Podia deixar apenas uma ligação para este post, de leitura obrigatória, do Paulo Guinote sobre a História da profissionalidade dos professores, mas não quero perder a informação.
Há por aí uns descomplexados competitivos, que propalam o desprezo pela História, que argumentam como esquerdista, despesista, sindicalista e corporativista a redução da componente lectiva dos professores à medida que a idade avança.
Não gosto de comparar profissões, mas conheço bem a que exerço e defendo essa redução do mesmo modo que as empresas que se prezam dão folgas de dias a quem exerce a sua profissão por turnos ou até às conquistas fundamentais e inquestionáveis do Direito do trabalho.
O que o Paulo Guinote publicou, e que pode ler aqui, é um documento que enquadra a profissão de professor nos anos trinta do século passado em que a ideologia dominante estava nos antípodas das esquerdas diabolizadas pelos fanáticos do Estado mínimo.
Actualização às 20h05: o Paulo Guinote fez mais um post de leitura obrigatória sobre o leque salarial no mesmo período, onde se constata que as diferenças salariais eram muito mais acentuadas.
Não sei se a história se repete, mas talvez a geografia associada à política condene os povos não só à repetição dos gestos como à "aprovação" dos momentos trágicos da história.
Foi assim em 1914-18 e repetiu-se de um algum modo em 1939-1945. A Europa central tem na região que inclui a Alemanha um pólo devastador, mesmo que não possamos incluir nesse fatalismo a totalidade das pessoas; e escrevi esta verdade tão óbvia para não ferir susceptibilidades. Já há quem diga que o euro está a asfixiar a Europa pela mão da Alemanha.
Nota-se no país governado por Merkel uma qualquer necessidade de apontar o dedo aos outros e parece que o gesto dá votos. Ganha o apontador mais convicto e o que mais custa é a veneração de alguns dos apontados.
"(...)Era já uma Viena trágica. Não podemos esquecer o paradoxo: a matriz - se assim me atrevo a dizer - da nossa cultura moderna, do nosso modernismo, e até mesmo pós-modernismo, mas já à sombra de um anti-semitismo cada vez mais feroz, e, sobretudo devido á catástrofe de 1914-1918, o troço decepado de um império que procurava - já então - o seu futuro na direcção da Alemanha.(...). Veja bem que foi um presidente do município de Viena, Karl Lueger, um homem muito importante, quem lança verdadeiramente as bases do programa que será o do seu discípulo, Hitler, visando a eliminação dos judeus na Europa. Há um ponto de pormenor que me obsidia: a palavra, medonhamente feia em alemão, "Judenrein", que significa "limpeza étnica": regiões, cidades, organizações, onde deixará de haver judeus: É o clube de bicicleta da cidade de Linz que inventa esta palavra em 1906.(...)"
Steiner, G. e Spire, A. (2000:16)
Barbárie da Ignorância
Lisboa
Fim de Século
É recorrente culpar apenas os ultraliberais alemães (sei que é suave, sei que sim) pela austeridade em curso e pelas ideias que devastaram a Europa na segunda guerra. É como se não existissem familiares políticos no resto da Europa e também em Portugal. Bertrand Russel (1993:100) "O Poder, Uma nova análise social", Lisboa, Fragmentos, via assim os tempos que antecederam a segunda guerra.
Texto de Pedro Bidarra.
Quis o destino que eu lesse, na semana passada, dois textos sobre o mesmo assunto. Textos que junto aqui porque foram feitos um para o outro. Se acharem demagogia ou mau gosto juntar holocausto e economia, culpem o destino que os emparelhou no meu stream noticioso.
Um li no Público, “Milagre económico alemão teve ajuda de perdão de dívida”, o outro no New York Times, “The Holocaust just got more shocking”. O Público relembra-nos que, em 1953, setenta países perdoaram a dívida alemã acumulada antes e depois da guerra – e que ajudou a financiar. O montante do perdão equivaleu a 62,6% da dívida, tendo sido também acordados valores de juro abaixo do mercado e uma amortização, da dívida e do juro, limitada a 5% do valor das exportações.
(Espero que estes valores, que li no Público, estejam certos que eu é mais Ciências Sociais e História).
Para conseguir este perdão, continua o artigo, foi decisiva a pressão dos EUA e o assentimento dos outros dois membros da troika da altura: França e Inglaterra.
Já o New York Times dá conta de outros números e de uma contabilidade mais negra. Os números são apresentados pelos investigadores e historiadores do Holocaust Memorial Museum. Segundo eles, durante o reino de terror nazi, de 1933 a 1945, os alemães implementaram, da França à Rússia, uma rede de 42.500 campos de terror. Quando esta investigação começou, no ano 2000, estimava-se que o número andasse pelos 7 mil, mas a História veio a revelar-se seis vezes mais negra. A contabilidade é esta: 30 mil campos de trabalho escravo, 1150 guetos judaicos, 1000 campos de prisioneiros de guerra, 980 campos de concentração, 500 bordéis de escravatura sexual e mais uns milhares de sítios dedicados à eutanásia de velhos e doentes e à prática de abortos forçados.
O curioso é que, apenas oito anos depois de toda esta germânica atrocidade, setenta países, encabeçados por uma troika deles, resolveram perdoar 62,6% dívida alemã, reconhecendo que, se assim não fosse, Berlim nunca recuperaria e todos tinham a perder ainda mais.
Talvez a explicação esteja no ensaio “Morale and National Character”, escrito pelo antropólogo G. Bateson em 1942, sobre americanos, ingleses e alemães. Diz ele que americanos e ingleses, mais dados a padrões de relacionamento simétricos – um cresce quando o outro cresce e um relaxa quando o outro relaxa – não têm normalmente estômago para “bater em quem já está no chão”; ao contrário dos alemães, mais dados a relacionamentos complementares, do tipo dominação/submissão – quando mais fraco te sentes mais forte me sinto. Segundo escreveu, impor punições à Alemanha implicaria uma dominação constante dos vencedores o que, a médio prazo, resultaria num abrandamento e numa nova escalada alemã.
Em 1953, por muitas razões, fez-se o que estava certo. Perdoou-se. Perdoou-se, ao povo que implementou 42.500 campos de terror, o dinheiro que deviam e que tinha sido usado (também) para os financiar.
O perdão é a dívida da Alemanha. É bom lembrar e, já agora, cobrar.
Publicitário, psicossociólogo e autor
Escreve à sexta-feira
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Desde as cidades da Grécia Antiga que se sabe que os ricos são a favor da oligarquia e os pobres da democracia. As oligarquias garantem a paz pela força ou pela ilusão de acolhimento da maioria. Se, como agora, o empobrecimento actua rapidamente sobre as classe média e baixa e as deixa sem ilusão, só restam dois caminhos: o da força e o da revolução democrática. Em 25 de Abril de 1974 escolheu-se o segundo para contrariar o primeiro.
