Em busca do pensamento livre.

Segunda-feira, 08.05.17

 

 

 

Cansados com a falta de pontualidade no tempo inicial dos alunos com 5 e 6 anos, os professores conseguiram que a escola instituísse uma multa em dólares para os atrasos. E o que é que aconteceu? Os encarregados de educação "integraram" a multa na mensalidade e o número de atrasos subiu. A escola ficou numa encruzilhada com a passagem da multa a taxa e a sua eliminação ainda tornou o planeamento dos professores mais difícil de estabelecer. Encontra este e outros exemplos que ajudam a pensar no livro de Michael J. Sandel"O que o dinheiro não pode comprar - os limites morais dos mercados".

 

2ª edição do post

 

cartoon happy man holding cash

 



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Sexta-feira, 17.03.17

 

 

 

O verbo incentivar será uma das componentes mais críticas do mundo desenvolvido. Essa lógica racional do mercado condicionou a socialização e a estruturação das actividades. Importa sublinhar que, há umas décadas, incentivar era uma palavra-chave educacional e organizacional com uma ubiquidade que se entranhou.

Steven D. Levitt, em "Freakonomics: o estranho mundo da economia" e mais recentemente Michael Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", dedicaram-se ao efeito do verbo. O segundo tem um tópico que intitulou "incentivos e dilemas morais", onde se pode ler (página 93):

"É fácil deixar escapar a novidade desta definição. A linguagem dos incentivos é um desenvolvimento recente do pensamento económico. A palavra "incentivo" não surge nos escritos de Adam Smith nem nas obras de nenhum dos outros economistas clássicos. Na verdade, só viria a ser introduzida no discurso económico no século XX e apenas adquiriu proeminência nas décadas de 1980 e 1990. O Dicionário Oxford de Inglês indica o seu primeiro uso no contexto da economia em 1943; nas Seleções do Reader' s Digest: "O Sr. Charles E. Wilson (...) está a incitar as indústrias da guerra a adoptarem "remunerações de incentivo" - isto é, pagar mais aos trabalhadores se produzirem mais." O uso da palavra incentivo aumentou drasticamente na segunda metade do século XX à medida que o predomínio dos mercados e da lógica racional do mercado se consolidava. Segundo uma pesquisa no Google Books, a incidência deste termo aumentou mais de 400% desde a década de 1940 à década de 1990."

Observa-se, portanto, uma crise moral em paralelo com um inédito desenvolvimento tecnológico que implica uma revolução na organização das sociedades. Se a eliminação do incentivo é uma "impossibilidade" imediata, já o uso mais ponderado na educação das crianças contribuirá para a afirmação de políticas sustentáveis.

Se em Adam Smith o mercado era a mão invisível, para Michael Sandel a generalização dos incentivos tornou-se a mão pesada e manipuladora. O filósofo dá vários exemplos de incentivos monetários nesse sentido, como os que são dados a troco da esterilização ou de boas notas escolares.

A prevalência do incentivo não eliminou a distinção entre economia e ética,

"entre a lógica racional do mercado e o raciocínio moral. A economia simplesmente não transacciona em moralidade. A moralidade representa a maneira como gostaríamos que o mundo funcionasse e a economia mostra como ele funciona na realidade", explicam Levitt e Dubner.

Michael Sandel acrescenta:

"(...)A noção que a economia é uma ciência isenta de juízos de valor, independente de toda a filosofia moral e política, sempre foi questionável. Contudo, hoje em dia, a jactante ambição da ciência económica torna extremamente difícil defender esta afirmação. Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...)Quando os mercados corroem normas não mercantis, o economista (ou qualquer outra pessoa) tem de decidir se isso representa uma perda que deveria preocupar-nos.(...)"

Neste tópico, Michael Sandel apresenta um conjunto de problemas educacionais e escolares que abordarei noutros posts.

2ª edição.

 



publicado por paulo prudêncio às 09:33 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 10.01.17

 

 

 

O verbo incentivar será uma das componentes mais críticas do mundo desenvolvido. Essa lógica racional do mercado condicionou a socialização e a estruturação das actividades. Importa sublinhar que, há umas décadas, incentivar era uma palavra-chave educacional e organizacional com uma ubiquidade que se entranhou.

Steven D. Levitt, em "Freakonomics: o estranho mundo da economia" e mais recentemente Michael Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", dedicaram-se ao efeito do verbo. O segundo tem um tópico que intitulou "incentivos e dilemas morais", onde se pode ler (página 93):

"É fácil deixar escapar a novidade desta definição. A linguagem dos incentivos é um desenvolvimento recente do pensamento económico. A palavra "incentivo" não surge nos escritos de Adam Smith nem nas obras de nenhum dos outros economistas clássicos. Na verdade, só viria a ser introduzida no discurso económico no século XX e apenas adquiriu proeminência nas décadas de 1980 e 1990. O Dicionário Oxford de Inglês indica o seu primeiro uso no contexto da economia em 1943; nas Seleções do Reader' s Digest: "O Sr. Charles E. Wilson (...) está a incitar as indústrias da guerra a adoptarem "remunerações de incentivo" - isto é, pagar mais aos trabalhadores se produzirem mais." O uso da palavra incentivo aumentou drasticamente na segunda metade do século XX à medida que o predomínio dos mercados e da lógica racional do mercado se consolidava. Segundo uma pesquisa no Google Books, a incidência deste termo aumentou mais de 400% desde a década de 1940 à década de 1990."

