Em busca do pensamento livre.

Terça-feira, 07.02.17

 

 

 

 

Portugal é o país da OCDE onde os professores perdem mais tempo com a disciplina para começar uma aula e é onde existem, como hoje se conclui, salas de aula em que "reina a "pequena indisciplina"". E não saímos disto, com o discurso circular de "especialistas" (no caso o antigo responsável pelo Observatório de Segurança em Meio Escolar) a culpar "mais os professores do que os alunos".

E se procurássemos, definitivamente, outras culpas? Sumariemos: escola a tempo inteiro, ou "armazém", como resultado da sociedade ausente; aluno-cliente como negação dos elementares princípios docimológicos (não tarda e a publicitação da calendarização de testes chega ao primeiro ciclo para que um petiz convoque os advogados porque o professor o submeteu a um questionário de avaliação sem calendarização; isto sim, o nefasto "facilitismo"); uma década de devassa, mediatizada em primeira página, da carreira dos professores; indústria de exames nacionais, com os respectivos quadros de mérito e com a publicitação de resultados de crianças (é a preparação para a selva, dizem "especialistas da ordem contrária"); "supressão" de intervalos escolares; aulas de noventa minutos como receita do 5º ao 12º ano e em todas as disciplinas; mais alunos por turma; mais turmas por professor; terraplenagem do estatuto da carreira dos professores; agrupamentos de escolas como negação da gestão de proximidade e com aumento da hiperburocracia como factor ilusório de controle; legislação de disciplina escolar na lógica de um "tribunal dos pequeninos"; e por aí fora. Se nada de moderado, sensato e democrático acontecer, daqui por uma década voltaremos, seguramente, ao mesmo e, obviamente, aos culpados do costume.

 

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Quinta-feira, 20.10.16

 

 

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A notícia do Expresso de 12 de Março de 2016 sublinhava que a Finlândia era "um país sem exames nem inspecção, em que as mudanças só aconteciam de 10 em 10 anos, em que todos participavam na discussão e em que a expressão-chave era a confiança nos professores".

E é isto. 

Por cá é a indisciplina escolar, a desconfiança enraizada, a inabilidade na educação, a sociedade ausente, a escola a tempo inteiro, a discussão à volta de mais ou menos prova para "disciplinar" crianças, as avaliações externas centradas na produção de papelada medida às resmas e a "apatia" na participação democrática. O que levamos de milénio (onde ministros se acharam providenciais e plenipotenciários) instituiu o modismo taylorista, exportado pelos EUA para o Japão no inicio do século passado. Acrescentaram-se programas informáticos de empresas comerciais a dirigir modelos organizacionais. E depois, queremos mais mobilização e menos "saturação, exaustão e fuga" (burnout).



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Terça-feira, 05.04.16

 

 

 

 

A Direcção Regional de Educação de Lisboa convidou-me para falar sobre segurança escolar. Foi em Óbidos, na Casa da Música. Dei uma vista de olhos na papelada e não encontrei o certificado, mas tenho a certeza que foi na primavera de 2004. Quando me telefonaram, lembro-me de lhes ter perguntado: "Sobre segurança? Então?". "Porque a tua escola estava mergulhada em indisciplina e insegurança e hoje isso é mais do que residual". Respondi-lhes: "Ok. Obrigado. Mas o que vou dizer não é, provavelmente, aquilo que vocês querem ouvir" (pressentia o que se viria a passar a seguir no sistema escolar - começou a desenhar-se em 2002 - de perseguição aos professores, embora nunca imaginasse que fosse tão mau como foi).

