Em busca do pensamento livre.

Quarta-feira, 26.04.17

 

 

 

E o leitor interrogará: Frenocómio? Já lá vou, não desista. Primeiro convém esclarecer: há mais de uma década que vou somando episódios para esta conclusão. Mas depois de ler umas coisas sobre o estado geral das escolas, sobre as provas de aferição para os petizes, sobre a hiperburocracia e sobre o estado da gestão das escolas, não me permitia outro entendimento. E qual é então o significado de manicómio? É fenocómio, hospital para internamento de doentes mentais ou hospital psiquiátrico, com todo o respeito por estes lugares.



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Quarta-feira, 05.04.17

 

 

 

Nota-se bem a presença do simplex dois na "papelada-a-menos-na-muita-papelada-a-menos-nem-sequer substituída-por-ficheiros-digitais" do IRS. E nota-se vontade de simplificar na administração pública.

No sistema escolar é o inverso. O ME exige, ou insinua, informação "impensada" que não é incluída nos programas das empresas de software escolar. Isso provoca a circulação infernal de ficheiros excel e word. É uma escalada sem paralelo. Proporciona também a roda livre escolar de quem "desconhece" que a obtenção de informação "pedagógica" tem exigências administrativas. É o tal mundo criativo da repetição de inutilidades. É uma espécie de "vamos brincar às escolas e à gestão". No mínimo, a governabilidade exigiria a inclusão de "toda" a informação nuclear nesse software como critério primeiro de licenciamento. A avaliação externa "penalizaria" os excessos - e pontuaria as boas soluções - e não o contrário. O uso das muito boas aplicações do office da Microsoft, Word e Excel, deve ser proibido para a obtenção e circulação da informação "oficial" através de programas de email ou alternativos; não vai lá de outro modo. Uma decisão à francesa com os "emails-fora-de-horas". Quem não tem outra solução, ficaria sem a informação e concluiria que o fundamental da escola está longe desse universo.

 

Não é a primeira vez que uso alguns destes argumentos.



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Terça-feira, 21.03.17

 

 

 

A Finlândia incluiu mais competências transversais nos currículos nacionais (o processo iniciou-se em 2012 e apenas em 2016 deu os primeiros passos). E porquê a transversalidade? Por causa dos futuros profissionais, mas principalmente pelo tédio dos alunos (até nas raparigas que têm melhores resultados em todas as literacias). A ligeira quebra nas avaliações internacionais terá acelerado a recuperação da antiga interdisciplinaridade; ou melhor: da sua institucionalização. O processo tem cinco anos, não muda com a queda de um Governo (Crato&Rodrigues seriam impossíveis) e regista o pessimismo de 34% dos professores; 21% registaram benefícios. Toda esta sensatez num sistema com escolas com uma dimensão civilizada, descentralizada e autónoma. Não existem exames (mas existe avaliação), não existe avaliação do desempenho (do desempenho, sublinhe-se) dos professores e não existem serviços de inspecção (os sistemas bem sucedidos constroem a confiança): ou seja, estão há muito a contrariar as variáveis determinantes da escola-indústria (nunca li, nos inúmeros relatos do sistema finlandês, uma referência ao excesso de burocracia).

Em Portugal, parece que se queria recuperar a flexibilização institucional do currículo, e logo de 25% da carga horária, quase de supetão. Dizem que parou por causa das eleições autárquicas e da vontade do Presidente. Que não se conte este ridículo fora de portas e que se repita: para além do tempo, "isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia - o inferno acentuou-se (1998-2000) na anterior experiência de gestão flexível do currículo - num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de flexibilização curricular".

A imagem é de um pintor finlandês: um Anjo, mesmo que ferido como é o caso do escolar finlandês, justifica todos os cuidados e merece que se lhe dê tempo para encontrar outros caminhos.

 

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Hugo Simberg.

"O anjo ferido"

Museo de Arte Ateneo.

Galería Nacional.

Helsinski. 

Finlândia. 



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Quinta-feira, 23.02.17

 

 

 

É preferível a coragem de eliminar as retenções dos alunos nos anos não terminais de ciclo (nos terminais ficaria para mais adiante), do que andar há mais de duas décadas a culpar, exclusivamente, os professores e as escolas pelo insucesso escolar instituindo um inferno de má burocracia que se evidencia em reuniões de agenda repetida e documentos de "copiar e colar". Aconselho a leitura deste post do Paulo Guinote.

 



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Domingo, 19.02.17

 

 

 

O "Governo vai mudar o currículo das escolas" contrariando decisões muito desfavoráveis aos alunos, principalmente aos mais jovens, promovidas por Crato com o empobrecimento curricular. É o passo seguinte depois do questionamento saudável a uma variável da mesma família: a indústria dos exames. É mais um motivo de esperança no sentido da moderação e da sensatez. Mas não chega. É preciso eliminar o que resta dos procedimentos da "guerra" aos professores, e à organização das escolas, da autoria de Lurdes Rodrigues.

A "nova" gestão flexível dos currículos eleva a exigência da escola (se a municipalização se abstiver). Não bastará disseminar directrizes centrais. Será preciso mais estudo, mais autonomia e mais responsabilidade, para que se afirmem valores de liberdade, maturidade e transparência. E tudo isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de mudança curricular.

 

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Sexta-feira, 23.12.16

 

 

 

Não me surpreendo quando se aponta o outsourcing (que é predominante nas tecnologias da informação) como a decisão que mais desvantagens associou ao mundo organizacional na modernidade e que contribuiu para a queda da indústria florescente nesse período recente da história: a financeira. A opção pela fonte exterior foi, desde logo, uma auto-certificação de incapacidade.

 

Ter a liberdade de agir sobre os sistemas de informação é um valor precioso para uma instituição. Se antes da sociedade da informação e do conhecimento o poder nas instituições estava na mão de quem decidia sobre o financeiro, com esse advento a capacidade de decisão ficou nas mãos dos dois domínios: financeiro e informação.

