Em busca do pensamento livre.

Quarta-feira, 14.06.17

 

 

 

"(...)Há o bem e o mal, e há uma categoria intermédia que é o Mal tolerado. Há um cinismo inconsciente, que é necessário à vida. É o que eu chamaria o intolerável tolerado. Mas agora isso tornou-se num cinismo demasiado visível, que tomou conta do espaço público, é ubíquo. Essa transparência, visibilidade do intolerável, pode levar, a longo prazo, a que o sistema mude a partir do interior, por acção de uma outra categoria, que competiria com a da ganância: a vergonha. Agora já não é possível esconder a podridão moral da sociedade, por pura vergonha. Mas enquanto isso não acontece, os jovens não podem mais viver com esse Mal intermédio. Querem afirmar-se. Não é por ressentimento, ou impulso de destruição, castigo ou vingança. É uma indignação contra a intolerabilidade do Mal mediano.(...)"

 

José Gil, Pública,

4 de Março de 2012, pág. 24.

 



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Sábado, 05.03.16

 

 

 

 

José Gil (2005:44) escreveu assim: “(...)Em contrapartida, somos um país de burocratas em que o juridismo impera, em certas zonas da administração, de maneira obsessiva. Como se, para compensar a não-acção, se devesse registar a mínima palavra ou discurso em actas, relatórios, notas, pareceres – ao mesmo tempo que não se toma, em teoria, a mais ínfima decisão, sem a remeter para a alínea x do artigo y do decreto-lei nº tal do dia tal de tal mês do ano tal.(...)”


E mais à frente, Gil (2005:57), sublinha: “(...)duplo regime que vigora em serviços de toda a ordem. Ora se tenta inscrever freneticamente tudo, absolutamente tudo em actas, para que nada se perca, ora reina a maior negligência nos arquivos que ninguém consulta nem consultará (espera-se).(...)”

 



Gil, J. (2005). Portugal, hoje. O medo de existir.
Lisboa: Relógio D´Água

 

(É um livro de 2005 e confirmamos com muita

frequência a caracterização do duplo regime. Mas quem diria

que este retrato nos levaria a mais uma bancarrota

e que explicaria o perfil da malta do subprime, do BPN,

do BCP, do BPP, do BES, do Banif e do que mais virá.)

 

 

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Quarta-feira, 22.04.15

 

 

 

 

Gil (2005, p.44) caracteriza-nos assim: “(...)Em contrapartida, somos um país de burocratas em que o juridismo impera, em certas zonas da administração, de maneira obsessiva. Como se, para compensar a não-acção, se devesse registar a mínima palavra ou discurso em actas, relatórios, notas, pareceres – ao mesmo tempo que não se toma, em teoria, a mais ínfima decisão, sem a remeter para a alínea x do artigo y do decreto-lei nº tal do dia tal de tal mês do ano tal.(...)”


E mais à frente, Gil (2005, p.57), sublinha: “(...)duplo regime que vigora em serviços de toda a ordem. Ora se tenta inscrever freneticamente tudo, absolutamente tudo em actas, para que nada se perca, ora reina a maior negligência nos arquivos que ninguém consulta nem consultará (espera-se).(...)”

 



Gil, J. (2005). Portugal, hoje. O medo de existir.
Lisboa: Relógio D´Água

 

(É um livro de 2005 e confirmamos com muita

frequência a caracterização do Filósofo. Mas quem diria

que este retrato nos levaria a mais uma bancarrota

e que explicaria o perfil da malta do subprime, do BPN,

do  BCP, do BPP e do BES)

 

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Domingo, 10.03.13

 

 

 

E, se me permitem, com Passos Coelho ao leme. As inverdades da campanha eleitoral foram impreparação da família da tirada do "salário mínimo". Às tantas não mentiu e não passa de mais um trapalhão. É grave e perigoso na mesma. Dá ideia que Passos Coelho ouve umas coisas, mas que estudou pouco e que andou por empresas que desqualificam a economia.

 

 

Cortesia do Carlos VC.


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Sexta-feira, 25.01.13

 

 

 

 

Recebi por email o seguinte texto do filósofo José Gil publicado recentemente.

