Em busca do pensamento livre.

Terça-feira, 21.03.17

 

 

 

A Finlândia incluiu mais competências transversais nos currículos nacionais (o processo iniciou-se em 2012 e apenas em 2016 deu os primeiros passos). E porquê a transversalidade? Por causa dos futuros profissionais, mas principalmente pelo tédio dos alunos (até nas raparigas que têm melhores resultados em todas as literacias). A ligeira quebra nas avaliações internacionais terá acelerado a recuperação da antiga interdisciplinaridade; ou melhor: da sua institucionalização. O processo tem cinco anos, não muda com a queda de um Governo (Crato&Rodrigues seriam impossíveis) e regista o pessimismo de 34% dos professores; 21% registaram benefícios. Toda esta sensatez num sistema com escolas com uma dimensão civilizada, descentralizada e autónoma. Não existem exames (mas existe avaliação), não existe avaliação do desempenho (do desempenho, sublinhe-se) dos professores e não existem serviços de inspecção (os sistemas bem sucedidos constroem a confiança): ou seja, estão há muito a contrariar as variáveis determinantes da escola-indústria (nunca li, nos inúmeros relatos do sistema finlandês, uma referência ao excesso de burocracia).

Em Portugal, parece que se queria recuperar a flexibilização institucional do currículo, e logo de 25% da carga horária, quase de supetão. Dizem que parou por causa das eleições autárquicas e da vontade do Presidente. Que não se conte este ridículo fora de portas e que se repita: para além do tempo, "isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia - o inferno acentuou-se (1998-2000) na anterior experiência de gestão flexível do currículo - num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de flexibilização curricular".

A imagem é de um pintor finlandês: um Anjo, mesmo que ferido como é o caso do escolar finlandês, justifica todos os cuidados e merece que se lhe dê tempo para encontrar outros caminhos.

 

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Hugo Simberg.

"O anjo ferido"

Museo de Arte Ateneo.

Galería Nacional.

Helsinski. 

Finlândia. 



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Domingo, 19.03.17

 

 

"El colegio milagro que revoluciona la educación en España"



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Sábado, 18.03.17

 

 

 

A "Geringonça escolar" tomou duas decisões quase consensuais: repor decência na rede escolar e corrigir a "medição em modo industrial" que o radicalismo de Crato alastrou aos alunos mais jovens. É um caminho a prosseguir, sem que isto signifique concordância com o modelo vigente de provas de aferição. Há muito a fazer.

Dá ideia que o Governo adiou as mudanças curriculares que implicavam (é o que consta) a flexibilização de 25% do currículo. É moderado. Parece que não generaliza sem testar. É sensato. Para desnorte, já temos década e meia que chegue. Contudo, isso não implica que não se reequilibre a carga horária com pequenos ajustamentos aos devaneios anteriores e que não "aumentem o ruído" nos concursos nem na distribuição de serviço dos professores.

Por outro lado, o sistema está - há muito e com baixas médicas em catadupa - à beira de um ataque de nervos com a hiperburocracia digital a conviver com legislação do tempo analógico e com outras componentes críticas identificadas. Se juntarmos a isto as prioritárias, e imperativas, mudanças no modelo de gestão e a apreensão com a municipalização, temos de olhar para o adiamento curricular com o desenho de Picasso - "ainda há vida com uma guitarrra" - e a pensar como Goethe: "todos os dias devemos ouvir uma canção, ler um bom poema, ver uma pintura de qualidade e dizer palavras sensatas".

 

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Pablo Picasso.

"Still life with guitar".

Albertina museum. Viena.

 



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Domingo, 12.03.17

 

 

 

As "elites" portugueses são historicamente vocacionadas para castelos, palácios, mansões e demais obras faraónicas, o que explica as cíclicas falências da nação. Veja-se a CGD na sua opulenta sede e já com 4 mil milhões a voar, depois das mesmas "elites" terem delapidado a banca privada com os olhos nos salvíficos offshores. Quem paga? Em grande parte, os do costume: os que ergueram o edificado e que têm a escola assegurada para ler, escrever e contar. Ou seja, o povo que leia as maiúsculas (e os tablóides), que escreva redacções sobre o tempo e que faça a aritmética básica da boa consciência para o pagamento integral dos impostos. 

Olhe-se para a imagem. O quadro de Domingos Sequeira, "A Adoração dos Magos", ficou no MNAA por subscrição popular, o que seria uma vergonha para as elites num país com escola. Basta atravessar a fronteira e ir ao Museu do Prado. Como escreveu, ontem no Expresso, Clara Ferreira Alves:

"(...)A grande arte providencia uma educação, não apenas estética.(...)a grande pintura, a grande arte, deviam ser obrigatórias nas escolas, tal como a educação musical. O currículo primário e secundário português, com as suas perguntas esdrúxulas nos exames a que nenhum adulto educado saberá responder, ignora olimpicamente a arte.(...)Uma parte da elite endinheirada e da direita política teima em considerar a arte e a cultura como propriedade da esquerda e não da humanidade".

Algo parecido se passa com o ensino das humanidades. E depois há uns servos que alinham neste jogo. É um fenómeno estranho e também histórico. Afirmam-se conservadores e supostamente exigentes para gáudio das "elites" ou alargam o currículo escolar de forma tão complexada que se enredam num emaranhado risível de organogramas justificativos.

 

sequeira_pintura Domingos Sequeira.

"A Adoração dos Magos".

Museu Nacional de Arte Antiga.

Lisboa.



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Sábado, 11.03.17

 

 

 

Antecipar e seleccionar a estratégia, é ainda mais complexo em tempos de absolutização do presente. Todavia, essa condição vigente não nos liberta do futuro. Esse é, obviamente, irreversível. 