A manifestação de 2 de Março de 2013 está a cumprir o prometido e é um marco histórico neste tipo de protestos. É um impressionante grito de unidade e uma lição de civismo. Os números são inequívocos: estamos na presença da maior manifestação da História. Mais do que isso: o ambiente de protesto é uma lição e um sério aviso que deve ser escutado com toda a atenção.
Tiago Miranda (fotografia tirada por telemóvel)
Imagem recolhida na rede sem referência ao autor.
A aceleração do tempo permite "revoluções" bem disfarçadas e até a História tem tendência para o vórtice. O livro de Joaquim Vieira sobre Mário Soares é um bom exemplo, relata factos recentes, de 2011, e permite-nos algumas conclusões.
Sabia-se que J. Sócrates era aplaudido à direita, ainda mais a dos interesses que inclui os descomplexados competitivos do PS, ficou a saber-se que, mesmo em 2011, Sócrates queria juntar-se "aos gajos do PSD" e que festejava as derrotas de Alegre com palavrões dirigidos ao poeta.
A linguagem não é surpreendente. Faz parte do insuportável ser privado desta gente. Parece que a brejeirice, o nivelamento por baixo e os palavrões estabelecem um qualquer ranking de feitos viris ou lhes outorga o estado de prá-frentex. Sei lá. Se fossem caçadores em África apanhavam leões à mão e com uns valentes impropérios às mães leoas; valha-lhes sei lá o quê.
Também ficamos sem dúvidas que o sistema escolar tem sido depauperado com a cumplicidade do arco do poder e, mais uma vez, com a malta dos interesses no comando das operações. Os grandes partidos desprezam a Educação, os seus "altos quadros" fazem carreira em áreas financeiramente mais prometedoras e, na hora de governar, os endinheirados, mesmo que encostados ao Estado e, em casos comprovados, de forma corrupta, fazem luzir os seus fatos às riscas.
O valor das perguntas é insubstituível e temos a obrigação cívica de exercitar a memória. Até porque já cansa olhar para frisos de oportunistas que mais não fazem do que cavalgar a desgraça à espera de uma nova oportunidade.
A exemplo do 25 de Abril de 1974, perguntar onde estávamos, convictamente e com actos, em 2009 é determinante. Se somarmos as respostas, encontraremos explicações para a tragédia em curso e para as portas que se abriram a esta espécie de ultraliberais envergonhados; no sistema escolar também, já agora.
Os economistas não acertam previsões, mas Joseph Stiglitz anda desde 2009 a dizer que estamos a assitir à maior transferência de recursos financeiros da história das classes média e baixa para a alta; e culpa a corrupção.
Se olharmos para Portugal, vemos que as classes média e baixa estão a ser financeiramente depauperadas enquanto a corrupção passa incólume e a banca volta a "aguentar" lucros astronómicos à conta da dívida pública.
Criei uma página no facebook dedicada ao Correntes. A ideia é dar mais vida ao arquivo do blogue, que vai com 6308 publicações, relacionando o que gostei de escrever com a actualidade. Também recorrerei ao que diariamente edito. Publicarei os posts na página do facebook com a introdução de duas ou três frases que os relacionem com o momento. É uma ideia antiga que decidi concretizar neste período mais distendido.
Termos perdido a lógica da cadeia de abastecimento é a causa do imbróglio em que estamos metidos. Avançarão as sociedades que considerarem o homem em todas as suas dimensões. Encontrei duas passagens interessantes, e intemporais, em Adam Smith (2010:57), Riqueza das nações, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
Adam Smith (2010:57). Riqueza das nações. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa.
Contributo da Manuela Silveira.
“Suspiramos pela Democracia, mas nunca lhe quisemos pagar o preço. O preço da Democracia é (…)a mais difícil, repetimos, das educações: a educação que faz homens livres e virtuosos. E por que não a tivemos? – Porque força é insistir, jamais fizemos da educação o serviço fundamental da República.
(…)Porque jamais tivemos regime (…)em que não houvesse a classe que se beneficia do Brasil e a que trabalha, peleja e sofre para a existência dessa outra classe.
Às vezes ponho-me a indagar: por que será que o Governo, entre nós, há-de ser sempre como um bem privado, que se conquista como se fosse um tesouro, uma riqueza a ser distribuída com os amigos, companheiros e partidários? Tal concepção é tão profundamente generalizada no Brasil que me ponho por vezes, a indagar da origem, por certo, vigorosa de tão estranha deformação.
E ocorre-me que talvez não tenha sido inocente a este respeito o método de colonização português.”
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AUTONOMIA PARA A EDUCAÇÃO NA BAHIA
"(...)E ocorre-me que talvez não tenha sido inocente a este respeito o método de colonização português. Enquanto a Inglaterra colonizava por meio de companhias comerciais organizadas para o objectivo privado da exploração e do lucro e estas companhias comerciais, por força das circunstâncias faziam-se governo e estado, adquirindo, sem o quererem, funções públicas de ordem e poder de tributação, Portugal colonizava por intermédio de Governos que se faziam por força ainda das circunstâncias, comércio e exploração de lucro privado. Assim, enquanto na colonização inglesa era o comércio, era o privado que se fazia público, na colonização portuguesa, era a autoridade pública, o governo que se fazia comércio, que se fazia poder privado e particular. Julgo que está aí, talvez, um pouco da explicação do privatismo irremediável com que ficou maculado o nosso conceito de governo.
Teixeira, Anísio.
Autonomia para educação na Bahia.
Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos.
Rio de Janeiro, v.11, n.29, jul./ago. 1947. p.89-104
"Em Março de 1776, (...), aparecia nos escaparates de Londres uma novidade literária. (...)Era seu autor o Dr. Adam Smith (...)", é assim que começa o prefácio à edição portuguesa da "Riqueza das nações" de Adam Smith (2010), Fundação Calouste Gulbenkian.
Já passei os olhos pelos dois volumes, estou fascinado com esta obra maior que muitos consideram o princípio da economia política e que está ao nível de Marx e Keynes. Tem um valor histórico inultrapassável e tem de se considerar que a economia política teve um espantoso desenvolvimento nos cerca de 200 anos que se seguiram. Já tinha lido partes da obra, mas só agora a consegui adquirir e a preços verdadeiramente ajustados. A Festa dos Livros 2012 da Gulbenkian tem diversas pérolas irresistíveis e é mesmo uma Festa bem pensada.
Da página V do citado prefácio.
É recorrente e inevitável: os milhares de milhões de euros da fraude BPN (mas há mais, do BCP a outros bancos e passando por regiões e autarquias) não podem ficar "arrumados" numa qualquer gaveta.
É interessante o texto de Rui Tavares, hoje na impressa do Público. E já começam a ser sei lá o quê as classificações de esquerdista radical e populista. É bom ir ver o que se defendia sobre a dívida há um ou dois anos ou ir mais longe e ver quem subscreveria nos tempos que correm os discursos de Olof Palme ou Willy Brandt.