 

O outsourcing satisfez o novo grupo de stakeholders: os accionistas. O bem-estar destes investidores resumiu-se aos lucros que subiam sempre que havia uma redução de profissionais. Essa decapitação cerebral levou a que a decisão sobre os detalhes da informação a obter passasse para fora. E por mais partilhado que fosse o período de análise dos sistemas, os decisores do exterior podiam sempre responder: "é uma boa ideia, realmente, mas impossível de concretizar". A dependência externa na definição da informação a obter revelou-se fatal e generalizou-se. 

 

 

Já usei parte desta 

argumentação noutros textos.



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Segunda-feira, 05.12.16

 

 

 

O DN diz que o "Ministério queria injetar sangue novo nas escolas, mas não tem como fazê-lo" por questões financeiras. É um assunto discutível e com muitas variáveis. Repito o que tenho escrito: há uma legião de professores em burnout. Basta olhar para os números (mais de 40% dos professores tem mais de 50 anos de idade) e conhecer horários e a generalidade das burocracias. Pelos vistos, nada vai acontecer brevemente. Há, desde logo, inutilidades horárias e burocracia cuja eliminação reduzia a despesa.

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Segunda-feira, 24.10.16

 

 

 

Há mudanças imperativas no domínio legal. Não vai lá doutro modo. Há procedimentos a eliminar com urgência. A má burocracia corporizada em amontoados de grelhas, ou em modo de repetição em plataformas digitais, anula o indivíduo sem acrescentar atributos cooperativos e gregários. Institucionaliza a inutilidade. Sobrecarregar o indivíduo com burocracia exclui a dignidade e impede qualquer veleidade à inovação, à inteligência e ao primeiro atributo do conhecimento da razão: a liberdade. A má burocracia prolongada é o principal motor da desmobilização, da saturação e do burnout

 

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Quarta-feira, 19.10.16

 

 

 

 

É intemporal a crítica à escola-industria e raramente as escolas escapam à normalização de horários, de currículos e por aí fora. É uma crítica fundamental, mas está sempre à mercê de "cíclicos inventores da roda". Uma análise séria exige muitos caracteres. Dividi esta discussão em capítulos a partir da síndrome de boreout (tédio no trabalho) que é uma evidência preocupante na escola portuguesa. Mais entre os professores, mas também, e de acordo com OMSáude, entre os alunos adolescentes.

 

Nos últimos dias mediatizou-se a experiência da escola de Carcavelos que pensa "fora da caixa". Conheço pouco do fenómeno em concreto e já ouvi opiniões divergentes. Salienta-se, desde logo, a vontade de reflectir. Na Educação, as mudanças (falar de revolução neste domínio é manifestamente exagerado) devem ser progressivas, paulatinas, discutidas e pensadas. A escola é, quase por definição, uma instituição em crise. Os caminhos "fora da caixa" exigem coragem, vontade, moderação, sensatez e amor à liberdade - também de ensinar e aprender -.

 

Importa, desde logo, mudar detalhes. Coisas aparentemente pequenas. Se pensarmos no que existe em Portugal, com aulas de noventa minutos, podemos questionar: estão todos os anos de escolaridade nas mesmas condições para este tempo de aula e mesmo as diversas disciplinas de um mesmo ano ou todas as aulas do mesmo professor a uma determinada turma? É certo que não. Deslocar o intervalo, por exemplo, para a conveniência pedagógica e didáctica da responsabilidade de cada professor tem as vantagens que se queira imaginar para além de suscitar uma quebra de rotinas e uma "abertura" para a integração de novas ideias didácticas sem "beliscar" a leccionação dita mais tradicional.

 

Um exemplo da mesma família, que é, sem dúvida, um retrocesso a caminho da escola-indústria, é a calendarização a eito de todos os testes, de todas as turmas e em todos os anos de escolaridade. Condicionar deste modo a abordagem didáctica diferenciada a cada turma, só mesmo num modelo contraditório e conceptualmente perdido que advoga em simultâneo o ensino individualizado e diferenciado (para além do cultivo precoce do retrógrado "estudo para o teste" ou aquele mais "reivindicativo": só respondo a um conjunto de questões por dia). Olhando para a imagem, aquele pico de aprendizagem teria, se existisse, alguma explicação.

 

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Quarta-feira, 12.10.16

 

 

 

"Há escolas que querem lançar na plataforma digital as actas das eleições dos delegados de turma e dos representantes dos encarregados de educação. Fazem isto porquê e para quê?", dizia-me o impaciente programador de uma empresa de software escolar. E tem razão para a saturação. Este é um bom exemplo, entre dezenas, da falta de confiança na palavra dos professores que gera hiperburocracia e burnout. Durante décadas houve delegados de turma e representantes dos encarregados de educação (há menos tempo no segundo caso), indicados pela palavra do professor que procedia à eleição e não consta que houvesse qualquer problema. Este exemplo demonstra que o digital só por si não simplifica; trata-se de eliminar, como no desenho, os procedimentos burocráticos. E a digitalização de todas as actas escolares, devidamente parametrizadas e sem repetições ou redundâncias, é assunto para uns posts.

 

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Sábado, 08.10.16

 

 

 

 

Regressa à agenda, até pela degradação do que existe, a necessidade de um "modelo transparente e de normalidade democrática, e livre da partidocracia, na administração das escolas" e, com surpresa, "a Fenprof  defende o fim da figura dos diretores das escolas, advogando a gestão por um órgão colegial com participação efectiva dos professores.O neoliberalismo escolar começou com Sócrates e Rodrigues, embora Barroso e Justino abrissem as portas. A invisibilidade política e comunicacional das escolas do não superior, que, até à queda da banca, eram os sorvedouros da nação, e a diabolização dos sindicatos, pressupunha a terraplenagem. Não foi totalmente assim porque os professores resistiram ao "projecto global". Derrotaram a divisão da carreira, os mentores da avaliação de professores foram "obrigados" a classificarem-na como "fascismo por via administrativa", a prova de acesso saiu da agenda, os concursos civilizaram-se este ano, a industria dos rankings foi questionada, a rede escolar voltou a respirar, mas há um caminho a percorrer para a normalidade, e modernidade, curricular, para a eliminação de horários ao minuto, para um razoável número de alunos por turma e para a dignidade na profissionalidade dos professores sendo a confiança no seu exercício a condição essencial para a eliminação da hiperburocracia e do burnout. Mas nada se construirá com o organograma dos actuais agrupamentos e muito menos associado ao modelo de gestão que Sócrates e Rodrigues impuseram. O fim da história carecia, mais uma vez, de fundamento.

