Em busca do pensamento livre.

Domingo, 23.04.17

 

 

 

As contas do insucesso (mas com sentido)



publicado por paulo prudêncio às 13:17 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 02.04.17

 

 

 

Há escolaridade obrigatória porque as taxas de abandono e insucesso escolares, e de analfabetismo, são elevadas. Se não fosse obrigatória, os números aumentariam: por falta de jeito dos miúdos, por só estarem a gastar dinheiro, porque é no trabalho desde cedo que se aprende ou por serem raparigas (parece que esta variável tende a desaparecer). Ou seja, não há escolha: é obrigatória e muito bem. É um direito, e um dever, constitucional conferido pela rede pública de escolas. Ainda há pouco passou para 12 anos para contrariarmos os números de população adulta sem sequer o ensino secundário.

 

E que relação tem a escolaridade obrigatória com a lógica do cliente escolar e da liberdade de escolha? Tem a relação mais inversamente proporcional possível. Os suecos, e até sem analfabetismo desde o século XIX, experimentaram, em 1995, a generalização da lógica do cliente escolar. Um falhanço, consubstanciado na segregação dos alunos. O cliente escolar desautorizou e baixou o nível do ensino, porque o negócio exigiu, para além de outras variáveis, uma organização com profissionais lowcost. Todos perderam, menos os proprietários das empresas. Haverá outra conclusão antiga, mas menos óbvia: fragilizará a democracia em poucas gerações.

 

Este post usa argumentos que são conhecidos há mais de cinco décadas por quem estuda a importância da escolaridade obrigatória na consolidação das democracias.

 

2ª edição.



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Quinta-feira, 23.02.17

 

 

 

É preferível a coragem de eliminar as retenções dos alunos nos anos não terminais de ciclo (nos terminais ficaria para mais adiante), do que andar há mais de duas décadas a culpar, exclusivamente, os professores e as escolas pelo insucesso escolar instituindo um inferno de má burocracia que se evidencia em reuniões de agenda repetida e documentos de "copiar e colar". Aconselho a leitura deste post do Paulo Guinote.

 



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Domingo, 06.11.16

 

 

 

 

A relação entre a qualidade das escolas e a ambição escolar dos alunos é directa e proporcional. Embora seja difícil encontrar estudos empíricos concludentes, uma vez que as variáveis em causa requerem avaliações sistemáticas e modelos consolidados, podemos afirmar que o grupo de alunos é decisivo para os indicadores de qualidade de uma escola ou de um sistema escolar.

 

A ambição escolar parece ser mais determinante do que as condições socioeconómicas, apesar de serem igualmente decisivas. Num país como Portugal, que, depois de quarenta anos de democracia, apresenta taxas elevadas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme numa espécie de autofagia.

 

Há um refúgio justificativo no longo prazo e com razão. Encontramos uma boa explicação se nos compararmos com países que eliminaram o analfabetismo no século XIX e mesmo que essas sociedades tenham registado oscilações nas condições socioeconómicas, a ambição escolar é assumida, intergeracional e constante. Contudo, esse aconchego da consciência não deve ignorar o curto prazo. Em meia dúzia de anos, numa escola ou no sistema escolar, é possível erguer algo de significativo ou destruir o que se construiu.

 

A par da ambição escolar dos alunos, podemos situar a confiança nos professores. Se esse requisito relacional é um metabolismo basal nas sociedades em que se generalizou a ambição escolar, torna-se ainda mais decisivo nas sociedades como a nossa onde se exigem cuidados redobrados. E não se pense que há aqui qualquer espécie de corporativismo.

 

A desconfiança nos professores é intuída pelos alunos (mais grave ainda em alunos muito novos e é também por isso que a gestão escolar é muito diferente numa universidade se comparada com um jardim de infância ou com outro ciclo do não superior), desautoriza as salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e origina a escolha das escolas pelos que têm ambição escolar.

 

A segregação social dificulta a eliminação do abandono escolar. A miscigenação dos diversos níveis de ambição escolar é tão determinante para a qualidade dos sistemas escolares como é em sentido lato para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia.

 

Em Portugal, regrediu-se acentuadamente na confiança nos professores. Foi um choque de desconfiança. Se a avaliação de professores e o estatuto do aluno estão na memória colectiva, e com efeitos que ninguém se atreverá a refutar, o modelo de gestão escolar seguiu o mesmo caminho.

 

1ª edição em 10 de Maio de 2012



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Terça-feira, 19.07.16

 

 

 

 

"De cabeça erguida" tem como figura central uma juíza (Catherine Deneuve) de um tribunal de menores francês. Isso diz muito do argumento e tem uma relação poderosa com os actos terroristas a que temos assistido. O muito bom filme de Emmanuelle Bercot devia ser de visionamento obrigatório para as pessoas que opinam sobre o abandono escolar e a delinquência juvenil num tom crítico para os profissionais ou com ligeireza. A personagem interpretada por Catherine Deneuve dá uma lição de pedagogia, sensatez, firmeza e sabedoria. Imperdível mesmo.

 

 

 

Título original: La Tête Haute; De: Emmanuelle Bercot; Com: Catherine DeneuveRod ParadotBenoît MagimelSara Forestier; 120 min.

 



publicado por paulo prudêncio às 09:32 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 28.06.16

 

 

 

"Na escola x, uma aluna do 7º ano passou com sete negativas. Na turma da minha filha, na escola y, reprovou um aluno com duas negativas, a português e a matemática, e outro com três". E é isto. Ciclicamente é isto. Uma regra administrativa nacional (RAN) nestes assuntos deixa tudo mais claro, mas a invenção da roda também se tornou cíclica. Havendo uma RAN, os conselhos de turma ponderam o que têm que ponderar; como sempre aconteceu e está mais do que comprovado. Ou será que os anti-RAN acham que o insucesso escolar é culpa absoluta de professores e escolas? Parece-me que sim. Aliás, dá ideia que pensam o mesmo das causas do flagelo do abandono escolar que também é histórico e "eterno".



publicado por paulo prudêncio às 11:20 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Domingo, 22.05.16

 

 

 

Por que é que há escolaridade obrigatória? Porque as taxas de abandono e insucesso escolares precoces, e de analfabetismo, são chocantes. Se não fosse obrigatória, os números aumentariam: por falta de jeito dos miúdos, por só estarem a gastar dinheiro, porque é no trabalho desde cedo que se aprende ou por serem raparigas. Ou seja, não há escolha: é obrigatória e muito bem. É um direito, e um dever, constitucional conferido pela rede pública de escolas. Ainda há pouco passou para 12 anos para contrariarmos os números de população adulta sem sequer o ensino secundário.

