Foi interessante regressar ao mundo mediático depois de um apagão de 24 horas e através da impressa do Público. Há muito tempo que não pegava num jornal sem notícias "desactualizadas" pela voracidade da informação.
Sorri com três destaques. Ricardo Salgado do BES, que se dizia ser o "dono" de Portugal, parece começar a apontar o dedo à banca que nos empurrou para o descalabro financeiro, Selassie do FMI demarca-se, como se esperava, do Governo e remete os 4 mil milhões e o relatório para as invenções ideológicas e radicais da PassosCoelho.SA e António Barreto da FMS parece apelar à revolução já ou daqui a um bocado. Veremos se o Governo passa a primavera ou se o bom povo português acaba por reeleger uma espécie de regresso ao Portugal pobre mas orgulhoso.
As boas intenções e a especulação financeira
Muito interessante a análise sobre compromissos de geometria variável.
Já lá vão mais de vinte anos com Cavaco Silva a implorar para que o deixem trabalhar: os resultados estão aí. Tenho a sensação que a sua economia doméstica está saudável.
Parece que o anterior ministro das finanças cumpria a máxima do acesso aos salões da "aristocracia" republicana: sê forte com os fracos e fraco com os fortes. Tenho ideia que, de tanto tocar com a testa no solo sem dobrar pelos joelhos, deve ter arranjado alguma hérnia discal.
Classificava como amendoins tudo o que se relacionava com benesses ilimitadas da oligarquia e tinha o contraponto nas despesas que "lhe interessavam" (representava o colectivo): cortes nos salários, e despedimentos, dos funcionários públicos e aumentos de impostos.
Agora aparece com ameaças adequadas à época euro 2012: a culpa é do sistema e o primeiro da coisanostra tem que ser definitivamente desmascarado. Dá vontade de lhe dizer: ó homem, desembuche que raio!
Teixeira dos Santos: "Importa saber quem beneficiou com o BPN"
O discurso que remetia para a função pública e para o estado social a fatia maior da responsabilidade pelo desequilíbrio das contas ficou desmontado com a situação espanhola.
Os gregos parece que estão fora de análise. O discurso oficial definia, e define, a coisa assim: os problemas da Irlanda eram causados por uma banca contaminada pelos produtos tóxicos norte-americanos, o problema português era principalmente do estado (o BPN, por exemplo, é suíço e dos offshores) e é por isso que estamos a ser alvo do mais elevado corte nos salários. O Governo português começa a patinar porque o caso espanhol desmonta os argumentos ultraliberais, e as palas ideológicas, do gerente Passos Coelho.
Não sei se Portugal "aguenta" mais um registo de inverdades.
Primeiro-ministro não afasta renegociações das condições de resgate com a União Europeia
El Pais diz que Passos Coelho é "campeão da austeridade e das teses alemãs"
Quando se anunciam agregações de escolas num modelo inédito no mundo conhecido e que comprova o trauma de grandeza das elites lusitanas, quando nos preparamos para demonstrar que somos tão estratosféricos que metemos 30 alunos onde só cabem 22, quando andamos a despachar e a contra-despachar diariamente matrizes curriculares com meses de atraso, quando temos um ministro que se engana no algoritmo implosivo e liga às escolas o detonador que seria para o MEC, quando temos um SE Casanova que envergonhou o país numa prestação televisiva inadmissível para uma nação mesmo que troikada, os spins lembraram-se de dar eco a uma demonstração de má aritmética em que a utilização de siglas quer dar um ar sofisticado a uma ensandecida parolice organizacional.
O crédito horário das escolas foi criado em 1997 com a ideia de premiar em equivalente financeiro as escolas mais organizadas. Eram, salvo erro, 140 horas com a possibilidade de conversão financeira até 20. A coisa foi sendo apertada até ao zero. Foi também nessa altura que implodiram, e bem, as horas extraordinárias nos horários dos professores.