 

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Sexta-feira, 30.09.16

 

 

 

 

Passar do eduquês I (escola a tempo inteiro com afectos) para o eduquês II (escola a tempo inteiro com exames) é "suportável" uma vez. A rotatividade "eterna" (temos décadas de alternância) explica o burnout de professores e os persistentes números de insucesso e abandono escolares.

 

Centremos o debate no seguinte ângulo de análise: o importante estudo do cérebro continua a concluir que é mais correcto falar em ignorância do que em conhecimento sobre o seu funcionamento; António Damásio, por exemplo, sublinha-o no sentido do texto na imagemO ensino, a aprendizagem e os desenhos curriculares não escapam a isso. O alargamento curricular tem fundamentos e só em discussões ideológicas datadas é que se advoga o regresso ao back to basics (ler, escrever e contar). Quando um sistema escolar está "tão avançado" que se dá ao luxo de cortar investimentos, o conhecimento exige que o faça por igual nas diversas áreas.

 

É precisamento por isso que a humildade é inalienável. Quando se decide nestes domínios, avalia-se o estado em que se encontra essa qualidade imprescindível a um sistema escolar. Nuno Crato e Lurdes Rodrigues eliminaram-na, embora a "rotatividade" eduquesa tenha raízes anteriores. É o espaço de fusão entre as duas versões do eduquês que parece, fatalmente, de pedra e cal. Os deputados do PS que o digam a propósito da avaliação da sua produtividade.

 

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Daniel Kahneman (2011:73), "Pensar, Depressa e Devagar", Temas e Debates, 

Círculo de Leitores, Lisboa.



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Sábado, 10.09.16

 

 

 

Há décadas que as escolas abrem todas em Setembro. O início é ruidoso quando há disparates como a eliminada BCE. E o que fez o Governo para além disso para ser elogiado pela claque de apoio? Reverteu cortes salariais, eliminou, com coragem informada, contratos com "privados" e alterou provas dos mais pequenos. Mas grande parte das variáveis que degradaram a escola pública estão intocáveis. António Costa, que confessou a guerra aos professores decretada nos primeiros conselhos de ministros de Sócrates, mantém as variáveis bélicas somadas aos excessos ideológicos de Crato que instituiu um preconceituoso back to basics a cavalgar o além da troika.

 

Sumariemos: anos a fio com avaliação do desempenho kafkiana (salva-se a inutilidade), carreiras congeladas desde 2005, mais turmas com mais alunos em horários ao minuto, inutilidades horárias, hiperburocracia, espectro de horários zero, contratados "eternos" e megagrupamentos com um modelo de gestão "impensado" que transportou a partidocracia para dentro das escolas. É natural que o sentimento de "fuga" se afirme com tanta desconfiança e agravada pela idade avançada do grupo de professores. Mas seria indecente que se fizesse das reformas antecipadas uma espécie de cortina de fumo que pede repetidamente o "impossível" para que o desespero acabe num mal menor e na manutenção dos instrumentos da referida guerra.

 

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Sexta-feira, 09.09.16

 

 

A frase é de Joaquim Azevedo e está na agenda mediática. Há muitos que defendem que este ex-SE de Cavaco Silva (os ajudantes, segundo o chefe) acordou agora e acham sei lá o quê. Como já me habituei a este sono alternado dos nossos investigadores, comento o estudo com um post de 2 de Julho de 2009 (o muro que asfixia a escola e os professores); tem na coluna direita do blogue, a das etiquetas, inúmeros textos sobre o mesmo assunto e tem também um livro com o título "Por Precaução".

 

O muro que asfixia as escolas e os professores.

 

Quem quer que se meta na aventura de reflectir sobre o estado do sistema escolar português pode escolher os mais variados pontos de partida. A minha opção navega na história mais recente e concentra-se no tratamento da informação.

Podia optar por "sistema escolar por blocos". Mas o conceito de bloco da precaução torna mais inteligível o que quero exprimir e reforça duas ideias: é, como espero que se veja, o bloco que mais asfixia o privilégio de ensinar e contamina de modo decisivo os outros dois: o do ensino e o da organização escolar. 

Este bloco da precaução, que foi construído paulatinamente e que criou um muro de burocracia na gestão da informação escolar, é quase tão difícil de derrubar como foi o muro de Berlim.

O bloco da precaução caracteriza-se por um universo informativo que é obtido apenas para arquivo e que existe porque está determinado de modo central através das invenções técnico-pedagógicas do ministério da Educação. E é aqui que encontramos um imenso elenco de invenções burocráticas: inúmeras actas e relatórios sem parâmetros indicadores de informação estruturante, projectos educativos impossíveis de avaliar, projectos curriculares de turma e de escola, definição de objectivos com variadas designações de acordo com os gostos e os feitios dos promotores de ocasião. A lista é interminável.

A institucionalização do bloco da precaução, e a sua aparente autoridade, parte dos serviços centrais do ministério da Educação (Inspecção-Geral como elemento central) e alastra-se de modo quase acéfalo à organização de muitas das escolas. As invenções burocráticas devidamente preenchidas são, por precaução, a única consciência profissional de muitos estabelecimentos de ensino; isso retira sentido de autonomia e de responsabilidade e gera fenómenos de subserviência e de medo.