 

Dei um vista de olhos pelos tópicos que utilizei e faço uma síntese com a ideia de apresentar alternativas à escola-industria e focado na boreout:

 

  • participação empenhada em diversos programas que envolveram a segurança na zona envolvente, nomeadamente com os projectos escola segura e Malhoa;
  • dados todos tratados em sistemas de informação construídos na escola;
  • construção e desenvolvimento de um núcleo de comunicação social que produz o website escolar, o jornal escolar e uma página na edição impressa do jornal local com mais audiência;
  • eliminação, mas eliminação mesmo, da má burocracia (vulgo papelada) e construção de horários escolares adaptados, mas adaptados mesmo, ao projecto educativo e aos transportes escolares dos alunos;
  • trabalho persistente e muito bem preparado ao nível da rede escolar, com a preocupação de reduzir o número de alunos por turma e de encontrar outras soluções de escolaridade para os alunos com um percurso a indiciar abandono escolar;
  • ausência de campainhas; 
  • intervalos durante as aulas de 90 minutos adequados à conveniência pedagógica e didáctica da responsabilidade de cada professor;
  • celebração diária dos aniversários de todos (o nosso quadro de mérito);
  • vasos com plantas todos os dias e não apenas nos dias das visitas institucionais;
  • papel higiénico, saboneteiras e secadores de mãos em todas as casas de banho;
  • regras simples, transparentes e exequíveis para os casos de indisciplina (começou com uma expulsão (embora a rede social não tivesse sido descurada), seguiram-se várias suspensões (em regime sumaríssimo e sempre em articulação com a associação de pais e com os encarregados de educação em causa) com leitura do texto da sanção em todas as salas de aula e em tempo útil, e nos últimos três anos nada disso aconteceu);
  • e, finalmente, o mais importante: a escola não é apenas inclusiva para os alunos (honra-nos muito que a DREL indique a escola para os alunos com necessidade educativas especiais) mas é-o também para os professores e para os funcionários (e isso significa confiança, mas confiança mesmo, e respeito pelas pessoas) como fazem as organizações bem sucedidas (mas só o modo como isso se faz dava para outra conferência). Temos todo o cuidado em proporcionar as melhores condições para a realização das aulas e nesta escola só resolve os problemas sozinho quem quer.

(1ª edição em 10 de Maio de 2010)

 

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Sábado, 12.03.16

 

 

 

A notícia do Expresso sublinha que a Finlândia é "um país sem exames nem inspecção, em que as mudanças só acontecem de 10 em 10 anos, em que todos participam na discussão e em que a expressão-chave é a confiança nos professores". Nem por acaso, um dos editores do blogue "ComRegras" (muito dinâmico nestes primeiros 15 meses), o Alexandre Henriques, informa que o seu trabalho de investigação sobre a indisciplina escolar atingiu o momento mais mediático da história do blogue.

 

E é isto.

 

Por cá é a indisciplina escolar, a desconfiança enraizada, a inabilidade na educação, a sociedade ausente, a escola a tempo inteiro, a discussão à volta de mais ou menos prova para "disciplinar" crianças, as "aulas inovadoras" como quem inventou a roda e a "apatia" na participação democrática. O que levamos de milénio (onde até ministros se acharam providenciais e plenipotenciários) instituiu o modismo taylorista, exportado pelos EUA para o Japão no inicio do século passado: um pensa e muitos executam; por cá acrescentaram-se os programas informáticos (software) de empresas comerciais (outsourcing), em "parceria" com programas de avaliação externa anteriores à sociedade da informação e do conhecimentoa dirigir os modelos organizacionais. E depois queremos mais mobilização e menos "saturação, exaustão e fuga" (burnout) dos profissionais.

 

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Quarta-feira, 21.10.15

 

 

 

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Do exercício de Nuno Crato ficam duas variáveis a corrigir (faliram na fundamentação, se é que ainda era preciso): alunos por turma e empobrecimento curricular. O seu ministério acentuou duas componentes críticas: degradação do estatuto dos professores (que se pagará durante muitos anos) e modelo, mega, de gestão escolar.

 

Lembrei-me da entrevista, na imagem, ao ex-MEC (12 de Julho de 2014) publicada no Observador. Andava-se à volta do elevado número de professores, uns 4 mil, que solicitaram a rescisão contratual; com um programa favorável a "fuga" atingiria uns 30 a 40 mil.