Os novos "iluminados" atribuem um tecto de 30 horas convertido em contratação de professores. Ou seja, passam a vida a anunciar que o MEC investe muito em pessoas e que nada sobra para o resto e quando uma escola consegue um bom índice de eficácia só pode contratar pessoas e não pode investir noutra coisa. A sério. Este país não tem remédio.
A sofisticação vigente descobre a roda mensalmente, como a seguir se traduz para senso comum:
É evidente que Portugal tem feito progressos, como se constata em diversos indicadores, mas em matérias como a corrupção, o caciquismo, o tráfico de influências, o saque ao Estado e por aí fora, não saímos do registo denominado como terceiro mundo. É também evidente que a redução da classe média favorece os mais interessados no caos.
Cortes salariais põe Portugal a caminho do Terceiro Mundo
"Presidente do Conselho de Finanças Públicas, Teodora Cardoso, considera um erro os cortes salariais. E admite que os impostos podem descer dentro de cinco anos, se o país limpar as contas públicas.(...)"
Quando comecei a prestar atenção ao Goldman Sachs e à presença de António Borges, salvo erro em 2006 ou 2007, como um guru do trágico subpraime e putativo candidato instantâneo a primeiro-ministro de Portugal, sou franco: fiquei desconfiado e escrevi vários posts sobre o assunto, sempre com a sensação que podia estar a cair no registo de teoria da conspiração. Mas não. Hoje ninguém tem dúvidas e Portugal perderá muito com a presença do citado António Borges nas privatizações.
O meu percurso profissional, em instituições públicas, privadas e de utilidade pública, ensinou-me a respeitar o que existe, a ser humilde perante procedimentos com história e que a inovação não é sinónimo de epifania e corresponde a trabalho e conhecimento do terreno.
Nao sei se será da educação em ambiente anglo-saxónico, se será da formação (sapiência e experiência) em treino desportivo ou se há alguma influência do código genético, o que sei é que percebi que era giro e fixe ter ideias ou achamentos mas acompanhadas do método e do tempo adequado para as desenvolver. Percebi cedo e não considero isso nada por aí além. Sensatez, digamos assim.
Não me surpreendem os relatos que vão me chegando das reuniões de rede escolar com elementos que representam o poder central: o desmiolo não é novo. Substituir o ensino ligado às tecnologias e afins pela pesca, agricultura e caça é uma ideia gira e até fixe. Mas exigir que, nesta altura do ano escolar que pressupõe variáveis estudadas e consolidadas, se encontrem respostas em exclusividade para a mudança é que já parece uma coisa demasiado impreparada, que é da família que nos empurrou para o estado em que estamos e que não é da responsabilidade da troika.
Se era habitual a terraplenagem da história organizacional das escolas do não superior provocar um recomeço anual a partir de um patamar próximo do zero, nos últimos anos acentuou-se.
Agregações que implicam nomeações de CAP´s, nova estrutura curricular, alterações no modelo de gestão escolar e na rede escolar são variáveis que deviam estar resolvidas em Janeiro e que se tornaram o alvo preferencial dos "reformadores" iluminados.
Como estamos em finais de Maio e está tudo por fazer, a azáfama deve ter tomado conta do MEC e isso não augura bons resultados.
Informações sobre carga horária semanal causam confusão nas escolas
E é a prova provada que fazer gestão não é uma brincadeira-de-Gasparzinho, que convém reunir o saber académico com o conhecimento do terreno e que falar demasiado devagar não é sinal de humildade nem de sabedoria.
Estamos, como nação e aos mais diversos níveis, mais uma vez numa encruzilhada e o pânico generalizou-se. O Governo devia decretar a abertura oficial da crise. E o que é que fazemos? Recorramos às fábulas, por mais repetidas que sejam.
Um escorpião e uma formiga preparavam-se para atravessar o rio e a formiga pediu, temerosa com o caudal, boleia no dorso do coabitante. O escorpião avisou-a que teria de executar a sua verdadeira função, mas não a demoveu. Perto do fim da viagem picou-a mortalmente. Antes do falecimento, a formiga ainda o interrogou: porquê? O escorpião foi peremptório: é da minha natureza.
