E dei com Lurdes Rodrigues a afirmar o óbvio: não há professores a mais.
Mas por que será que um órgão de comunicação social se lembra de perguntar a uma ministra que iniciou a maior destruição da História da escola pública, e da profissionalidade dos professores, uma coisa destas?
Às tantas, terá alguma relação com a notícia do mesmo jornal, "Sócrates regressa ao écran nacional" (na RTP1 e por obra de um golpe de Relvas que divide o PS e faz valer os méritos de dominador de aparelhos), e com o reaprecimento do ex-CEO da Mota Engil numa espécie de comício.
Se o PS está a contar com a fraca memória em política, talvez se engane. O que se passou no sistema escolar foi demasiado grave para que uma esponja possa ser já utilizada e o justo argumento de que todos têm direito à participação política nem está a causa; obviamente. Embora, e nalguns casos, a confiança na justiça também não possa servir de argumento.
Convenço-me que já são poucos os que não classificam como trágica a passagem de Lurdes Rodrigues e José Sócrates pelas políticas do sistema escolar e que este Governo acentua com a crença ideológica do estado mínimo. Os últimos Governos do PS foram uma oportunidade perdida que deixou a esquerda à deriva e que impede uma oposição credível à nova vaga devastadora da escola pública que se aproxima.
Não é fácil para o actual PS libertar-se dessa herança e encontrar as convicções e as políticas que possibilitem e regresso ao equilíbrio é à sensatez. O ex-presidente Jorge Sampaio está preocupado e não deve desconhecer o que o actual Governo se apressa em escamotear insistindo nos números de 2009: Portugal investiu, em 2012, 3,8 do PIB (regredimos mais de 20 anos numa queda abrupta) em Educação que é o valor mais baixo da Europa.
O ex-presidente disse, em 2005, que os professores trabalhavam pouco, promoveu uma viagem ao Chile que inspirou os mentores do monstro da avaliação de professores e, em Outubro de 2009, classificou a avaliação de professores como uma das causas da bancarrota.
Dá ideia que está a alterar as suas convicções. Foi lamentável o que se passou, repito. O que leva anos a construir pode destruir-se num ápice e exige um esforço redobrado para reerguer.
"Escreveu Yourcenar: "Para quê fazer da vida um dever se ela pode ser um sorriso?" Sem lhe recusar razão, direi que para este homem - António Marques Júnior - a vida foi, e não contraditoriamente, um sorriso e um dever. Um sorriso, de humilde reconhecimento e afecto, em primeiro lugar e em especial, para a sua mulher, a Luísa, para a sua filha, a Filipa, para a sua neta, a Luísa. Um sorriso de afecto, depois, para os seus soldados, amigos, camaradas, concidadãos. E foi também, e em simultâneo, sempre, um dever erigido em grande propósito ético, a que em todos os momentos respondeu com inteligência e ousadia, com nobre carácter, com impoluta honradez, com patriótica responsabilidade social.
Foi, também, emblematicamente, com um sorriso e, sobretudo, com dever - dever intelectual, de responsabilidade social e, até, de afecto - que aderiu ao Movimento dos Capitães. Razões de dever intelectual porque sabia, já então, que a política para o ultramar era destituída de discernimento, ousadia e estratégia política contra-revolucionária. Obsessão política inútil, a do Governo, porque incapaz era, como disse David Galula - por muitos considerado o Clausewitz da insurreição -, de desenhar e prosseguir uma contracausa capaz de assegurar não só a modernização económica e o desenvolvimento social das colónias, como de organizar, localmente, eleições, preparar líderes políticos, fomentar a organização de formações políticas, estabelecer e agendar um referendo de democrática configuração, aberto à independência com Portugal. Razões, ainda, de dever e responsabilidade social porque sabe e sente que, a todos, tudo cabe fazer, no âmbito das suas possibilidades, para preservar e desenvolver, com justiça e liberdade, genuinamente democráticas, a sociedade a que se pertence e em que se vive.
A Primavera de Abril sente-a Marques Júnior em 1973, participando em todas as reuniões e opções do Movimento dos Capitães. Jovem tenente, recém-casado, totalmente se empenha na acção militar de Abril, tudo arriscando: arriscando a vida, mesmo, nos previsíveis confrontos militares a travar. E tudo faz aceitando como comando de tropas na acção, operacional, que, em caso de desaire, recuo não teria, pois lhe caberia, então, responder pelos seus homens e por si. E tudo faz arriscando o futuro da sua vida familiar, recém-constituída. E tudo faz, também, sabendo que punha em risco as suas legítimas ambições de carreira, que se augurava brilhante, dado a sua comprovada capacidade de liderança perante os seus soldados, aliás reconhecida, também, pelos seus superiores hierárquicos.
