Portugal está irreconhecível e o sistema escolar não escapa a esse estado desolador e desesperançado. Vale o privilégio de se lidar com crianças e jovens, apesar de também transportarem o ambiente do país. Batemos no fundo.
Antes a inundação com a eleição do Papa do que com a hermenêutica do prefácio para o roteiro número não sei quantos.
Quem governa o que quer que seja em Portugal, tem de optar entre trabalhar mesmo ou esgotar o tempo em tarefas de representação. Esta diferença explica muito da nossa bancarrota, uma vez que o artificialismo domina a vida pública.
Não se pense que a tragédia escapa aos cargos de Governo. São inúmeros os exemplos de ministérios dirigidos por assessores provenientes dos aparelhos partidários, principalmente dos que estruturaram o voto na democracia. Há muito que é assim. Essas máquinas, peritas em vencer eleições internas nos partidos, viciam-se no jogo dos favores e dos lugares, não desenvolvem qualquer profissionalidade, a sociedade que dominam está submersa na clubite e com a agravante de ter uma aura de grande organização. Em regra, convencem-se que prestam um inestimável serviço à democracia e que são uma espécie de casta superior.
Há uma epidemia que considera o sistema escolar uma coisa insólita e longínqua. Essa moda, que se dispersa rapidamente numa população, não racionaliza a ideia de se prestar grande atenção ao escolar e atinge o grau mais elevado de contaminação quando se confronta com quem faça disso profissão pública ou, pior ainda, uma causa. É um fenómeno com dúvidas agudas na literacia associada às pessoas, à política, ao social, e, em auge infeccioso, à democracia.
É uma sociopatia que não manifesta qualquer empatia para com os seus semelhantes ou de atenção para com os seus problemas. É exímia em manipular factos e incapaz de assumir erros. Pode, em aparente desespero e de forma cínica, admitir “falhas de comunicação".
Usa modelos ideológicos com diagramas mentais inflexíveis que desprezam a consistência cultural e histórica das sociedades. Na origem está sempre a estranheza com o humano.
"O truque é não nos enganarmos a nós próprios
acerca de certas coisas: pequenas ilhas rochosas no mar
das próprias desilusões. Agarrá-las e não se afogar
é o máximo que um ser humano pode alcançar".
Elias Canetti
Nobel da literaura em 1981
"Poder-se-á reduzir a humanidade a uma mera soma estatística de cidadãos-consumidores que se vão entredevorando pelo tédio e pela inveja?" É difícil generalizar como Gilles Châtelet, mas prevalece a impressão que são os consumidores, e não os empresários, quem faz os mercados. Os sábios, como hoje se classificam pessoas como Steve Jobs, "limitaram-se" a antecipar o que os consumidores desejariam ou criaram-lhes o desejo? Ou combinaram as duas?
... e ainda na sequência do "escurinho".
O politicamente incorrecto tomou de vez o lugar do politicamente correcto. Uma pessoa que tenha um exercício honesto, ou que defenda essa condição, desactualizou-se. Os politicamente correctos da actualidade são uns brincalhões e umas brincalhonas. São uma espécie de invertidos: existem na alteridade e sem espelho.
O poder absolutista vigente trata as pessoas como mentecaptas e elas tardam em dar conta.
Que me lembre, a expressão "Paradigma perdido" tornou-se usual com Edgar Morin e com a crítica do afastamento do homem em relação à natureza; escrito assim para simplificar.
Quando tanto se fala no desnorte em relação à selecção das áreas para a reindustrialização (que raio de palavrão), parecia-me curial regressar ao paradigma de Morin donde nunca se deveria ter saído: a cadeia de abastecimento no sentido mais lato, considerando o homem em todas as suas dimensões; tenho ideia que, por esse caminho, não haveria tantas bolhas originadas pelos negócios financiados pela banca que produzem muito para além da cadeia referida e que parecem dirigir-se também a outros habitantes do sistema solar.
Fazer bem exige boas ideias (com princípio, meio e fim), trabalho e tempo. São raríssimos os exemplos de geração espontânea. Uma das causas do nosso atraso é que quase que só somos bons a apagar, e a atear, fogos.
Somos uma nação de adultos ressentidos.
Fico com a sensação que a moderna globalização se caracteriza tanto por uma aparente velocidade como pelo excesso de presente, de efémero, de ubiquidade e de instantâneo. Esse estado remete-nos para a intemporalidade do conceito de que tudo o que é sólido se dissolve no ar. Pode ser um tempo adequado para o vagar, para a reflexão e para a construção do que verdadeiramente interessa.