 

E que relação tem a escolaridade obrigatória com a lógica do cliente escolar e da liberdade de escolha? Tem a relação mais inversamente proporcional possível. Os suecos, e até sem analfabetismo desde o século XIX, experimentaram, em 1995, a generalização da lógica do cliente escolar. Um falhanço, consubstanciado na segregação dos alunos. O cliente escolar desautoriza e baixa o nível do ensino, porque o negócio exige, para além de outras variáveis, uma organização com profissionais lowcost. Todos perdem, menos os proprietários das empresas. Há outra conclusão óbvia: fragiliza a democracia em poucas gerações.

 

Este post usa argumentos que são conhecidos há mais de cinco décadas por quem estuda a importância da escolaridade obrigatória na consolidação das democracias.

 

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publicado por paulo prudêncio às 20:13 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 21.05.16

 

 

Num momento em que se aplaude uma solução tutorial-exclusivamente-escola para uma pequena componente da praga do insucesso e abandono escolares, recupero um algoritmo que escrevi há uns seis anos.

 

A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.

 

Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.

 

Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades com 100 professores diferentes, os resultados deveriam oscilar muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.

 

É também por isso que pode ser um logro absoluto que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que basta mudar o conteúdo físico ou contratual dos 30% para que tudo se resolva. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% nada acontece e não há ensino.

 

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Domingo, 24.04.16

 

 

As elevadas taxas de insucesso escolar evergonham-nos e aumentaram nos últimos anos. O empobrecimento só podia dar nisto. Choca saber que, em 2014, 11 mil crianças reprovaram no 2º ano de escolaridade, o tal que o inferno da medição vai passar a aferir depois de inúmeros seminários, colóquios e horas mediáticas.

 

director-geral de uma tal de EPIS (empresários pela inclusão) que se dedica há muito ao apoio social a estudantes, também se choca e escreveu para o Expresso. E não se indigna com a fuga aos impostos através dos Panamás Leaks nem sequer com o empobrecimento. Toca ao de leve nos problemas das famílias e das comunidades e conclui no género "são 11x11 e no fim ganha a Alemanha": "É, pois, urgente transformar a escola dos seis aos dez anos". Não defendo um qualquer modelo de escola como fim da história, mas já se torna sei lá o quê ler vezes sem fim as mesmas coreografadas, e circulares, conclusões.

 

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Expresso, 1º caderno de 23 de Abril de 2016



publicado por paulo prudêncio às 10:41 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Quarta-feira, 16.03.16

 

 

 

"(...)Os adolescentes portugueses são dos que se sentem mais apoiados pela família, têm consumos de álcool ligeiramente abaixo da média observada noutros pontos do globo e, mais dos que os outros, quando têm relações sexuais usam preservativo. Boas notícias, portanto. Mas — e esta é a primeira má notícia — a escola em Portugal é pouco amada.(...)"

 

Esta passagem do Público evidencia uma hierarquia que os investigadores sublinham nos países com sérios problemas educativos e, por consequência, com um excessivo caderno de encargos da escola: seleccionam a sociedade como primeira componente crítica e não as famílias; e insistem muito neste detalhe, como refiro aqui. E basta pensarmos um bocado nos países que não fazem do bem comum e da organização valores preciosos: quantos decisores públicos, e privados, claro, e aos mais diversos níveis, apoiam a sua família como o descrito e são completamente negligentes na acção cívica ou política? Podíamos ficar agora a tarde toda a elencar o interminável rol de "erros graves de planeamento", ou até de "actos corruptos", que dificultam muito as tarefas educativas das famílias e as de ensino das escolas.

 

liberdade e dependência cartoon de Odyr Berrnardi



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Sexta-feira, 04.12.15

 

 

 

 

"O insucesso escolar subiu em todos os anos de escolaridade em 2012, 2013 e 2014", conclui o relatório CNE 2015 e a tendência manter-se-á em 2015 e nos anos seguintes se nada de substancial acontecer.

 

São variados os ângulos por onde iniciar uma análise à regressão civilizacional enunciada pelo CNE. Mas olhemos pelo funil do neoliberalismo, que nos invadiu e que os suecos, por exemplo, desesperem por abandonar no domínio escolar.

 

Mesmo que se veja boa fé nas teses de Milton Friedman, a conclusão é óbvia: as ideologias totalitárias, de mercado total neste caso, "esquecem-se" da natureza humana e atingem objectivos contrários aos enunciados. É evidente que a escola devia estar fora dessa lógica. Para além da sua histórica natureza organizacional assentar na regra, na finalidade, na exigência e em processos de inovação e emancipação social, o confronto entre a pedagogia e o senso comum não deve ser mercantilizado. O risco de sobreposição do segundo é elevado e relega o efeito de elevador social ou de gerador de igualdade de oportunidades do primeiro para uma ordem muito secundária. Esse nivelamento por baixo invadiu o sistema escolar português e os números do insucesso escolar são elucidativos.

 

São muitos os que apontam os exemplos nórdicos. Na Finlândia, com cerca de um século de independência, os professores são independentes de qualquer tutela, mesmo que inspectiva ou avaliativa, uma vez que a acção pedagógica lhes foi conferida pela sociedade para uma espécie de "evangelização" dos ideais de unidade nacional depois de séculos de ocupação: sueca durante mais tempo e russa num exercício temporal muito inferior. Os finlandeses optaram pelo primeiro vector no confronto da pedagogia com o senso comum. Já os seus invasores suecos, e depois de conviverem mais de um século sem analfabetismo, acharam-se em condições de estabelecer um mercado total. O desastre já foi assumido e as causas do processo de "nacionalizações" em curso deviam ser muito divulgadas.

 

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Sexta-feira, 27.11.15

 

 

 

1ª edição em 10 de Maio de 2012

 

 

 

A relação entre a qualidade das escolas e a ambição escolar dos alunos é directa e proporcional. Embora seja difícil encontrar estudos empíricos concludentes sobre o assunto, uma vez que as variáveis em causa requerem avaliações sistemáticas e modelos consolidados, podemos afirmar, com segurança, que o grupo de alunos é decisivo para os indicadores de qualidade de uma escola ou de um sistema escolar.