Terminada a acção vitoriosa de Abril, procura regressar à sua vida militar. E dela só sai, com relutância, quando, pelo seu prestígio, é chamado a colaborar no tempo político militar seguinte.
Recusando, sempre, mediatismo, intervém, muitas vezes decisivamente, na conturbada transição democrática, mantendo sempre estrita fidelidade às promessas e às decorrentes obrigações de Abril, consagradas no programa do MFA.
O romance "O Velho e o Mar" (The old man and the sea), de Ernest Hemingway (1952), é uma obra-prima.
Li-o pela primeira vez na adolescência, na época do "Moby Dick", de Herman Melville - o autor do também fascinante Bartleby -, e julgo que nunca mais o voltei a ler.
É a história de um velho e pobre pescador que tinha uma forte amizade com um rapaz. Há muito que não conseguia pescar. Certo dia, pescou o maior peixe da sua vida. Voltou a terra apenas com o esqueleto do enorme espadarte porque não conseguiu impedir o furioso ataque de esfomeados tubarões. Reencontrei-me com a história e fiquei com a ideia que está tudo ali.
Não resisto a transcrever-vos um pedaço da tradução de Jorge de Sena:
- Que tens para comer? perguntou o rapaz. - Um tacho de arroz de peixe. Queres? perguntou o velho. - Não. Como em casa. Queres que eu acenda o lume? - Não. Acendo-o eu depois. Ou como o arroz frio. - Posso levar a rede? - Claro que podes.
Não havia rede, o rapaz lembrava-se de quando a tinham vendido, mas todos os dias representavam esta cena. Também não havia tacho de arroz, o que o rapaz também sabia.
(da ontogénese da humilhação à filogénese da implosão)
Tinha uns 12 anos e viajava com o meu pai numa estrada moçambicana fora dos centros urbanos. Estava um dia muito quente. Parámos numa "cantina" - áreas de serviço que eram propriedade de comerciantes portugueses (os metrôpoles) imbuídos do espírito colonial - e deparámos com uma dezena de homens de pele negra, nua e bem suada, à volta de uma mesa com uma bazuca - cerveja de litro e meio - no centro. Enquanto esperavam por uma qualquer refeição, o filho do comerciante, com uma idade igual à minha, atirava-lhes pão e repetia: "hoje é dia de festa".
O meu pai esteve em silêncio e à saída não se conteve: "serão os primeiros". Lá me explicou o que é que queria dizer com o desabafo. Anos depois, a revolta "legitimou" a tragédia e as áreas de serviço arderam, e em muitos casos, com os comerciantes lá dentro. Foi também assim noutros capítulos dessa revolução. A cor da pele era o primeiro critério implosivo para humilhações acumuladas durante séculos.
As sociedades actuais não se devem considerar livres da ontogénese da humilhação. O bodo aos pobres deixa marcas. Os pobres não têm vergonha (a condição não o permite, sequer) e socorrem-se do que existe para afagarem a fome. É certo que o fazem, como também é de saber filogenético que um dia manifestarão em implosão social as sucessivas humilhações.
Passei uma tarde encantadora. Foi um descanso merecido para um corpo que vai aturando maçaduras diversas. O dia soalheiro ajudou, a cadeira de jardim encorpou-se de vez e as leituras estavam a condizer. Se a perfeição existe, estive lá perto. Foram momentos de um prazer indizível. Argumentei-me em cadeia e fiz sínteses que me elevaram as motivações. Tenho tardes assim.
Mas hoje, uma das leituras fez-me viajar para muito longe das letras que os meus olhos percorriam. Fiz uma visita à minha memória. Um dos meus exercícios predilectos, pois não obedece a muitas formalidades nem aos necessários - para outros tipos de visitas, é claro - pormenores protocolares. A meu gosto. Entro por ali adentro, pesquiso à minha vontade e o tempo que eu quiser, realço o que mais me interessa, embora e vezes sem conta, tropece em acontecimentos menos agradáveis.
Foi hoje o caso. Lembrei-me do meu serviço militar. Vinte e poucos anos, muito poucos mesmo, e zero tiros no currículo. De uma hora para a outra raparam-me os caracóis, encheram-me de fardas e de sei lá mais o quê e disseram-me: vais ser comando, a honra suprema de um jovem português.
Chamavam-me de Prudêncio, o meu último nome, coisa que até aí me parecia exclusivo do meu saudoso e querido pai. Fui obrigado a fazer uma tropa de voluntários com detalhes engraçados: perguntavam-me: és voluntário?; respondia: não. Nos papéis punham a cruz no sim e quando mais refilasse pior: aprendi rápido e sentenciei: se tem de ser, vamos a isso.