 

 

"Ninguém pode razoavelmente negar a necessidade de repensar o Estado. Mas não assim: de modo inconsistente, irracional, contraditório e iníquo", afirma José Gil na sua crónica publicada esta quinta feira na revista Visão. O filósofo junta-se ao coro de críticos dos anunciados cortes com que o Governo PSD-CDS pretende atingir o Estado Social, defendendo que "o empobrecimento da sociedade, as falências, os cortes brutais nos salários e pensões, os despedimentos despóticos ou manhosos, não são reformas estruturais, se bem que sejam apresentados como tais".


"As reformas ditas 'estruturais' facilitam o empobrecimento e a extorsão fiscal", prossegue José Gil, dando o exemplo da mudança de escalões do IRS que "vai simplesmente permitir ao Estado arrecadar mais dinheiro" . "Esta mistura entre uma racionalidade mínima e uma irracionalidade máxima (apresentada ao contrário) é uma pura aberração", conclui o autor de "Portugal, Hoje. O Medo de Existir".


José Gil aponta ainda a contradição do Governo ao querer reduzir o Estado ao mínimo, enquanto vai "recrutando 'especialistas' com salários escandalosos", ou o silêncio do relatório do FMI sobre as Parcerias Público-Privadas, a política bancária do Estado, ou planos para combater a corrupção. "Não seriam estas reformas altamente estruturantes?", pergunta.


Outro alvo da crónica em que José Gil explica as razões pelas quais, na sua opinião, "a política do Governo é uma aberração", é o discurso dos governantes, marcado por contradições e incoerências, na forma como se "dizem e desdizem, chocam caoticamente uns com os outros, fraturam a coligação, contradizem o Presidente da República, negam as realidades mais evidentes, não cumprem as regras básicas da legitimidade tácita da governação face à opinião pública."


Questionando-se sobre as razões da apatia na sociedade portuguesa após a contestação que encheu as ruas em setembro de 2012, que atribui a fatores como "a confusão, a desorientação, o efeito de névoa que em nós se instalaram, impedindo-nos de nos situar relativamente ao passado e ao futuro (mesmo imediato)", o filósofo assinala que "tudo parece normal e tudo vai mal. Mas ignoramos aonde está a verdade, se na normalidade aparente (se a recusamos é o abismo) ou na anormalidade vivida".



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Quinta-feira, 08.03.12

 

 

 

"(...)Há o bem e o mal, e há uma categoria intermédia que é o Mal tolerado. Há um cinismo inconsciente, que é necessário à vida. É o que eu chamaria o intolerável tolerado. Mas agora isso tornou-se num cinismo demasiado visível, que tomou conta do espaço público, é ubíquo. Essa transparência, visibilidade do intolerável, pode levar, a longo prazo, a que o sistema mude a partir do interior, por acção de uma outra categoria, que competiria com a da ganância: a vergonha. Agora já não é possível esconder a podridão moral da sociedade, por pura vergonha. Mas enquanto isso não acontece, os jovens não podem mais viver com esse Mal intermédio. Querem afirmar-se. Não é por ressentimento, ou impulso de destruição, castigo ou vingança. É uma indignação contra a intolerabilidade do Mal mediano.(...)"

 

José Gil, Pública,

4 de Março de 2012, pág. 24.



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Terça-feira, 06.03.12

 

 

José Gil foi, ontem, director do Público e escreveu este editorial. Muitos professores não deixarão de considerar acertadas as suas palavras.

 

"Vivemos num país desconhecido. Por baixo da informação tangível, dos números e das estatísticas, correm fluxos de acontecimentos inquantificáveis e que, no entanto, condicionam decisivamente a nossa vida. Quantas doenças psíquicas foram desencadeadas pela crise? Quanta energia vital se desperdiça na fabricação da imagem de um rosto jovem necessário exigido por tal profissão? São "dados" incognoscíveis ou imateriais, não susceptíveis de se tornarem informação. São não-notícias."



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Segunda-feira, 05.03.12

 

 

 

O Público mudou hoje a apresentação da edição impressa. Foi gratuita. Só me lembrei depois do almoço e já não a apanhei. Já percebi que a mudança foi bem sucedida e que o director por um dia foi José Gil. Garanti um empréstimo a partir de amanhã.