São muitos os que acusam a Alemanha de proteger as suas industrias do comércio livre e da globalização e que tal protecção não se verificou nas actividades industriais do países da Europa do Sul. Está comprovada a acusação, mas tem atenuantes. Por exemplo, a queda do muro de Berlim e a "anexação" da RDA que garantiu à então RFA um justo tempo de reconstrução.
Vem isto a propósito de duas ideias recentes que invadiram o nosso sistema escolar: a procura de engenheiros portugueses, em números muito elevados, por parte da Alemanha e penso que também da Holanda e a liderança destes dois países nos sistemas dual, vocacional e secundário profissionalizante e que envolvem os liderados da Europa do Sul.
Tenho estado à volta do relatório da OCDE, "Education at a Glance 2012", registei alguns fenómenos que podem dar que pensar e que podem indicar uma qualquer repetição da História.
Como se pode ver no gráfico seguinte, a Alemanha regista uma "estranha" estagnação no nível tertiary (grosso modo, um ensino pós-secundário, ou mesmo secundário, profissionalizante) e está num patamar semelhante a Portugal quando se anuncia uma reindustrialização.
Talvez ainda mais interessante, será analisar a expectativa dos jovens com 15 anos em relação às carreiras que querem seguir. Se a Alemanha oferece emprego aos nossos presentes e futuros engenheiros, a Holanda parece ter as mesmas preocupação e acrescenta-a com a procura de profissionais de saúde.
A reportagem de investigação jornalística "dinheiros público, vícios privados" vai proporcionando a revisitação histórica de processos relacionados com o cerne da questão.
Nas Caldas da Rainha, há muito que se escreve sobre o assunto. O portal-jornal da região oeste, o Oeste Online, tem uma peça interessante de 25 de Maio de 2005 com destaque para um detalhe não aprofundado na peça da TVI.
É necessário conhecer bem a rede escolar deste concelho para se entender as variáveis em causa. Por exemplo, os colégios foram inaugurados em 2005 e não em 2007 e, conforme consta da célebre reportagem, receberam matrículas antes de estarem edificados.
Por outro lado, tem-se falado bastante na sobrelotação das escolas do Estado. Esse pormenor carece de rigor. A sobrelotação circunscrevia-se ao 2º ciclo de escolaridade e estava adjudicada uma escola EB 2, 3 ou EBI 1, 2, 3 que foi cancelada pouco tempo antes da decisão de se construirem dois colégios da cooperativa GPS (um na mesma zona da escola não construída), conforme relata a notícia. Nunca se equacionou a necessidade de alargar a oferta no ensino secundário.
A funcionar no próximo ano lectivo - dois novos colégios em construção nas Caldas
"(...)O Colégio D. Leonor vai ficar junto ao complexo desportivo, no terreno para onde estava prevista uma escola 2, 3 a construir pelo Estado. Como este projecto nunca chegou a ser concretizado, a Câmara das Caldas vendeu o terreno à GPS por 50 mil euros para ali ser edificada a escola privada e vai procurar outro terreno para a escola pública porque irá continuar a ser necessária. O edifício da escola nas Caldas terá 42 salas de aula.
A autarquia vendeu também um terreno em A-dos-Francos por 20 mil euros, depois de ter insistido com a GPS em construir este segundo colégio. Os negócios foram aprovados em Assembleia Municipal. Este colégio terá três blocos, um deles com três pisos e os outros com dois pisos, com 36 salas de aula.
Está também previsto que no futuro sejam construídos pavilhões gimnodesportivos, mas as escolas vão abrir sem este equipamento. A GPS espera que a autarquia venha a apoiar a sua construção.(...)".
O cronista do Público Vasco Pulido Valente foi deputado pelo PSD e deve conhecer bem os modos de movimentação da máquina. A crónica de ontem é à volta do assunto e tem passagens curiosas.
António Guterres reconhece "responsabilidade" na situação actual do país
Quando o discurso político remete para "a nuvem" a responsabilidade pelo estado em que estamos, ao menos que apareça alguém com coragem para não fugir às responsabilidades. Se compararmos com o recente discurso do populista e anti-político Cavaco Silva que apontou o dedo aos que estigmatizaram as pescas, a agricultura e a indústria, António Guterres deu um mote que espera-se que faça escola e que impeça erros futuros.
Era bom que Guterres detalhasse o "pântano" e que explicasse porque é que Sousa Franco e João Cravinho não quiseram fazer parte de um segundo Governo. E já agora, também seria interessante que dissesse se deu conta dos devaneios eduqueses da sua equipa no MEC que aumentou desmesuradamente o número de professores, e os apetites dos interesses cooperativos, com os resultados que se conhecem.
A crónica de ontem de Pacheco Pereira no Público aponta o dedo, e muito bem se me permitem, aos intelectuais que consideram que os portugueses não estão conscientes das dificuldades (como se pode ler na imagem que acompanha o post).
É frequente ouvirmos aplicar o determinante indefinido "todos" para atribuir responsabilidades aos portugueses pela bancarrota, pelo "fechar" de olhos à corrupção e pelos mais variados assuntos. Todos não, dizem muitos e com razão. Esse revisionismo histórico é injusto.
Por outro lado, é só pensarmos um bocadinho e encontramos amiúde exemplos da trágica e cínica associação entre a intelectualidade e a tirania; nem que seja pela condescendência. É sempre importante estarmos bem avisados.
Para Pacheco Pereira, os intelectuais não tiveram uma interpretação brilhante "dos tempos"; nomeadamente no século XX e pelos vistos também na actualidade.
Não sei em quem é que ele estava a pensar, antes e agora, sei que para além de Heidegger ("o maior dos pensadores e o mais pequeno dos homens"), também Sartre é tratado assim no excelente livro de George Steiner que acabei de ler:
"(...)Vou-lhe responder, com todo o respeito; o problema são as alianças extremamente perturbantes que se dão entre a mais alta filosofia e o despotismo. É Platão que vai (três vezes) ter com o tirano Dionísio de Siracusa. É o fascínio que a tirania e até mesmo o inumano exercem sobre a alta abstracção. Estive na China na minha qualidade de professor. Conheci lá colegas que as torturas dos Guardas Vermelhos tinham deixado estropiados. Fizeram chegar a Jean-Paul Sartre uma carta que dizia: "Diga alguma coisa, você, o Voltaire do nosso século, faça alguma coisa." Tinham até estudado em Paris, com Sartre. Ao regressar a França, Sartre dirige-se ao Vélodrome d´hiver para explicar que os boatos que correm sobre as sevícias praticadas pelos Guardas Vermelhos são propaganda da CIA americana. Sartre, durante toda a sua vida, desfilou mentiras, umas atrás das outras, sobre as tiranias.(...)"