 

Crato culpou a indisciplina, mistificou assuntos sérios e contraditou-se. Foi óbvia a interrogação do jornalista: não devia então diminuir o número de alunos por turma em vez de aumentar? Crato tergiversou e revelou-se adepto do mercado escolar. Devia saber que onde esse mercado se instalou em Portugal (e pode ir à Suécia e afins), e considerando que o eduquês de Crato olha para os encarregados de Educação (EE) como "clientes-tout-court", os EE que mais contribuem para a indisciplina impõem a sua cultura e isso alastra-se numa sociedade ausente como a nossa.

 

A destruição do estatuto dos professores foi, é e será, a causa da "fuga" e só não concluiu assim quem nunca pôs os pés numa sala de aula. A profissionalidade, e a confiança democrática, dos professores não recebeu uma notícia positiva na última década e só com uma boa dose de cinismo se conseguiu argumentar com o "desgaste de uma profissão difícil".

 



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Segunda-feira, 14.07.14

 

 

 

 

 

 

 

Nuno Crato tem sido interrogado por jornalistas por causa do elevado número de professores que querem rescindir com o MEC. Ao que julgo saber, existem 93 milhões de euros para rescisões, mas as solicitações, cerca de 4000, já vão em mais de 400 milhões. E se as condições do programa fossem mais favoráveis, os números da "fuga" andariam pelos 30 a 40 mil.

 

Recebi um email com um link para o Observador donde tirei a primeira imagem. Escolhi para a segunda imagem, lá mais abaixo, uma parte da entrevista a Nuno Crato no último Expresso.

 

Nas duas entrevistas (até perecem uma só), Crato culpa a indisciplina e desresponsabiliza o aumento do número de alunos por turma. Aponta um número em que vale tudo: uma média de 22 alunos por turma no ensino não superior, na média da OCDE e que já se verificava em 2009. Ou seja, faz uma média incluindo as turmas do 1º ao 12º anos de escolaridade e faz uma espécie de mescla: turmas com alunos inibidores, turmas de cursos CEF, turmas de cursos profissionais, turmas regulares e turmas regulares de opções. Interroguem-se os professores e, se houvesse uma réstia de confiança nesses profissionais, saber-se-ia que as turmas têm excesso de alunos.

 

Estes assuntos exigem muita tecla, mas é óbvia a interrogação dos jornalistas: depois do que disse, não devia diminuir o número de alunos por turma em vez de aumentar? Claro que devia diminuir. Nenhuma turma devia funcionar com mais de 24 alunos em qualquer ciclo de escolaridade, as turmas com alunos inibidores da sua formação com 18 (para 2) ou 20 (para 1) e as turmas dos vocacionais, profissionais e opções com um máximo de 16 e em alguns casos 12. Mas já se sabe que Crato é para além da troika e que não tem coragem para o assumir. Limita-se a mistificar assuntos sérios.

 

O ministro revela, naturalmente, um apego à concorrência entre escolas. É adepto do mercado escolar. Devia saber que onde esse mercado já está instalado em Portugal, e se considerarmos que o eduquês menos sensato, como o de Crato, olha para os encarregados de Educação como "clientes-tout-court", os encarregados de Educação que mais contribuem para a indisciplina impõem a sua cultura às escolas que cada vez mais dependem da matrícula dos seus educandos. Isso é fatal e alastra-se numa sociedade demasiado ausente como a nossa.

 

A destruição do estatuto dos professores no que levamos de milénio é a causa principal da "fuga" e só não conclui assim quem não põe os pés numa sala de aula.

 

Sejamos claros: há mais de 10 anos que a profissionalidade dos professores não recebe uma notícia positiva e é preciso uma boa dose de cinismo para vir agora argumentar com o "desgaste de uma profissão difícil" depois dos cortes a eito para além da troika e de toda a tralha de eduquês II associada. E é ainda mais grave se considerarmos a campanha eleitoral do actual Governo que denunciou a confessada guerra aos professores perpetrada pelos executivos de Sócrates.