Li, em Bertrand Russel, aproximadamente o seguinte: sempre que um grupo não consegue o seu objectivo imediato, projecta a frustração em alguém que classifica como ingénuo; em regra, esse alguém ocupa a posição de seguido-não-controlável que alguns membros do grupo desejam para si e que nunca realizam.
Também é comum classificarem como agenda escondida os silêncios dos seguidos-não-controláveis.
Pelo que se vai confirmando, os últimos Governos é que não estão cá com coisas.
Lembro-me duma entrevista a José Pinto dos Santos no canal um da RTP: "certo dia, numa reunião de um conselho de administração de uma grande empresa portuguesa digo, a propósito de uma proposta de outra pessoa - por sinal minha amiga -: isso não tem pés nem cabeça; deixou de me falar."
Queria o entrevistado ilustrar a ideia de que em Portugal é muito difícil discordar.
Recordei-me disso a propósito de uma outra coisa que li do Padre António Vieira, em "Sermão de São Francisco Xavier Dormindo", e que também não deixa de ser verdadeira quando as mesmas pessoas se cruzam em reuniões; em Portugal e no resto do mundo.
"Os sonhos são uma pintura muda, em que a imaginação a portas fechadas, e às escuras, retrata a vida e a alma de cada um, com as cores das suas acções, dos seus propósitos e dos seus desejos."
Preocupa-me o radicalismo ideológico de Passos Coelho que ficou ontem bem patente na entrevista à TVI. Lembro-me sempre dos pensadores da mediatrix que se interrogam se nos tempos actuais podia ocorrer uma revolução de forma tão rápida que nem déssemos por ela (veremos como será a contra-revolução).
O primeiro-ministro continua convencido que vai criar um "mundo novo" e até me parece cada vez mais crente, apesar dos frequentes sinais de fuga quando o caminho se torna apertado (a evasão é sempre um boa maneira de dizer que não o deixaram trabalhar e de poder recolher louros qualquer que seja o futuro).
Como noutras circunstâncias históricas, estas personagens providenciais e purificadoras podem ter finais trágicos e deixarem atrás de si um rasto de terra queimada.
São poucas as relações com pessoas e inúmeras as relações com interesses.
A tolerância com convicção é um exercício tão essencial como o ar que respiramos. A tolerância como soberba que nos permite receber o agrado dos outros é indisfarçável em curto prazo. Resiste ainda em menos a tolerância que se mascara para servir propósitos eleitorais. Sócrates e Passos são os exemplos mais recentes da terceira asserção na política, mas os aprendizes de feiticeiro espalhados pelo território parecem intolerantes com a aprendizagem.
"Haverá alturas em que nada podemos fazer para impedir a injustiça
mas nunca poderá haver uma altura em que desistimos de protestar."
ELIE WIESEL
Cortesia da Ana Silva
Encontrei, no facebook de João B. Serra, uma citação de José Saramago, Viagem a Portugal (Apresentação) que diz assim:
"Viaje segundo um seu projecto próprio, dê mínimos ouvidos à facilidade dos itinerários cómodos e de rasto pisado, aceite enganar-se na estrada e voltar atrás, ou pelo contrário, persevere até inventar saídas desacostumadas para o mundo"
"O truque é não nos enganarmos a nós próprios
acerca de certas coisas: pequenas ilhas rochosas no mar
das próprias desilusões. Agarrá-las e não se afogar
é o máximo que um ser humano pode alcançar".
Elias Canetti
Nobel da literaura em 1981
Elegemos a ideia de singularidade, testámos o devir do ser qualquer e construímos o imaginário do insuperável. Não queremos um igual, precisamos do carácter universal do indivíduo e ansiamos pela descoberta da coisa comum (a religião, a ideologia política, a filiação associativa e a identidade por género, como se diz agora).
Existe a diversidade regional ditada pela geografia e pela história. Portugal é uma zona semi-periférica e tem as suas categorias: uma densidade inigualável de inhos e de supervisores. Fiquemo-nos pelos inhos .
A utilização acentuada dos diminutivos (somos únicos no assunto) na nossa Educação tem de fazer efeito e pode dar maus resultados.
Somos uns adultos com egos elevados. Fui fazer umas pesquisas por ego-história convencido que era uma invenção nossa. Mas não: Freud, e o seu eu psicanalítico, influenciou meio-mundo.