 

 

 

 

 



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Domingo, 04.12.11

 

 

Gil (2005, p.44) caracteriza-nos assim: “(...)Em contrapartida, somos um país de burocratas em que o juridismo impera, em certas zonas da administração, de maneira obsessiva. Como se, para compensar a não-acção, se devesse registar a mínima palavra ou discurso em actas, relatórios, notas, pareceres – ao mesmo tempo que não se toma, em teoria, a mais ínfima decisão, sem a remeter para a alínea x do artigo y do decreto-lei nº tal do dia tal de tal mês do ano tal.(...)”

 

E mais à frente, Gil (2005, p.57), sublinha: “(...)duplo regime que vigora em serviços de toda a ordem. Ora se tenta inscrever freneticamente tudo, absolutamente tudo em actas, para que nada se perca, ora reina a maior negligência nos arquivos que ninguém consulta nem consultará (espera-se).(...)”

 

Gil, J. (2005). Portugal, hoje. O medo de existir.

Lisboa: Relógio D´Água



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Quinta-feira, 13.10.11

 

 

 

 

Em 7 de Maio de 2008, escrevi o seguinte:

 

As pessoas registam e continuam estranhamente sossegadas. Nada de bom se adivinha. Os administradores hospitalares usam recursos públicos em telefones pessoais, cartões de crédito, automóveis e almoçaradas, os corruptos ficam absolvidos em tribunal porque o corrompido era vereador sem pelouro, os casos de financiamento partidário duvidoso são banais, os bancos e os negócios do sector imobiliário "aprisionaram" a sociedade até à medula, os fundos estruturais foram alvo de um fartar vilanagem, a comissão de ética da Assembleia da República é composta por pessoas - algumas, claro - cujo historial conhecido dá uma volta ao estômago, o desplante para ocupar lugares de decisão está num saldo inaudito e preocupante, e podíamos ficar aqui a debitar casos que explicam a parte maior da prevista e desgraçada condição financeira do país.

 

Lembrei-me do professor José Gil e do seu "imagem-nua e pequenas percepções". O prefácio é a propósito dos readymade e da análise detalhada à realização de uma escultura. Mas podia ser também da publicidade. As imagens estão por aí, vemo-las sem as vermos, mas ficam registadas, condicionam as nossas escolhas e vão-se perigosamente acumulando. Um dia, entrarão pelos estômagos adentro e já poderá ser tarde.



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Terça-feira, 31.05.11

 

 

 

 

 

Não serem sugados pelas forças institucionalizadas, tem sido um dos méritos de muitos bloggers.

E lembrei-me disto ao reler uma excelente entrevista ao filósofo José Gil na Pública. A páginas tantas responde assim: 

Pergunta: "Diz no seu livro Portugal, Medo de Existir que o espaço público deixou de existir e que foi substituído pela comunicação social. É esta que dita que o movimento se faça numa direcção ou noutra."

Resposta: "Acho que é cada vez mais isso. A comunicação social suga essas pequenas forças, que não estão ainda institucionalizadas."



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Quarta-feira, 17.11.10

 

 

 

Não serem sugados pelas forças institucionalizadas, tem sido um dos méritos de muitos blogues. O seu papel tem sido "reconhecido" por ministras e secretários de estado que caíram, por chefes de governo em apuros, por agências de comunicação social que se tornaram menos eficazes e até por aqueles que andam pela sociedade à espera que as suas diabruras não sejam denunciadas. Todos se queixam e estão cheios de razão.

 

Claro que há excepções. Há blogues que perderam credibilidade por se tornar evidente o oportunismo político dos seus editores.

 

E lembrei-me disto ao reler uma excelente entrevista ao filósofo José Gil na Pública. A páginas tantas responde assim:

 

 

Pergunta: "Diz no seu livro Portugal, Medo de Existir que o espaço público deixou de existir e que foi substituído pela comunicação social. É esta que dita que o movimento se faça numa direcção ou noutra."


Resposta: "Acho que é cada vez mais isso. A comunicação social suga essas pequenas forças, que não estão ainda institucionalizadas."



publicado por paulo prudêncio às 21:56 | link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Sexta-feira, 07.05.10

 

Foi daqui

 

 

 

As pessoas registam e continuam exteriormente sossegadas: "os administradores hospitalares derretem recursos financeiros em telefones, cartões de crédito, automóveis, almoçaradas, os corruptos ficam absolvidos em tribunal porque o corrompido era vereador sem pelouro, os casos de financiamento partidário muito duvidoso sucedem-se em ritmo alucinante com a protecção do polvo, os bancos e os negócios do sector imobiliário corromperam a sociedade até à medula, os fundos estruturais foram durante anos alvo de um fartar vilanagem, a comissão de ética da Assembleia da República é composta por pessoas - algumas, claro - cujo historial conhecido dá uma volta ao estômago, o desplante para ocupar lugares de decisão está num saldo inaudito e preocupante e verifica-se de cima a baixo, e podíamos ficar aqui a debitar casos e mais casos que ajudam a explicar a parte maior, para não dizer total, da desgraçada condição financeira do país".