Depois foi aquilo que se sabe. Mesmo com uma estrela aos ombros, já que ali éramos todos iguais, valha-lhes isso, a dureza e a brutalidade diárias sucederam-se até o horror se instalar. Lembro-me, entre tantas coisas tremendas, de saborear um naco de pão duro barrado com pelos da barba e sangue. Ou então, de me deitar em terrenos cravejados de balas que tinham acabado de cair. Violência acumulada em meses sem fim. Valeu-me a ausência da guerra. Não sei o que faria dos "inimigos".
Como quero compreender os jovens que lutam nas diversas guerras. Humanos que são, jamais quererão ouvir o nome do palco do único e infeliz dos teatros: o das operações militares.
Da parte que me toca, nunca mais "perdoarei" à Amadora e a Santa Margarida por terem sido os solos dos meus horrores.
Fotografia da primeira equipa de Basquetebol de que fiz parte. Frequentava a 3ª classe da Escola Primária Rebelo da Silva na então Lourenço Marques. Sou o segundo, da esquerda para a direita, na fila de baixo.
O meu amigo deixou-me ficar a fotocópia com "O fio do horizonte" do inesquecível Eduardo Prado Coelho, datado de 26 de Setembro de 2003. Não tem rasto na rede que permita trazê-lo. São tão imensas "As florestas que caminham" (a lead diz assim: "O homem médio é aquele que aceita viver "como os porcos" - sem singularidade") que não resisti em homenagear o autor "soletrando" as palavras.
"O livro é um panfleto, claro. E isso justifica o título, bastante demagógico: "Vivermos e pensarmos como porcos". Quanto à capa, nem falamos: é um desses monumentos de "kitch" em que não sabemos se o mau gosto é denunciado, se é exposto com alguma complacência. E se tivermos em conta que o autor, Gilles Châtelet, não é minimamente conhecido entre nós, e, para além deste, o único livro que publicou em França é de uma leitura extremamente difícil, então podemos supor que uma obra como esta, agora lançada entre nós pela Temas e Debates, está praticamente condenada ao fracasso. Mas seria muito injusto. Gilles Châtelet começou por ser um matemático altamente sofisticado que associa ao seu saber específico uma sólida formação profissional. Nesse aspecto aproxima-se do perfil de um dos grandes nomes do actual pensamento francês (e basta vermos a atenção que o mundo anglo-saxónico lhe dedica): Alain Badiou. Não será por isso um acaso que a última vez que vi Gilles Châtelet foi no restaurante Balzar, em Saint-Michel. conversando precisamento com Badiou. Parecia de tal modo entusiasmado que custa a imaginar que algumas semanas depois o jornal traria a notícia do seu suicídio. Mas o entusiasmo era a marca de Gilles Châtelet. Não posso esquecer algumas das suas intervenções públicas, com uma voz poderosa, um ar possuído, numa espécie de transe mental que nos deixava estupefacto. Gritava certas fórmulas, que depois repetia, num eco insólito de quem ganhava fôlego para novo cometimento, atacava ferozmente os adversários, criava uma permanente encenação do seu próprio discurso. Neste livro-panfleto, o título "Vivermos e pensarmos como porcos", introduz um tom. Para um desejo óbvio de revolução, Gilles Châtelet não vai buscar as categorias tradicionais da sociologia. Para ele, existe um adversário, que é o "homem médio", abstracção construída para uma adequação aos mecanismos niveladores do mercado. Produto das estatísticas (que são, como o nome indica, técnicas com que o Estado tenta regular o real). O homem médio é aquele que aceita viver "como os porcos" - sem sentido de singularidade, sem um ideal que o apaixone, sem o valor da heroicidade. A formação do "homem médio" cria o individualismo metodológico e a teoria dos jogos aplicada às ciências sociais. Mas cria sobretudo a obsessão do consenso. O homem médio articula três realidades: "Foi ao articular essas três entidades temíveis - o número ventríloquo da "opinião", o número pestanejante dos "grandes equilíbrios socioeconómicos", e finalmente o número cifra da estatística matemática - que ele se tornou a peça principal da cretinização" que domina as sociedades contemporâneas. Ao homem médio contrapõe-se o "homem qualquer"; aquele é igual a qualquer um, mas igual pela singularidade absoluta de que cada um é capaz. O homem qualquer está no campo dos heróis, anónimo e singular: é ele apenas porque é ele, mas nesta diferença absoluta está tudo aquilo que faz que certos homens continuem a ser, no meio do estupidificante individualismo de massas, "florestas que caminham"."