Steiner, G. e Spire, A. (2000:59).
Barbárie da Ignorância.
Lisboa.
Fim de Século.
É impossível condensar num post tudo o que se pensa ou escreveu sobre um assunto e isso pode gerar equívocos.
A Alemanha, como de resto a França, a Itália, a Espanha, a Grécia, Portugal, a Inglaterra ou os Estados Unidos e por aí fora têm, apesar dos momentos trágicos, de ter orgulho na sua história e na sua cultura.
A actualidade alemã é particularmente difícil. Terminou há pouco a "inclusão" da região leste e tem de ser uma "pedra" chave numa Europa em crise e que tem de competir em desigualdade de direitos laborais com regimes ainda mais mergulhados na corrupção, a Rússia e a China, e com a pátria do mass-market planetário e das predações associadas, os EUA.
Convenço-me que a principal preocupação alemã passa por evitar a repetição do período 1939 a 1945. É uma herança pesadíssima.
Não se deve separar a biografia das possibilidades políticas e Merkel não foge ao exame. Haverá alguma controvérsia que só o tempo ajudará a perceber.
E é sempre importante sublinhar algumas evidências históricas.
Steiner, G. e Spire, A. (2000:45).
Barbárie da Ignorância.
Lisboa.
Fim de Século.
A história não se repete, mas há uma ou outra semelhança entre o que vivemos e o PREC (prometo que não vou escrever sobre o modelo de gestão escolar em curso que é, sublinhe-se, único no mundo conhecido). Desde logo por causa da colectivização em curso, mesmo que de sinal contrário.
Há um aspecto que não sei se se repete: na actualidade há cada vez mais pessoas sem qualquer rendimento e que caem no registo "não-há-mais-nada-a-perder" e não me lembro se no PREC a situação era sequer parecida. Quero deixar esta questão bem clara.
Mas há nas manifestações mais violentas uma tónica comum: no PREC tínhamos os MRPP, os AOC, os UDP e por aí fora que eram instrumentalizados, até internacionalmente, e que apareciam para criarem confusão e desmobilizarem as pessoas. É bom observar por onde andam principalmente os primeiros, os tais do MRPP, e isso leva-nos a pensar que há uns infiltrados (às tantas, financiados e com "rica" mobilidade) a fazer o jogo do costume e com treinadores com décadas de experiência.
Não sei se a história se repete, mas talvez a geografia associada à política condene os povos não só à repetição dos gestos como à aprovação, consciente ou não, dos momentos mais trágicos da história.
Foi assim em 1914-18 e repetiu-se de um algum modo em 1939-1945. A Europa central tem na região que inclui a Alemanha um pólo devastador, mesmo que não possamos incluir nesse fatalismo a totalidade das pessoas; e escrevi esta verdade tão óbvia para não ferir susceptibilidades.
Nota-se no país governado por Merkel uma qualquer necessidade de apontar o dedo aos preguiçosos PIIGS, dá ideia que dá votos, e o que ainda custa mais é registar a veneração de alguns dos apontados.
"(...)Era já uma Viena trágica. Não podemos esquecer o paradoxo: a matriz - se assim me atrevo a dizer - da nossa cultura moderna, do nosso modernismo, e até mesmo pós-modernismo, mas já à sombra de um anti-semitismo cada vez mais feroz, e, sobretudo devido á catástrofe de 1914-1918, o troço decepado de um império que procurava - já então - o seu futuro na direcção da Alemanha.(...). Veja bem que foi um presidente do município de Viena, Karl Lueger, um homem muito importante, quem lança verdadeiramente as bases do programa que será o do seu discípulo, Hitler, visando a eliminação dos judeus na Europa. Há um ponto de pormenor que me obsidia: a palavra, medonhamente feia em alemão, "Judenrein", que significa "limpeza étnica": regiões, cidades, organizações, onde deixará de haver judeus: É o clube de bicicleta da cidade de Linz que inventa esta palavra em 1906.(...)"
Steiner, G. e Spire, A. (2000:16)
Barbárie da Ignorância
Lisboa
Fim de Século
A imagem que escolhi corre as redes sociais e tem sido partilhada por pessoas de esquerda. É uma adaptação de um texto de Brecht que nos últimos anos tem sido muito usado, também no original, por professores.
Dá ideia que o perigo totalitário avança em passo acelerado e é bom recordar a oportunidade perdida por boa parte dessa esquerda que apoiou os governos de Sócrates (o silêncio ensurdecedor é uma forma de apoio). A memória obriga-me a perguntar: onde estavam estas pessoas de 2005 a 2010?
Mudámos de Governo e a deriva totalitária acelerou. As cedências graves que antes denunciámos estão na ordem do dia e agravaram-se. A encenação política com o inferno dos números evidencia-se e agora, como antes, nota-se o desespero do mundo financeiro que caiu com o imobiliário e com a construcão civil e que lança as garras aos denominados sectores sociais. Vale tudo. Basta passar os olhos pela imprensa do fim-de-semana para constatar o óbvio: o sistema escolar público não tem o apoio do mainstream que tem governado.
Mesmo que o último relatório do tribunal de contas diga que os números de 2009 desfavorecem o sector público se se considerarem os cortes de Nuno Crato e que a realidade nos mostre que no segundo semestre de 2012 foram despedidos 10.000 professores, a coreografia dos actuais mestres do tacticismo político que dominam os partidos do arco do poder afirmarão o despedimento de mais professores de duas formas: por declaração ou por silêncio.
"Poucos economistas perceberam a emergência da crise actual, mas essa falha de previsão foi o menor dos problemas. O mais grave foi a cegueira da profissão face à possibilidade de existência de falhas catastróficas numa economia de mercado. O papel da economia perdeu-se porque os economistas, enquanto grupo, se deixaram ofuscar pela beleza e elegância vistosa da matemática. Porque os economistas da verdade caíram de amores pela antiga e idealizada visão de uma economia em que os indivíduos racionais interagem em mercados perfeitos, guiados por equações extravagantes. Infelizmente, esta visão romântica e idílica da economia levou a maioria dos economistas a ignorar que todas as coisas podem correr mal. Cegaram perante as limitações da racionalidade humana, que conduzem frequentemente às bolhas e aos embustes; aos problemas das instituições que funcionam mal; às imperfeições dos mercados - especialmente dos mercados financeiros - que podem fazer com que o sistema de exploração da economia se submeta a curto-circuitos repentinos, imprevisíveis; e aos perigos que surgem quando os reguladores não acreditam na regulação. Perante o problema tão humano das crises e depressões, os economistas precisam abandonar a solução, pura mas errada, de supor que todos são racionais e que os mercados trabalham perfeitamente."
Paul Krugman
New York Times
2 de Setembro de 2009
Maria de Lurdes Rodrigues, a CEO da FLAD, disse à Agência Lusa, e a propósito da conferência "portugal e o holocausto - aprender com o passado, ensinar para o futuro", "(...)que o holocausto não deve ser matéria curricular(...)".