 

Lembrei-me do professor José Gil e do seu "imagens-nuas e pequenas percepções". O prefácio é a propósito dos readymade e da análise detalhada à realização de uma escultura. Mas podia ser também da publicidade. As imagens estão por aí, vemo-las mesmo sem as vermos, mas elas ficam registadas, condicionam as nossas escolhas e vão-se perigosamente acumulando.



publicado por paulo prudêncio às 23:39 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Quinta-feira, 04.03.10



 

ÚLTIMA AULA DO PROFESSOR

 

JOSÉ GIL

 

10 de Março de 2010

de 16:00 até 20:00

        

Auditório I, Torre B

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

Universidade Nova de Lisboa

 

A FORMAÇÃO DA LINGUAGEM ARTÍSTICA E A FILOSOFIA

 

Cortesia da Cristina Meneses

 



publicado por paulo prudêncio às 19:22 | link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Terça-feira, 11.08.09

 

 

 

 

Estou a ler o último livro de José Gil, "Em busca da identidade - o desnorte" e recebi um resumo que aconselho. A tarefa foi realizada pela professora de filosofia Manuela Silveira.

 

Ora leia.

 

 

 

"“No processo de domesticação da sociedade, a teimosia do primeiro-ministro e da sua ministra da Educação representam muito mais do que simples traços psicológicos. São técnicas terríveis de dominação, de castração e de esmagamento e de fabricação de subjectividades obedientes.”


 “Verifica-se no Ministério da Educação um fenómeno constante, emblemático da política deste governo: tomam-se medidas chico-espertas integrando o chico-espertismo no quadro da lei, institucionalizando-o (…). É o sistema inteiro que se converte ao chico-espertismo.”


 “Tal como a Polizeiwissenschaft alemã do século XVIII, o governo é levado a invadir, explorar e regulamentar domínios, comportamentos e funções que escapavam ao Estado, introduzindo-se mesmo na vida privada do cidadão. Na esfera da Educação, por exemplo, o tempo de trabalho do professor é preenchido ao máximo – desde as 35 horas obrigatórias de presença na escola ao encurtamento brutal do tempo de férias, aliás, “pausas lectivas”, expressão nova, como para mostrar que a vocação do professor deve envolver não só o tempo de trabalho, mas a sua vida  inteira. O trabalho do professor deve integrar e devorar o tempo da vida privada e do lazer. Viver para si ou para a família, só numa “pausa lectiva”…”


“…a  dupla vertente da governação Sócrates (…) - por um lado, centralismo autoritário, regulador (…); por outro, a vontade de “emagrecer o Estado”, reduzindo o seu peso na sociedade civil (…), leva a que os efeitos das reformas, e em particular a do sistema educativo, possam ser, na substância, puramente superficiais, não produzindo mudanças de fundo, e, na forma, imperativos pesadíssimos, tarefas insuportáveis e inexequíveis. Porquê? Porque – e refiro-me ao Estatuto da Carreira Docente, ao Estatuto do Aluno e à avaliação dos professores – a vertente autoritária e super-reguladora do Estado exerce-se fundamentalmente e quase exclusivamente na forma, na burocracia, nas centenas de documentos, formulários, regulamentações que os professores devem estudar, preencher, horários extraordinários que devem cumprir, etc., sem que os conteúdos do ensino, a substancia da relação de aprendizagem professor-aluno seja tratada. 


Quem examine em pormenor toda esta extraordinária burocracia, que já é pós-kafkiana, a que estão submetidos os professores, fica com a ideia de que uma espécie de delírio atravessa quotidianamente os conceptores e decisores do MNE.