Uma questão escolar portuguesa passa pelo ensino secundário para todos. O que mais nos envergonha é a baixa conclusão desse nível. Mas precisamos de um ensino secundário consistente. Um ensino secundário com a formação geral comum aos três anos e com "especializações" nos ensinos regular e profissional. Uma formação geral que contemple o equilíbrio curricular numa sociedade em pleno movimento. Isso será investimento na ciência, na qualidade da formação, no número de pessoas da classe média e na riqueza da nação. E mais: é essencial que os anos que antecedem o secundário sejam universais, generalistas, de currículo completo e inclusivo. Os países ricos e democráticos eliminaram o estreitamento curricular por três motivos principais:

1. 60% do sucesso escolar está na sociedade e 40% na organização escolar;

2. os alunos que "querem aprender" fazem-no em qualquer sistema porque beneficiam da ambição escolar das famílias ou de boas condições sócio-económicas;

3. instituíram como desafio primeiro elevar os que "não querem aprender" à conclusão de um ensino secundário que não feche portas ao superior nem ao mercado de trabalho.

O que foi escrito começava a fazer parte da história portuguesa antes da chegada intempestiva de David Justino, Lurdes Rodrigues e Nuno Crato: três erros crassos por motivos diferentes; três radicais "reformadores"; três com políticas insensatas; três com políticas não moderadas.

E não será bem como na imagem: aprende-se com os danos, mas também se devia aprender mais com os anos.

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Sábado, 04.03.17

 

 

 

Acerca do prefácio de um perfil e outras notas



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Sexta-feira, 03.03.17

 

 

 

A propósito do post do Paulo Guinote, "Paulo, conta-nos lá o que sabes", e em que ele confessa, desde logo, que pode ser em vão, remeto-me para o que escrevo. Já li várias opiniões sobre o tema, incluindo o "perfil do aluno do século XXI". O que tenho escrito é independente do que se venha a aprovar. Recorro a mais este post que ajudará a compreender a minha posição. Escrevi-o no século passado e intitulei-o "Reformas e remédios" (há tempos acrescentei-lhe: a pensar no perfil do aluno do século XXII; muito à frente, portanto). Tem a seguinte introdução:

A febre reformista no sistema escolar em Portugal não é nova: é mesmo imparável. O que é engraçado, e com o passar do tempo, é que vemos recuperar ideias antigas como se fossem novidades. Parece um percurso circular.

Escrevia, algures em 1998, uns textos para uma revista sobre educação e o coordenador pediu-me que inscrevesse algumas ideias sobre reformas. Lembrei-me dos remédios. Fui ler a literatura do “Benuron” - medicamento para todas as dores e para todas as maleitas gripais e constipais - peguei no seu modelo organizativo e fui andando. Foi uma noite bem passada. Quase 19 anos depois, e aproveitando as competências do blogue, publico-as de novo.

 

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Quinta-feira, 02.03.17

 

 

 

 

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Andaram anos a fio a repetir que os professores eram resistentes às mudanças, e que as escolas precisavam de reformas, e agora indignam-se com as mudanças escolares da Geringonça? Mais: só as aceitam sem o vocábulo reforma? Ou seja: Crato reformou contra tudo e quase todos e o seu legado é o fim da história?

O ex-ministro da Educação insistiu na ideia das disciplinas essenciais (ficaram de fora as ciências, a história, a filosofia, a geografia, as línguas estrangeiras, as disciplinas da área de expressões e por aí fora). Foi uma questão de fé, já que, e a exemplo do número de alunos por turma, não apresentou qualquer fundamento empírico. As teorias não saíram do domínio da crença ou dos preconceitos. Francamente, não esperava um discurso desse teor. A invenção da roda estava distante, mas era seguro que sem a forma circular os solavancos aumentariam o atrito.

A concentração nas essenciais inscreveu horas curriculares e exames, para além de mais horas de formação que não saíram da intenção e que terminaram com o que existia em nome do ajustamento nos do costume. Um governante pode achar que faltam horas de ensino aqui ou ali e que quer examinar esses saberes muitas vezes. Mas quando enuncia publicamente que o seu achamento divide as disciplinas em mais e menos, dá um péssimo sinal à sociedade e acrescenta ruído no ensino das não essenciais; institui o tempo da roda quadrada, digamos assim. Ler agora que esse estado de recuo civilizacional é imutável é o que mais me surpreende.



(Já usei parte deste texto noutro post)



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Quarta-feira, 01.03.17

 

 

 

São moderados, sensatos e razoáveis os que advogam a escola completa, total, integral ou inclusiva. É algo inesperado, mas certamente propulsionado por atavismos, considerá-los como não defensores dos saberes estruturantes da matemática e das línguas maternas. Esta surpreendente discussão regressou com o radicalismo de Crato, embora também insinuado por antecessores, que desequilibrou a escola desfavorecendo as artes e as humanidades. Desde logo se percebeu que, os do seu legado, insistiriam, tacticamente, na argumentação "parada no tempo" para dividir.

A construção curricular não é uma criação divina. É uma obra humana e evolutiva. Alargou saberes, caminhou com equilíbrio e desaconselhou extremismos. Aliás, o "prefácio do perfil dos alunos para o Século XXI" tem uma passagem, que podia ser do século XX, que me parece consensual.

"(...)Daí a preocupação de definir um perfil que todos possam partilhar(...)Havendo desigualdades e sendo a sociedade humana imperfeita, não se adota uma fórmula única, mas favorece-se a complementaridade e o enriquecimento mútuo entre os cidadãos.(...)As humanidades hoje têm de ligar educação, cultura e ciência, saber e saber fazer. O processo da criação e da inovação tem de ser visto relativamente ao poeta, ao artista, ao artesão, ao cientista, ao desportista, ao técnico – em suma à pessoa concreta que todos somos.(...)"