Só assim foi possível verificar um conjunto denominado de boas práticas que tornava "exequível" aquilo que depois se provava ser inaplicável: é essa uma parte crucial da história recente da avaliação do desempenho dos professores e do arrastamento insuportável desta coisa sem pés nem cabeça. Quando se tentou perceber as boas práticas das escolas ditas de referência, o ridículo eliminou rapidamente a visibilidade mediática que se quis impor. Também por precaução se deixou de falar nisso.

 

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Quinta-feira, 11.08.16

 

 

 

O Paulo Guinote escreveu um parágrafo muito certeiro:

 

"(...)Está por fazer o cálculo completo dos que abandonaram a profissão nessa mesma década, por aposentação ou rescisão, voluntariamente, mesmo com elevados cortes na remuneração, só para fugir ao manicómio em que se transformaram algumas escolas a partir do momento em que o discurso da add meritocrática e titularizada se impôs e passámos a ter a única profissão cronometrada fora do desporto. Curiosamente, com o apoio de gente que defende muita liberdade pedagógica e salas sem portas ou paredes."

 

Será que os opinadores e comentaristas não sabem que as carreiras estão há mais de oito anos congeladas e que há milhares de professores com salários líquidos pouco acima dos 1200 euros que não beneficiam de qualquer reposição salarial? O que a actual execução orçamental começa a comprovar é que não há qualquer caos com a redução de impostos para pequenos empresários e com a reposição de salários e pensões. Mas isso não esconde o que falta fazer e o Governo sabe-o muito bem. Para além disso, as imagens alojam-se e inscrevem os acontecimentos mais significativos que continuam por reverter: anos a fio com a avaliação do desempenho kafkiana (salva-se a inutilidade), mais turmas com mais alunos em horários ao minuto, inutilidades horárias, hiperburocracia, espectro de horário zero até para professores com mais de cinquenta anos e mais de trinta anos de serviço, professores contratados com anos a fio de serviço e megagrupamentos com um modelo de gestão "impensado" que transportou a partidocracia para dentro das escolas. É natural que a indignação cresça quando se apela ao silêncio.

 

(Este parágrafo não é inédito, mas a repetição é um dever. Reescrevi-o.)



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Quarta-feira, 29.06.16

 

 

 

ME exige informação "impensada" que não é incluída nos programas das empresas de software escolar. Isso provoca a circulação infernal de ficheiros excel e word. Torna-se doentio. Proporciona também a roda livre escolar de quem "desconhece" que a obtenção de informação "pedagógica" tem exigências administrativas. É o tal mundo criativo da repetição de inutilidades. É uma espécie de "vamos brincar às escolas e à gestão". No mínimo, a governabilidade exigiria a inclusão de "toda" a informação nuclear nesse software como critério primeiro de licenciamento. A avaliação externa (Inspecção-Geral) "penalizaria" os excessos, e não o contrário, e o uso das muito boas aplicações do office da Microsoft.



publicado por paulo prudêncio às 12:26 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Segunda-feira, 27.06.16

 

 

 

O despacho normativo nº4-A/2016 (Organização do Ano Lectivo) diz no múmero 5 do artigo 10º:

"5 - Sem prejuízo do disposto no número anterior, até duas destas horas podem ser atribuídas a outro docente do conselho de turma que seja responsável pelo acompanhamento dos alunos da turma."

Se a intenção fosse a seguinte, "o secretário do conselho de turma ou outro professor do conselho de turma podem ter até duas horas não lectivas para trabalho de conselho de turma", concluiríamos que o ME era ingovernável. Em vez do espírito simplex anunciado, institucionalizava-se o secretário da hiperburocracia.



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Quinta-feira, 23.06.16

 

 

 

Elogia-se a coragem informada do Governo no caso cooperativas ilegais e redundantes, mas a defesa da escola pública não se esgota aí; obviamente. E não é preciso recuar muito para o que é "consensual" mudar. Há questões com implicações orçamentais e outras não: "apenas" de reposição democrática.

 

Alunos:

 

Quando é que se contraria o afunilamento curricular (que começou em 2003 com a "reforma" do secundário) de Crato, sem ser apenas na mudança de provas finais para aferição?

 

Quando é que se reduz alunos por turma?

 

Profissionais:

 

Quando é que se descongelam carreiras (praticamente congeladas no que levamos de milénio)?

 

Quando é que se repõe a decência na avaliação do desempenho (o congelamento de carreiras é que silencia o desmiolo)?

 

Quando é que se encara de vez a elevada média etária, e o burnout, dos professores (tão discutida em campanhas eleitorais), nomeadamente revendo o seu estatuto de modo a impor decência (sem empurrar pessoas para reformas com indecentes penalizações) na redução da componente lectiva por idade e tempo de serviço e na distribuição do serviço docente?

 

Quando é que se confia nos professores e se elimina a hiperburocracia (em modo digital também)? No primeiro simplex, o MEC de então acelerou em sentido contrário. Como será no simplex dois? O "escola a 360 graus" não é animador.

 

Organização das escolas:

 

Quando é que se altera o modelo de gestão no sentido de esclarecer três variáveis: municipalização, agrupamentos e democracia interna das organizações?

 

Quando é que se requalificam as escolas não abrangidas pela parque escolar?

 

E podíamos ficar horas a elencar componentes críticas ou em detalhes técnicos (que explicariam a execução de algumas das medidas referidas com os meios existentes). Mas um pequeno post é suficiente para sublinhar que a defesa da escola pública tem exigências que não são marcianas.

 

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Quarta-feira, 15.06.16

 

 

 

 

Decorrem ainda as avaliações de alunos do final do ano e deve recordar-se que o artigo 42º do Estatuto do Aluno é taxativo e devia atenuar, no mínimo isso, o inferno de invenções de má burocracia (incluindo a digital) que alimenta a cultura organizacional de muitas escolas.