Mas não desisto e passo a sentenciar: temos de ser os melhores do bairro. É uma alta competição generalizada. Reconhecer (que é diferente de anunciar) o sucesso alheio magoa. Parece que o mote é viver na alteridade.
Ai de quem se distinga, ai de quem faça bem aquilo que sempre se espera que corra mal, ai de quem fuja do lugar comum e não se pareça com a formatação estipulada pelo horizonte do nosso quarteirão. Portugal sofre de uma dilatação tal dos egos que o espaço público tornou-se uma impossibilidade e o exterior passou a ser o sítio oxigenado; a não ser que se consiga viver fora cá dentro ou que a queda-sem-fim nos garanta alguma redenção.
Já usei algumas ideias deste texto noutro post.
A rotina é antiga: tenho uma ideia, lanço o título para o post, escrevo as ideias-chave e temporizo a publicação para muito mais tarde. A supressão do tempo leva a que, por vezes, a publicação aconteça nessa versão rascunho. Aconteceu há pouco com o post "dois modos" e peço desculpa. Tentarei que não volte a suceder.
O tempo real é um sinal da autoritária aceleração do tempo nas sociedades actuais, mas é também o principal indicador da qualidade de um sistema de informação de uma organização. O tempo entre a obtenção e o fornecimento da informação é real ou não é transparente. A sua optimização desacelera o tempo de cada uma das pessoas.
1ª edição em 1 de Março de 2012.
O estado psicológico dos portugueses é de rebelião, embora, e pelo menos por agora, se fique pela contenção interior e pelo desabafo aos mais chegados.
Há dias, e integrado numa gincana pedonal pelo centro urbano da cidade, deparei-me com uma quantidade de adultos que me surpreendeu. Como raramente passo por ali nos dias de semana, e ainda por cima entre as 11h00 e as 13h00, fui andando, acompanhado por um grupo de alunos, e ia cumprimentando pessoas que não via há muito. Não foi difícil perceber que estava na presença de pessoas desempregadas e amarguradas.
Voltei, hoje, ao centro da parte da tarde e deparei-me com o mesmo flagelo. Se acrescentar a atmosfera arrepiante que se vive nas escolas, também não será difícil concluir que qualquer coisa vai ter de acontecer.
Portugal tem uma população despovoada de esperança e que avança, solitária e revoltada, à espera da implosão do que existe e na crença salvífica de uma força externa como sucedeu recentemente com a troika abençoada por quem manda na Europa; alguns até saudaram o acontecimento. Não será assim. A pergunta inevitável brota insistentemente: vivemos a normal brutalidade das decadências?
Se os tempos são propícios à eliminação da autenticidade e à hipocrisia, vírus alimentado no autoritarismo, no apontar de dedos e no salve-se quem puder, ainda podemos acreditar que muito se deverá ao nosso comportamento e à nossa capacidade para resistir.
1ª edição em 3 de Julho de 2012
O que vi nestes dias, e na relação com o site da DGRHE, impõe a seguinte reedição:
Não sei se o caso France Telecom foi consciente. Não tenho dados para o veredicto. Do mesmo modo, permito-me dar lugar aos que especulam que o que se viveu em Portugal nos últimos anos não foi premeditado embora com resultados igualmente desastrosos. O que mais me impressionou neste período, e que me oxigenou a não desistência, foi a generalização do medo. O pavor de existir é a mais nefasta herança desta governação.
A má burocracia corporizada em amontoados de grelhas anula o indivíduo e o seu inatismo cooperativo e gregário. Institucionaliza o formulário com campos sem fim e em que o erro num deles pode sentenciar a reprovação, a vergonha e a imobilidade na progressão na carreira. Sobrecarregar o indivíduo com burocracia associada a uma pirâmide clientelar e preenchida por uma ficção em forma de ferro, venera a bajulação, exclui a dignidade e impede qualquer veleidade à inovação, à inteligência e ao primeiro atributo do conhecimento da razão: a liberdade. É a pensar na liberdade que votarei e na esperança que este trágico capítulo se feche.
(1ª edição em 3 de Junho de 2011)
Abril começa, agora, com letra minúscula? Continuo a escrever os meses com a letra maiúscula e principalmente Abril.
Não uso maiúsculas quando escrevo algo mais a sério ou se estou zangado e até me surpreende quem o faz. Acabei de ver o tema do prós e contras desta noite que, para não fugir aos sinais dos tempos, está literalmente escrito assim:
"É a grande resposta que o mundo esperava!
A descoberta da primeira partícula muda a ideia que temos do universo.