 

A ambição escolar parece ser mais determinante do que as condições socioeconómicas, apesar de serem igualmente decisivas. Num país como Portugal que, depois de quarenta anos de democracia, apresenta taxas elevadas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme numa espécie de autofagia.

 

Há um refúgio justificativo no longo prazo e com razão. Encontramos uma boa explicação se nos compararmos com países que eliminaram o analfabetismo no século XIX e mesmo que essas sociedades tenham registado oscilações nas condições socioeconómicas, a ambição escolar é assumida, intergeracional e constante. Contudo, esse aconchego da consciência não deve ignorar o curto prazo. Em meia dúzia de anos, numa escola ou no sistema escolar, é possível erguer algo de significativo ou destruir o que levou anos a construir.

 

A par da ambição escolar dos alunos, podemos situar a confiança nos professores. Se esse requisito relacional é um metabolismo basal nas sociedades em que se generalizou a ambição escolar, torna-se ainda mais decisivo nas sociedades como a nossa onde se exigem cuidados redobrados e não se pense que há aqui qualquer espécie de corporativismo.

 

A desconfiança nos professores é intuída pelos alunos (mais grave ainda em alunos muito novos e é também por isso que a gestão escolar é muito diferente numa universidade se comparada com um jardim de infância ou com outro ciclo do não superior), desautoriza as salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e origina a escolha das escolas pelos que têm ambição escolar.

 

A segregação social dificulta a eliminação do abandono escolar. A miscigenação dos diversos níveis de ambição escolar é tão determinante para a qualidade dos sistemas escolares como é em sentido lato para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia.

 

Em Portugal regrediu-se acentuadamente na confiança nos professores nos últimos seis a sete anos. Foi um choque de desconfiança. Se a avaliação de professores e o estatuto do aluno estão na memória colectiva e com efeitos que ninguém se atreverá a refutar, o modelo de gestão escolar segue o mesmo caminho apesar de menos mediatizado.

 

 

 



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Domingo, 15.03.15

 

 

 

Gostei de ver, ontem, num canal generalista (jornal das 8 da TVI) a reportagem sobre a Escola Secundária de Carcavelos (penso que é a sede do agrupamento com o mesmo nome) que entrou na agenda mediática por causa das recentes recomendações do CNE. A escola quase que não tem reprovações, não tem campainhas e é o projecto da moda. Vi o testemunho de alunos que reconhecem a importância do clima de confiança.

 

A Escola Básica Integrada de Santo Onofre (uma escola TEIP com mais de 1100 alunos e com taxas de insucesso escolar, em 1996, acima dos 30%) foi uma espécie de pioneira, e no século passado, desta e de outras ideias de gestão e de educação para a autonomia e para a responsabilidade.

 

E a exemplo da Escola Secundária de Carcavelos, também melhorou os níveis de pontualidade de todos os actores e seis anos depois não tinha processos disciplinares, tinha taxas de insucesso e abandono escolares abaixo dos 3%, as cerca de mil matrículas seguiam a lei numa difícil selecção entre mais de 1500 candidatos, os resultados escolares eram muito bons (os rankings no 9º ano em 2001 já a colocavam no pódio das escolas do país e com oito pontos acima da média nacional e do esperado para uma escola TEIP com aquela população escolar) e era a escola indicada pelas autoridades escolares para os alunos da educação especial. Está tudo documentado e um dia destes faço umas postagens mais detalhadas sobre o assunto.

 

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Gazeta das Caldas, 15 de Junho de 2001

 

Muito sinceramente: surpreendeu-me a emersão do projecto de Carcavelos num tempo martirizado pela prosa da austeridade onde a poesia passou ao lugar que não existe; afinal há motivos para ter esperança.

 

Na mesma edição da primeira imagem lia-se o seguinte (este muito bom programa de avaliação de escolas foi abruptamernto interrompido pelo Governo de Durão Barroso quando começava a ter massa crítica):

 

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Gazeta das Caldas, 15 de Junho de 2001

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 Gazeta das Caldas, 15 de Junho de 2001

 

Na edição de 09 de Novembro de 2001, a Gazeta das Caldas publicava a ideia de uma escola digital.

 

A passagem do pensamento analógico para o digital simplificou mesmo procedimentos (as bases de dados foram construídas na escola e a ideia de escola sem papéis era literal e não metafórica) e acrescentou conhecimento para apoio à tomada de decisões porque afirmava as ideias de autonomia, responsabilidade e confiança. Os professores ficavam mais livres para ensinar e libertos da má burocracia.

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Os objectivos do programa do Conselho Executivo eram apresentados nas diversas reuniões gerais após a tomada de posse e avaliados semestralmente na Assembleia e no Conselho Pedagógico. Como se pode ver a seguir, logo em 09 de Novembro de 2001 os resultados escolares exigiram um patamar inicial que reflectia os 8% acima da média nacional.

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 Gazeta das Caldas, 09 de Novembro de 2001 



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Sexta-feira, 06.03.15

 

 

 

Quem diria que o país que há 41 anos era uma curiosidade turística porque mostrava uma revolução em curso que foi um momento de esperança inesquecível para quem a viveu, consegue, nesta altura, ter como ponto primeiro da sua agenda de preocupações educativas o insucesso escolar, a indisciplina e as faltas dos seus alunos na escolaridade obrigatória.

O que mais entristece, é que se explicarmos isto a um professor de uma qualquer sociedade europeia, encontraremos um ser que nos interrogará: "mas quem são os responsáveis pelas faltas dos alunos? A família? A comunidade local? E faltam injustificadamente? Os miúdos?".

 

Qualquer membro do mainstream (e na sua concepção mais lata que inclui todos os representados no parlamento e os seus familiares) apontará a escola e deixará o cidadão europeu ainda mais perplexo, mas com mais argumentos para perceber os desvarios das nossas eternas "elites".

 

E depois há quem queira detalhar e diga que a subida do insucesso escolar (ou do abandono, uma vez que ainda não percebi qual das patologias alarmou as mentes) no básico, por exemplo, se deve aos exames. É desconhecedor estabelecer uma relação directa, mas isso fica para outro post.