 

 

 

 

 

 

 

 



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Terça-feira, 08.04.14

 

 

 

 

 

Quando há pouco tempo fiz este post a propósito de uma espécie de investigação de Maria Filomena Mónica e em que escrevi que ""Tudo o que o Ministério da Educação manda por "e-mail" para as escolas é inútil. Tudo!", ou o professor "abaixo de cão", é uma discussão para acompanhar com curiosidade. Tenho uma dissertação sobre o assunto e não quero reafirmar o "tudo"; mas convenço-me que anda lá perto, que a maioria da informação obtida é inútil e solicitada repetidamente." estava longe de imaginar que umas opiniões sobre o tratamento da informação nas organizações escolares também incluíam conclusões devastadoras para a disciplina nas salas de aula das escolas públicas. O que podia ser uma defesa de uma causa tão nobre pode transformar-se num testemunho de um caos que está por provar.

 

Há indisciplina, mas também continuam a existir milhares de sinais positivos todos os dias. Os diários de duas professoras, quatro alunas e uma mãe são uma amostra sempre interessante, mas com reduzido valor empírico numa área muito difícil de investigar. Digamos que do iluminismo à ciência actual vão algumas premissas que devem ser consideradas. Foi assim que li as breves observações que o Paulo Guinote fez a algumas conclusões de Maria Filomena Mónica. A socióloga e historiadora respondeu de forma deselegante e o Paulo ripostou assim.

 

 

 

 



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Sexta-feira, 04.04.14

 

 

 

 

 

 

 

 

Leia aqui

 

 

 

 

 



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Quarta-feira, 12.03.14

 

 

 

 

Um blogue é também um registo algo intimista que nos permite arquivar acontecimentos para memória futura.

 

No dia 18 de Dezembro de 2013, e conforme o prometido, voltei à Mais Oeste Rádio para uma hora de conversa com Jorge Santos (um ex-aluno dos primeiros tempos nas Caldas da Rainha e é mesmo uma viagem no tempo ser entrevistado nessas circunstâncias) e com o José Ramalho do CCC das Caldas da Rainha com quem me habituei a ter conversas muito interessantes. A entrevista acabou por se prolongar por duas horas e passei um bom bocado. O Jorge Santos fez o favor de colocar o áudio no youtube e de me enviar os links (um para cada hora) que permite ouvir e arquivar.

 

 

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Sábado, 25.01.14

 

 

 

 

 

As últimas semanas mediatizaram a violência entre jovens e jovens adultos. Li testemunhos impressionantes sobre "gangues de boas famílias que lutam quase até à morte" (que raio de título), numa peça onde também se lê que "(...)Às mãos do cirurgião plástico Biscaia Fraga chegam “cada vez mais” adolescentes que procuram disfarçar as cicatrizes deixadas por rixas violentas. “Querem corrigir sobretudo lesões no nariz, nos lábios, mas também cicatrizes na cara e no pescoço”, revela ao SOL o especialista, lembrando que até há cinco anos estes casos eram “raríssimos”.(...)".

 

Há uns anos que proliferam os casos de indisciplina e violência nas escolas. Não ouso classificar estes sintomas, mas tenha a certeza que a nossa sociedade era muito mais solidária e pacífica nas décadas de oitenta e noventa do século passado.

 

Estou a ver um documentário sobre praxes na RTP1 que teve impacto internacional. Estou perplexo com o que estou a ver.

 

Escolhi dois textos sobre o assunto de quadrantes políticos diferentes. O denominador é comum.

 

 

Pedro Bacelar de Vasconcelos.

 

 

 

 

Termina assim:

 

 

 

Vasco Pulido Valente.

 

 

E termina assim:

 

 

 



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Segunda-feira, 25.11.13

 

 

 

 

 

(Este post é de 31 de Janeiro de 2012)




Alguém deixou a revista da última edição do Expresso em cima da mesa e lembrei-me de ir ao site do semanário e digitalizar uma parte da capa.