Quando penso nas causas que nos levaram à bancarrota, nunca me esqueço das nomeações deste género. A ex-ministra foi contemplada com a administração de uma das dez mais influentes organizações portuguesas no mundo depois duma passagem desastrosa pelo Governo e que o mainstream que vive na estratosfera das benesses ilimitadas não se cansa de aplaudir.
Maria de Lurdes Rodrigues tinha tanto de desconhecedora como de atrevida, como se sabe. No artigo que linquei tem algumas pérolas, com destaque para as seguintes afirmações: "(...)"não se deve ceder à tentação de transformar estas questões em matérias curriculares, devem ser tratadas no espaço de desenvolvimento da cidadania ou de projetos, de uma forma muito criativa e interdisciplinar, envolvendo os professores das áreas de Educação Tecnológica, História ou Geografia".(...)"
(da ontogénese da humilhação à filogénese da implosão)
Tinha uns 12 anos e viajava com o meu pai numa estrada moçambicana fora dos centros urbanos. Estava um dia muito quente. Parámos numa "cantina" - áreas de serviço que eram propriedade de comerciantes portugueses (os metrôpoles) imbuídos do espírito colonial - e deparámos com uma dezena de homens de pele negra, nua e bem suada, à volta de uma mesa com uma bazuca - cerveja de litro e meio - no centro. Enquanto esperavam por uma qualquer refeição, o filho do comerciante, com uma idade igual à minha, atirava-lhes pão e repetia: "hoje é dia de festa".
O meu pai esteve em silêncio e à saída não se conteve: "serão os primeiros". Lá me explicou o que é que queria dizer com o desabafo. Anos depois, a revolta "legitimou" a tragédia e as áreas de serviço arderam, e em muitos casos, com os comerciantes lá dentro. Foi também assim noutros capítulos dessa revolução. A cor da pele era o primeiro critério implosivo para humilhações acumuladas durante séculos.
As sociedades actuais não se devem considerar livres da ontogénese da humilhação. O bodo aos pobres deixa marcas. Os pobres não têm vergonha (a condição não o permite, sequer) e socorrem-se do que existe para afagarem a fome. É certo que o fazem, como também é de saber filogenético que um dia manifestarão em implosão social as sucessivas humilhações.
Elegemos a ideia de singularidade, testámos o devir do ser qualquer e construímos o imaginário do insuperável. Não queremos um igual, precisamos do carácter universal do indivíduo e ansiamos pela descoberta da coisa comum (a religião, a ideologia política, a filiação associativa e a identidade por género, como se diz agora).
Existe a diversidade regional ditada pela geografia e pela história. Portugal é uma zona semi-periférica e tem as suas categorias: uma densidade inigualável de inhos e de supervisores. Fiquemo-nos pelos inhos .
A utilização acentuada dos diminutivos (somos únicos no assunto) na nossa Educação tem de fazer efeito e pode dar maus resultados.
Somos uns adultos com egos elevados. Fui fazer umas pesquisas por ego-história convencido que era uma invenção nossa. Mas não: Freud, e o seu eu psicanalítico, influenciou meio-mundo.
Mas não desisto e passo a sentenciar: temos de ser os melhores do bairro. É uma alta competição generalizada. Reconhecer (que é diferente de anunciar) o sucesso alheio magoa. Parece que o mote é viver na alteridade.
Ai de quem se distinga, ai de quem faça bem aquilo que sempre se espera que corra mal, ai de quem fuja do lugar comum e não se pareça com a formatação estipulada pelo horizonte do nosso quarteirão. Portugal sofre de uma dilatação tal dos egos que o espaço público tornou-se uma impossibilidade e o exterior passou a ser o sítio oxigenado; a não ser que se consiga viver fora cá dentro ou que a queda-sem-fim nos garanta alguma redenção.
Já usei algumas ideias deste texto noutro post.
O pluralismo em Portugal joga-se no arco do poder e existe um sectarismo institucional que afasta quem se situa fora do círculo. Os resultados não favorecem a equação.
O fanatismo ideológico leva a que, por exemplo, Paulo Portas tenha, tragicamente, o país na mão e o seu falecido irmão jamais seria convidado para um Governo por ser um perigoso radical. Lembro-me do debate político à volta do euro e recebi, cortesia da Isabel Silva, uma passagem muito interessante.
«A moeda única é um projecto ao serviço de um directório de grandes potências e de consolidação do poder das grandes transnacionais, na guerra com as transnacionais e as economias americanas e asiáticas, por uma nova divisão internacional do trabalho e pela partilha dos mercados mundiais.
A moeda única é um projecto político que conduzirá a choques e a pressões a favor da construção de uma Europa federal, ao congelamento de salários, à liquidação de direitos, ao desmantelamento da segurança social e à desresponsabilização crescente das funções sociais do Estado.»
Carlos Carvalhas, Secretário-geral do PCP — «Interpelação do PCP sobre a Moeda Única», 1997
A ideologia dominante absorveu todas as áreas, os tayloristas impuseram-se no mundo organizacional e as escolas não escaparam à voragem como se observa nos resultados que a OCDE regista em Portugal e que alguns professores e investigadores repetem à muito.
O ensino, como um lugar de liberdade a preservar a todo o custo por questões democráticas e civilizacionais, levou um abalo considerável. Os promotores da ideia dominante nem sempre tiveram consciência, a exemplo doutros momentos da história, do lado do muro que ocupavam. Aplica-se ao ensino o que Robert Linhart (1978), "Lês Archipels du Capital", registou nos factores de produção:
"toda a indústria e toda a população são "pacóvias": o capital já não é um factor de produção, é a produção que é um simples factor do capital."
Numa curta passagem pela rede leio, naturalmente, palavas de desânimo e de revolta-meio-sufocada na denominada comunidade educativa. Alguns teimam em dizer que nunca foi tão acentuada a divisão. Não concordo. Noutro dia voltarei ao assunto.
Fui buscar um post de 21 de Outubro de 2008. A plataforma de sindicatos tinha assinado com o Governo um inacreditável acordo que previa um período de um ano, até Abril de 2009, para se avaliarem as mais do que comprovadas desastrosas políticas. A força da razão impô-se, os poderes formais vieram a reboque da contestação e o prazo acordado implodiu.
"Continuo à espera de novidades sobre as duas manifestações de professores marcadas para o mês de Novembro de 2008. Não me deixo impressionar pelo que vou lendo nos diversos órgãos de comunicação social nem nos blogues mais atentos. E quando refiro blogues, remeto-me para os seis ou sete por onde passo.
Continuo também atento aos desenvolvimentos sobre a torrente, política e técnica, que tem vindo a abater o ânimo de milhares de professores. E podem crer que não estou a exagerar. O ambiente de saturação atinge contornos nunca vistos e ainda estamos em meados do mês de Outubro.