"Os avaliadores de imóveis poderão estar a ser «chantageados» pelos serviços das Finanças para fazer o seu trabalho, sob pena de serem exonerados.(...). «Temos informações desse tipo. Eu compreenderia essa atitude no Estado Novo, não depois do 25 de Abril. São informações que não podemos confirmar, mas que, se nos são transmitidas, acreditamos no que nos estão a dizer», disse à Lusa o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Matias Ramos. Também o presidente da Ordem dos Arquitetos, João Belo Rodeia, referiu testemunhos de avaliadores que dizem estar a ser contactados para fazerem avaliações sob pena de serem substituídos. (...)"
Os defensores da empreitada parque-escolar-sa refugiam-se nos números da derrapagem. Insistem em fazer a prova matemática de que o espalhanço não foi da dimensão que é anunciada. Apesar de Paul Krugman os ter desiludido quando afirmou recentemente que os economistas foram um falhanço, teria sido melhor que tivessem estudado economia em vez de matemática.
Há atributos essenciais à compreensão do descalabro que não devem ser ignorados e o eleitoralismo ocupa um lugar destacado. Se é certo que o edificado da rede escolar carecia de melhorias, o que se fez pode ser nivelado por uma monarquia das arábias e é um retrato do despesismo que nos desgraçou para as próximas décadas. Estamos numa encruzilhada. O investimento na atmosfera organizacional e relacional das organizações, e nos meios nucleares aos seus propósitos, continuam subalternizados em relação à despesa sem retorno e com "impossibilidades" de manutenção.
Por insignificante que seja, uma alteração pode revelar tendências. É o que devemos retirar de um detalhe da proposta governativa de gestão escolar.
O princípio da eleição dos coordenadores de departamento, e mesmo das outras chefias intermédias, é um passo demonstrativo do que acabei de afirmar. Temos de ter esperança que, um dia, outras se seguirão. É a democracia que faz avançar as organizações e a sensatez, em regra, impõe-se.
É evidente que a epifania da eleição apenas se efectuar para três pessoas indicadas pela direcção tem substância risível que revela a tortuosidade que nos levou para a bancarrota.
Muito do eduquês, do justicês, do economês e por aí fora são ramificações dessa família. O medo, a desconfiança, a insegurança e o oportunismo constroem soluções dessa índole; juntas, conseguem registos incompetentes, atávicos e de má despesa.
Também não me surpreendeu uma contraproposta, com grau de parentesco com a do governo, do tipo "consensual": o departamento indica dois e a direcção outros dois. É a tortuosidade referida de novo em acção. A democratite, a democracia em forma de farsa, a ligar o complicómetro-despesista. Repare-se: o departamento elege dois, a que se somam mais dois para nova eleição. É. Na nossa democracia, o produto de dois mais dois também dá cinco; e vezes demais.
Nos últimos dias, a blogosfera tem divulgado uma série de despachos governamentais que determinam o pagamento dos subsídios de férias e de natal, em 2012, às respectivas assessorias. O governo tem apresentado justificações que vão desde o nacional-copy-paste à posterior obediência à lei geral.
Hoje temos mais um. Às tantas, os spins começaram a inundar o espaço para instalar a rotina e o desagravamento.
Peso bem o que escrevo e recebi alguns emails a propósito deste post onde escrevi que "(...) mesmo entre nós, e no caso do sistema escolar, o arco-governativo não descansou enquanto não eliminou o poder democrático das escolas substituindo-o por uma amálgama com o pior do PREC e da ditadura de Salazar. (...)". Dizem-me que posso estar a exagerar na preocupação com o regresso a um passado que parecia arredado da possibilidade histórica e do futuro.