 

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Les Demoiselles d’Avignon (1907), de Pablo Picasso 

representa o rompimento com a estética clássica 

e a revolução da arte no início do século XX.



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Sábado, 25.02.17

 

 

 

 

Os governantes parece que têm o cuidado de, ao contrário do radicalismo de Crato, não falar de reforma curricular. Prevalece a ideia de "uma forma diferente de gerir o currículo, possibilitando, desde logo, que as escolas organizem, com flexibilidade multidisciplinar, 25% do currículo". Se a ideia é interessante, mas muito exigente, é necessário que, e repito, se elimine o que resta do radicalismo organizacional imposto por Lurdes Rodrigues. 



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Domingo, 19.02.17

 

 

 

O "Governo vai mudar o currículo das escolas" contrariando decisões muito desfavoráveis aos alunos, principalmente aos mais jovens, promovidas por Crato com o empobrecimento curricular. É o passo seguinte depois do questionamento saudável a uma variável da mesma família: a indústria dos exames. É mais um motivo de esperança no sentido da moderação e da sensatez. Mas não chega. É preciso eliminar o que resta dos procedimentos da "guerra" aos professores, e à organização das escolas, da autoria de Lurdes Rodrigues.

A "nova" gestão flexível dos currículos eleva a exigência da escola (se a municipalização se abstiver). Não bastará disseminar directrizes centrais. Será preciso mais estudo, mais autonomia e mais responsabilidade, para que se afirmem valores de liberdade, maturidade e transparência. E tudo isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de mudança curricular.

 

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Terça-feira, 14.02.17

 

 

"Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória - consulta pública"



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Segunda-feira, 13.02.17

 

 

 

Entrevista | “Caminhamos para o facilitismo Sr. Secretário de Estado?”



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Sábado, 04.02.17

 

 

 

Eram onze turmas do ensino secundário (duas aulas semanais de cinquenta minutos por turma) com mais de 30 alunos cada uma (uma chegava a 36 alunos). Esse primeiro ano que leccionei com horário completo deixou-me apreensivo. Um ano depois, experimentei o segundo ciclo: quatro aulas mais dois tempos de actividades de aplicação; seis tempos por semana e três turmas no horário. A escolha para os dois anos da profissionalização em exercício recaiu, obviamente, no segundo ciclo; em consequência, o lugar de quadro também. Uns anos mais à frente, a carga curricular no segundo ciclo regrediu para metade e aumentou no secundário (de 2 para 3 no 3º ciclo e de 2 para 4 no secundário). Mais de trinta anos depois, e tenho leccionado os ciclos todos (do primeiro ao secundário), ainda se usam os mesmos argumentos para legitimar a educação física, como disciplina, e o desporto escolar num sistema ancorado na escola-industria onde uma aula de 90 minutos é uma espécie de receita a aplicar em todas as disciplinas e nos anos todos (do 5º ao 12º).

 

"O que se passa em Portugal é que por fenómenos de organização dos calendários escolares, este horário é colapsado e é concentrado em um ou dois períodos (por semana), o que acaba por ter consequências negativas na aquisição das aprendizagens e na forma como os alunos se relacionam com a disciplina", afirmou o especialista em entrevista à agência Lusa.

Ou seja, mais do que o número de horas ou tempos por semana, está em causa a forma como são organizadas no horário escolar, com Pedro Teixeira a defender que é preferível não concentrar as horas da disciplina e espalhá-la ao longo da semana.

Actualmente há países no norte da Europa que estabeleceram uma hora diária de Educação Física nos currículos escolares: "Isso dá uma margem de manobra para aquisição de competências e capacidade de literacia física. Seria ideal que para lá pudéssemos caminhar".

 

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Terça-feira, 25.10.16

 

 

 

A desqualificação do modo de escolher as direcções escolares é mais uma derrota para a herança de Lurdes Rodrigues (LR). O veredicto poderá acontecer com a vontade de alguns dos seus, outrora, correligionários. É reconhecida a desqualificação dos actuais Conselhos Gerais para promover concursos públicos seguidos de eleição. LR decidiu, em 2009, eliminar um modelo com avaliação positiva para controlar, a partir do poder central, os "indisciplinados" professores. Teve a oposição de muitas escolas, mas a oportunidade criou alinhados de última hora. 

 

Em 11 de Janeiro de 2012escrevi que "(...)mesmo entre nós, e no caso do sistema escolar, o arco governativo não descansou enquanto não eliminou o poder democrático das escolas substituindo-o por uma amálgama com tiques do PREC e da ditadura.(...)" Não foram necessários muitos anos para se perceber o erro grave, nomeadamente com a entrada nas escolas do pior da partidocracia local. É consensual para as organizações que estudam e avaliam a situação vigente: as direcções escolares devem ser eleitas, num processo devidamente escrutinado, por todos os que exercem funções nas escolas.

 

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Antero



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Sexta-feira, 21.10.16

 

 

 

 

Visionar e antecipar o futuro, e escolher a estratégia, é mais difícil em tempos de absolutização do presente. Contudo, essa condição vigente não nos liberta do futuro. Uma questão escolar portuguesa passa por alargar o ensino secundário a todos. Um ensino secundário com a formação geral comum aos três anos e com "especializações" nos ensinos regular e profissional. Uma formação geral que contemple o equilíbrio curricular numa sociedade em pleno movimento.

 

É assim que se investe na ciência, na qualidade da formação, no número de membros da classe média e na riqueza das nações. Os países mais ricos e democráticos eliminaram o estreitamento curricular por três motivos principais:

1. perceberam que 60% do sucesso escolar está na sociedade e 40% na organização escolar;

2. reconheceram que os alunos que "querem aprender" fazem-no em qualquer sistema porque beneficiam da ambição escolar das famílias ou de boas condições sócio-económicas;

3. instituíram como desafio primeiro elevar os que "não querem aprender" à conclusão de um ensino secundário que não fecha portas ao superior nem ao mercado de trabalho.