Há um conjunto de pressupostos que subjazem a este rol de nefastos diplomas. É certo e seguro.
E interrogo-me sobre o seguinte:
é incompetência técnica sustentada por uma atitude política apressada?
é incompetência técnica sustentada por uma atitude política intencional?
O tempo, veloz e inaudito, encarregar-se-á, ou não, de esclarecer.
Há ainda duas interrogações que, ao longo destes meses, me têm deixado cada vez mais perplexo.
teremos um governo entrincheirado atrás de uma ministra?
teremos uma ministra, plenamente convencida dos seus "justos" argumentos, em roda livre e a "lutar" contra tudo e contra todos?
Qualquer das situações seria uma coisa descomunal."
"Um dos momentos mais tocantes da entrevista a Edward Witten (que formulou a chamada "M-teoria" das supercordas, até agora a mais perfeita conjectura matemática de uma "teoria do tudo" e é considerado pela generalidade dos seus pares o maior físico teórico vivo) na série "Da beleza e consolação" é quando o entrevistador lhe pergunta o que pensa ele da "Shoah" e dos campos de extermínio nazis onde perdeu grande parte da sua família.
Witten ficou de olhos baixos e em silêncio durante intermináveis segundos. No fim, só conseguiu dizer: "Não sou capaz de compreender".
Ocorreu-me este episódio ao conhecer notícias recentes sobre a amnésia generalizada em que se gera o regresso da irracionalidade racista. Na Hungria, ao mesmo tempo que escritores nazis são hoje de leitura obrigatória nos curricula escolares, erguem-se estátuas ao "herói nacional" Miklós Horthy, regente do país entre as duas guerras e autor das primeiras leis anti-semitas da Europa Ocidental, responsável pelo envio de 450 mil judeus para campos de extermínio. Mais chocante ainda é o que se passa por estes dias em ...Israel: imigrantes negros vítimas de ataques - casas queimadas, espancamentos e outras agressões - e classificados pelo próprio primeiro-ministro de "praga" e de "cancro". O governo de Direita israelita parece ter esquecido os insultos semelhantes dirigidos aos judeus que precederam o Holocausto."
É uma história aconselhável a pessoas sensíveis ao sofrimento alheio, embora contenha imagens chocantes. Se ligarem o título à imagem compenetram-se dos perigos que vão correr. Quero convocar seres deste universo e partilhar o destino de uma das minhas memórias. Só tive uma dúvida: se seria um abuso usar a imagem de um tubarão numa história tão violenta, porque sei, pela voz da ciência, que estes animais são normalmente inofensivos e que a sua ferocidade é a reacção natural de quem é habitado pelos medos do mundo; como os humanos, afinal.
Acredito que serei absolvido. Parece-me palpitante começar uma narrativa desta maneira e antes de vos subir o pano não resisto a fazer uma declaração de princípios. Sempre que assisto a um discurso ministeriável para uma plateia de professores - e aconteceu uma coisas dessas, recentemente, num congresso de professores de história - reforça-se a necessidade dos jovens treinarem a memória através dos exercícios de cálculo na matemática. Pergunto-me repetidamente: então e a história? Ficarão os jovens mais preparados para enfrentarem os domínios da razão e do afecto com a tabuada na ponta da língua ou com o conhecimento da história? Se tivesse que optar, escolhia a segunda via. Para ilustrar esta excêntrica conclusão, vou vos dar a conhecer como os encantos da infância podem ser ensombrados pelos relatos da investigação histórica.
A história passa-se em duas praias. No Tohofinho, uma das belas praias de Inhambane, cidade moçambicana, e na Foz do Arelho, a praia das Caldas da Rainha, cidade portuguesa. Entre uma e outra, esboroou-se um encantamento com mais de 30 anos.
Decorria o ano de 1971, tinha 11 para 12 anos e vivia na cidade de Maputo. As férias grandes eram intermináveis. Uns vizinhos convidaram-me para passar um mês, dos três que essas férias nos abençoavam, na cidade de Inhambane. Era preciso percorrer cerca de mil quilómetros para se chegar à cidade suave. Uma catedral erguia a centralidade da terra da boa gente, por baptismo de Vasco da Gama, que acolhia muitos cidadãos indianos e paquistaneses. Aparentava uma pacífica coabitação entre culturas.
Bastava percorrer uma ou duas dezenas de quilómetros para sermos presenteados com uma das belas praias que rodeavam Inhambane. O Tohofo (lê-se tofo) era a nossa escolha. Praia quente, de águas imaculadas, e impossível de descrever. Pouco habitada, com um hotel, uma estância balnear de ferroviários e pouco mais. Uns poucos quilómetros antes de se chegar ao Tohofo, aparecia uma picada para o Tohofinho.
É do segundo lugar que a minha memória guarda imagens inesquecíveis. Os jovens chegavam diariamente ao Tohofinho pela praia. Centenas de metros percorridos de modo pedonal e sempre com a mente desperta para o aviso dos perigos mortais. O Tohofinho tinha uma rebentação fortíssima e era um albergue de tubarões.
Na fronteira das duas praias, erguia-se um invulgar rendilhado rochoso. Na maré vazia, a natureza oferecia-nos um belo complexo (digo complexo para ser moderno, já que aquilo não era mais do que um simplexo) de piscinas naturais. Foi numa dessas piscinas que tive a sensação única de tocar num tubarão vivo; pequeno é certo, já que esta história não vos é contada por um caçador de leões ou de elefantes.
Guardo dessas férias a ideia de ter estado no paraíso. Passados 33 anos, e imaginem como cenário uma esplanada da não menos bela Foz do Arelho, lia uma entrevista da historiadora portuguesa, Dalila Mateus. Um arrepio apoderou-se de todo o meu ser. A tese da investigadora apresentava argumentos para se considerar como genocídio a presença portuguesa nos antigos territórios coloniais. Entre outros relatos, Dalila Mateus contou algumas atrocidades cometidas pela PIDE. Salientou a prática comum de se lançarem aos tubarões do Tohofinho - em plena primeira metade da década de 70 do século XX - os presos políticos de pele negra. Em que águas límpidas terei eu tocado? Como foi isto possível?
(Texto reescrito. 1ª edição em Maio de 2004)
(1ª publicação em 7 de Novembro de 2011)
Este vídeo retrata a queda do império romano e compara-a com o momento que estamos a viver. A aula de economia política diz-nos que as nossas sociedades estão numa irreversível fase descendente. Faz, entre outra argumentação, uma analogia entre o circo romano e o futebol actual. Essa anestesia por entretenimento tem, na actualidade, financiamentos que passam ao lado da crise e que nos interrogam. Os poderes em queda têm sempre essas prioridades e isso não augura nada de bom.