Se fizermos um exercício de memória, saberemos que no período que antecedeu o 25 de Abril de 1974 os directores das escolas eram nomeados pelo poder central e que a dificuldade no conhecimento das personagens do mais recôndito dos lugares era superada pela informação do partido único do regime: a União Nacional. A escolha que as graças determinassem, recebia o mandato que lhe permitia a nomeação dos cargos intermédios das escolas e a possibilidade da não limitação temporal do seu exercício.
Os mais distraídos devem saber que muitos dirigentes dos partidos que nos vão governando defendiam, e defendem, a nomeação pelo poder central dos directores escolares, após auscultação das estruturas locais do respectivo partido político, e que só se depositou a sua eleição nos actuais Conselhos Gerais porque o critério obedeceu à lógica experimentada pelo PREC (os extremos tocam-se), onde as populações se apropriaram do poder das instituições do estado numa prática que se revelou desqualificada e promotora da ausência de profissionalidade e de prestação de contas. Foi assim e já só estamos a um passo da plena realização.
No período que antecedeu a revolução dos cravos, a esmagadora maioria dos professores não pertencia aos quadros e não progredia na carreira. Os que conseguiam uma posição mais profissional ou obedeciam aos ditames do regime ou eram empurrados para uma situação censurada e de exclusão vinculativa.
Existia uma obsessão com os denominados saberes essenciais. Esse empobrecimento civilizacional foi contrariado anos depois do 25 de Abril de 1974 e permitiu à sociedade portuguesa uma cavalgada impressionante na aproximação à sociedade da informação e do conhecimento que se veio a estabelecer.
Perante os factos, e podiam ser muitos mais, convenço-me que temos razões para temermos uma regressão civilizacional que abalará os alicerces da democracia. Se o argumento decisivo é a redução da despesa, importa questionar, como, de algum modo, se fez na altura, a razão que leva a neo-União-Nacional a não prescindir do desvario na gestão de fundações, de PPP´s ou da administração local. É que, e continuando a fazer paralelismos, não se percebe o que queremos quando afirmamos que o sistema escolar é uma prioridade nacional.
Numa época de cortes salariais e de um apagão, de duvidosa constitucionalidade, nos subsídios de 2012, o chairman da nova EDP vai auferir 45 mil euros mensais mais as benesses ilimitadas do costume. E escusam de arremessar com o populismo, como ouvi ontem ao actual bastonário da ordem dos advogados por causa do cartão de crédito de 4 mil euros mensais, para almoços e jantares, de um ministro português.
Deve sublinhar-se que os comportamentos de desperdício fazem escola e não precisamos de olhar para instituições privatizadas ou em vias disso. Há instituições do estado que continuam a viver com esses maus hábitos, num regime em que o único projecto que se reconhece é o-gastar-por-gastar-ou-porque-sim-ou-por
"As nomeações para a EDP são um mimo. Catroga, Cardona, Teixeira Pinto, Rocha Vieira, Braga de Macedo... isto não é uma lista de órgãos societários, é a lista de agradecimentos de Passos Coelho. O impudor é tão óbvio nas nomeações políticas que nem se repara que até o antigo patrão de Passos, Ilídio Pinho, foi contratado. (...)"
O editorial de hoje do Jornal de Negócios, da autoria de Pedro Santos Guerreiro, inclui o parágrafo que escolhi e tem como título Macaquinhos do Chinês. O jornalista retrata um tipo de comportamento que explica o estado em que estamos e que fez escola no país. Os votozinhos, e outras coisas mais, são pagos de forma despudorada. O voto, ou o apoio fervoroso, é cobrado mesmo que em prejuízo do rigor financeiro ou da vocação primeira das instituições.
O despautério na gestão dos dinheiros públicos viciou responsáveis políticos e organizações do estado. Há mesmo quem afirme que a generalização da pequena corrupção e do pequeno jeito criam a atmosfera que "desculpabiliza" a grande corrupção e a inevitável falência financeira dos países. É um caldo de vale tudo e de salve-se quem puder e em que quem fizer a golpada mais volumosa é, silenciosamente, enaltecido.