Passei uma tarde encantadora. Foi um descanso merecido para um corpo que vai aturando maçaduras diversas. O dia soalheiro ajudou, a cadeira de jardim encorpou-se de vez e as leituras estavam a condizer. Se a perfeição existe, estive lá perto. Foram momentos de prazer indizível. Argumentei-me em cadeia e fiz sínteses que elevaram as motivações. Há tardes assim.
Numa das leituras viajei para longe das letras que os olhos percorriam. Visitei a memória. Um dos meus exercícios predilectos. Não obedece a formalidades nem a pormenores protocolares. A meu gosto. Entro por ali adentro, pesquiso à vontade e o tempo que quiser. Realço o que interessa, embora, e vezes sem conta, tropece em acontecimentos menos agradáveis.
Foi hoje o caso. Lembrei-me do serviço militar. Vinte e poucos anos e zero tiros no currículo. De uma hora para a outra raparam-me os caracóis, encheram-me de fardas e de sei lá de mais o quê e disseram-me: vais ser comando; a honra suprema de um jovem português.
Chamavam-me Prudêncio, o meu último nome, coisa que até aí me parecia exclusiva do meu pai. Numa tropa para onde só ia quem queria, interrogavam-me: és voluntário?; respondia: não. Nos papéis cruzavam o sim e quanto mais refilasse pior. Aprendi rápido e sentenciei: se tem de ser, vamos a isso.
Foi o que se suspeitava. A dureza e a brutalidade diárias sucederam-se até o horror se instalar. Nem a estrela aos ombros garantiu atenuantes. A exigência de comandar era sufragada pelo espírito de corpo e pela resistência à dor comum. Lembrei-me, entre tantas outras coisas horrendas, de ter saboreado um naco de pão duro barrado com pelos da barba e sangue; ou de me ter deitado em terrenos cravejados de balas que quase não antecipavam o momento da queda do corpo. Violência acumulada em meses sem fim. Valeu-me a ausência da guerra. Não sei o que faria dos "inimigos".
Nos fins-de-semana exteriores ao campo de concentração, desenhei inúmeras fugas do país que foram sempre vencidas pela crença na passagem do tempo e pelo risco de ver carimbado o estatuto de desertor.
Como compreendo os jovens que lutam nas diversas guerras. Jamais quererão ouvir o nome do palco do mais infeliz dos teatros: o das operações militares.
Da parte que me toca, nunca mais "perdoarei", à Amadora e a Santa Margarida, por terem sido os solos dos meus horrores.
O P2 do Público de ontem, edição impressa, insere este post do "Correntes". Rareiam os momentos com uma edição impressa numa esplanada à beira-mar. A aquisição limita-se aos fins de semana e feriados e mesmo assim as faltas são frequentes. Mudam-se os hábitos e o online vai impondo a sua lei. Postar os blogues em papel vai escapando e ontem foi por um triz.
Hoje foi o último dia de Eduardo Guennes Tavares de Lima (1937-2011), mais conhecido por Duda Guennes. O cronista brasileiro provou que não era necessário um acordo ortográfico para estabelecer a irmandade entre cidadãos. Conheci-o nas suas inesquecíveis incursões no jornal "A Bola".
Aprendi a ler esse jornal sem ser às escondidas. Desde pequeno que me habituei que um exemplar de "A Bola" era intemporal e para mais de uma centena de leitores. Encontrava-o no centro lúdico do BNU, na então Lourenço Marques, onde o meu pai trabalhava. Nunca tinha pressa. O trissemanário chegava no dia seguinte e lia-o dias depois para não ser incomodado. Fascinava-me a escrita dos redactores e sorria com a toponímia que vinha da europa. "A bola" instalava no meu imaginário um futebol feito por estrelas.
Cheguei a Portugal pouco tempo depois da entrada de Duda Guennes no jornal. Passei a ler "A Bola" no próprio dia, num exemplar pessoal e não transmissível. O encanto foi-se diluindo a exemplo do jogo em forma de constelação. Coisas do novo e rico mundo. Em 1995, perto do auge da abundância, o jornal passou a diário. Desconfiei. Ainda tentei ser um consumidor trissemanal, mas meses depois desisti. Nunca mais o comprei e perdi Duda Guennes.
Recordo-o assim:
"Argemiro Félix de Senna, o popular Sherlock, famoso árbitro pernambucano da década de 50 e 60, costumava mandar o jogador dar o troco sempre que reclamava da violência de um adversário. Num jogo com o América, Guaberinha, do Santa Cruz, queixou-se de uma entrada ríspida e Sherlock disse para que pegasse outro também. Guaberinha não conversou: na primeira, entrou com fé, esperança e sem caridade no primeiro que apareceu, fazendo-o rolar pelo relvado aos uivos. Imediatamente, Sherlock o expulsou: “Mas foi o senhor quem mandou”, justificou-se Guaberinha. “Mandei, mas não na minha frente. Aí é desrespeito à autoridade e isso eu não tolero”, respondeu o severo árbitro.". Encontrei aqui.