 

O que foi escrito faz parte da história portuguesa antes da chegada de David Justino, Lurdes Rodrigues e Nuno Crato: três erros crassos.

 

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Sábado, 08.10.16

 

 

 

Currículo, Programas, Reformas



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Sexta-feira, 30.09.16

 

 

 

 

Passar do eduquês I (escola a tempo inteiro com afectos) para o eduquês II (escola a tempo inteiro com exames) é "suportável" uma vez. A rotatividade "eterna" (temos décadas de alternância) explica o burnout de professores e os persistentes números de insucesso e abandono escolares.

 

Centremos o debate no seguinte ângulo de análise: o importante estudo do cérebro continua a concluir que é mais correcto falar em ignorância do que em conhecimento sobre o seu funcionamento; António Damásio, por exemplo, sublinha-o no sentido do texto na imagemO ensino, a aprendizagem e os desenhos curriculares não escapam a isso. O alargamento curricular tem fundamentos e só em discussões ideológicas datadas é que se advoga o regresso ao back to basics (ler, escrever e contar). Quando um sistema escolar está "tão avançado" que se dá ao luxo de cortar investimentos, o conhecimento exige que o faça por igual nas diversas áreas.

 

É precisamento por isso que a humildade é inalienável. Quando se decide nestes domínios, avalia-se o estado em que se encontra essa qualidade imprescindível a um sistema escolar. Nuno Crato e Lurdes Rodrigues eliminaram-na, embora a "rotatividade" eduquesa tenha raízes anteriores. É o espaço de fusão entre as duas versões do eduquês que parece, fatalmente, de pedra e cal. Os deputados do PS que o digam a propósito da avaliação da sua produtividade.

 

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Daniel Kahneman (2011:73), "Pensar, Depressa e Devagar", Temas e Debates, 

Círculo de Leitores, Lisboa.



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Sábado, 25.06.16

 

 

 

Os cortes a eito de Crato (cortes curriculares, mais alunos por turma e mais turmas por professor, agregações de escolas e horários ao minuto) fizeram "desaparecer" 33.000 professores (cerca de 25% do total) entre 2013/14 e 2014/15. Em Junho de 2013 (plena troika), os professores desencadearam uma heróica greve a avaliações e exames que impediu mais 15.000 "desaparecidos". Os professores venceram a batalha. Foi negociada uma justa fórmula no crédito horário das escolas inserida no despacho (OAL) de organização do ano lectivo (parece uma coisa de tresloucados, mas é assim) que impediu mais "desaparecimentos".

 

Para o ano lectivo 2016/17, o Governo reduz esse crédito, tem aqui o OAL, numa margem que pode chegar a 75%. Fará uma análise caso a caso, exigirá capacidade de projecto aos directores escolares e a última decisão será da Directora-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. Não sei se os membros do Governo conhecem a duríssima história dos professores portugueses na última década. Espero que conheçam e que a plataforma de sindicatos estude as matérias. Sinceramente: nem se espera outra coisa.

 

 

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Sexta-feira, 04.03.16

 

 

 

"Deliberadamente vamos utilizar terminologia clássica, aclarando, desde logo, que "não se trata de advogar ou propôr o regresso a um passado mítico, e muito menos a defender programas mínimos como ler, escrever e contar ou as tendências de "back to basics". Trata-se, pelo contrário, de abrir novas perspectivas que ponham a aprendizagem, no seu sentido mais amplo, no centro das nossas preocupações" (Novoa, 2009, 194). Somamo-nos à exigência de clareza no debate sobre as coisas públicas: "O buraco negro do debate público sobre educação, capaz de absorver e fazer desaparecer qualquer ideia que se aproxime, é hoje a dificuldade em chamar as coisas pelos seus nomes" (Fernando Enguita, 2009, 72)"

 



Angel García del Dujo.

La escuela en crisis/Recontrucción del sentido de
la actividad educativa escolar (página 83)
(a tradução é minha)



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Terça-feira, 05.01.16

 

 

 

Mesmo sem se conhecerem os detalhes, é positivo que o novo MEC elimine o trágico (não estou a exagerar) concurso de professores BCE, faça alterações na indústria dos exames e substitua o linguajar eduquês II das disciplinas estruturantes por vocabulário que inclua as artes, o desporto e as ciências experimentais.

 

Espera-se que se mantenha o concurso de reserva de recrutamento por lista graduada durante todo o ano lectivo e que, no ensino básico, apenas no 9º ano sobrevivam exames nacionais e anuais e que com isso se elimine a má propaganda da publicitação de rankings ensandecidos com exames de crianças. Esta última decisão arrastará o neoliberalismo associado que é corporizado, por exemplo, por prémios monetários para as melhores classificações, pautas públicas de classificações e quadros de honra.

 

Já agora, a mudança vocabular das disciplinas estruturantes deve corresponder a alterações consequentes na carga curricular.

 

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Sábado, 15.08.15

 

 

1ª edição em 11 de Janeiro de 2012.

 

 

 

Peso bem o que escrevo e recebi alguns emails a propósito deste post onde escrevi que "(...) mesmo entre nós, e no caso do sistema escolar, o arco-governativo não descansou enquanto não eliminou o poder democrático das escolas substituindo-o por uma amálgama com o pior do PREC e da ditadura de Salazar. (...)". Dizem-me que posso estar a exagerar na preocupação com o regresso a um passado que parecia arredado da possibilidade histórica e do futuro.

 

Se fizermos um exercício de memória, saberemos que no período que antecedeu o 25 de Abril de 1974 os directores das escolas eram nomeados pelo poder central e que a dificuldade no conhecimento das personagens no mais recôndito dos lugares era superada pela informação do partido único do regime: a União Nacional. A escolha que as graças determinassem recebia o mandato e a não limitação temporal do seu exercício.