 

Há inúmeros testemunhos, e algumas evidências empíricas, que atestam a natural e histórica irreverência dos adolescentes. Mas há diferenças entre irreverência e falta de Educação.

 

A falta de confiança nos professores desenhada pelas políticas escolares dos últimos anos foi desastrosa e contribuiu para o clima vigente. Está comprovado. Reverter a situação leva tempo e requer acções.

 

Como tenho defendido em ideias como esta, a sociedade, através do combate à ghuetização social e à exigência de mais tempo para os petizes, desempenha um papel nuclear. É fundamental mediatizar um ranking concelhio com os números do abandono e do insucesso escolares nas primeiras idades da escolarização.

 

Tenho por aqui opiniões interessantes do filósofo espanhol Fernando Savater, publicadas em 10 de Novembro de 2006.

 

 

"As crianças não encontram em casa a figura de autoridade", que é um elemento fundamental para o seu crescimento, disse o filósofo Fernando Savater.

 

Para Savater, os pais continuam "a não querer assumir qualquer autoridade", preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos "seja alegre" e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinador  quase exclusivamente para os professores.

 

(...)"são os próprios pais e mães que não exerceram essa  autoridade sobre os filhos que tentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os", acusa.

 

(...)Muitos professores estão "psicologicamente esgotados" e se transformam "em autênticas vítimas nas mãos dos alunos".

 

(...)"A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara", afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, "uma oportunidade e um privilégio".

 

(...)as crianças não são hoje mais violentas ou mais  indisciplinadas do que antes; o problema é que "têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos".

 

(...)Daí que, mais do que reformas dos códigos legislativos ou das normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade.







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Segunda-feira, 14.10.13

 

 

 

 

 

Percorri alguns blogues e jornais online e dei com duas notícias desconcertantes: um professor que diz que está "preparado fisicamente para actuar se um aluno desobedecer" e um caso muito grave de um aluno que é suspeito de "ter esfaquado uma colega e uma funcionária". É um dia atípico em termos mediáticos nos assuntos do sistema escolar, mas será um qualquer sinal.

 

No primeiro caso, regista-se a existência de um professor adepto do docente-especialista-em-wrestling. É, no mínimo, uma novidade. Há uns anos fiz um post com a seguinte pergunta: pode um invisual ser professor? Terminei o post assim: "A resposta, mesmo que se fique pela dúvida, pode atestar da qualidade da nossa sociedade". Não sei se o docente-especialista-em-wrestling defende a opção pelas artes marciais como forma de incluir todos os professores. É que nem todos os professores são tão fortes como este inesperado lutador.

 

O segundo caso é mais perturbante. Pode até ser um fenómeno isolado e que não se repita tão cedo. Assim se espera. Mas com o empobrecimento em curso associado ao aumento do número de alunos por turma, ao aumento dos horários dos professores nos últimos dois anos e à dificuldade da gestão de proximidade, não nos devemos espantar se o clima de desesperança que atravessa o sistema escolar vá para além do abandono e do insucesso escolares em curso.

 

 

 



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Terça-feira, 31.01.12

 

 

 

 

Alguém deixou a revista da última edição do Expresso em cima da mesa e lembrei-me de ir ao site do semanário e digitalizar uma parte da capa. Há inúmeros testemunhos, e algumas evidências empíricas, que atestam a natural e histórica irreverência dos adolescentes. Mas há diferenças entre irreverência e falta de Educação.

 

A falta de confiança nos professores desenhada pelas políticas escolares dos últimos anos foi desastrosa e contribuiu para o clima vigente. Está comprovado. Reverter a situação leva tempo e requer acções, que vão da avaliação de professores à gestão escolar e passando pelo estatuto do aluno. Mas não chega. Como tenho defendido em ideias como esta, a sociedade, através do combate à ghuetização social e à exigência de mais tempo para os petizes, desempenha um papel nuclear. É fundamental mediatizar um ranking concelhio com os números do abandono e do insucesso escolares nas primeiras idades da escolarização.