Reedição no dia em que se comemora mais um aniversário da independência da República Popular de Moçambique.
(1ª edição em 20 de Fevereiro de 2008)
Aproximava-se a independência da Republica Popular de Moçambique quando fiz uma visita que guardo no lugar mais seguro possível. Integrei uma selecção que representava a futura nação. Percorremos as principais cidades do país e realizámos jogos de basquetebol integrados nos festejos. O dia 25 de Junho de 1975 foi eleito para o momento mais esperado: descerrar a bandeira portuguesa e substitui-la pela moçambicana. A delegação era chefiada por um guerrilheiro da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), o generoso Cariquirique.
O 25 de Junho coincidiu com o intervalo da digressão. Três dias de descanso e contemplação na Gorongosa, no centro do país: uma extensa e deslumbrante savana, onde se convivia com animais que povoavam os nossos imaginários.
Cariquirique estava preparado. À meia-noite em ponto trocou os galhardetes, discursou - falou-nos num Moçambique livre e multirracial, usando como metáfora uma sopa de legumes-, e deu-nos a ouvir pela rádio, apenas a letra teve direito a conhecimento prévio, o hino da Nação. Cantámos e festejámos com habitantes da região, tocadores de tambor ao melhor ritmo moçambicano, numa cerimónia libertadora e em que fomos voluntários e felizes convidados. Estávamos ali de alma e coração. O sol nasceu e para todos: nós vimos.
Inesquecível.
Em virtude da guerra civil que estalou no país, a Gorongosa foi palco dos desmandos guerreiros dos humanos. Foi flagelada pela cobiça dos traficantes de peles e de marfins, e de toda a espécie de adereços de animais selvagens, que deliciavam alguns consumidores dos lados mais requintados que a inteligência humana conseguiu arquitectar. A Gorongosa foi dizimada.
Recupera, agora, os seus habitantes naturais. Na savana também se combate para viver. Os animais são destituídos dos melhores atributos da nobre ciência humana, mas revelam uma qualidade nada desprezível: têm muita paciência.
Encontrei um vídeo espantoso que até nem é muito do meu género e apetite. Mas merece que o veja; suposição minha, claro. São quase oito minutos e só no final é que deve tirar conclusões. Pode dizer-se assim: Gorongosa, para uma teoria da paz restaurada.
Na dura luta dos professores portugueses, existiram vários momentos que nunca esqueceremos. Lurdes Rodrigues foi cínica com os votozinhos e o Secretário Pedreira gozou, em pleno parlamento, com a dor dos professores; chamou-lhes coitadinhos. A pena do genial Antero retratou-os assim:
A minha filha Filipa é um dos meus orgulhos. Faz tempo que não dou conta dos seus caminhos. O doutoramento em álgebra geométrica (no Instituto de Telecomunicações do Instituto Superior Técnico) vai em bom ritmo e continua a marcar presença nas competições mais exigentes do surf nacional. Decidiu apoiar Manuel Alegre e deu a cara, muito bem acompanhada, num vídeo (cerca de 3 minutos apenas) muito interessante. Ora veja (os jovens dão entrada aos 1.40 minutos).
O romance "O Velho e o Mar" (The old man and the sea) de Ernest Hemingway (1952) é uma obra-prima.
Li-o pela primeira vez na adolescência, na época do "Moby Dick", de Herman Melville - o autor do também fascinante Bartleby -, e julgo que nunca mais o voltei a ler.
Era já vaga a ideia sobre a história. Um velho e pobre pescador que havia tempo que não conseguia pescar e que tinha uma forte amizade com um rapaz. Certo dia, pescou o maior peixe da sua vida. Voltou a terra apenas com o esqueleto do enorme espadarte, porque não conseguiu impedir o furioso ataque de esfomeados tubarões. Reencontrei-me com a história e fiquei com a ideia que está tudo ali.
Não resisto a transcrever-vos um pedaço da tradução de Jorge de Sena:
- Que tens para comer? perguntou o rapaz. - Um tacho de arroz de peixe. Queres? perguntou o velho. - Não. Como em casa. Queres que eu acenda o lume? - Não. Acendo-o eu depois. Ou como o arroz frio. - Posso levar a rede? - Claro que podes.
Não havia rede, o rapaz lembrava-se de quando a tinham vendido, mas todos os dias representavam esta cena. Também não havia tacho de arroz, o que o rapaz também sabia.