Quando os professores que têm blogues começaram a usar, algures em 2007 e em 2008 e para classificar as políticas do sistema escolar, adjectivos como destruidoras, nefastas, desmioladas, incompetentes, monstruosas e por aí fora, eram considerados uns radicais e exagerados que não queriam prestar contas e outras coisas do género.
Nem cinco anos depois, qualquer colunista que se preze generaliza tropeçando nesses adjectivos.
É claro que num país dominado pela cultura PPP, os assuntos do sistema escolar continuam entregues aos blogues de professores porque o pessoal beneficiário de forma directa e indirecta pela referida cultura socorre-se de colégios privados com privatização de lucros (com ou sem pagamento de propinas). Mas o que me faz abanar ainda mais vezes a cabeça na horizontal são os substantivos: de ladrões e abutres para cima é o que está a dar.
A legitimidade democrática atribui poderes que permitem tomar decisões que influenciam a vida das pessoas e das organizações. Há decisores eleitos que se sentem empossados de um poder sem limites, dando crédito à seguinte expressão: a melhor forma de conhecer o carácter de alguém é dar-lhe um qualquer poder.
Foi assim em 2005 em Portugal, em que uma maioria absoluta se viu em circunstâncias majestáticas e beneficiou, durante três anos, de uma incontestável autoridade. É precisamente nesses momentos que o atrevimento se pode manifestar de forma arrasadora (sim, pesei bem o adjectivo), como foi o caso de José Sócrates e Maria L. Rodrigues no sistema escolar.
Dá ideia que a presente maioria beneficiou de um período imperial muito inferior e isso significa que aprendemos alguma coisa com os erros. Mas quem estudar com atenção o actual modelo de gestão escolar, verificará que se abrem portas a que atrevimentos semelhantes, mais ou menos legitimados pelos votos, coloquem as nossas escolas em estado de sítio.
É sempre bom recordar que a sociedade portuguesa é em Portugal, que não eliminámos o analfabetismo no século XVIII e que temos a organização territorial mais caótica do outrora chamado mundo desenvolvido.
Tinha a intenção de escrever um texto sobre a actualidade blogosférica, e da sua relação com a defesa da escola pública, que me exigia algum tempo de pesquisa, e isso não me está a apetecer, para que as opiniões não fossem injustas.
Há, contudo, uma evidência: os blogues de professores desempenharam um papel fundamental na defesa da escola pública na nossa história recente e impediram que o que existe se tornasse ainda mais nefasto. Essa causa, ou denominador comum, foi aglutinadora e fez emergir um série de blogues e de movimentos que se afirmavam com veemência e férrea determinação.
O tempo passado nas redes sociais associado a inúmeras reuniões, manifestações nos sítios mais variados e presenças constantes nos órgãos de comunicação social deve ter feito mossa (sei bem o que foi isso tudo). O que se constata é que com a substituição da rosa-offshore pela laranja-rapazola-mais-táxi-limousine houve um série de personalidades que desapareceram ou mudaram a 180 graus, apesar das circunstâncias objectivas na defesa da dita causa estarem numa situação semelhante. É natural que em muitos casos exista cansaço, mas é também legítima a crítica que enuncia que a causa era mais de carácter partidário.
Por outro lado, não deixa de ser curiosa, e algo cómica, a posição dos adeptos da rosa-pálida-em-qualquer-circunstância. É vê-los a ameaçar com a rua, integrados em movimentos de cidadãos ou a apelar à revolta dos indignados. Tudo acções que "desconheciam" e desvalorizavam há menos de um ano. E é engraçado que têm uma característica comum aos que entretanto se retiraram e que não se afirmaram pelo exercício corajoso da exposição pela escrita e pelas ideias: são apontadores de dedo aos bloggers e dá ideia que esperam por uma próxima vaga para voltarem-a-defender-o-que-agora-condenam.
É também esta uma das causas para explicarmos a quem nos visita o estado a que chegou a nossa democracia.
A frase de Christopher Hitchens (2009:251), em "Deus não é grande, como a religião envenena tudo", da Dom Quixote, "(...)O princípio essencial do totalitarismo é fazer leis às quais é impossível obedecer (...)" proporciona uma interressante discussão.
Em 25 de Outubro de 2009, aqui, escrevi o seguinte:
Mas com a velocidade com que se legisla, e nisso o quase "extinto" ME foi imbatível, e com a consequente falta de qualidade das leis é natural que os destinatários do direito se interroguem com a sua vigência. Faz tempo que o direito tem vindo a abandonar a visão positivista do primado absoluto da lei para integrar uma concepção mais moderna que se pode designar por um "ir e vir constante entre a norma e o caso".
Neste sentido, as fontes que socorrem a capacidade de decisão dos juízes continuam as ser as normas, mas também a jurisprudência e a jurisprudência dogmática (ou doutrina). Ou seja, para além das normas deve considerar-se cada caso em si e também a ciência jurídica produzida pelos jurisconsultos.
Lançados alguns argumentos para o contraditório, importa sublinhar que os totalitarismos não se estabelecem sem a "vontade" da maioria das pessoas. É trágico, mas é assim. Embora a história nos mostre com frequência o aparecimento de um "profeta", também nos explica que as sociedades vão criando um caldo propício às ditaduras, venham elas donde vierem. Desde logo, e pegando na frase de Christopher Hitchens, pela construção de leis impossíveis de obedecer e por práticas anti-democráticas ou corruptas (para os dois últimos casos, nem são precisos exemplos).
No caso vigente do sistema escolar, podemos pegar no monstro da avaliação dos professores ou no desastroso modelo de gestão escolar, passando pelo estatuto do aluno. São casos de impossibilidade que criaram um estado de sítio legislativo. Só o fingimento permite o "cumprimento" legal ou abrem portas aos oportunismos mais variados. Não podemos acusar de premeditação totalitarista os seus inventores, mas temos de considerar todas as hipóteses e dizer-lhes que não nos temos cansado de avisar.
(1ª edição em 27 de Janeiro de 2012)
Já havia História mais do que suficiente para que os eleitores tivessem aprendido que é elementar desconfiar de candidatos sem contacto com a realidade. Os erros de casting penalizam e a sua repetição resulta, normalmente, em tragédia.
A incompetência associada à soberba nunca dá o braço a torcer e, em regra, afunda-se com os países ou com as organizações ou então, e a exemplo do comandante do paquete italiano que se afundou recentemente, são os tais primeiros a saltarem do porão.
É nestes cenários que o oportunismo ligado à bajulação se pode tornar fatal por alimentar a ilusão de que tudo corre sobre rodas, mesmo que se saiba que a queda está imparável.
Estamos num período, como outros na História, em que a qualquer momento podem aparecer personagens "salvadoras" que nos arrastem para ditaduras. O escrutínio deve ser uma palavra de ordem.