 

Tenho por aqui opiniões interessantes do filósofo espanhol Fernando Savater, publicadas em 10 de Novembro de 2006.

 

"As crianças não encontram em casa a figura de autoridade", que é um elemento fundamental para o seu crescimento, disse o filósofo Fernando Savater.

 

Para Savater, os pais continuam "a não querer assumir qualquer autoridade", preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos "seja alegre" e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinador  quase exclusivamente para os professores.

 

(...)"são os próprios pais e mães que não exerceram essa  autoridade sobre os filhos que tentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os", acusa.

 

(...)Muitos professores estão "psicologicamente esgotados" e se transformam "em autênticas vítimas nas mãos dos alunos".

 

(...)"A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara", afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, "uma oportunidade e um privilégio".

 

(...)as crianças não são hoje mais violentas ou mais  indisciplinadas do que antes; o problema é que "têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos".

 

(...)Daí que, mais do que reformas dos códigos legislativos ou das normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade.




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Terça-feira, 08.11.11

 

 

O desenho é do Antero. 

 

Não gosto de mediatizar coisas destas, porque expõe crianças e jovens por causa da má educação dos seus deseducadores. Mas os tempos são o que se sabe e temos de ajudar a alterar o estado de sítio educativo que a senhora do desenho acentuou. 

 

Aluno copiou em teste com ajuda da mãe através de SMS

 

Um aluno do 5.º ano do Agrupamento Vertical Dr. Francisco Gonçalves Carneiro, em Chaves, foi surpreendido pela professora a copiar num teste, com a ajuda da mãe, que lhe enviava mensagens escritas de telemóvel com as respostas das perguntas.

 

Contributo da Ana Mendes da Silva.



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"O CEO da Covey Leadership Center e líder do Global Speed of Trust Practice já integrou a lista dos 25 americanos mais influentes da revista Time e esteve em Lisboa para a Happy Conference, onde falou sobre a importância vital da confiança no poder das organizações." (esta frase é da edição impressa da Pública e foi uma cortesia do José Mota).

 

A confiança poderá ser a nova moeda para a economia. Nos sistemas escolares é a palavra chave desde há muito. A confiança nos professores é decisiva para eliminar a má burocracia. A palavra de um professor vale menos que um qualquer relatório, mesmo que seja um copy and paste. O pior da quebra de confiança reflecte-se na indisciplina na sala de aula. A constante degradação mediática da imagem dos professores só é superada pelas políticas que os desacreditam no poder das organizações. É um ranking ensandecido. As crianças e os jovens intuem o estado de sítio. Tudo começa no estatuto do aluno, passa pelo dos professores e pela sua avaliação e prossegue nos modelos de gestão escolar. Se para Stephen Covey é esse o caminho que existe, para o sistema escolar trata-se de o recuperar. Quanto mais tarde o fizermos, mais depauperada ficará a democracia.



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Má Sorte A Minha…



publicado por paulo prudêncio às 09:50 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 20.08.11

 

 

 

... é o título do último livro da jornalista Bárbara Wong. A sinopse diz assim:


"Qualquer um vai para professor. Os professores não sabem ensinar, na realidade não se preocupam com os alunos. Têm uma boa vida, estão sempre de férias. Não querem ser avaliados. Os pais indignam-se. Como é possível que haja miúdos a falar ao telemóvel dentro da sala de aula? O meu filho não bateu no professor! Bárbara Wong, jornalista com vários anos dedicados à área da Educação, falou com professores, pais e estudantes de todo o país para conhecer as suas histórias. O resultado é este livro perturbador que nos conta o que verdadeiramente se passa na sala de aula dos nossos filhos. Sem tentar desculpabilizar ou demitir os professores das suas funções, porque, como em todas as profissões, há bons e maus profissionais. Mas pondo o dedo na ferida. Ao longo destas páginas vamos conhecer Jonas, que trabalhou até ao último dia da sua vida com um cancro na língua, depois de várias juntas médicas e recusas de reforma, Adriana, que foi agredida por uma mãe por ter proibido o aluno de atender o telefone na sala, etc."