 



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Domingo, 01.03.15

 

 

 

Peguei no primeiro caderno do Expresso (edição digital) e percebi que a semana deu alento ao espírito Bilderberg e que o jornal estava no registo folheto-em-campanha. Quando cheguei à página 04 passei para a revista antes de mudar de vez para a obra completa de Nuno Bragança.

 

Repare-se nesta seta alta. Este vale tudo é de bradar, realmente.

 

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O jornalismo comandado por Bilderberg omite que o presidente do CNE disse que cada chumbo é um aluno novo. Para além de tudo, esta corrente detesta que lhes digam que o principal problema do insucesso escolar está há muito identificado: "sociedade ausente para uma escola transbordante".

 

Limito-me a repetir:

 

"Há 150 mil reprovações por ano no básico e no secundário. Como o tribunal de contas diz que cada aluno custa 4 mil euros por ano, e como o presidente do CNE diz que cada reprovação é um aluno novo, as reprovações custam 600 milhões de euros", diz o jornalista.

Sinceramente, não me lembro de um tempo com tanta falácia na Educação.

Boa parte dos alunos que reprovam integram turmas que existiriam sem a sua frequência. É evidente que globalmente talvez se reduzissem algumas turmas, mas isso é sei lá o quê num país que tem que excesso de alunos por turma até nas que têm alunos com necessidades educativas especiais. Se acrescentarmos a estes achamentos a sentença de alguém da confederação de encarregados de Educação (os alunos só devem repetir as disciplinas em que reprovaram) então ficamos completamente esclarecidos sobre o conhecimento que paira sobre estes estudos.

Não vou discutir neste post a questão pedagógica, mas estas pessoas deviam fazer um estágio com presença em salas de aula numa escola escolhida pelos professores e com um regime sem reprovações.



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Quinta-feira, 09.10.14

 

 

 

Chegámos a um estado tal, que lemos argumentos, a culpabilizar a centralização dos concursos de professores, assinados por quem se movimenta com ligeireza na macrocefalia reinante. E enquanto gastamos os caracteres a desmontar preconceitos com décadas, as taxas de insucesso e abandono escolares parecem regressar a uma trajectória ascendente como se relata no texto. São correlações.

 

  

 



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Sábado, 20.09.14

 

 

 

O "Relatório estado da Educação 2013" do CNE parece que conclui que há escolas que inflacionam as notas dos alunos e que excluem os mais fracos por causa dos rankings. O Governo diz que desde de 2003 que se conhece o fenómeno, com a escolha da data a indicar que a aliança democrática está na queda habitual.

 

É tudo tão previsível e circular que não nos podemos queixar com o retrocesso dos indicadores escolares. E o que mais cansa é o assobio lateral dos descomplexados competitivos que mais não fazem do que debitar receitas para os filhos dos outros. Em regra, estes "especialistas" "encostam-se" aos top performers, como se estes e as suas famílias precisassem da sua existência, e lá se devem considerar sócios do clube restrito e com aversão aos que "não querem aprender".

 

Pedir à escola que seja, simultaneamente, exigente e inclusiva é a verdadeira quadratura do círculo já conhecida no século passado. Torna-se numa alucinação quando se absolutiza a categoria exigência que exclui sem dó no mercado puro e duro que estamos a viver há cerca de uma década.

 

Nem os países que eliminaram o analfabetismo no século XIX encontraram uma saída democrática na alucinação descrita. Instituíram ideias que esbarraram no aumento da desigualdade de oportunidades.

 

Portugal tem indicadores de exclusão escolar que aumentarão em sentido proporcional à alucinação.

 

Abandonámos a sensatez.

 

Advogar o fim dos mecanismos de mercado puro e duro ("mercado puro e duro", ou selva para se ser mais preciso, é diferente de avaliar com rigor organizações escolares onde se incluem os resultados dos alunos) é considerado pouco ambicioso e falho de modernidade. Haverá mesmo quem considere falho de empreendedorismo. Só que qualquer sistema bem sucedido na formação de pessoas foi construído com bases alargadas. Aos advogados da alucinação falta-lhes contacto com o real e humildade.

 

Portugal é, e escrevo-o com tristeza, cada vez mais um país com um sistema escolar em profundo estado de alucinação.

 

 

 

 

Já usei esta argumentação noutros posts.

 

 



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Terça-feira, 09.09.14

 

 

 

 

Como era esperado "(...)A taxa de retenção ou desistência aumentou nos três ciclos do ensino básico nos últimos três anos(...)" e ainda se sentirão com mais intensidade as consequências da escolha da escola pública, e dos seus profissionais, como o primeiro alvo dos cortes a eito.

 

Bem pode a ministra da Educação, a ultraliberal Maria Luís Albuquerque, afirmar que "(...)"O ensino superior tem uma extraordinária importância, tem tido uma evolução fantástica, todos os dias temos notícias de como o nosso ensino superior está a ganhar reconhecimento internacional e tem também um enorme palco mediático(...)". O que a ministra vê é produto da generalização da escola pública. Sem quantidade e qualidade na base, só por milagre ou geração espontânea é que se conseguem bons resultados na primeira linha da investigação.




publicado por paulo prudêncio às 14:29 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Sexta-feira, 08.11.13

 

 

 

 

 

Exigir à escola que obtenha a excelência nos resultados escolares e que inclua os "que não querem aprender" e os que escapam à "normalidade" é a verdadeira quadratura do círculo que se torna uma alucinação terrivelmente exclusiva no mercado puro e duro.


Nem os países mais desenvolvidos - os que, por exemplo, eliminaram o analfabetismo no século XIX - encontraram uma saída democrática na alucinação vigente. Ao que vamos sabendo, instituíram soluções exclusivas em busca de uma qualquer excelência que acabou sempre por esbarrar no alçapão do aumento das desigualdades de oportunidades.


Portugal já tem indicadores de exclusão escolar que aumentarão em sentido proporcional à alucinação descrita.


Deixámos de pensar.


Se uma turma ou escola tem em maioria os que "que não querem aprender", a lógica de mercado dos resultados escolares será implacável. Por outro lado, se uma turma ou escola tem em minoria "os que não querem aprender", será "inaceitável" a sua presença desestabilizadora e os responsáveis escolares defrontar-se-ão com dilemas e exigências inumanas. O confronto com a história dessa minoria deixará à alucinação vigente um único caminho: o aumento dos indicadores de exclusão escolar.


