Novembro de 2010)






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Sábado, 01.06.13

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Quarta-feira, 29.05.13

 

 

 

 

 

 

 

 

O que é preciso é gente

gente com dente

gente que tenha dente

que mostre o dente

 

Gente que não seja decente

nem docente

nem docemente

nem delicodocemente

 

Gente com mente

com sã mente

que sinta que não mente

que sinta o dente são e a mente

 

Gente que enterre o dente

que fira de unha e dente

e mostre o dente potente

ao prepotente

 

O que é preciso é gente

que atire fora com essa gente

 

Essa gente dominada por essa gente

não sente como a gente

não quer

ser dominada por gente

 

Nenhuma!

 

A gente

só é dominada por essa gente

quando não sabe que é gente

 

 

 

 

 

Ana Hatherly

"Um Calculador de Improbabilidades"

 

 

 


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Terça-feira, 07.05.13

 

 

 

Capricho





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Sábado, 27.04.13

 

 

 

 

 

 

 

 

O Caos toma assento como árbitro.

E o seu juízo apenas agrava

a querela que assegura o seu reinado.

Acima dele, é o Acaso o juiz supremo...

 

 

 

 

 

Encontrado num pedaço de papel.


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Terça-feira, 05.02.13

 

 

 

 

 

 

 

"O truque é não nos enganarmos a nós próprios

acerca de certas coisas: pequenas ilhas rochosas no mar

das próprias desilusões. Agarrá-las e não se afogar

é o máximo que um ser humano pode alcançar".

 

 


Elias Canetti

Nobel da literaura em 1981




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Sábado, 26.01.13

 

 

 

"E agora, José", um poema de Carlos Drummond de Andrade para todos os momentos de crise




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Sexta-feira, 19.10.12

 

 

 

 

No seu grave recanto, os jogadores

Deslocam os peões. O tabuleiro

Tem-nos até à alva do altaneiro

Âmbito em que se odeiam duas cores.


Dentro irradiam mágicos rigores

As formas: torre homérica, ligeiro

Cavalo, alta rainha, rei postreiro,

Oblíquo bispo e peões agressores.


Quando os jogadores se houveram ido,

Quando o tempo os tiver já consumido,

Nem por isso terá cessado o rito.


A leste se ateou uma tal guerra

Que hoje se propaga a toda a terra.

Como o outro, este jogo é infinito.



Jorge Luís Borges, 

poemas escolhidos

 

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 22:16 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 02.07.12

 

 

 

 

 

O Caos toma assento como árbitro.

E o seu juízo apenas agrava

a querela que assegura o seu reinado.

Acima dele, é o Acaso o juiz supremo...

 

 

Encontrado num pedaço de papel.

 




publicado por paulo prudêncio às 09:52 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 08.05.12

 

 

 

 

 

 

O truque é não nos enganarmos a nós próprios

acerca de certas coisas: pequenas ilhas rochosas no mar

das próprias desilusões. Agarrá-las e não se afogar

é o máximo que um ser humano pode alcançar.

 

 

Elias Canetti


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publicado por paulo prudêncio às 22:29 | link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Quinta-feira, 12.04.12

 

 

 

'Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver 
daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele 
menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele 
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. 
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir 
quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos 
para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem 
para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, 
que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões
 de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'. 
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo 
majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas 
não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. 
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a 
essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta
com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não
foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados,
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse
amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.'

O essencial faz a vida valer a pena.
Rubem Alves
Cortesia do José Mota


publicado por paulo prudêncio às 10:12 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Terça-feira, 20.03.12

 

 

Pela Pátria! Fürs Vaterland!



publicado por paulo prudêncio às 09:11 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 16.01.12

 

 



publicado por paulo prudêncio às 09:48 | link do post | comentar | partilhar


Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
Discordâncias:
Mais até por uma questão estética, este blogue discorda ortograficamente
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