Nada será como dantes.
Mas qual é a verdadeira importância do Bosão de Higgs?
Como interfere na nossa vida…
na nossa consciência….
e mais que tudo… NA EXISTÊNCIA DE DEUS.
Cientistas, homens de Deus e filósofos, todos juntos no maior debate da televisão portuguesa.
Quem somos nós?"
Nos tempos que estamos a viver, dá ideia que o inferno estará reservado para os que se mantiverem neutros.
O Caos toma assento como árbitro.
E o seu juízo apenas agrava
a querela que assegura o seu reinado.
Acima dele, é o Acaso o juiz supremo...
Encontrado num pedaço de papel.
A desesperança parece dilacerar o sistema escolar e os professores não escapam à voracidade dos tempos. É impossível não ver o que nos rodeia.
Se o caos nos derruba e nos impele para descrer, se nos faz desaparecer na nuvem solitária, é humana a possibilidade da desistência.
O mergulho no caos em forma de crise não se esgota nos colectivos e nos respectivos mecanismos de controle.
O desafio maior coloca-se quando nos atinge na pele e nos fere a alma. É aí que crescemos e que nos rompe o sentimento de injustiça. O exercício da esperança é a alternativa que se afirma no empreendimento da resistência.
A legitimidade democrática atribui poderes que permitem tomar decisões que influenciam a vida das pessoas e das organizações. Há decisores eleitos que se sentem empossados de um poder sem limites, dando crédito à seguinte expressão: a melhor forma de conhecer o carácter de alguém é dar-lhe um qualquer poder.
Foi assim em 2005 em Portugal, em que uma maioria absoluta se viu em circunstâncias majestáticas e beneficiou, durante três anos, de uma incontestável autoridade. É precisamente nesses momentos que o atrevimento se pode manifestar de forma arrasadora (sim, pesei bem o adjectivo), como foi o caso de José Sócrates e Maria L. Rodrigues no sistema escolar.
Dá ideia que a presente maioria beneficiou de um período imperial muito inferior e isso significa que aprendemos alguma coisa com os erros. Mas quem estudar com atenção o actual modelo de gestão escolar, verificará que se abrem portas a que atrevimentos semelhantes, mais ou menos legitimados pelos votos, coloquem as nossas escolas em estado de sítio.
É sempre bom recordar que a sociedade portuguesa é em Portugal, que não eliminámos o analfabetismo no século XVIII e que temos a organização territorial mais caótica do outrora chamado mundo desenvolvido.
Se associarmos a "ausência" de sociedade na Educação às políticas em curso de gestão do sistema escolar, não nos devemos admirar com a subida das taxas de insucesso e abandono. E para além das taxas, subirão os indicadores subjectivos do insucesso e os níveis de cooperação e de mobilização dos profissionais das escolas.
Apesar de estarmos preenchidos por sons, a supressão do tempo não deixa espaço para a audição de obras musicais longas. É uma consequência da absolutização do presente e da ausência de futuro. Temos pressa e andamos em permanente dívida de tarefas. Começamos uma e ficamos com a sensação que há uma mão cheia à nossa espera.
Estava à espera do sinal verde na passadeira quando senti o som de um painel publicitário. As imagens não eram suficientes e alguém acrescentou uma qualquer melodia. É assim nos elevadores, nas casa de banho públicas e por aí fora. Não escapamos ao desassossego da ubiquidade musical e eliminámos o silêncio.
Dirigia-me a um espaço de restauração onde é habitual esperar por uma sessão de cinema e ouvir um pianista. Nos últimos tempos o lugar do músico ficou vazio. O país empobrece, as "inutilidades" não resistem à erosão e o silêncio torna-se ensurdecedor.
A pontualidade de um professor é um indicador de eficiência que pode aumentar o tempo de aprendizagem dos alunos. Se a repetição é um critério insubstituível para quem quer aprender, seria quase verdadeira a equação que indicaria a eficiência como directamente proporcional à eficácia. Não é exactamente assim e ainda bem.
Por vezes, há quem consiga ser eficaz num curto período de tempo e ensine aquilo que em horas sem fim não se conseguiu aprender. Algo parecido pode acontecer no exercício de cargos. Quando a falta de vocação (que é sempre um sinónimo gentil para a impreparação), de eficácia portanto, é notória, não é aconselhável o aumento do tempo de permanência em exercício. Em bom português, diríamos assim: quando há uma clara tendência para o disparate, as organizações suspiram por longos e frequentes períodos de ausência enquanto o desejado epílogo não acontece.