A Minha Sala de Aula é uma Trincheira de Bárbara Wong"


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Sábado, 27.11.10

 

 

Convidaram-me, enquanto presidente de Conselho Executivo de uma escola portuguesa, para fazer uma conferência sobre segurança escolar. Já dei uma visto de olhos na papelada e não encontrei o certificado, mas tenho quase a certeza que foi na primavera de 2004. Foi, seguramente, em Óbidos, na Casa da Música, e organizada pela Direcção Regional de Educação de Lisboa.

 

Quando me telefonaram a fazer o convite, lembro-me de lhes ter perguntado: "Sobre segurança? Porquê eu?". "Porque a tua escola estava mergulhada em indisciplina e em insegurança e hoje tudo isso é mais do que residual". Respondi-lhes: "Como habitualmente, só vou dizer o que penso o que provavelmente não é aquilo que vocês querem ouvir "(também pressentia o que se viria a passar a seguir no sistema escolar (começou a desenhar-se em 2002) de perseguição aos professores, embora nunca imaginasse que fosse tão mau como foi).

 

Dei um vista de olhos pelos tópicos que utilizei e faço uma síntese:

  • participação empenhada em diversos programas que envolveram a segurança na zona envolvente da escola, nomeadamente com os projectos escola segura e malhoa;
  • dados todos tratados em sistemas de informação construídos na escola;
  • construção e desenvolvimento de um núcleo de comunicação social que produz o website escolar, o jornal escolar e uma página na edição impressa do jornal local com mais audiência;
  • eliminação, mas eliminação mesmo, da má burocracia (vulgo papelada) e construção de horários escolares adaptados, mas adaptados mesmo, ao projecto educativo e aos transportes escolares dos alunos;
  • trabalho persistente e muito bem preparado ao nível da rede escolar, com a preocupação de reduzir o número de alunos por turma e de encontrar outras soluções de escolaridade para os alunos com um percurso a indiciar abandono escolar;
  • ausência de campainhas;
  • intervalos das aulas de 90 minutos adequados à conveniência pedagógica e didáctica da responsabilidade de cada professor;
  • celebração diária dos aniversários de todos (o nosso quadro de mérito);
  • vasos com plantas todos os dias e não apenas nos dias das visitas institucionais;
  • papel higiénico, saboneteiras e secadores de mãos em todas as casas de banho;
  • regras simples, transparentes e exequíveis para os casos de indisciplina (começou com uma expulsão (embora a rede social não tivesse sido descurada), seguiram-se várias suspensões (em regime sumaríssimo e sempre em articulação com a associação de pais e com os encarregados de educação em causa) com leitura do texto da sanção em todas as salas de aula e em tempo útil, e nos últimos três anos nada disso aconteceu);
  • e, finalmente, o mais importante: a escola não é apenas inclusiva para os alunos (honra-nos muito que a DREL indique a escola para os alunos com necessidade educativas especiais) mas é-o também para os professores e para os funcionários (e isso significa confiança, mas confiança mesmo, e respeito pelas pessoas) como fazem as organizações bem sucedidas (mas só o modo como isso se faz dava para outra conferência). Temos todo o cuidado em proporcionar as melhores condições para a realização das aulas e nesta escola só resolve os problemas sozinho quem quer.

 

Registei o apoio da plateia e um evidente embaraço nos dirigentes que comigo ocupavam a mesa do palco.

 

(1ª edição em 10 de Maio de 2010)



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Sábado, 31.07.10

 

 

Foram anos a fio de infantilização da educação e do ensino - com a agravante dos últimos quatro onde se desautorizou de forma inaudita o papel democrático da escola pública - para ainda termos de aturar mais esta pérola do eduquês lusitano. Sabemos que há sociedades onde isto é possível, mas, e muito francamente, introduzir uma coisa destas por aqui, e nesta fase, pode ser desastroso. Das três uma: são efeitos do calor que se tem feito sentir na capital, está aberta a silly season ou a estratosfera está em plena laboração.