 

Os mais distraídos devem saber que muitos dirigentes dos partidos que nos vão governando defendiam, e defendem, a nomeação pelo poder central dos directores escolares, após auscultação das estruturas locais do respectivo partido político, e que só se depositou a sua eleição nos actuais Conselhos Gerais porque o critério obedeceu à lógica experimentada pelo PREC (os extremos tocam-se), onde as populações se apropriaram do poder das instituições do estado numa prática que se revelou desqualificada e promotora da ausência de profissionalidade e de prestação de contas. Foi assim e já só estamos a um passo da plena realização.

 

No período que antecedeu a revolução dos cravos, a esmagadora maioria dos professores não pertencia aos quadros e não progredia na carreira. Os que conseguiam uma posição mais profissional ou obedeciam aos ditames do regime ou eram empurrados para uma situação censurada e de exclusão vinculativa. 

 

Existia uma obsessão com os denominados saberes essenciais. Esse empobrecimento civilizacional foi contrariado anos depois do 25 de Abril de 1974 e permitiu à sociedade portuguesa uma cavalgada impressionante na aproximação à sociedade da informação e do conhecimento que se veio a estabelecer.

 

Perante os factos, e podiam ser muitos mais, convenço-me que temos razões para temermos uma regressão civilizacional que abalará os alicerces da democracia. Se o argumento decisivo é a redução da despesa, importa questionar, como, de algum modo, se fez na altura, a razão que leva a neo-União-Nacional a não prescindir do desvario na gestão de fundações, de PPP´s ou da administração local. É que, e continuando a fazer paralelismos, não se percebe o que queremos quando afirmamos que o sistema escolar é uma prioridade nacional.

 



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Segunda-feira, 20.07.15

 

 

 

 

O dever de uma liderança é visionar e antecipar o futuro e escolher a estratégia. A questão escolar portuguesa passa por alargar o ensino regular a todos até ao final do secundário, mas pensar um ensino básico e secundário ecléctico em que as "disciplinas estruturantes" estejam em igualdade curricular com as humanidades, com as "expressões" e com as outras ofertas de uma sociedade em pleno movimento.

 

A relação entre a selecção precoce de disciplinas "estruturantes" e o aumento da ciência, da qualidade da formação das pessoas, do número de membros da classe média e da riqueza dos países é inversa e proporcional. Os países mais ricos e democráticos eliminaram a opção pelo "ler, escrever e contar" (LEC) por três motivos principais:

1. perceberam que 60% do sucesso escolar está na sociedade e 40% na organização escolar;

2. reconheceram que os alunos que "querem aprender" fazem-no em qualquer sistema, e independentemente da carga curricular nas LEC, porque beneficiam da ambição escolar das famílias ou de boas condições socio-económicas;

3. instituiram como desafio primeiro elevar os que "não querem aprender" ao ensino superior.

 

Foi isso que o mediatizado sucesso polaco explicou. Começaram por inverter a lógica "vocacional" no terceiro ciclo (à saída da primária como eles dizem) e conseguiram aumentar para 60% (eram 10% vinte anos antes) as matriculas no ensino superior e pasme-se: melhoraram muito os resultados nos testes internacionais. A sério: até parece a história portuguesa antes da chegada de David Justino, Lurdes Rodrigues e Nuno Crato. O último foi mesmo um erro crasso.

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Domingo, 21.06.15

 

 

 

 

Foi com Nuno Crato que os professores desencadearam a luta mais difícil (Junho de 2012) da última década com uma impopular greve a exames do 12º ano e a todas as avaliações de final de ano. Os cortes a eito (nomeadamente os aumentos de alunos por turma e nos horários dos professores, os cortes curriculares e os mega-agrupamentos) foram o motivo. Se os professores não tivessem decidido assim, cerca de 10000 dos quadros seriam empurrados para uma brutal requalificação rosalina e mais uns 10000 ficariam sem contrato.

 

Como resultado dessas acções, o MEC comprometeu-se a incluir no despacho de organização do ano lectivo uma compensação horária conjuntural para impedir mais horários zero. Este ano voltou a sair tarde e está aqui.



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Quarta-feira, 08.04.15

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

O tríptico que Francis Bacon dedicou a Lucian Freud terá o valor mais alto de sempre no mercado da arte.

Este tipo de notícia pode pôr a pensar os nossos afuniladores curriculares.

 

 

 

 Este post é de 19 de Novembro de 2014.

 

 



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Quarta-feira, 01.04.15

 

 

 

 

A notícia finlandesa entrou na agenda mediática, é da família do "fim das notas até ao secundário" e já obrigou o CNE lusitano (para espanto dos mais atentos ao discurso outrora oficial, mas quem navega ao sabor do vento da oportunidade muda de rumo rapidamente) a propor a eliminação da obrigatoriedade de pautas e de quadros de honra e de mérito antes do sétimo ano de escolaridade.

 

É evidente que os títulos mediáticos não correspondem ao projecto finlandês e é também bom recordar que o tímido projecto português do tempo de Guterres, que incluía as ACND (com a eliminada área de projecto) já ia nesse sentido e com inspiração finlandesa.

 

Os críticos menos fundamentados do eduquês (não me canso de repetir que por aqui o alvo foi sempre a hiperburocracia) misturaram-se com os obcecados com o santo produto (a história já demonstrou que o mais do mesmo nas matérias ditas nucleares nada acrescenta aos que aprendem em qualquer sistema e exclui os que "não querem aprender") e criaram um retrocesso civilizacional no sistema português que parece estar já em condições para ser pulverizado.

 

Alguns dos detalhes que caracterizam a tragédia cratiana podem ser lidos no seguinte texto de Santana Castilho: A Suprema Sagrada Congregação dos Santos Exames. 