 

 

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Sábado, 11.06.16

 

 

 

"(...)Entre as tarefas que desviam os professores da sua “missão essencial”, figuram “a sobrecarga de reuniões e de múltiplas tarefas de natureza burocrática”, como por exemplo o preenchimento de aplicações instaladas em plataformas electrónicas, que “poderiam ser desenvolvidas por assistentes técnicos”, destaca o CNE num parecer sobre a condição docente.(...)". Digamos que a hiperburocracia está há muito identificada e que a passagem para o digital torna ainda mais ridícula a ausência de estratégia informacional. Aos sucessivos discursos governamentais com promessas de eliminação da praga, corresponde sempre mais burocracia. Conclui o CNE, que acorda tardíssimo, mas acorda, que “nos últimos anos, as condições de trabalho dos docentes nas escolas têm vindo a tornar-se mais difíceis”, o que contribui para que se registem “processos de stress e burnout [exaustão]".

 

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Sexta-feira, 03.06.16

 

 

 

Não me surpreendo quando se aponta o outsourcing (que é predominante nas tecnologias da informação) como a decisão que mais desvantagens associou ao mundo organizacional. A opção pela fonte exterior foi uma auto-certificação de incapacidade.

Ter a liberdade de agir sobre os sistemas de informação é um valor precioso. Se antes da sociedade da informação e do conhecimento o poder nas instituições estava na mão de quem decidia sobre o financeiro, com esse advento a capacidade de decisão ficou nas mãos de dois domínios: financeiro e informação.

O outsourcing satisfez o novo grupo de stakeholders: os accionistas. O seu bem-estar resumiu-se aos lucros que subiam com a redução de profissionais. E por mais partilhado que fosse o período de análise, os decisores do exterior podiam sempre responder: "é uma boa ideia, realmente, mas impossível de concretizar".

A dependência externa na definição da informação a obter revelou-se fatal e generalizou-se.

São poucas as administrações as que definem os campos da informação e o assunto tem toda a relação com os "cíclicos" concursos de professores e com o inferno hiperburocrático no ambiente escolar. O que acabei de escrever não contraria a ideia de base de dados única associada ao simplex dois. Mas sobre isso, escrevi no post anterior.

 

Já usei parte deste texto noutro post. 



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Quinta-feira, 02.06.16

 

 

 

Em 2007, o MEC seguiu em sentido contrário ao primeiro simplex.

 

Desta vez, o que se percebe do "escola a 360 graus" faz temer o mesmo. Não porque em 360 graus se fique na mesma posição e o ME(C) precisasse de 180 graus. Não será um jogo de designações, é todo um arsenal de hiperburocracia que teima em aumentar com o digital. O fundamental é suprimir, ou, no mínimo, automatizar, procedimentos inúteis ou repetidos.

 

Em 2007, o inaugurado MISI (Missão para os Sistemas de Informação) também tentou a base de dados única. Como os engenheiros dos serviços centrais foram injustamente exonerados por causa do caos (criado por políticos tecnicamente impreparados mas cheios da soberba do país de tanga) nos concursos de 2004, o MISI tentou as empresas comerciais de software escolar. Não confiou, ou não conseguiu acordar, e fez bem. Nesta altura, e olhando para o que existe e considerando o que a maioria do ourtsourcing programa como informação útil ou desprezível (a segunda fica para o inferno das grelhas impensadas em excel e word), há motivos para sérias preocupações. Para além dos dados biográficos, no universo da gestão da informação está tudo por fazer. 

 

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Domingo, 01.05.16

 

 

 

Precisamente por ser muito difícil apresentar conclusões na investigação em Educação, exige-se ponderação, sensatez, mudança gradual, equilíbrio e testagem em pequenos universos antes de generalizar em qualquer área da política educativa. Se o período de Crato foi de radicalismo ideológico com cortes a eito (não apenas financeiros), exige-se a quem se segue que recentre. Contudo, o actual Governo nunca poderá esquecer que o período de Lurdes Rodrigues foi também de ruptura radical através de uma confessada guerra aos professores da escola pública. E o que se vai percebendo nalguns dos documentos são esses tiques lurdianos que fizeram do sistema escolar um grande primeiro ciclo recheado de políticas de infantilização da educação, de hiperburocracia e inutilidades e de generalização da síndrome de burnout.

 

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Sexta-feira, 29.04.16

 

 

 

Impressiona a febre do despacho na nossa organização escolar. Por mau centralismo ou por tiques de caciquismo nas propaladas ideias de autonomia e desconcentração, o que se evidencia no estado febril crónico é a desconfiança, a irresponsabilidade e, em sentido mais profundo, o facto de estarmos nos primeiros passos da gestão escolar propriamente dita.

 

Há vozes preocupadas com o "regresso" de Lurdes Rodrigues. Encontrei outro sinal desses tempos de muito má memória. Leio a proposta de despacho para a organização do ano lectivo 2016/17 que o Governo enviou aos sindicatos e detecto a "presença" do pesadelo Valter Lemos.

 

Ora leia:

 

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publicado por paulo prudêncio às 09:50 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Segunda-feira, 21.03.16

 

 

 

É antiga a crítica à escola-industria e muito raramente as escolas que conhecemos escapam à normalização de horários, de currículos e por aí fora. É um assunto muito interessante, que está sempre à mercê de "cíclicos inventores da roda" e que exige muitos caracteres. Decidi dividir em capítulos a partir da síndrome de boreout (tédio no trabalho) que atinge os profissionais da Educação mas também, e de acordo com OMSáude, os alunos com particular incidência os adolescentes portugueses.