O fim-de-semana será preenchido pela discussão dos rankings das escolas portuguesas. Repetir-se-ão os argumentos no duelo público-privado. Nenhum dos factores descrito ganhará: nem os excelentes quando abandonarem o regime de condomínio privado e se confrontarem com o mundo real e muito menos os destinados à exclusão.


Bem sei que advogar o fim dos mecanismos de mercado puro e duro (que é diferente de avaliar com rigor organizações escolares onde se incluem os resultados escolares) é considerado pouco ambicioso e falho de modernidade. Haverá mesmo quem considere falho de empreendedorismo. Mas também sabemos que as sociedades mais avançadas foram sempre as que colocaram a inclusão (mas a inclusão desde o pré-escolar) no topo das prioridades porque perceberam que a diminuição das desigualdades é proporcional ao aumento das classe médias e que manutenção da paz e da prosperidade só se consegue em sociedades não alucinadas. Mas mais: qualquer sistema bem sucedido na formação de pessoas foi construído com bases alargadas.


Aos advogados da alucinação falta-lhes o contacto com o real. Portugal é, e escrevo-o com tristeza, cada vez mais um país com um sistema escolar em profundo estado de alucinação.





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Quarta-feira, 30.10.13

 

 

 

Se não contrariarmos a tendência descrita na imagem, a breve prazo os indicadores serão difíceis de reverter até porque estarão acompanhados de taxas novamente arrasadoras no abandono e insusesso escolares.

 

 

 

 

 

 



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Terça-feira, 29.10.13

 

 

 

 

 

 

A formulação de Nuno Crato existe, já tem uns 20 anos e causou outros constrangimentos semelhantes. Não conhecemos é a frequência, ou seja, quantos professores é que estão nessa situação.

 

Sabe-se que na origem (onde o ministro não toca) esteve o negócio ligada à formação inicial de professores e a teimosia das Universidades do Estado em adiarem a profissionalização de professores para todos os graus de ensino. Os resultados estão aí: milhares de professores profissionalizados desempregados, redução drástica de investigadores em áreas fundamentais das humanidades (por exemplo) e não escolha da profissão de professor por parte dos alunos com melhores resultados no final de secundário.

 

Só que mais importante que tudo isto é constatação que a sucessão de ministros da Educação identifica uma causa primeira para o abandono e insucesso escolares: a formação de professores. Assim não vamos lá. O principal problema português é a ausência da sociedade na Educação das crianças e jovens, onde a escola só pode desempenhar um papel reduzido. Enquanto os governos não fizerem da presença da sociedade o principal parceiro da Educação, gastaremos muita energia para obtermos recuos civilizacionais.

 

 



publicado por paulo prudêncio às 21:32 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Quinta-feira, 24.10.13

 

 

 

 

 

 

 

A UNICEF afirma que "a crise está a afectar severamente" o sistema escolar em Portugal.


É uma conclusão óbvia, embora a referência à necessidade de estudar as elevadas taxas de abandono e insucesso escolares seja escusada. É que todos já sabemos que essas taxas subiram, que a nossa percentagem do PIB para a Educação já nos envergonha mesmo, que o número de professores já é o mais baixo da OCDE e por aí fora. O problema é outro. A agenda mediática, com algumas excepções, está controlada pela "malta do privado encostado ao Estado" e o MEC anda obcecado, para não variar, em infernizar a vida dos professores.

 

A estória da prova de acesso para professores ainda vai ter muitos episódios insanos.








publicado por paulo prudêncio às 11:55 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Segunda-feira, 14.10.13

 

 

 

 

 

Percorri alguns blogues e jornais online e dei com duas notícias desconcertantes: um professor que diz que está "preparado fisicamente para actuar se um aluno desobedecer" e um caso muito grave de um aluno que é suspeito de "ter esfaquado uma colega e uma funcionária". É um dia atípico em termos mediáticos nos assuntos do sistema escolar, mas será um qualquer sinal.

 

No primeiro caso, regista-se a existência de um professor adepto do docente-especialista-em-wrestling. É, no mínimo, uma novidade. Há uns anos fiz um post com a seguinte pergunta: pode um invisual ser professor? Terminei o post assim: "A resposta, mesmo que se fique pela dúvida, pode atestar da qualidade da nossa sociedade". Não sei se o docente-especialista-em-wrestling defende a opção pelas artes marciais como forma de incluir todos os professores. É que nem todos os professores são tão fortes como este inesperado lutador.

 

O segundo caso é mais perturbante. Pode até ser um fenómeno isolado e que não se repita tão cedo. Assim se espera. Mas com o empobrecimento em curso associado ao aumento do número de alunos por turma, ao aumento dos horários dos professores nos últimos dois anos e à dificuldade da gestão de proximidade, não nos devemos espantar se o clima de desesperança que atravessa o sistema escolar vá para além do abandono e do insucesso escolares em curso.

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 21:50 | link do post | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Domingo, 28.04.13

 

 

 

 

 

Ouvi ontem na TSF uma parte, que incluiu o sistema escolar, do muito apaudido discurso de Francisco Assis no congresso do PS. O deputado elogiou o legado de Maria de Lurdes Rodrigues e, para não variar, apontou o dedo às dificuldades criadas pelas corporações. Já cansa. Era bom que Assis revisse o conceito de corporações e talvez concluísse que é mais corporativo do que os acusados.

 

Tem razão quando acusa a direita de ter cavalgado a onda das contestações. Mas esquece-se de dizer que a direita só lá chegou em 2008 (a um ano de eleições), porque antes aplaudia silenciosamente, e que a justa contestação foi iniciada por cidadãos das mais variadas ideologias e convicções. Francisco Assis devia evidenciar essa onda quase heróica (estou a pesar bem) e não se remeter a um exercício de revisionismo.

 

Mas quando se fala em legado de defesa da escola pública fala-se exactamente de quê?

 

Antes de mais, é importante sublinhar que os dirigentes do PS misturam nesse argumentário a ciência e o ensino superior. Francamente: o que de muito positivo os governos do PS fizeram nessas áreas foram políticas conduzidas por Mariano Gago. Tenho sérias dúvidas que esse ex-ministro subscreva o legado infernal de má burocracia, a forma obcecada como se tentou impor uma monstro de avaliação de professores ou, já em fim de ciclo, se decretou uma gestão escolar contra tudo e quase todos.