 

 

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Domingo, 15.02.15

 

 

 

  

A criação de novas disciplinas que há uns tempos, e a propósito da autonomia das escolas, preencheu a agenda mediática voltará em forma de municipalização. O atrevimento esbarra no que referi aqui.

 

Recordemos: Nuno Crato sugeriu a disciplina de mapeamento digital que só podia nascer à custa da geografia ou de horas curriculares existentes noutras disciplinas. Mas o melhor é ver o vídeo e certificar as convicções do ministro e pensar na festa que virá por aí.

 

 

 

 

 

 

 

 



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Sexta-feira, 16.01.15

 

 

 

Mas alguém reconhece ao poder municipal esta capacidade? Quando elegemos os políticos locais estamos a atribuir ao vereador da Educação a "autoridade" para definir um quarto do currículo? 

 

A privatização do sistema escolar é da família destas ideias de municipalização e de descentralização de competências. Como se sabe, a Suécia fez um percurso semelhante e hoje centraliza e nacionaliza sem contemplações.

 

Pode ler aqui um retrato do exemplo sueco, onde nomeadamente se refere:

 

"(...)Ao Observador, Leif Lewin disse que o processo de descentralização da educação na Suécia aumentou a desigualdade na educação, uma vez que as famílias com mais posses “utilizam a possibilidade de escolher a escola dos filhos em maior grau do que outros grupos”.

Na conferência de imprensa em que apresentou os resultados do estudo governamental, o professor de Ciência Política disse aos jornalistas suecos que a reforma do sistema educativo tinha sido “brutal” e criado “desconfiança em vez de confiança”. Leif Lewin apresentou um diagnóstico claro: “o controlo municipal das escolas foi um falhanço”, uma vez que “nem os municípios, nem os diretores de escola, nem os professores estavam à altura da tarefa.” Em consequência, “os resultados académicos desceram, tal como a igualdade e a atitude e motivação dos professores”.(...)"

 

 

 



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Domingo, 04.01.15

 

 

 

A estrutura curricular nos países menos desenvolvidos tem uma fractura comum: predominam as disciplinas denominadas nucleares e atribui-se um papel residual aos saberes do domínio das humanidades e das artes onde se pode incluir a educação física. Objectivamente, a ruptura verifica-se na carga horária. Disciplinas como a língua materna ou a matemática atingem, desde cedo, o dobro ou o triplo das horas semanais das restantes. Estas decisões carecem de fundamentação empírica e há quem advogue que o inútil "mais do mesmo" ainda acentua a desigualdade de oportunidades.

 

As últimas décadas em Portugal pareciam contrariar essa tendência empobrecedora e os testes internacionais confirmavam os progressos. Com a chegada de Sócrates e Rodrigues, agudizada com a tragédia de Passos e Crato, a ideia de escola completa, que estrutura as sociedades para uma forte e maioritária classe média, ficou comprometida.

 

É também isso que os professores de educação física denunciam.

 

Captura de Tela 2015-01-04 às 14.30.51.png

 

 



publicado por paulo prudêncio às 14:19 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 15.05.14

 

 

 

 

Se cada português adulto com vencimento sólido, essa raridade, trabalha os primeiros cinco meses do ano para pagar impostos, uma criança em idade escolar não tem mais de cinco meses por ano de "aulas com ritmo" nas disciplinas não estruturantes (que ainda levaram cortes curriculares a eito) e até nas estruturantes. O CEO do MEC desde 2011, qual especialista falhado em minas e armadilhas, implodiu a escola pública criando mais um monstro burocrático à volta de uma parafernália de exames e calendários que faz com que os alunos desde o primeiro ciclo fiquem desde Março a finais de Setembro sem ritmo escolar nas disciplinas não estruturantes (uma espécie de imposto de selo para Crato) e mesmo nas estruturantes (o IRS e o IVA no  "jogo do monopólio" do CEO do MEC).

 

Já se conheciam os preconceitos "elitistas" do ministro e a evidente falta de sensatez, mas agora percebeu-se que a situação se agravou com a subalternização à malta das finanças para além da troika. Foi contaminado. Consta que até o júri nacional de exames e as organizações de pais e de encarregados de educação têm tentado demover o ímpeto "MRPP" de Nuno Crato; mas nada a fazer, a coisa só vai lá com o esperado fim deste ciclo radical que ficará nos rodapés da história como o perídodo em que havia "mais exames do que aulas".



publicado por paulo prudêncio às 14:50 | link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Terça-feira, 13.05.14

 

 

 

 

 

 

Recebi por email um ficheiro com uns dez slides que incluem os princípios gerais do que será o despacho de organização do ano lectivo 2014/15 (OAL). É um documento com os logos do Governo e do MEC e datado de 8 de Maio de 2014.

 

Vou publicar com um ou outro comentário antes de cada slide.

 

 

É, desde logo, algo risível que um documento destes, e publicado nesta altura em que o ano lectivo seguinte devia estar bem pensado, comece por afirmar a autonomia das escolas e a flexibilidade e a eficiência na gestão dos ditos recursos.

 

 

 

As principais alterações são as que se seguem.

 

 

 

 

Os professores do quadro passam a poder imputar horas da "actividade pedagógica" até 50% do seu horário. É uma novidade que permite que mesmo o professor mais graduado não fique carregado de turmas e de alunos. Mas o melhor é esperar pela clarificação no despacho (como se fosse esse o hábito com os despachos do MEC).

 

 

 

 

É alterado o conteúdo do crédito horário.

 

 

 

 

As fórmulas dão uma ideia do estado a que isto chegou. É que ainda por cima o produto não tem limites muito distantes.

 

 

 

 

A CAP (salvo seja) calcular-se-á do seguinte modo:

 

 

 

 

As conclusões são um bocado rebuscadas, sem dúvida.