 

 

 



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Sábado, 03.07.10

 

 

 

Foi daqui

 

 

 

O mundo das organizações empresariais, por gerarem lucros financeiros em muitos casos incomensuráveis mas também por proporcionarem benefícios inquestionáveis para o aumento da esperança e da qualidade da vida humana, ganharam preponderância em relação à gestão de outro tipo de instituições, considerando-se nesse grupo os estudos relativos aos diversos níveis dos sistemas escolares.

 

Sendo assim, os pressupostos que orientavam a vida das primeiras eram quase copiados e impostos ao metabolismo das segundas; muitas vezes com resultados desastrosos, como aqui é referido.

 

Também a evolução do pensamento político, e dos respectivos sistemas, afectou de modo significativo as relações dentro das salas de aula e as condições que as envolvem. Houve modas político-sociais ou de terapia psicológica que se transformaram em correntes de ensino; como aqui, se lhe interessar esse conhecimento.

 

Os acontecimentos recentes em Portugal trouxeram de novo para a agenda mediática a questão da autoridade dos professores. Começa mesmo a ser recorrente.

 

Essa discussão faz eco na blogosfera. Alguns bloggers mantêm o assunto na sua linha editorial e fizeram nos últimos dias posts a não perder: Paulo Guinote, aqui, Ramiro Marques, aqui, José Luiz Sarmento, aqui e Mário Machaqueiro da APEDE, aqui.

 

Tenho dedicado, naturalmente, vários posts ao assunto e não me canso de repetir: (...)Vem isto a propósito de outro clássico da vida das sociedades: a recuperação da autoridade (por parte dos adultos em relação às crianças e aos jovens) na vida das escolas e não só, claro. No que se refere ao quotidiano das nossas escolas, pode dizer-se assim: a autoridade é também um direito do aluno; de todos os alunos, salientando-se que nesse grupo estão incluídos os que têm mais vontade em aprender. E isso, o exercício da autoridade, deve acontecer com os professores mais capazes de liderar e com os professores menos capazes de liderar. E por mais voltas que dermos, tudo começa na casa de cada um. Quando não começa, a escola tem de o impor: com regras simples e claras e sem tibiezas. Mas, para isso, a escola não pode estar só nem a tempo inteiro: é isso que as crianças e os jovens esperam e desejam."

 

Não há receitas infalíveis para a liderança e há muitos aspectos que podem ser aprendidos. O link que indiquei do Paulo Guinote faz essa abordagem.

 

Mas há uma associação que se relaciona com o desvalorização actual do ensino e com a filosofia taylorista de gestão das organizações e das pessoas que teve efeitos nefastos e que contaminou os sistemas escolares.

 

Podemos considerar ainda os exemplos mais conhecidos de empowerment e de accountability que mais não eram que as sedutores e bem-pensantes ideias de "dou-te responsabilidades mas quero a respectiva prestação de contas". E estas asserções, lançadas no universo escolar com um acompanhamento mediático que insinuava a "definitiva e corajosa solução do problema", trouxeram um clima social propício à desautorização dos professores, principalmente dos mais frágeis.

 

É precisamente por tudo o que foi descrito, e por se perceber que a forma da sala de aula estar imune a modismos mas também porque tem de recuperar a justificação para a sua existência, é que muitos defendem que a única saída é a que indica um ensino centrado nos conteúdos, devendo esta preposição ser lida não apenas no sentido da mediação mas também da inter-transformação (sei que é mais uma palavrão, mas encontra a sua explicação num dos links indicados neste post) da relação pedagógica.


 

(1ª edição em 14 de Março de 2010)



publicado por paulo prudêncio às 20:00 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar


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