 

É evidente que o actual Governo prolongou a agonia da escola pública e acentuou-a em áreas determinantes. É verdade que sim. Está agora mais em causa o regresso a níveis impensáveis de abandono escolar e ouve-se muitas vezes o elogio das novas oportunidades. Como sempre se disse, a certificação de competências nestes níveis de escolaridade é um imperativo num país como o nosso. Mas foram os governos do PS que deram cabo da ideia com a febre da propaganda misturada com uma descarada manipulação de dados. Também aí estão por provar os elogios ao legado.



publicado por paulo prudêncio às 18:26 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Terça-feira, 16.04.13

 

 

 

 

 

Apaguei inadvertidamente um comentário nest post assinado por Figueiredo que protestou para o email. Prometi voltar ao assunto. O erro é aceitável: ia apagar um comentário de publicidade oriunda da China e eliminei o anterior de forma irreversível.

 

O comentador discordava da associação entre os agrupamentos de escolas e o abandono escolar no seguinte parágrafo: "(...)Temos muito mais a fazer, mas com a carga curricular desenhada nos achamentos do actual ministro, com menos condições para a profissionalidade dos professores, com mais alunos por turma e com um modelo de gestão escolar que dificulta o apoio aos alunos com mais dificuldades e que lança menos condições organizacionais, os resultados piorarão e corre-se o risco de se perderem os avanços das últimas décadas. E tudo se agravará com uma sociedade mais pobre.(...)".


É simples.

 

A abrupta redução de professores deve-se mais à revisão curricular, ao aumento da componente lectiva dos professores e ao aumento do número de alunos por turma. A variável mega-agrupamentos também contribui, mas menos significativamente.

 

A relação de proximidade entre os membros da gestão das escolas e os alunos em risco de abandono ou insucesso escolares é decisiva e fica comprometida neste modelo, por muito boas vontades que existam. Os professores que leccionam as turmas, e mesmo os directores de turma, não têm condições para esse apoio.

 

Só quem não anda pelas escolas é que desconhece esta realidade num país com quase três milhões de pessoas no limiar da pobreza. Por outro lado, o modelo em curso também desenha serviços administrativos apenas na escola sede o que vem acentuar as dificuldades na relação entre as escolas e as famílias mais pobres e na detecção de pequenos detalhes que são muitas vezes decisivos.

 



publicado por paulo prudêncio às 21:06 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Sexta-feira, 01.03.13

 

 

 

 

 

Nos últimos dias surgiram os primeiros ecos do retrocesso no sucesso escolar com o aumento de classificações negativas no 12º ano. Se é evidente que estes dados são insuficientes para uma conclusão, é natural que os números do insucesso e abandono escolares comecem a subir; desgraçadamente, acompanharão os do desemprego e da fome e contrariarão os que advogavam que tudo se resolvia com mais escola e com uma sociedade ausente.

 

No universo escolar também existem causas fortes e prontas a cobrar o fatalismo. Supressão de disciplinas, horas curriculares atribuídas no espírito de mais do mesmo, aumento do número de alunos por turma e quebra da proximidade relacional através de um modelo de gestão escolar único no mundo conhecido, são alguns exemplos do desmiolo que assolou o sistema escolar.

 

Para além disso, temos uma legião de professores em aguda instabilidade profissional, desesperançados e com anos de desconsideração social. Há cerca de meia dúzia de anos que a agenda mediática é preenchida por professores em protesto ou governantes e comentadores a zurzirem na sua profissionalidade. Os alunos intuem a desfaçatez, mesmo que não o verbalizem, e os que não querem aprender aumentam em número.

 

É evidente que as escolas do Estado estão mais expostas a este flagelo e os rankings, acompanhados da segregação social que sempre se acentua nos tempos de salve-se quem puder, farão o serviço que interessa a quem teima na privatização de lucros. Falta saber se tudo isto se desenvolverá como até aqui ou se a bancarrota nos fará arrepiar caminho por uns tempos.



publicado por paulo prudêncio às 21:15 | link do post | comentar | partilhar

Quarta-feira, 30.05.12

 

 

 

Ainda a propósito deste estudo publicado pelo Ionline, deve existir, como é habitual, algum cuidado com as conclusões. O estudo empírico refere-se a alunos do terceiro ciclo sem referir se são alunos com sucesso escolar. Em Portugal, e se foram inquridos alunos com sucesso escolar consolidado, isso representa, grosso modo, uma fatia que andará próxima dos cinquenta por cento.

 

Sabemos que numa amostra educada na mesma sociedade, e com hábitos semelhantes de ambição escolar, e em organizações semelhantes, os professores podem fazer alguma diferença. O problema português é outro: a tal fatia que não tem sucesso, e que até abandona precocemente a escolaridade, tem dificuldades em testar a influência dos professores. Em regra é assim.



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Sábado, 19.05.12

 

 

Só quem for completamente desconhecedor da realidade portuguesa é que, para estudar a passagem de ano dos alunos como a variável dependente, perde tempo a considerar os planos de recuperação como uma variável independente.

 

Quando o actual ministro da Educação diz que é grave que 25% dos alunos com os ditos planos sejam mal sucedidos, o que devia dizer é que os outros três quartos passam de ano e que isso não tem qualquer relação com as invenções da má burocracia do MEC que o ministro prometeu implodir. Não só não o fez, como aparece a divulgar relatórios completamente estratosféricos. Que raio: haverá ainda quem não saiba que estas variáveis não têm qualquer relação?

 

Esses planos são, quando muito, responsáveis por subidas de nota que têm como primeira intenção evitar a sobrecarga em burocracia inútil e só quem desconhece o terreno é que, já dominado-por-uma-lógica-yes-minister, se preocupa com relatórios produzidos em ambiente de desconfiança em relação às escolas e aos professores. É nestes momentos que dou razão aos que dizem que não temos solução.

 

Um em cada quatro alunos em plano de recuperação não tem sucesso



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Sexta-feira, 04.05.12

 

 

Com uma sociedade ausente na Educação e com as escolas a serem utilizadas como "armazéns" de crianças, não se devem esperar outros resultados. E podíamos ficar aqui o dia todo a elencar as causas que obrigam à venda deste tipo de medicamentos, mas que também terão consequências nas taxas de natalidade e na subida do insucesso e abandono escolares.