 

 

  

 

E termina com uma novidade: os professores do quadro podem integrar horas de AEC no seu horário desde que tenham seis horas lectivas à partida.

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 11:11 | link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Domingo, 11.05.14

 

 

 

 

 

Os excessos de normalização no ensino que se traduzem nas metas curriculares levadas ao cume, na estandardização dos diversos procedimentos didácticos, na uniformização das provas de avaliação e na sua calendarização comum voltam, naturalmente, a aproximar-se de um fim de ciclo.

 

É evidente que a história da docimologia já assistiu a momentos parecidos, mas o capitalismo selvagem como fim da história levou os excessos ao domínio do inumano.

 

Há escolas, quiçá imbuídas de uma qualquer metrologia impensada tão do agrado do senso comum, que aplicaram alguns princípios: data, hora e prova comuns para todos os testes de todas disciplinas. A importância dos ritmos individualizados e da condução de pequenos ou grandes grupos, que é o lado mais misterioso da aprendizagem (António Damásio, ainda há dias, reafirmou o óbvio: "o que sabemos sobre como cada um aprende continua muito mais perto da ignorância do que do conhecimento"), é obliterado para dar lugar às teses Hanushekianas, tão do agrado de Nuno Crato, que também predizem 30 a 50 alunos por turma e, a prazo, o regresso paulatino a uma espécie de telescola em que os precarizados professores terão um papel de vigilante-tira-dúvidas. Sejamos objectivos: a desautorização do professor esteve na base da engenharia social e financeira que os ultraliberais desenharam e que sociais-democratas e socialistas da terceira via aplicaram.

 

É o modelo que parecem reconhecer em democracias musculadas lá para as latitudes asiáticas e é também evidente que as escolas dos filhos dos ricos ficaram a salvo dos impetuosos ventos pós-modernos.

 

Se considerarmos a lógica de mercado total em que vivemos, é óbvio que há neste assunto um efeito offshore. Ou seja, não basta que uma escola faça diferente é necessário que um sistema escolar se desamarre das correntes ultraliberais que o desumanizam e que elevam o preço da desigualdade a um patamar de todo imprevisto.

 

 



publicado por paulo prudêncio às 16:34 | link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Segunda-feira, 07.04.14

 

 

 

Crato diz que a autonomia das escolas teve progressos notáveis ao nível da organização de horários e de currículos. Crato está a referir-se a quê?

 

O que se alterou significativamente no seu exercício foi o aumento do número de alunos por turma, o aumento da componente lectiva dos professores e os cortes curriculares. Tudo decidido centralmente e de forma igual para todas as escolas. Aliás, os horários dos professores, os currículos e a composição das turmas obedeceram a um inédito centralismo burocrático (feito de forma digital) de autorizações.

 

O MEC permite que as aulas se organizem em 45 ou 50 minutos o que criou uma contabilidade horária ao minuto que é perversa e controlada centralmente. Mais uma vez. Querem ver que Crato se está a referir ao facto de, por exemplo, a aula de segunda-feira às 08h30 não ser da mesma disciplina em todas as escolas como se calhar imaginou no seu devaneio centralista? Não é essa aula nem as outras. E já era assim em 1950, 1960, 1970, 1980, 1990, 2000, 2010 e será em 2020.

 

Estes governantes deviam ser responsabilizados por estas afirmações. Parece que Portas disse que as pessoas que ficaram sem RSI tinham 100 mil euros na conta. Ao que se sabe, menos de 10 pessoas estavam nessa condição e 85 mil ficaram sem RSI. Esta tirada de Crato tem o mesmo rigor.

 

 

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 10:44 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Domingo, 09.03.14

 

 

 

A autonomia (organizacional e curricular, digamos assim) das escolas é a expressão mais repetida nas últimas décadas; a insistência é proporcional à quase inexistência. O mau centralismo do MEC está como nunca. Não há actor do sistema, desde de quem governa à oposição e passando até pelos liberais da "escolha da escola", que não defenda a autonomia como imperativo.

 

Ainda ontem o "Novo rumo" do PS repetiu o substantivo. Mas há uma variável incontornável: enquanto não se eliminar o clima de mobilidade especial e de horário zero nos professores do quadro (os de zona pedagógico e os contratados estão nesse regime insano há décadas) que pairam como fantasmas no quotidiano das escolas, não é possível construir uma qualquer atmosfera de mudança e de mobilização. O espectro, legitimo, de defesa do posto de trabalho por parte dos grupos disciplinares impossibilita tudo o que de racional e óbvio vai ler a seguir; nomeadamente no domínio curricular.

 

 

 

 

Nas páginas 34 e 35 do seu mais recente ensaio, Paulo Guinote lança algumas ideias no âmbito da autonomia organizacional e curricular.

 

 

 

 

 

 

 

Não é difícil elencar propostas semelhantes. Em 1998, a reorganização curricular permitiu umas ténues mudanças que algumas escolas aprofundaram. Nesta altura, a oposição, como se leu, o Governo (com os 25% da carga curricular anunciados como flexíveis) e até os referidos liberais defendem a autonomia, mesmo que de ângulos diferentes. Imagine-se o que acontecerá se colocarmos as escolas a decidirem estas matérias no clima vigente. Cargas curriculares diferentes de escola para escola ou a criação de novas disciplinas são decisões que exigem um ambiente de sensatez e de tranquilidade. Só quem não põe os pés nessas instituições é que não percebe o que estou a evidenciar.

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 20:56 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Sexta-feira, 14.02.14

 

 

 

 

 

 

 

É nos mesmos centros cerebrais que se sente a beleza de uma equação ou de uma obra de arte. A conclusão tem tanto de óbvio como de justo e questiona mais uma vez os desmandos dos descomplexados competitivos que nos governam.