 

Nos últimos dias mediatizaram-se boas experiências de escolas que eliminaram as tradicionais campainhas. É uma decisão que conheço bem e com muito bons resultados. Tem um alcance que influencia uma série de variáveis, a começar pela responsabilidade associada à autonomia e à elevação do clima de confiança. Se pensarmos no que existe em Portugal, com aulas de noventa minutos (a experiência, também a que vivi, iniciou-se em 1998, mas era possível nas tradicionais "aulas de 50 minutos"), podemos questionar: estão todos os anos de escolaridade nas mesmas condições para este tempo de aula e mesmo as diversas disciplinas de um mesmo ano ou todas as aulas do mesmo professor a uma determinada turma? É certo que não. Eliminar toques e deslocar o intervalo para a conveniência pedagógica e didáctica da responsabilidade de cada professor tem as vantagens que se queira imaginar para além de suscitar uma quebra de rotinas e uma "abertura" para a integração de novas ideias didácticas sem "beliscar" a leccionação dita mais tradicional. Olhando para a imagem, os picos de aprendizagem distribuem-se e o ambiente escolar elimina os momentos de saturação nos diversos serviços; a segunda variável tem resultados garantidos.

 

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Domingo, 20.03.16

 

 

 

A já muito falada síndrome de burnout provoca doenças, deprime e leva mesmo ao suicídio como aconteceu com a tragédia da France Telecom. Muito menos falada é a síndrome de boreout (tédio no trabalho) mas que tem uma incidência mais comum do que a burnout. No nosso sistema escolar, a boreout já atingia os professores com as inutilidades, os horários ao minuto, as mega-organizações e a hiperburocracia mas também contaminou os alunos que aumentaram o desânimo com a escola derivado ao retrocesso nas possibilidades de escapar à secular escola-industria. Voltarei ao assunto em próximos posts.

 

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Sábado, 05.03.16

 

 

 

 

José Gil (2005:44) escreveu assim: “(...)Em contrapartida, somos um país de burocratas em que o juridismo impera, em certas zonas da administração, de maneira obsessiva. Como se, para compensar a não-acção, se devesse registar a mínima palavra ou discurso em actas, relatórios, notas, pareceres – ao mesmo tempo que não se toma, em teoria, a mais ínfima decisão, sem a remeter para a alínea x do artigo y do decreto-lei nº tal do dia tal de tal mês do ano tal.(...)”


E mais à frente, Gil (2005:57), sublinha: “(...)duplo regime que vigora em serviços de toda a ordem. Ora se tenta inscrever freneticamente tudo, absolutamente tudo em actas, para que nada se perca, ora reina a maior negligência nos arquivos que ninguém consulta nem consultará (espera-se).(...)”

 



Gil, J. (2005). Portugal, hoje. O medo de existir.
Lisboa: Relógio D´Água

 

(É um livro de 2005 e confirmamos com muita

frequência a caracterização do duplo regime. Mas quem diria

que este retrato nos levaria a mais uma bancarrota

e que explicaria o perfil da malta do subprime, do BPN,

do BCP, do BPP, do BES, do Banif e do que mais virá.)

 

 

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publicado por paulo prudêncio às 23:49 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 03.03.16

 

 

 

Quem nunca esteve num conselho de turma do ensino não superior, não sabe decidir a nível macro sobre as variáveis informacionais que produzem conhecimento que apoie a tomada de decisões. Nem sei se parece, mas esta evidência é determinante e ocorre há anos a fio.

 

No mesmo domínio, e aos níveis meso e micro, esse deconhecimento é causador de entropia pela incapacidade de relacionar as variáveis referidas com a operacionalização dos sistemas de informação.

 

Se juntarmos as duas formulações, encontramos uma sólida resposta para o aparecimento de burnout nos ambientes escolares que se acentua nas sociedades minadas pela desconfiança. A hiperburocracia também se instala nos suportes digitais, contribui para a "fuga" de profissionais e para o aumento da desesperança. Todavia, o desenho transmite um sinal de espeança.

 

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Quarta-feira, 24.02.16

 

 

 

A desconfiança nas escolas tem diversas causas, mas a primeira relaciona-se com a inabilidade das sociedades em educar as crianças. A relação tem uma proporcionalidade directa. Uma sociedade que se demite de educar, remete para a escola a tarefa na totalidade.

 

Esta natural impossibilidade explica duas consequências: "perseguição" à profissionalidade dos professores, normalmente através da hiperburocracia e de outros fenómenos causadores de "síndrome de burnout", e aumento do consumo de psicotrópicos (ritalina e afins) em crianças agenda.

 

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Sábado, 09.01.16

 

 

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A participação neste Conselho Geral resultou em duas respostas que intituei como "Do inverno menos rigoroso" e que pode também ler de seguida.

 

Ponto um: Como reanimar as salas de professores.

 

Vivemos o inverno menos rigoroso de que há memória e os professores agradecem. Apesar dos tempos serem de memória curta, assisti, exactamente no rigoroso inverno passado, a uma radiografia impensável para o que levamos de democracia: vários professores, com idades entre os 45 e os 55, a leccionarem com fortes sintomas gripais porque os atestados médicos implicam a perda de dias de vencimento. Este estado chocante tem motivos óbvios e a comprovada desesperança geral tem causas evidentes: uma redução de mais de 50 mil professores numa década deixa marcas profundas e ponto final. Só por desconhecimento se pode argumentar que nada há a fazer ou que as pessoas estão cansadas de mudanças. Há uma série de variáveis que têm soluções que são mais do domínio ideológico do que da métrica contabilística.

Façamos um resumo.

Há uma legião de professores contratados sujeita a um processo de desprezo profissional: os concursos são, a léguas, os mais incivilizados da Europa e a vinculação mais uma história kafkiana.

Os professores do quadro demonstram uma espantosa resistência associada ao faz de conta. Mas as imagens alojam-se e inscrevem os acontecimentos mais significativos: anos a fio com uma avaliação do desempenho assente no absurdo dos pontos e das cotas e sem qualquer sinal de progressão salarial, divisões injustas na carreira que foram vencidas mas que deixaram marcas, mais turmas e com mais alunos, inutilidades informacionais e horárias como serviço não lectivo, hiperburocracia em regime bacteriano, desorientação didáctica e curricular e megagrupamentos com um modelo de gestão "impensado" e que transportou o pior da partidocracia local para dentro das escolas numa clara afirmação de desconfiança nos professores. Aliás, a confiança é até a palavra-chave. A palavra de um professor vale menos do que um qualquer relatório, mesmo que seja no formato "copiar e colar".