Há dias publiquei este vídeo em que o médico Matthias Rath denuncia os perigos que alimentam o actual Governo alemão. No mesmo post, a comentadora Maria José Andrade deixou um link ("Queda do médico que afirmava que as suas vitaminas curariam a SIDA") que mostra um lado demasiado polémico e tenebroso do mesmo indivíduo.
E é um facto que os tecnopolíticos, e os descomplexados competitivos, vão tomando o poder sem serem sufragados ou, quando muito, são eleitos de forma mitigada.
Balas de papel, Gualdino Gomes e Carlos Sertório, 1892
"Íamos na plataforma de um americano do Rossio pela Pampulha, no dia 16 de Janeiro do corrente ano, quando ouvimos um delicioso diálogo travado na rampa de Santos entre um deputado engenheiro – e engenhoso -, muito dado aos apartes na câmara dos seus congéneres, e um conselheiro de barba rala e negro como um tição, diálogo que valia muitas libras e uma rica lata de marmelo.
O conselheiro de barba rala, ingenuamente, dizia:
- Mas por que não fazem um ministro de gente séria ?
- O que chama vossa excelência gente séria? – perguntava o outro, como um selvagem perguntaria a Pedro Álvares Cabral o que era um casamento eclesiástico.
- Digo – volvia o conselheiro de barba rala -, por que se não chama para ministro da guerra um general impoluto, para a justiça um juiz honradíssimo, para a marinha um vice-almirante enérgico?
- Isso era a maior de todas as desgraças, meu caro conselheiro! Homens que tomem pastas a seu cargo não devem ser apenas técnicos, e nunca devem ser intransigentes! A trica política é necessária; e os ministros precisam de saber e poder harmonizar as leis com os homens e os homens com as leis!
Ora aqui os têm como eles são! Sabem os leitores o que é harmonizar as leis com os homens e os homens com as leis? É fazer essas poucas vergonhas de todos os dias, é deixar roubar, quando o ladrão consiga operar com esperteza.
O marquês de Valada viu bem, mas tarde. Em crise de ladrões andamos nós há muito, e continuaremos provavelmente a estar, e as palavras do engenheiro deputado, de beiço grosso e olho piteireiro, dão a medida da consciência dos políticos, como devem ser, e mostram que os políticos fazem como os salteadores dos montados: quem se alistar há de provar que já fez uma morte!"
In Balas… de papel, n.º 3, 20 de Janeiro 1892
Cortesia da Manuela Silveira
A herança é o título da crónica de ontem de Vasco Pulido Valente no Público. Conhece-se a sua posição ideológica, de direita e conservador, e o seu registo pessimista sobre o país. É insuspeito de escritos esquerdistas radicais ou optimistas em relação ao futuro.
Há tempos escrevi este post, União Nacional, que começou assim: "Peso bem o que escrevo e recebi alguns emails a propósito deste post onde escrevi que "(...)mesmo entre nós, e no caso do sistema escolar, o arco-governativo não descansou enquanto não eliminou o poder democrático das escolas substituindo-o por uma amálgama com o pior do PREC e da ditadura de Salazar.(...)". Dizem-me que posso estar a exagerar na preocupação com o regresso a um passado que parecia arredado da possibilidade histórica e do futuro.(...)"
Repare-se como termina Vasco Pulido Valente a referida crónica: "(...)Com alguns brevíssimos sobressaltos pelo meio, a herança que a ditadura legou foi uma herança de conformismo e obediência, que permanece viva, e frequentemente dominante, no Portugal de hoje, com a sua complacência e a sua democracia. Verdade que o PREC não se recomenda. Mas não durou muito e a velha ordem depressa voltou com a sua dignidade postiça e as mediocridades do costume. A troika escusa de se preocupar. Cá na terra nós fazemos sempre, ou quase sempre, o que nos mandam. E não gostamos nada de aventuras."
"Os portugueses se atormentam, se perseguem e se matam uns aos outros, por não terem entendido que o Reino, tendo feito grandes conquistas, viveu por mais de três séculos do trabalho dos escravos, e que perdidos os escravos era preciso criar uma nova maneira de existência, criando os valores pelo trabalho próprio".
Mouzinho da Silveira, 1832
(Citado por Eduardo Lourenço em
"O labirinto da saudade", 1972:9)
(1ª edição em 22 de Setembro de 2011)
A propósito do momento, lembrei-me do que escrevi há tempos: "O meia-noite em Paris de Woddy Allen (2011) retrata a dificuldade da condição humana em valorizar devidamente o presente (...); a idade de ouro fica sempre no passado e pouco há a fazer.(...)"
Vivemos um período sobreaquecido e a dificuldade dos historiadores será a de sempre: retratar com rigor a realidade, tantos são os sinais de que os jogos subterrâneos minam uma democracia europeia frágil e recente.
Há uma espécie de profissionalidade que se vai evidenciando: são inúmeros os que fazem do poder a sua profissão e dos jogos de influência a fruição cultural. A obsessão com o controlo dos passos da sociedade aprisiona a democracia e a fuga à tragédia colectiva "supera-se" com a crença na solidariedade secreta e na salvação iniciática; um logro comprovado. Como é que a democracia pode sobreviver a esta predação? Exigindo-se mais democracia à nossa volta e com intransigência nos detalhes.
Afirma-se a ideia de que a democracia é uma construção diária e efémera.
"A escavação" de Andrei Platónov (1899-1951) é uma obra maior e na página oito diz assim:
"(...)- A administração diz que tu paravas para meditar durante as horas de trabalho - disseram-lhe no comité sindical. - Em que pensavas tu, camarada Voschev?
- No plano da vida.
- A fábrica trabalha segundo um plano de empresa já preparado. Quanto ao plano da tua vida pessoal, podias elaborá-lo no clube ou no círculo cultural.
- Eu pensava no plano da vida em geral. A minha vida pessoal não me assusta, não é nenhum enigma para mim.
- E o que é que tu poderias fazer?
- Podia pensar em qualquer coisa como a felicidade, e o sentido espiritual melhoraria a produtividade.
- A felicidade vem do materialismo, camarada Voschev, e não do sentido. Não podemos defender-te, tu és um homem sem consciência, e nós não queremos ficar na retaguarda das massas.
Voschev queria pedir um qualquer trabalho dos mais fracos, que desse para a alimentação; podia pensar fora das horas de trabalho, mas para esse pedido era preciso ser respeitado pelas pessoas, e Voschev não via nelas qualquer sentido para consigo.
- Vocês têm medo de ficar na cauda das massas, porque é o extremo, e por isso sentaram-se-lhes no pescoço!
- O Estado, Voschev, já te deu uma hora extra para meditares: trabalhas oito horas, agora trabalhas sete. Devias viver e estar calado! Se todos começamos de repente a meditar, quem é que há-de agir?
- Sem pensamento, as pessoas agem insensatamente! - disse Voschev, pensativo.
Saiu do comité central sem qualquer ajuda. (...)"
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