"Poder-se-á reduzir a humanidade a uma mera soma estatística de cidadãos-consumidores que se vão entredevorando pelo tédio e pela inveja?" É difícil generalizar como Gilles Châtelet o fez, mas prevalece a impressão de que quem faz os mercados são os consumidores e não os empresários. Os sábios, como hoje se classificam pessoas como Steve Jobs, "limitaram-se" a antecipar o que os consumidores desejariam ou criaram-lhes o desejo? Ou combinaram as duas pulsões?
Já havia História mais do que suficiente para que os eleitores tivessem aprendido que é elementar desconfiar de candidatos sem contacto com a realidade. Os erros de casting penalizam e a sua repetição resulta, normalmente, em tragédia.
A incompetência associada à soberba nunca dá o braço a torcer e, em regra, afunda-se com os países ou com as organizações ou então, e a exemplo do comandante do paquete italiano que se afundou recentemente, são os tais primeiros a saltarem do porão.
É nestes cenários que o oportunismo ligado à bajulação se pode tornar fatal por alimentar a ilusão de que tudo corre sobre rodas, mesmo que se saiba que a queda está imparável.
Há dois tipos de comportamentos que raramente nos enganam: o do activista intolerante que apregoa o sacrifício dos outros e que na primeira oportunidade de poder se transforma na mais déspota das criaturas e o do sacrificado pela nação ou instituição que propaga aos sete ventos o seu amor à causa acima de quaisquer circunstâncias.
Como o primeiro tipo não está fácil de simular, talvez seja oportuno reavivar a memória para o segundo. Quando os países ou instituições vivem momentos de separação de águas, exige-se alguma coragem e firmeza e existem sempre riscos. É nesses momentos que surgem estas criaturas. Passam a mensagem de que estão a colocar o interesse geral acima do seu, tentando relegar a acção mais vertical para um registo de desinteresse pelo colectivo. O problema é sempre a ingratidão do tempo que desvenda o que realmente os moveu.
Há ainda um tipo três que nem merece sequer presença no catálogo. São os que navegam ao sabor da oportunidade e convencidos que ninguém os vê. Esse tipo terceiro prejudica as instituições e, obviamente, é um género de praticante que não escapa aos naufrágios. Em regra, têm o final que merecem.
"A verdade - e a justiça - exigem calma, e no entanto apenas pertencem aos violentos". A frase que escrevi é de Georges Bataille e surge-me com frequência na memória.
Por vezes, surpreendemo-nos com a falta de cimento nos núcleos que se juntam apenas porque querem exercer, mesmo que de forma comprovadamente desqualificada, um qualquer poder e temos a tentação para, em desespero de causa, apontar mais num sentido. O que é sempre importante é fazer exercícios de memória. Em regra, encontraremos as componentes do frágil cimento espalhadas pelos diversos actores e percebemos que a mesquinhez dá as mãos à primeira oportunidade que encontra.
É preciso reconhecer que as posições hierárquicas mais elevadas não conferem privilégios, mas responsabilidades. A frase que escrevi é baseada numa ideia de Peter Drucker e é muito esquecida. Esses esquecimentos dão quase sempre maus resultados.
O sistema escolar estará, para não variar, em reboliço. Muda-se sem testar, depois de tanto se criticar a prática nefasta, e a aflição generaliza-se. Os indicadores controlados pela Troika determinam: reduzir, suprimir e cortar são os verbos que o empobrecimento nos obriga a conjugar. É lamentável que tenhamos chegado a este estado de urgência. Quem chegou de fora veio dizer-nos que já era tarde para termos direito a pensar.
Os centros das nossas cidades acolhem a metáfora perfeita. Os fundos públicos, e os ditos estruturais, foram derretidos nas calçadas, também nas de alcatrão. O que se ergueu para além do chão não era bem comum, nem sequer as fachadas, deixou-nos endividados para várias gerações e consumidos pela banca comercial. Andámos de olho no chão na esperança que as pedras se comovessem?
"(...)quem se limita ao que está a acontecer nem sequer compreende o que acontece.(...)"
Daniel Innerarity (2011:49).
"O futuro e os seus inimigos".
Lisboa: Teorema.
É humano cuidarmos da vidinha, claro. Mas quando se ocupam lugares que implicam com a vida dos outros, seria natural que a vidinha não fosse o único propósito. Quem actua nesse registo, normalmente dá cabo da própria vidinha e da vida dos restantes membros da mesma organização.