Observa-se, portanto, uma crise moral em paralelo com um inédito desenvolvimento tecnológico que implica uma revolução na organização das sociedades. Se a eliminação do incentivo é uma "impossibilidade" imediata, já o uso mais ponderado na educação das crianças contribuirá para a afirmação de políticas sustentáveis.

Se em Adam Smith o mercado era a mão invisível, para Michael Sandel a generalização dos incentivos tornou-se a mão pesada e manipuladora. O filósofo dá vários exemplos de incentivos monetários nesse sentido, como os que são dados a troco da esterilização ou de boas notas escolares.

A prevalência do incentivo não eliminou a distinção entre economia e ética,

"entre a lógica racional do mercado e o raciocínio moral. A economia simplesmente não transacciona em moralidade. A moralidade representa a maneira como gostaríamos que o mundo funcionasse e a economia mostra como ele funciona na realidade", explicam Levitt e Dubner.

E Michael Sandel acrescenta:

"(...)A noção que a economia é uma ciência isenta de juízos de valor, independente de toda a filosofia moral e política, sempre foi questionável. Contudo, hoje em dia, a jactante ambição da ciência económica torna extremamente difícil defender esta afirmação. Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...)Quando os mercados corroem normas não mercantis, o economista (ou qualquer outra pessoa) tem de decidir se isso representa uma perda que deveria preocupar-nos.(...)"

Neste tópico, Michael Sandel apresenta um conjunto de problemas educacionais e escolares que abordarei noutros posts.

Já usei parte desta argumentação noutro post.



publicado por paulo prudêncio às 14:15 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 10.12.16

 

 

 

A obsessão com o aumento da escala é a resposta apressada à supressão do tempo. A humanização como categoria organizacional impor-se-á à escala e será a resposta para contrariar a absolutização do presente. Se isso não acontecer, o caos impor-se-á.

 

É imperativo devolver aos cidadãos o poder democrático em todos os detalhes e, como diz Michael Sandel, repetir muitas perguntas do género:(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...). 

 

A globalização instalou-se.

 

Recordo uma boa entrevista (2013?) de Gilles Lipovetsky, o célebre autor da "Era do vazio", a propósito do consumo dos artigos de luxo. A Gucci, empresa com mais audiência no sector e que passou, em cerca de dez anos, de três para cento e trinta lojas, tinha cem milhões de consumidores na China. O autor avisava: quando o consumo dos seus produtos se banalizar, a empresa desaparecerá.

 

Qual é a relação que este pequeno exemplo tem com o que estava a escrever? O efeito do aumento da escala pode levar ao empobrecimento e à desumanização, mesmo que, por ironia, a partir dos artigos de luxo; no sentido mais lato do termo.

 

 

(Já usei parte deste texto noutro post)

 


publicado por paulo prudêncio às 15:47 | link do post | comentar | partilhar

Sexta-feira, 02.12.16

 

 

 

Aprecio cartoons. Michael Sandel, um importante filósofo vivo e autor de "O que o dinheiro não pode comprar - os limites morais dos mercados" e "Justiça - fazemos o que devemos?", considerará interessante reflectir sobre esta forma de medir povos e eleitores.

 

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publicado por paulo prudêncio às 16:47 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 21.11.16

 

 

 

A história da distribuição da riqueza é política. Não se reduz a mecanismos puramente económicos. Lê-se em dois clássicos: a "Riqueza das Nações" de Adam Smith ou "O capital no século XXI" de Thomas Piketti. Sempre foi questionável a noção de que a economia é uma ciência independente da filosofia moral e política. A foto, e a sua história, remete-nos para a complexidade do problema: há sempre uns quantos que aspiram enriquecer à custa do trabalho dos outros e o difícil, e belo, exercício democrático consiste em contrariar a natureza humana. Michael Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", coloca a questão actual assim: "Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...)Quando os mercados corroem normas não mercantis, o economista (ou qualquer outra pessoa) tem de decidir se isso representa uma perda que deveria preocupar-nos.(...)" Daí à importância das redes públicas de escolas, como um valor inquestionável das democracias, vai um pequeno passo. Será, contudo, insuficiente, se permitirmos que os mercados invadam desde cedo a vida escolar.

 

Lewis Hine foi um fotógrafo, um dos primeiros, comprometido com a denúncia das condições de trabalho. A foto (Cotton Mill Girl) é de 1908 e foi seleccionada pela "Time como uma das 100 fotografias mais influentes da história".