É natural que o sentimento de "fuga" se afirme como primeira prioridade. E sublinhemos: o corpo docente está com uma média etária muito elevada para o que é aceitável numa profissão tão exigente.

Para além do que foi dito, importa sublinhar que os meios de comunicação social estão há uma dezena de anos a publicitar em primeira página, e com a cumplicidade do poder político, a devassa da carreira dos professores e o "tudo está mal na escola pública".

É consequente, portanto, que se leiam apelos a um programa decente de reformas em regime especial como meio de reanimação das salas de professores. Mas não bastará se o quadro conhecido não for alterado. Será uma substituição de desesperançados por "proletarizados" em estado de revolta contida.

 

 

Ponto dois: Ensino profissionalizante ou vocacional no Ensino Básico.

 

Em regra, este tipo de percurso escolar muda de designação quando muda o governo. A novidade do último Governo foi a tentativa de iniciar estes programas de combate desesperado ao insucesso escolar ainda mais cedo e em turmas com quase o dobro dos alunos. 

A generalidade destas turmas vocacionais são antecâmaras de delinquência juvenil ou parques de estacionamento de potenciais desempregados. Desta vez agravou-se com a referida sobrelotação além da troika. Este fatalismo é uma prova da sociedade ausente que deixa tudo à escola transbordante. Não actua quando o insucesso se projecta nos primeiros anos de escolaridade e desorienta-se se a tragédia chega à adolescência e tem o sistema prisional como destino. 

O flagelo do insucesso escolar só terá uma descida consistente quando for encarado como uma tarefa prioritária de toda a sociedade e podendo, por exemplo, adquirir uma responsabilização objectiva ao nível concelhio.



publicado por paulo prudêncio às 21:41 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quarta-feira, 30.12.15

 

 

 

 

Não me surpreendo quando se aponta o outsourcing (que é predominante nas tecnologias da informação) como a decisão que mais desvantagens associou ao mundo organizacional na modernidade e que contribuiu para a queda da industria florescente nesse período recente da história: a financeira.

 

A opção pela fonte exterior foi, desde logo, uma auto-certificação de incapacidade.

 

Ter a liberdade de agir sobre os sistemas de informação é um valor precioso para uma instituição. Se antes da sociedade da informação e do conhecimento o poder nas instituições estava na mão de quem decidia sobre o financeiro, com esse advento a capacidade de decisão ficou nas mãos dos dois domínios: financeiro e informação.

 

O outsourcing satisfez o novo grupo de stakeholders: os accionistas. O bem-estar destes investidores resumiu-se aos lucros que subiam sempre que havia uma redução de profissionais. Essa decapitação cerebral levou a que a decisão sobre os detalhes da informação a obter passasse para fora. E por mais partilhado que fosse o período de análise dos sistemas, os decisores do exterior podiam sempre responder: "é uma boa ideia, realmente, mas impossível de concretizar".

 

A dependência externa na definição da informação a obter revelou-se fatal e generalizou-se. 

 

São poucas as administrações com condições para definirem os campos da informação e o assunto tem toda a relação com o recente Citius, com os "cíclicos" concursos de professores e com o inferno hiperburocrático no ambiente escolar.

 

 

 

Já usei parte desta 

argumentação noutros textos.



publicado por paulo prudêncio às 15:48 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 17.12.15

 

 

 

Há uma variável antiga no sistema escolar que exige uma imperativa reforma: o mangas-de-alpaca na didáctica do ensino, na geral e na específica, que exerce funções de gestão, no MEC, na inspecção ou nas escolas, tem de ser anulado por lei e ponto final. A praga transfere-se de imediato para o digital, daí a hiperburocracia digital, e agrava-se se acumula pouca apetência para as questões das humanidades e das artes e falta de estudo em sistemas de informação e comunicação. Muito da síndrome de burnout passa também por aí.

 

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publicado por paulo prudêncio às 17:03 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Terça-feira, 15.12.15

 

 

 

A desconfiança nos professores tem diversas causas, mas a primeira relaciona-se com a inabilidade das sociedades em educar as crianças. A relação tem uma proporcionalidade directa. Uma sociedade que se demite de educar, remete para a escola transbordante duas tarefas: educar e ensinar na totalidade. Esta impossibilidade explica duas consequências: "perseguição" à profissionalidade dos professores, normalmente através da hiperburocracia e de outras inutilidades causadoras de "síndrome de burnout", e aumento do consumo de psicotrópicos (ritalina e afins) em crianças agenda.

 

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publicado por paulo prudêncio às 18:57 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 07.12.15

 

 

"As aplicações informáticas obtêm os dados dos alunos e não disponibilizam qualquer relatório com um resumo das classificações por turma, disciplina ou ano de escolaridade e podia dar inúmeros exemplos destes. Temos de ir às pautas e contar as classificações".


É mesmo assim. Por incrível que possa parecer, esta conclusão é real em 2015 e dá ideia que estará na mesma em 2025 e em 2035. Em muitos casos, essas aplicações até impedem a exportação de dados para tratamento noutro software. Há empresas privadas estabelecidas neste mercado escolar há quase 20 anos, que estão licenciadas desde 2007 pela Missão para os Sistemas de Informação (o MISI do MEC), e que vivem num estado anterior a 1990 quando o data mining (um "palavrão" que significa relatórios, mineração, de dados) era uma exigência e quando já nem sequer se imaginava comercializar bases de dados sem construção de históricos e sem relação de variáveis. Impressiona o somatório de desconhecimentos nesta área, as empresas acham-se proprietárias dos dados e a selva em que vivem provoca uma parte essencial do conhecido inferno de repetições e inutilidades.