Não há que ter medo de tomar decisões difíceis, mas a magia das equipas constrói-se com as pessoas. Quem dirige uma equipa sem cabeça, fracassará, e quem o faz sem coração, ficará só.
Os 48 anos da ditadura do século passado consolidaram uma sociedade amedrontada, desconfiada do exercício da cidadania, temerosa do contraditório, alojada na pequena e na grande corrupção, desrespeitadora do Estado e do bem comum e que não considera a organização um valor precioso.
É evidente que para esse estado também contribuíram outros factores históricos, como os de origem religiosa. A jovem democracia, que ainda regista números escolares que envergonham, demorará, se tiver tempo e engenho para isso, gerações a atenuar.
Existem preconceitos que parecem "guardar" a sociedade que descrevi, que supervisionam a ousadia e a poesia de geração em geração e que reagem ao novo com medo da não conservação da herança que nos trouxe até aqui. Controlam os danos de forma subtil e eficaz: classificam de ideológico, dando-lhe uma conotação pejorativa, o que os pode inquietar ao mesmo tempo que se põem a salvo da radical catalogação.
É a forma ideológica e fanática do mau conservadorismo. Existe em modo silencioso que parece esperar a redenção com a chegada "anunciada" do regime protector de todos os males do mundo.
Fico com a sensação que a moderna globalização se caracteriza tanto por uma aparente velocidade como pelo excesso de presente, de efémero, de ubiquidade, de instantâneo e por aí fora. Esse estado remete-nos para a intemporalidade do conceito de que tudo o que é sólido se dissolve no ar. Pode ser um tempo adequado para o vagar, para a reflexão e para a construção do que verdadeiramente interessa.
Ninguém pode, ou não deve, viver sem se interrogar. O valor da pergunta é insubstituível e acrescenta conhecimento, cooperação e mobilização.
Uma instituição não avança se não cultivar, com sinceridade, o valor da pergunta, mesmo da que não se sente obrigada a emitir uma qualquer resposta.
Li algures uma coisa acertada e não me apetece procurar a fonte. Era mais ou menos assim: para manter um segredo entre três pessoas é preciso que duas morram.
"O truque é não nos enganarmos a nós próprios
acerca de certas coisas: pequenas ilhas rochosas no mar
das próprias desilusões. Agarrá-las e não se afogar
é o máximo que um ser humano pode alcançar".
Elias Canetti
Nobel da literaura em 1981
A propósito da investigação noticiada, lembrei-me deste post de 7 de Maio de 2004. Escrevi assim:
Não foi fácil. Só ao terceiro encontrei a auto-estima. Passei pelo que estava mais à mão, o da Porto Editora, um só volume, e nada. Fui ao grande dicionário da língua portuguesa, do Círculo de Leitores, seis volumes, e zero. Não desisti. Recorri ao Houaiss da língua portuguesa, também do Círculo de Leitores, seis volumes, seguramente os mais pesados e por isso ficaram para o fim, e lá encontrei: qualidade de quem se valoriza, de quem se contenta com o seu modo de ser e demonstra confiança nos seus actos e julgamentos
A minha dúvida não estava tanto no significado. Situava-se mais na questão da palavra composta o ser por justaposição ou por aglutinação; ter ou não hífen. Neste caso tem, porque, e muito justamente, o sujeito até pode não ter muita estima por si próprio.
Ouvi hoje uma notícia surpreendente: um conjunto de sábios comprovados, ao que julgo saber afectos à maioria que nos desgoverna, vai discutir o porquê da baixa auto-estima dos portugueses. O painel inclui: Marcelo Rebelo de Sousa, Clara Ferreira Alves, Vasco Graça Moura e António Borges, que julgo que seja um empresário bem sucedido. Espera-se que, depois da mesa-redonda (por justaposição porque existem mesas que não são redondas), a auto-estima dos conferencistas suba em flecha.
A boa imagem de um governo, de um ministério, de uma empresa, de uma escola ou de um profissional só se constrói com a verdade. Sabemos que há excepções e que em regra têm um triste fim.
É ineficaz e provisório solicitar aos membros de uma organização que ocultem o quotidiano. A imagem é um somatório de impressões e afirma-se numa combinação de dados dos domínios racional e sensorial. É impossível de bloquear.
Um passo fundamental para o descrédito é o mau exemplo. Se os elementos de um qualquer órgão têm por rotina verberar a incompetência uns dos outros, só podem esperar que esse metabolismo se torne numa imagem da marca.
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