Hoje é mais um dia desportivo em dose dupla. Portugal inicía o mundial da África do Sul (país vizinho, e onde vivi, da minha saudosa pátria de nascimento) e logo num jogo em que tem como adversário a mais forte equipa africana. Espera-se uma fase de grupos muito disputada. A selecção portuguesa tem um equipa não tão forte com nos nos campeonatos de 2004 a 2008 (nessa fase beneficiou muito da estrutura criada por José Mourinho no Futebol Clube do Porto), mas tem jogadores determinantes. Tenho ideia que tudo vai depender do modo com a selecção se afirme como conjunto e da inspiração dos jogadores mais avançados.
A madrugada receberá o sexto jogo da final da NBA. Os meus Lakers voltam a casa a perder por 3 jogos a 2. Faltam duas finais a disputar no pavilhão de Los Angeles. Têm de vencer os dois jogos e uma derrota será fatal. Se o conseguirem serão uns meritórios campeões. Em caso contrário, temos de reconhecer o valor da equipa de Boston.
A imagem que acompanha este post refere-se a uma fase da minha vida em que vivia em Moçambique depois de uns 2 anos de África do Sul. Desta vez não é de equipas de basquetebol nem, para os mais atentos, estou com a bola. Os meus parcos talentos eram diversificados. Apesar de estar ao microfone (sou o primeiro da direita) juro que não cantava. Era o apresentador das festas de natal do banco emissor de moeda em Moçambique e não me dava nada mal como actor de teatro. Como podem observar, estava tranquilo (o detalhe do braço atrás das costas com a mão a segurar a antebraço contrário) e via, com todo o gosto, o brilho na actuação dos meus amigos. A foto veio do facebook por cortesia da minha amiga Liliana Braguez (a minha eterna parceira como apresentadora) que está de vestido branco e com meias da mesma cor (a terceira pessoa da esquerda para a direita).
Ainda na senda das memórias desportivas, publico uma fotografia da melhor equipa em que joguei; se não foi a melhor, foi mesmo uma das mais vencedoras e que praticou o basquetebol que mais me agrada. Para os menos atentos às coisas da bola ao cesto, mas que dominam as tácticas futebolísticas, simplifico assim: defendíamos no campo todo - vulgo, pressão muito alta mesmo - e quase que nem necessitávamos de esquemas ofensivos uma vez que os roubos de bola proporcionavam constantes situações reduzidas em superioridade numérica.
A equipa moçambicana representava o Sporting Clube de Lourenço Marques, um clube emblemático do basquetebol português de então. Ainda tenho os nomes todos na memória: em cima e da esquerda para a direita: Armando Silva, Carlos Lisboa (um dos melhores jogadores de sempre), Rui Redondo, João Morais (um treinador de primeiríssima água), José Leite e Luís Piçarra. Em baixo e também da esquerda para a direita: Fernando Vaz, Paulo Prudêncio, João Paulo Vaz e Rolando Van Zeller.
Recebi por email um texto de Paulo Ambrósio, dirigente do SPGL, que publico de seguida.
"O Luís era uma daquelas pessoas já raras, porque digna, guiado por princípios e valores, exigente consigo próprio, tímido e muito metido com ele (era difícil arrancar-lhe um sorriso). Aos 51 anos, "solteirão", ainda contratado - o professorado é a única profissão em Portugal onde isto ainda acontece! - veio até nós, no decurso da luta pela Profissionalização, contexto onde convivi com ele directamente durante cerca de três anos.
Portador de Habilitação Própria, foi eleito em Lisboa, em Plenário para a Comissão de Contratados, em 2004. Participou activamente em todos os protestos e acções reivindicativas da nossa Frente de Trabalho do SPGL, que levaram à conquista do Despacho nº 6365/2205 (profissionalização em serviço em ESE's e Faculdades).
Era conhecido entre nós pelo ”freelancer" (alusão à sua segunda ocupação de jornalista eventual). Dotado de forte sensibilidade em relação ao mundo da informação e da comunicação social, propôs e pedia frequentemente, nas nossas reuniões, que os sindicatos encarassem esta frente (relações públicas) com outros olhos, mais eficazmente. A partir de 2006, não se recandidatou mais à nossa comissão de contratados.
Encontrei-o mais tarde nas mega-manifestações de professores: estava na Escola EB 2,3 Ruy Belo, e achei-o disposto a não entregar os Objectivos Individuais, um verdadeiro problema de consciência moral, para ele.
Depois disso, mais uma ou duas vezes, espaçadamente. Soube que tinha sido colocado na EB2,3 de Fitares, mas pouco mais.