 

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publicado por paulo prudêncio às 11:25 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 03.12.15

 

 

 

Conselho Geral / "Começar de Novo", por Paulo Prudêncio

 

 

No âmbito da minha participação no Conselho Geral ComRegras, foi publicado o seguinte texto sobre o tema em agenda - Equipa do novo Ministério da Educação:

 

Foi tal o plano inclinado do sistema escolar na última década, que não existirá área da sua organização que não necessite de uma espécie de “começar de novo”.

Se tomarmos como referência o relatório 2015 do CNE ou o Education at a Glance 2015 da OCDE, saberemos que, em 2012, 2013 e 2014, o insucesso escolar aumentou em todos os anos de escolaridade e que somos o país da OCDE com a maior diferença de qualificações entre gerações.

Há três variáveis que influenciam directamente as componentes críticas referidas e que necessitam de ser eliminadas de forma a acompanharmos o que de mais sensato se faz na Europa: mercado escolar, cliente escolar e neoliberalismo escolar, digamos assim. São três variáveis que atingiram um ponto crítico, que se ligam e que podem ser sumariamente sistematizadas da seguinte forma: rankings como modo único de vida, senso comum como dominador da autoridade escolar e individualismo de escolas dominadas por grupos de interesses alinhados com a partidocracia local.

A propaganda escolar inspirou-se na lógica do “mercado selvagem”. A cooperação dentro das redes escolares, a boa gestão de recursos e a prevalência de um ensino emancipador, ecléctico e que accione o elevador social foram ideias negligenciadas com o avanço do milénio e com uma queda a pique nos últimos quatro anos.

Está ainda identificado, e há muito, o fenómeno da hiperburocratização que é, em grande parte, estimulado por uma avaliação externa que premeia o aumento da obtenção de inutilidades no domínio dos sistemas de informação. É imperativo que esses programas estimulem exactamente o contrário, ou seja, a supressão de procedimentos, a penalização dos lançamentos repetidos e a eliminação das inutilidades.

 

Paulo Prudêncio.



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Quarta-feira, 18.11.15

 

 

 

Façamos um raciocínio por indução: nos concelhos onde impera a lógica de mercado, com o tal público-privado financiado pelo Estado, há um bocado de tudo para que qualquer um se envergonhe: exclusão de alunos com necessidades educativas especiais ou dificuldades de aprendizagem, critérios de matrícula que ignoram a boa utilização das instalações, publicidade enganosa, professores contratados precarizados, professores do quadro em estado de desconsideração profissional e por aí fora.

 

Se generalizarmos ao país, pensarmos na última década e em alunos infantilizados ou em competição desenfreada e na desconfiança nos professores traduzida num inferno de burocracia, não se estranha que um estudo conclua que "nove em cada dez professores sente que é desconsiderado pela sociedade".

 

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publicado por paulo prudêncio às 21:15 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Domingo, 08.11.15

 

 

 

 

Somos quase o único país do velho continente onde se fazem actas de conselhos de turma e passamos as reuniões a dizer: isto tem que ficar em acta. Não imagino como é que no norte e no centro da Europa se entendem sem actas. Quiçá gregos e espanhóis nos imitem e talvez isso se relacione com as tais velocidades. Para além disso, constata-se que a palavra de um professor atingiu o grau zero da confiança e isso também explica o tipo de sociedade que construímos e a inabilidade na educação das crianças.

 

1ª edição em 24 de Março de 2015.



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Quinta-feira, 05.11.15

 

 

 

Se a confiança é a moeda essencial para a economia, nas organizações é a palavra-chave. A confiança nos professores, por exemplo, é decisiva para eliminar a hiperburocracia. A palavra de um professor português vale menos do que um qualquer relatório, mesmo que seja um "copiar e colar". A constante degradação mediática da imagem dos professores só é superada pelas políticas que os desacreditam. É um ranking ensandecido. Se para Stephen Covey é esse o caminho, para o sistema escolar trata-se de o recuperar. Quanto mais tarde o fizermos, mais depauperado ficará o futuro da democracia.

 

"Stephen Covey é da Global Speed of Trust Practice e já integrou a lista dos 25 americanos mais influentes da revista Time; insuspeito, portanto :). Esteve há uns anos em Lisboa, onde falou sobre a importância vital da confiança nas organizações."



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Terça-feira, 03.11.15

 

 

 

Em Portugal legisla-se muito e mal e o sistema escolar evidencia-se por causa da desconfiança nos professores. Não há país do euro que avalie, e pegando num exemplo muito caro aos justiceiros lusitanos, o exercício dos professores com pontos e quotas. Na maioria, nem sequer há avaliação. Existem, numa minoria, inspecções que validam o exercício. Por cá continua em vigor um desmiolo que vive em silêncio porque as carreiras congelaram.

Para além disso, qualquer exercício de sensatez levaria as mãos à cabeça com a incompetência do legislador e com as horas dedicadas à farsa. É um bom exemplo de improdutividade: a bancarrota não é apenas por culpa externa. Ainda há tempos ouvi o ex-presidente do Tribunal de Contas sublinhar a falta de qualidade e o excesso de produção de leis como os factores que mais nos penalizam. Há anos que o discurso se repete, e pela voz das mais variadas figuras, e o que de significativo acontece é o aumento de procedimentos para obter a mesma, e muitas vezes inútil, informação.

 

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Sábado, 31.10.15

 

 

 

Impressiona o clima de "fuga" de professores e conhecem-se as causas: cortes a eito, desconfiança e degradação do estatuto da carreira. Mas há no universo organizacional muito a fazer, desde logo na opção pela supressão de procedimentos em vez da substituição, manutenção ou aumento. Há procedimentos de obtenção de informação, alguns sem sequer suporte no código de procedimento administrativo, que existem por "negligência" informacional e que não suportam qualquer tomada de decisão. Os momentos de passagem para as "modernas" plataformas digitais, podem ser, por exemplo, oportunidades de supressão.



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