 

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publicado por paulo prudêncio às 09:27 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 02.07.16

 

 

 

 

Quem diria que o verbo incentivar explicaria a encruzilhada civilizacional do mundo desenvolvido. Se recuarmos umas décadas, incentivar era a palavra-chave educacional e organizacional. A sua ubiquidade entranhou-se, fazendo com que a lógica racional do mercado condicionasse a socialização e a estruturação das actividades.

 

Steven D. Levitt, em "Freakonomics: o estranho mundo da economia" e mais recentemente Michael Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", dedicam páginas ao efeito do verbo. O segundo tem um tópico que intitulou "incentivos e dilemas morais", onde se pode ler (página 93):

 

"É fácil deixar escapar a novidade desta definição. A linguagem dos incentivos é um desenvolvimento recente do pensamento económico. A palavra "incentivo" não surge nos escritos de Adam Smith nem nas obras de nenhum dos outros economistas clássicos. Na verdade, só viria a ser introduzida no discurso económico no século XX e apenas adquiriu proeminência nas décadas de 1980 e 1990. O Dicionário Oxford de Inglês indica o seu primeiro uso no contexto da economia em 1943; nas Seleções do Reader' s Digest: "O Sr. Charles E. Wilson (...) está a incitar as indústrias da guerra a adoptarem "remunerações de incentivo" - isto é, pagar mais aos trabalhadores se produzirem mais." O uso da palavra incentivo aumentou drasticamente na segunda a metade do século XX à medida que o predomínio dos mercados e da lógica racional do mercado se consolidava. Segundo uma pesquisa no Google Books, a incidência deste termo aumentou mais de 400% desde a década de 1940 à década de 1990."

 

Esta reflexão explica a crise moral que se observa em paralelo com um inédito desenvolvimento tecnológico que implica uma revolução na organização das sociedades. Se a eliminação do incentivo é uma "impossibilidade" imediata, já o seu uso mais ponderado na educação das crianças contribuirá para a afirmação de políticas sustentáveis.

 

Se para Adam Smith o mercado era uma mão invisível, já para Michael Sandel a generalização dos incentivos tornou-se uma mão pesada e manipuladora. O filósofo dá vários exemplos de incentivos monetários que vão nesse sentido, como os que são dados a troco da esterilização ou de boas notas escolares.

 

Esta prevalência incentivadora não eliminou a distinção entre economia e ética, "entre a lógica racional do mercado e o raciocínio moral. A economia simplesmente não transacciona em moralidade. A moralidade representa a maneira como gostaríamos que o mundo funcionasse e a economia mostra como ele funciona na realidade", explicam Levitt e Dubner.

 

E Michael Sandel acrescenta:

 

"(...)A noção que a economia é uma ciência isenta de juízos de valor, independente de toda a filosofia moral e política, sempre foi questionável. Contudo, hoje em dia, a jactante ambição da ciência económica torna extremamente difícil defender esta afirmação. Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...)Quando os mercados corroem normas não mercantis, o economista (ou qualquer outra pessoa) tem de decidir se isso representa uma perda que deveria preocupar-nos.(...)"

 

Neste tópico, Michael Sandel apresenta um conjunto de problemas educacionais e escolares que abordarei noutros posts.

 

image.jpeg

 



publicado por paulo prudêncio às 13:59 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Domingo, 28.02.16

 

 

 

Cansadas com a falta de pontualidade no tempo inicial dos alunos com 5 e 6 anos, as professoras conseguiram que a escola instituísse uma multa em dólares para os atrasos. E o que é que aconteceu? Os encarregados de educação "integraram" a multa na mensalidade e o número de atrasos subiu. A escola ficou numa encruzilhada com a passagem da multa a taxa e a sua eliminação ainda tornou o planeamento das professoras mais difícil de estabelecer. Encontra este e outros exemplos que ajudam a pensar no livro de Michael J. Sandel"O que o dinheiro não pode comprar - os limites morais dos mercados".

 

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publicado por paulo prudêncio às 17:12 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 12.01.16

 

 

 

 

"O modelo anterior estava errado e era nocivo", "estudos nacionais e internacionais apontam para prejuízos causados pelos exames nos anos mais precoces do ensino", "intervir rapidamente na reparação de danos causados ao sistema", "ninguém tem de se preparar para as provas de aferição", "o que tinha de acabar era o estreitamento curricular", "alunos a treinarem para exames é pernicioso e até nocivo", disse Tiago Rodrigues, o novo MEC. São ideias sensatas, corajosas, fora da caixa e com um alcance de médio e longo prazo na qualidade da democracia.

 

Estas alterações eliminam a má e chocante propaganda através de maus rankings com exames de crianças e contribuem para repensar os limites morais do mercado ao retirarem sentido, por exemplo, a prémios monetários para as melhores classificações, a pautas públicas de classificações e a quadros de honra (estas três variáveis com exames de crianças, obviamente e repito). A quem se interessar por estas matérias, aconselho dois livros de Michael J. Sandel"O que o dinheiro não pode comprar - os limites morais dos mercados" e "Justiça - fazemos o que devemos?".

 

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publicado por paulo prudêncio às 20:30 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar


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