Entre tantos exemplos, a parque escolar e as PPP´s são evidências do desgoverno da causa comum. Se em todas as alturas se deve condenar e denunciar os desvios, nesta fase de empobrecimento temos de classificá-los como insanos. Virou o ano e os funcionários públicos continuam com o salário cortado, perderam metade do subsídio de natal e aguarda-os coisa pior. Seria injustificável que as instituições do estado abrissem o ano económico com despesas supérfluas e não essenciais ao seu objecto, que podem ir da garantia do não corte de subsídios a assessores governativos até fogos-de-artifício variados, passando por mudanças de mobiliário, impressões a cores desnecessárias ou novas decorações de interiores e exteriores apenas porque se acha que assim fica melhor e mais in; seria mesmo imperdoável.
E entretanto, e pelo euroviete supremo, há quem diga coisas incómodas. É uma intervenção de Nigel Farage, um conservador antifederalista que mais parece um esquerdista corporativista. Imperdível e com menos de 3 minutos.
Os exemplos de Mario Monti (primeiro ministro italiano), Lucas Papademos (primeiro ministro grego) e de alguma forma de Vitor Gaspar em Portugal ajudam a clarificar alguns conceitos. O termo tecnocrata (de tecnocracia, governo de técnicos) vai sendo substituído pelo tecnopolítico (político que é um técnico) e explica a capacidade dos segundos tomarem o poder sem se sujeitarem ao sufrágio directo e universal. São técnicos com habilidade política.
Lembrei-me disso ao ouvir as declarações elogiosas, dedicação e excelência, por exemplo, que Vitor Gaspar fez hoje aos funcionários públicos em pleno parlamento. Serão classificações convictas ou estará em causa a greve geral de 24 de Novembro?
Vítor Gaspar: “Todos os caminhos possíveis são estreitos e difíceis”
O consumismo dos portugueses é usado como causa primeira para a falência financeira. O argumento serve como cortina de fumo. Para além de estar demonstrado que, apesar de tudo, os portugueses até têm sido comedidos, importa sublinhar o seguinte: passamos o tempo a advogar o aumento da produtividade no turismo, nos têxteis, no calçado e nas novas tecnologias e depois dizemos que as pessoas são inconscientes por consumirem viagens, vestuário e gadgets tecnológicos. Não percebo. Queremos que os proletários produzam apenas para deleite da oligarquia?
Há tempos escrevi assim:
"(...) Não confio em pessoas que se proclamam imaculadas. Tenho os meus pecados. Sei que por vezes excedo o limite de velocidade nas autoestradas e que nem sempre estaciono o automóvel de modo regulamentar. Por outro lado, há muitos anos que não tenho qualquer empréstimo bancário e só adquiro carros, livros, computadores, viagens, electrodomésticos e por aí fora a pronto pagamento. Nem queria entrar muito por este domínio porque não censuro mesmo quem não o faz. Só me desgostam aqueles que usaram o alguém-que-pague-depois com o resultado que se sabe: pagamos-quase-todos. (...)."
O "mundo ocidental" entrou em declínio. O discurso das promessas (de 1950 a 1970 nos países ocidentais) foi substituído pelo das incertezas (de 1970 em diante) no que concerne ao estado social, com Portugal meio baralhado no meio destas etapas.
A discussão sobre o destino dos lucros das grandes empresas - filantropia ou impostos, defendendo, os da segunda solução, a eficiência das políticas sociais - foi contornada por uma terceira via que desregulou a alta finança e criou os offshores. Esta inovação originou uma inaudita transferência de recursos financeiros da classe baixa para a classe alta.
Neste momento, os governos ocidentais sabem que as normas nesse domínio só seriam cumpridas pelas empresas do "seu" mundo e que gerariam desemprego e falências em catadupa. Apelam ao voluntarismo ético.