No passado dia 11 de Fevereiro, revi-o pela última vez, em Oeiras, já deitado no caixão na capela mortuária. Conversei longamente com a mãe, a irmã, a empregada doméstica. Vêm-me à memória as palavras do pai, militar aposentado: "o Luís era bom moço, quis ser bom até ao fim, só que não aguentou o inferno das escolas de hoje... Vocês têm que fazer qualquer coisa!"
O Luís nos, últimos tempos, já tinha tomado friamente a decisão, inabalável. Por isso, não creio que nesse período, tenha pedido ajuda a ninguém. Segundo me disseram familiares, no velório, pela consulta do histórico do seu PC, ele, um mês antes e se lançar da ponte, consultava sites sobre suicídio, na internet. Escolheu o dia da sua morte coincidindo com a data de aniversário do pai, com o qual, aliás, se dava bem.
O ambiente no velório foi impressionante, pela dignidade, revolta interior e tristeza da cerimónia, com alguns professores presentes, num silêncio de cortar à faca, só rasgado por frases em surdina, de justo ódio, visando os políticos responsáveis pela situação a que nos últimos anos chegou o Ensino Público. Foi, sem dúvida, dos velórios mais tocantes em que estive até hoje, mesmo estando já habituado a duras perdas, e tendo estado na semana anterior, noutro, de um familiar directo. Quando escrevi no livro de condolências o que me ia no espírito, tive dificuldade em o fazer, a cortina de lágrimas teimava em desfocar-me as letras.
Pessoalmente, decidi manter silêncio durante um mês, por respeito ao pesado luto da família, só o quebrando depois da irmã dele (nossa colega, também) o ter feito, decorridos cerca de trinta dias, com a divulgação da notícia à comunicação social, para assim tentar evitar que outros casos se repitam, colocar toda a verdadeira dimensão das depressões e suicídios profissionais à luz do dia, rasgar o manto hipócrita dos silêncios assassinos e abalar as consciências de toda a sociedade."
Paulo Ambrósio
Membro da Comissão de Professores Contratados e da
O meu texto que pode ler de seguida foi publicado numa revista da Porto Editora, a "Risco", algures no início do milénio. Republico-o no dia que se consagrou chamar de dia da mulher.
Pé na lua.
É uma história que atravessa o tempo, com três personagens do século passado e seguramente, (só pode ser), com o mesmo código genético. A avó, a sua filha e a neta. A avó nasceu em vinte e oito, a sua filha em cinquenta e nove e a neta em oitenta e seis. Apesar disso, o destino reservou-lhes as mesmas surpresas, traçou-lhes os mesmos obstáculos e, por mais incrível que pareça, em idades iguais.
A avó, influenciada pelo imaginário das conversas dos adultos do seu tempo sobre as primeiras corridas de bicicleta para ciclistas masculinos, tinha um sonho quase obsessivo: vestir um par de calças e pedalar numa bicicleta de verdade. Ora, que coisa mais avançada. No Natal dos seus cinco anos, e apesar do mesmo pedido que seu irmão - uma bicicleta de verdade - apenas ele foi contemplado. A avó, o melhor que conseguiu foi um conjunto para o ponto cruz, com a agravante da indústria dessas coisas para as crianças ainda ser incipiente, e, portanto, o dedal era enorme e as picadelas das agulhas inevitáveis.
Todavia, a sua filha, está mais que visto, desde logo se transformou numa ciclista de corpo inteiro. Contra ventos e marés, convém que conste. Mas há sempre um mas, que raio. Pois a sua filha, apesar dos seus quatro anos, não entendia porque é que a bicicleta do irmão tinha um quadro em forma de triângulo e o dela não. É que ambos vestiam um par de calções, comprados até na mesma loja de roupas para crianças, embora a cor... mas já lá vamos. Vivia-se então a época da primeiras emissões televisivas e os campeonatos de hóquei em patins preenchiam o imaginário das glórias lusitanas. Foi com o espanto de todos que a filha, então com cinco anos, pediu no Natal, "imitando" o irmão, o mesmo equipamento completo da selecção nacional do dito jogo. Que momento. Conseguiu receber um par de patins com uma bota muito branca mas para um pé 36 (era dar às crianças algo que só usariam quando dominassem a razão) acompanhado de um vestido de cor rosa, cheio de folhos, cópia literal dos usados pelas meninas patinadoras que abrilhantavam os invisíveis cinco minutos dos intervalos dos jogos. Foi parar ao sótão onde ficou para a eternidade.