 

Venda de medicamentos para concentração aumentaram 78% em cinco anos

 

"Ontem, um pediatra alertou para o facto de a ruptura de stock de um medicamento para a atenção poder empurrar crianças para o insucesso escolar e a reprovação. Vendas sugerem que há cada vez mais crianças e jovens medicados.(...)"



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Domingo, 08.04.12

 

 

 

 

 

Um governante concluiu que tem "falhado tudo" na sociedade portuguesa e que os nossos jovens iniciam cada vez mais cedo o consumo de álcool. Se as escolas promovem, há décadas, campanhas e mais campanhas com resultados de sinal contrário aos desejados, onde estará então a raiz do problema?

 

Podemos associar a esta trágica realidade os nossos vergonhosos números de insucesso e abandono escolares. Se os que têm ocupado os mais altos cargos no Estado opinarem sobre as causas (prestação de contas), dirigirão o nosso insucesso para a organização escolar ou para a avaliação dos professores; não estou a brincar. Um actual secretário de Estado lançou um tríptico de soluções,"(...)defendeu a realização de uma campanha que envolva a escola, a família e os serviços de saúde(...)", em que mantém, de algum modo, a lógica que nos conduziu até aqui.

 

Temos de nos convencer que a escola está esmagada por um caderno de encargos imposto por uma sociedade que se desresponsabilizou e que se endividou em edificado e em faz de conta e que precisa de aprender a cuidar, com tempo, das suas crianças.

 

Tem "falhado tudo" para desincentivar jovens a consumir álcool, diz secretário de estado

 



publicado por paulo prudêncio às 20:30 | link do post | comentar | ver comentários (44) | partilhar

Quinta-feira, 26.01.12

 

Alunos que chumbam têm auto-estima mais alta do que os que passam com más notas

 

A propósito da investigação noticiada, lembrei-me deste post de 7 de Maio de 2004. Escrevi assim:

 

Não foi fácil. Só ao terceiro encontrei a auto-estima. Passei pelo que estava mais à mão, o da Porto Editora, um só volume, e nada. Fui ao grande dicionário da língua portuguesa, do Círculo de Leitores, seis volumes, e zero. Não desisti. Recorri ao Houaiss da língua portuguesa, também do Círculo de Leitores, seis volumes, seguramente os mais pesados e por isso ficaram para o fim, e lá encontrei: “qualidade de quem se valoriza, de quem se contenta com o seu modo de ser e demonstra confiança nos seus actos e julgamentos”

 

A minha dúvida não estava tanto no significado. Situava-se mais na questão da palavra composta o ser por justaposição ou por aglutinação; ter ou não hífen. Neste caso tem, porque, e muito justamente, o sujeito até pode não ter muita estima por si próprio.

 

Ouvi hoje uma notícia surpreendente: um conjunto de sábios comprovados, ao que julgo saber afectos à maioria que nos desgoverna, vai discutir o porquê da baixa auto-estima dos portugueses. O painel inclui: Marcelo Rebelo de Sousa, Clara Ferreira Alves, Vasco Graça Moura e António Borges, que julgo que seja um empresário bem sucedido. Espera-se que, depois da mesa-redonda (por justaposição porque existem mesas que não são redondas), a auto-estima dos conferencistas suba em flecha.



publicado por paulo prudêncio às 19:03 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Quarta-feira, 21.12.11

 

 

A presidente do Conselho Nacional de Educação, Ana Maria Bettencourt, não encontra registo diferente, do que tornou o caderno de encargos da escola insuportável, para explicar o excesso de reprovações nos ensinos básico e secundário. As soluções que apresenta são retiradas de uma cassete eduquesa e ignoram que existe sociedade. São duas décadas duma tragédia exponenciada nos consulados de Lurdes Rodrigues e que o actual governo parece não ter aprendido; apesar dum registo diferente. A ideia de mais do mesmo em forma de apoios chega a tornar-se ridícula. Repare-se no detalhe de que tudo está mal na escola. As escolas fazem, têm feito e continuarão a fazer, muito na área social. Não é essa a sua competência, mas a pobreza não deixa ninguém indiferente. Depois lêem achamentos destes por parte da presidente do Conselho Nacional de Educação.

 

Alunos portugueses chumbam muito e é preciso investir no apoio

 


"Não vale a pena investir [na educação] se as pessoas não aprendem", reforçou a presidente do CNE, que nas suas recomendações apela a uma "mudança profunda na atitude das escolas e dos professores face ao insucesso". Para o CNE, a solução passa pelo "reforço da formação em exercício dos professores e maior autonomia das escolas" para poderem "organizar as melhores soluções".




publicado por paulo prudêncio às 14:20 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Terça-feira, 20.12.11

 

 

A propósito da intenção de se castigarem os encarregados de Educação por causa do comportamento dos seus educandos, o sociólogo João Sebastião, do Observatório para a Segurança Escolar e especialista em violência escolar, disse ao Público que "(...)as escolas são desresponsabilizadas pelo comportamento dos seus alunos. (...)Quando há problemas com alunos, o que se deve fazer primeiro é avaliar o que as escolas fizeram por eles e há muitas que não fizeram nada: limitam-se a repetir suspensões, a empurrar os alunos complicados para outras escolas ou para os Cursos de Educação e Formação."

 

O discurso deste sociólogo vai na linha daquele que, em 2006, quis classificar os professores, pontuando-os, pelo abandono escolar dos alunos. Foi grave e é preocupante que se continue a orientar o dito observatório com estes raciocínios. Na afirmação de João Sebastião encontramos as lógicas que desresponsabilizaram a sociedade como a causa primeira do insucesso escolar, ao mesmo tempo que sobrecarregavam as escolas com um caderno de encargos impossível de cumprir. Não me esqueço do pai com sete filhos que, a viver numa casa só com um quarto, colou na porta da entrada: "só recebo os assistentes sociais às 5ª feiras das 12h00 às 14h00".



publicado por paulo prudêncio às 14:00 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 19.12.11

 

 

O editorial do Público de hoje teve mais uma epifania numérica: para questionar a decisão governativa de castigar os encarregados de Educação dos alunos que faltam às aulas ou que têm graves problemas de comportamento, os jornalistas usaram dados que lhes dizem que os alunos nas condições referidas são apenas 1.8% num universo de um milhão. Feliz país o nosso que sabe tanta coisa com exactidão. É pena é estarmos na falência por causa da manipulação constante dos números e por sermos muito pouco rigorosos no apuramento dos dados.



publicado por paulo prudêncio às 21:30 | link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Sexta-feira, 15.07.11

 

 

 

Quando se discutem mais horas para o português e para a matemática, é bom que se inscreva a ideia de que não estamos no domínio do novo nem sequer no fim da história.