O que não é estranho é uma pessoa muito influente no maior partido da esquerda portuguesa propôr uma prática defendida pelos ultraliberais que não concedem qualquer crédito aos serviços públicos. E escrevi que não é estranho porque estes paradoxos explicam muita da nossa bancarrota e do estado a que chegámos. É uma quarta via de uma esquerda que parece nunca mais se envergonhar e que se embevece com o uso magistral dos paraísos fiscais.
"(...) O presidente da Comissão Executiva da Mota-Engil, Jorge Coelho considera que a subvenção vitalícia que lhe é atribuída, de 2400 euros, está prevista na lei, mas entende que devido à situação do país os cortes sejam aplicados a esta área também. (...)"
Dizia o analista político da área da maioria do governo: os maiores buracos no orçamento em curso foram provocados pela Madeira e pelo BPN.(...) Os partidos da actual maioria não podem ser responsabilizados pelo estado a que chegámos.
São estas contradições quase primárias que se aceitam com dificuldade. Ouvem-se os discursos de pessoas que têm tido responsabilidades nas mais altas instâncias do estado e o pasmo marca lugar na primeira fila. Falimos? Pudera.
A declaração do primeiro-ministro confirma o contrário do que disse após as eleições: afinal estamos ao nível da Grécia e os funcionários do estado vêem o seu rendimento liquido penalizado em 20% em dois anos. A receita do actual governo é brutal e determinada pelo poder financeiro que domina o mundo ocidental. Há uma interrogação curiosa que interessa fazer: estão "aprisionados" ou são testas de ferro?
Houve um detalhe na citada declaração que não percebi: a justificação que diz que 70% do orçamento deste ano já está comprometida. Mas se já estamos em Outubro, no mês 10 de 12, o que seria de esperar? Ou foi um lapso ou uma fraca encenação.
Mais uns dias e a culpa é dos professores. Ao fim de não sei quantos anos, a traquitana de MEC e as suas ramificações não conseguem fazer mais do que explicar como é que falimos.
O mar de contradições à volta da dívida dos países do sul da Europa continua com episódios diários. Se há pouco tempo alguém dissesse que a Alemanha ia divergir do BCE e exigir a reestruturação da dívida grega, teria sido acusado de lunático. É bom recordar que os nossos especialistas de direita eram taxativos: quem propuser uma reestruturação pode ficar um século sem acesso ao mercado de capitais. Afinal, em que é que ficamos? Estranho, no mínimo.
É evidente que ninguém consegue pagar estas dívidas e muito menos com taxas de juro tão altas. Quem estimulou, por interesse de alargamento do seu território e do seu mercado, o consumo dos países de sul não pode sacrificar tudo ao calendário eleitoral interno. A bancarrota de uns será a de outros.
A democracia mediatizada é um fenómeno por estudar. Todavia, a velocidade e a efemeridade são duas pedras angulares. Por falar em duos, introduzo uma parelha que me desgosta profundamente: os estados desgraçados do país e do nosso sistema escolar.
Esperava que a coreografia eleitoral terminasse na noite das últimas legislativas e que o país caísse na real. Estava enganado. Dos media mainstream aos outros, a ninguém escapa a estratosfera. A falência parece uma coisa de gregos e a lama é a única arma de arremesso. Os do novo poder alucinam-se num estonteante jogo de cadeiras, os da nova, e da menos nova, oposição só se comovem com a busca do futuro emprego e a declaração de bancarrota efectiva está num horizonte cada vez mais próximo.
A notícia que pode ler a seguir lembra-me os nefastos entendimentos e acordos entre este PS e os sindicatos de professores. Há alguém a querer dar uma mão a este PS? Bem sei que a exigência da mudança do acordo com a tal de troika pode fazer a diferença e clarificar posições.
Há muita coisa por explicar na cadeia alimentar bancária. É bom que se saiba quem são os accionistas do banco central europeu e, por sua vez, quem são as entidades que detêm poder nos bancos dos diversos países europeus. Fico com a impressão que a direita que manda na Europa, deixará o velho continente num estado semelhante aos EUA no fim de G. W. Bush.