Claro que a neta cedo patinou, de camisola rosa ou azul era indiferente. Bicicletas, teve sempre e mais que uma. Os tempos eram outros, tanto mudava a fralda das bonecas ou brincava às cozinhas com os meninos amigos, como se juntavam para dar uns pontapés na bola. Tudo estava já assumido. Para a neta, as tarefas domésticas, os passeios de carro e todas essas coisas tanto eram feitas com o pai como com a mãe. Mas, (não disse já que há sempre um mas), também vos digo que talvez ou ainda bem.
Era agora o tempo das conversas intermináveis sobre os jogos de futebol. E como o código genético se manteve acordado eis que a neta começa a sonhar, até porque parece que tinha um certo jeito, pela prática é claro, nada de mais portanto; mas dizia, começa a sonhar em poder jogar umas futeboladas na escola com os amigos rapazes, e quem sabe, um dia jogar num estádio verdadeiro com um equipamento verdadeiro. Então, tinha a neta os seus cinco anos, estava no último ano do jardim de infância e surge a primeira oportunidade de concretizar o seu sonho. A "educadora" da turma decide que na festa de final de ano a turma da neta iria fazer um jogo de futebol entre as crianças e os pais. Ideia brilhante. Deixou todos em polvorosa. A noite anterior foi para a neta interminável. No dia grande, tal festa de natal já nossa conhecida, a "educadora" toma a sábia decisão os rapazes, e só os rapazes, formariam a equipa, as raparigas seriam a "claque". Nem conto mais. Digo-vos só, que as encontrei num mês de Maio de 1999, as três, a avó a sua filha e a neta, sentadas num mesmo sofá. Estavam com um sorriso com tanto de bonito como de indescritível e viam um jogo na televisão. Era a final do campeonato do mundo de futebol feminino. Percebi tudo num instante. É certo que a neta não jogava, mas também quando o Neil Armstrong pôs o primeiro pé na lua não fomos todos que o fizemos?
"O actor Raul Solnado morreu hoje às 10h50, aos 79 anos, na sequência da evolução de um quadro clínico Cardio-Vascular grave, informou a Direcção Clinica do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. O velório do humorista realiza-se hoje, a partir das 21h00 no Palácio das Galveias, em Lisboa e o funeral parte amanhã, às 18h00, para o cemitério dos Olivais. A cerimónia de cremação está marcada para as 20h00.
Raul Augusto de Almeida Solnado nasceu em Lisboa a 19 de Outubro de 1929. Entrou no mundo do teatro em 1947, enquanto actor amador, no Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Guilherme Cossul. (...)"
Raul Solnado foi um actor genial. Encontrei um vídeo inesquecível. Ouvi muitas vezes a versão em vinil 45 rpm, e também pela rádio, na casa dos meus pais em Moçambique. Era um modo interessante de se fazer a ponte com um território que estava distante mas que dizia muito aos meus progenitores. O conteúdo do memorável "A guerra de 1908" ajudava a abalar a estúpida guerra colonial e era um momento altíssimo de humor.
Precisa-se de matéria prima para construir um País.
Eduardo Prado Coelho - in Público (republico em sua memória)
A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal, E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:
-Onde a falta de pontualidade é um hábito;
-Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
-Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
-Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
-Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
-Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe médiae beneficiar alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas
podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
-Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
-Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
-Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta. Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa. Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA' congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...
Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa ?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror ? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados.. . igualmente abusados ! É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda... Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:
Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.
Alunos do 9º ano de Santo Onofre, orientados pelos seu professor Paulo Sousa, fizeram com que o espanto e a preocupação tomasse por momentos conta dos meus pensamentos: que raio, o que é que aquele aluno está a fazer ali?
Mas depois o Paulo explicou-me que é um trabalho dos seus alunos cujo o mote é "não cais no abandono escolar". "Trata-se de uma coisa muito simples sem qualquer pretensão pedagógica profunda. Apenas um apontamento" - acrescentou. Dei-lhe os meus parabéns extensivos aos seus alunos.
"Foi, talvez, Eduardo Lourenço quem melhor resumiu ontem o impacto da morte de João Bénard da Costa, aos 74 anos: "Morreu o senhor Cinema Português." Muitos outros, ao longo do dia, usaram palavras diferentes para dizer essencialmente a mesma coisa sobre o homem que marcou profundamente a cultura portuguesa e, sobretudo, a forma como se vê cinema em Portugal.(...)"
"Sabia tudo com paixão. Acreditava que a criação humana era "uma forma de nos defendermos contra a morte". Acreditava em dar "testemunho do que vai durar contra o que parece que está para durar". Acreditava em convencer "quem eu quero que goste tanto como eu gosto" e, "se possível, goste como eu gosto". Escreveu num português vintage de frase lançada. Quando ele escrevia, acreditávamos que sabia tudo.(...)." Este belo texto de Alexandra Lucas Coelho continua aqui.