 

É mais correcto falar-se em ignorância do que em conhecimento no que se refere à forma como cada cérebro aprende. Sabem-se muitas maneiras de ensinar um conteúdo, mas é difícil hierarquizar a eficácia dos métodos de ensino. Sabe-se também que só com repetição e esforço se aprende mais; isso é seguro.

 

Quem faz melhor do que nós é adepto há muito da escola total e despreza as ideias de mais do mesmo ou de sobredosagem do núcleo do denominado back to basics. Não se iludem as causas das dificuldades de aprendizagem com a colocação do que se passa nas escolas como o centro dos problemas. Há muita vida para além das escolas; e vida decisiva.

 

Acompanhei bem de perto uma escola que começou como território de intervenção prioritário, com baixos resultados de alunos, e que cerca de treze anos depois passou a referência em vários domínios, com excelentes resultados de alunos. Nos primeiros anos, os alunos beneficiavam de apoios em massa em português e matemática de modo a que a carga curricular semanal subia para cinco, seis e sete aulas. Por imperativos financeiros (fim das horas extraordinárias generalizadas), os apoios passaram a ser muito selectivos. Reduziu-se muito o "mais do mesmo" e, apesar disso, os resultados não deixaram de ser os relatados.



publicado por paulo prudêncio às 19:19 | link do post | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Quinta-feira, 14.07.11

 

 

A má propaganda é muito nociva. O anterior governo transformou os resultados dos exames na mais descarada manobra mediática; valia tudo. Tinha até uma certa piada colocar os antigos governantes a comentarem os piores resultados de exames que se verificaram nos últimos anos: os deste ano.

 

Já li uma série de opiniões sobre as causas. Haverá, decerto, quem argumente com o aumento do grau de dificuldade ou com a a constante alteração da criterização. É correcto. É quase impossível comparar resultados nestas condições.

 

Todavia, estamos na presença de alunos do 9ºano que nos últimos seis anos foram sujeitos às célebres medidas reformistas, mas que também assistiram a quatro quedas fundamentais no seu país: a maior desautorização dos professores que a história conheceu; a constante terraplenagem da cultura organizacional das escolas; o aumento da infantilização e do excesso de garantismo consubstanciado em resmas de má burocracia; a bancarrota por excesso de consumo e de maus hábitos educativos.

 

Mas já se sabe: os culpados vão ser os professores. Começa a faltar a paciência, realmente.

 

Resultados dos exames do 9º ano são os piores dos últimos anos



publicado por paulo prudêncio às 11:05 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Terça-feira, 28.09.10

 

 

 

Tenho trocado vários emails com leitores que se interessam pelos estudos sobre o sucesso escolar (ou insucesso, como queiram). Defendo que, grosso modo, se pode considerar as seguintes percentagens na responsabilização pelo sucesso escolar: 60% para as famílias e para a sociedade, 30% para a escola como organização e 10% para os professores e o ensino.

 

Há alguns anos que li estudos neste sentido e fui desenvolvendo a ideia.

 

A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.

 

Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.

 

Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades com 100 professores diferentes, os resultados deveriam oscilar muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.

 

É também por isso que pode ser um logro absoluto que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que basta mudar o conteúdo físico dos 30% para que tudo se resolva. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% nada acontece e não há ensino.



publicado por paulo prudêncio às 15:10 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Segunda-feira, 02.08.10

 

 

É inegável que Portugal tem feito progressos nos números da escolaridade. O analfabetismo está quase erradicado e a taxa de abandono escolar precoce tem diminuído apesar de ainda estar acima dos 30%. Tenho ideia que cada vez existem mais portugueses competentes, qualquer que seja o ângulo de análise. Mas estamos obviamente insatisfeitos. Nem é por essa ser uma das características dos humanos, é porque alguns dos números apresentados envergonham-nos.

 

Sabemos há muito que, e em números redondos, 60% do sucesso escolar se deve às famílias, 30% à organização escolar e 10% aos professores. Escolas com um número aceitável de alunos, grupos socialmente heterogéneos e turmas com cerca de 20 ou menos estudantes são três condições básicas. Mas mesmo isso pode não ser suficiente, se a sociedade estiver ausente e se a educação dos petizes não for uma objectivo primeiro. Não adianta pensar que tudo se muda alterando apenas a escola e seja em que sentido for. Não se eleva a educação nem a escolaridade transformando a escola num local de passagem, de entretenimento e de guarda de crianças; estas intenções podem mesmo ser desastrosas.



publicado por paulo prudêncio às 21:17 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 01.08.10

 

 

 

 

Já cometemos mais um disparate e nem sei como vamos sair desta coisa dos mega-agrupamentos, dizia o spin do lado esquerdo. Lançamos a ideia do fim dos chumbos para se entreterem com outra coisa, avançou o spin do lado direito. De acordo, disse o spin do lado do vento que sopra mais forte e que rapidamente acrescentou: e não se esqueçam de avisar o Pai Eterno.



publicado por paulo prudêncio às 19:13 | link do post | comentar | partilhar

 

 

 

 

Vale a pena ouvir a entrevista da actual ministra no link que vou sugerir. De acordo com os argumentos da ministra da Educação, o motivo para mais mais esta contestação não está na ideia desajustada que lançou, mas na incompreensão dos diversos actores do sistema. Na opinião de Isabel Alçada as pessoas é que são avessas à mudança e não são as incompreendidas propostas que se inspiram na estratosfera ou não têm pés nem cabeça, como se tem comprovado.

 

Afinal, a ideia de terminar com as reprovações não é para já. A intenção era lançar a discussão no sentido mais profundo. Ou seja, antes desta ministra o sucesso escolar estava por discutir. Não há mesmo pachorra. É interessante (se não fosse trágico) que toda esta questão continue a ser discutida como se não houvesse sociedade e com uma única via: sobrecarregar o já insuportável caderno de encargos da escola.

 

 

Ministra da Educação esclarece que não pretende fim imediato dos chumbos



publicado por paulo prudêncio às 12:48 | link do post | comentar | partilhar


Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
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