“Uma primeira característica da retórica de José Sócrates: quando inaugura uma escola, um tribunal, quando celebra as virtudes de uma iniciativa do Governo ou premeia os resultados de tal grupo da sociedade civil, uma ideia surge sempre, reiterada até à exaustão – a ideia de que aquela «é a obra necessária, que vem na hora certa para a modernização do país»; era daquilo «que nós precisávamos», e de que vamos precisar»; e que toda a acção do Governo «vai naquele sentido, porque é o sentido certo, e devemos insistir cada vez mais em acções e iniciativas daquela natureza». (…)


Talvez seja esta uma das grandes originalidades de um discurso que, por outro lado, repete sempre as mesmas ideias, quase com as mesmas frases, literariamente medíocre, lexicamente pobre, sem rasgos nem surpresas: é que está constantemente no presente mítico, transformando a obra mais banal num acontecimento de relevância única, exemplar, modelar."

 



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Quinta-feira, 09.07.09

 

 

 

 

Chegou-me há tempos por email um texto publicado no novo jornal "I". Aborda assuntos importantes e descreve com lucidez o estado de torpor que caracteriza a participação cívica na nossa sociedade. O texto parte da obra do filósofo José Gil, "Em busca da identidade - o desnorte" que estou desejoso de ler.

Diz assim (os bolds são meus):

 

"Vivemos em Democracia mas não vivemos a democracia no dia-a-dia, no exercício das nossas liberdades, na rejeição das pequenas tiranias que nos sufocam e paralisam. Aceitamos tudo porque só assim nos podemos queixar de tudo. São essas as nossas armas: a queixa, a inveja e a arte de viver nas fendas que é o chico-espertismo.

 

“Em Busca da Identidade – o desnorte”, o filósofo José Gil atribui à doença da identidade, ao excesso de identidade, a nossa paralisia social e cívica. “Somos portugueses antes de sermos homens” (p.10) e o peso dessa identidade afecta os percursos individuais e degrada o espaço público. O excesso de identidade conforta e imobiliza, somos o que somos e isso desculpa-nos, exime-nos do debate, protege-nos do conflito e empurra-nos para o queixume.

 

Transferindo “mecanismos psicanalíticos para o colectivo”, José Gil detecta traços neuróticos nos portugueses durante o Estado Novo como, e cita Ferenczi, “a atenuação do sentimento de responsabilidade”, “o adiamento de todas as acções” e “a crença na realização das ideias só porque são pensadas”. Estes traços permanecem no português do pós-25 de Abril como estratégia de sobrevivência, de adaptação a uma realidade que não era imediatamente dada, que tinha de ser construída. A liberdade colocou problemas de identidade, que levaram a que os portugueses se refugiassem em “antigos moldes que forneciam segurança e paz interior”.

 

Décadas de salazarismo não só afastaram os portugueses do espaço público de debate mas também criaram uma identidade avessa ao conflito e à discussão. A identidade do português não estava preparada para a realidade democrática, para o exercício da cidadania, para a expressão livre. Para José Gil, este conflito entre a identidade e a realidade explica “a nossa dificuldade actual em nos desviarmos de uma via única”. É a nostalgia da ordem salazarista, de um sossego existencial característico dos regimes ditatoriais, de uma paz claustrofóbica que vai respirando pelo tubo do “queixume delirante”.

 

José Gil desmonta a retórica da “via única” do primeiro-ministro José Sócrates, do discurso reformista que, quando embate com a realidade, prefere a cosmética à transformação dessa realidade. É a institucionalização do chico-espertismo. As tácticas de sobrevivência quotidiana que constam do manual do chico-esperto são, enfim, consagradas pelo próprio Estado.

 

A vontade de mudança permanece como “aspiração flutuante”, impossível de satisfazer, enquanto que, na prática, prevalecem truques como o estudo da OCDE que não era da OCDE. A propaganda da “via única” também procura contornar o conflito ou, quando ele é inegável, desinscrevê-lo do real.

 

A atitude do governo relativamente à contestação dos professores é disso o melhor exemplo. Reconhece-se o direito à manifestação mas retira-se-lhe qualquer significado político, como se 120.000 professores, zombies ou couves fossem a mesma não-coisa. “Assim começa a interiorização da obediência” no país do respeitinho, onde, como afirma José Gil, “estamos ainda longe de praticar a democracia”."



publicado por paulo prudêncio às 19:57 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar


Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
Discordâncias:
Mais até por uma questão estética, este blogue discorda ortograficamente
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Após 2 mandatos de um presidente negro simpático,...
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