 

É justo para os matemáticos que tantas vezes assistem ao desdém dos "agentes culturais", mas é também uma lição para os que usam o preconceito que despreza a importância dos ensinos das humanidades ou das artes.

 

Não é por acaso que os jovens investigadores em ciências exactas atrasam o interesse por outras belezas enquanto se aborrecem com a incompreensão dos outros em relação às suas visões e sentimentos.

 

Também se compreende ainda melhor os que defendem que as lideranças nas organizações se caracterizam por um único exercício: discorrer a propósito de uma obra de arte.

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 21:26 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quinta-feira, 13.02.14

 

 

 

 

A criação de novas disciplinas que preencheu a agenda mediática através da ideia de autonomia, esbarra no que referi aqui. A sugestão de Nuno Crato para a disciplina de mapeamento digital só pode ser feita à custa da geografia ou de horas curriculares existentes noutras disciplinas. Mas o melhor é ver o vídeo e certificar as convicções do ministro.

 

 



publicado por paulo prudêncio às 20:45 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Sexta-feira, 10.01.14

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 16:25 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quinta-feira, 09.01.14

 

 

 

 

 

 

Nuno Crato fez ontem um exercício discutível: participou numa acção de tablets com conteúdos da LeYa para salas de aula. Estas coisas parecem muitas vezes actos isolados promovidos por departamentos de marketing. O ministro da Educação colocou-se numa posição aceitável quando afirmou que "(...)No centro de tudo, "o saber". A escola do futuro, segundo Nuno Crato, terá mais tecnologia – “e vocês têm a sorte de ter um bocadinho desse futuro nas vossas mãos”, disse o ministro às crianças –, mas, “no centro de tudo, está o saber bem, saber escrever, saber História, saber contar.”(...)"

 

Um dos problemas de Nuno Crato no domínio curricular foram os achamentos essenciais e os cortes a eito para além da troika. Percebe-se a preocupação, que já tem duas décadas ou mais entre nós, com os ensinos do português e da matemática. As escolas sempre reforçaram o ensino nessas disciplinas com apoios individualizados, através das áreas disciplinares não curriculares ou com programas especiais como o plano da matemática ou o nacional de leitura. A polémica nunca se situou aí. Esse reforço não foi um back to basics. O que foi nefasto no discurso de Crato foi a desvalorização objectiva de outros saberes.  Mesmo que tentasse atenuar, chegava tarde e tinha que corrigir os cortes.

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 09:54 | link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Terça-feira, 07.01.14

 

 

 

Dentro de duas décadas, se tanto, não teremos investigadores dedicados às Humanidades e Ciências Sociais e será difícil contratar professores para essas áreas.

 

A perplexidade com o desleixo do MEC acentua-se quando percebemos a preocupação de Nuno Crato com a formação de alguns professores do primeiro ciclo (onde há excesso de oferta) enquanto reduz a carga curricular nas Humanidades e Ciências Sociais (para não falar das Artes, das Expressões ou das disciplinas das ciências experimentais) e provoca ainda uma hecatombe na investigação nessas áreas. Entretanto, um SE do Governo propõe-se aliciar imigrantes de "elevado potencial" e despreza os jovens adultos que emigram diariamente.

 


"1. Este ano o Inverno chegou à investigação das Humanidades e Ciências Sociais com a força de uma hecatombe. Um autêntico desastre, de consequências imprevisíveis, a revelar uma total desorientação por parte de quem nos governa! A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), sob tutela do Ministério da Educação e Ciência, com responsabilidades no financiamento da pesquisa em Portugal, perdeu o controlo sobre o processo de atribuição de contratos de investigação por cinco anos.(...)No que respeita às ciências sociais e humanas, há dois aspectos interligados que podem ajudar a perceber as referidas faltas de autonomia e autoridade. Refiro-me à remodelação do Conselho Científico na mesma área, que se politizou partidariamente e para o qual o ministro da tutela começou por nomear a sua própria mulher e um amigo de juventude, director de um centro de investigação sempre mal classificado pela própria FCT."

 

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 12:44 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Sexta-feira, 03.01.14

 

 

 

 

 

 

O ainda ministro da Educação insistiu, nem sei se ainda insiste, na ideia das disciplinas essenciais (vulgo ler, escrever e contar; ficaram de fora as ciências, a história, a filosofia, a geografia, as línguas estrangeiras, as disciplinas da área de expressões e por aí fora). Foi uma questão de fé, já que, e a exemplo do número de alunos por turma, não apresentou qualquer fundamento empírico. Mesmo as teorias não saíram, e repito, do domínio da crença ou dos achamentos preconceituosos. Francamente, não esperava voltar a ouvir um discurso desse teor. A invenção da roda está distante, mas é seguro que sem a forma circular os solavancos aumentarão o atrito, a ineficiência e a ineficácia e o retrocesso civilizacional será garantido.

 

A concentração nas essenciais inscreveu mais horas curriculares e exames, para além de mais horas de formação que não saíram da intenção e que até terminaram com o que já existia em nome do ajustamento nos do costume. Um governante pode achar que faltam horas de ensino aqui ou ali para uma determinada aprendizagem e que quer examinar esses saberes muitas vezes. Mas quando enuncia publicamente que o seu achamento divide as disciplinas em mais e menos, dá um péssimo sinal à sociedade e acrescenta ruído no ensino das achadas não essenciais; institui o tempo da roda quadrada, digamos assim. Recordo-me da ministra Lurdes Rodrigues e do seu chefe Sócrates. Tanto propalaram o descrédito dos professores que acabaram desacreditados. O essencialismo cratiano teve o mesmo efeito, apesar de ainda se assumir com máscaras diversas.

 

 

(Já usei parte deste texto noutro post)

 


publicado por paulo prudêncio às 20:08 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar


Inauguração do blogue
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Autor:
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