Que raio: Edurado Catroga foi Ministro das Finanças, já não é uma criança e não pode afirmar estas coisas de ânimo leve.
Sinais, aqui e aqui, do estado grave em que se encontra o partido político que sustenta o governo de gestão. Da face oculta às listas partidárias, não há detalhe que escape a uma máquina que se embriagou com o poder e que justifica a tese de alguns: em regra, o poder só tem duas fases: a tomada e a manutenção a todo o custo.
Ressuscitou para a mediatização o guru do subpraime.
Há tempos escrevi assim:
"Está mau para previsões.(...)o primeiro-ministro domina a manipulação mediática. É essa a forma de se colocar no centro da política. Tenho ideia que se entrar por cá o FMI o ainda chefe do governo será imediatamente nomeado agente do Fundo Monetário Internacional para Portugal". Afinal sobrou para António Borges, o guru do subpraime discretamente desaparecido quando emergiu a hecatombe que contou com os inestimáveis préstimos da sua Goldman Sachs. Só que este prémio tem uma dimensão europeia. Levantam-se de imediato duas questões: sentar-se-á junto a Bruxelas? Será para garantir que tudo será como dantes?
António Borges reentrou na agenda dos média portugueses para negar a sua especialidade ao afirmar que a especulação não tem peso nos resgates financeiros a sul. Coisas cómicas.
Os portugueses precisam de sair do ambiente de campanha e de se "libertarem" do chefe do PS para raciocinarem sem palas. Mesmo sem alinhar numa espécie de teoria da conspiração, é decisivo enfrentar a mistura explosiva que inclui os gurus do subpraime, os gananciosos lusitanos em tons rosa, laranja ou cinzento, os responsáveis pela hecatombe financeira de 2008, as agências de raiting, os abutres das dívidas soberanas e a corrupção ao estilo americano como denunciou Joseph Stiglitz.
Quase quarenta anos depois da bela revolução dos cravos, leio hoje uma espécie de arrependimento por parte de um dos mentores do 25 de Abril de 1974. Otelo Saraiva de Carvalho refugia-se no estado a que isto chegou para declarar o seu arrependimento, como se a história pudesse ser analisada de modo tão simplista. É: as nossas "elites" são um bocado cómicas, lá isso são.
Raramente contacto com a chamada imprensa cor-de-rosa. Faço uma aproximação através duma página do suplemento P2 do Público. No sábado, o Público fazia referência a uma atitude interessante do actual primeiro-ministro inglês. Sabemos como os britânicos estão à beira da explosão e como os políticos profissionais têm sido apanhados em flagrante ganância e despautério. Dei algum desconto e registei o acontecimento.
O senhor viajou para Málaga numa low-cost, alojou-se num hotel de 3 estrelas e, para que fosse mesmo notícia, pagou tudo do seu bolso. Acrescentou o jornalista: nas ilhas britânicas era impossível um governante estar a minutos de anunciar a falência do país e preocupar-se com a melhor posição para ler o tele-ponto. Fiquei apenas com uma certeza: continuamos mesmo na cauda da europa e quanto aos costumes temos de nos envergonhar.
É uma peça que ilustra bem o nosso estado de falência.
Os príncipes, acompanhados pelos clientes dos seus salões, perderam por completo o controle das contas do país.
Só por defeito se pode classificar como buraco o estado das nossas contas. Ninguém, mas mesmo ninguém do mainstream, se pode pôr de fora do número referente à cratera das PPP´s que não pára de aumentar. Do PR até aos partidos do arco da governação, ninguém tinha coragem para enfrentar o FEEFFMI. Mas podiam estar descansados: enviavam os sindicalistas governantes para a mesa de negociação que eles e elas estão habituados a negociar com "responsabilidade".
O mais caricato é a direita, com a benção deste PS, querer meter mais PPP´s na Educação. Reparem no counter (cresce ao minuto) das PPP´s.
"O Governo português “tem uma grande responsabilidade” pela situação económica e financeira do país e colocou os parceiros europeus numa situação muito difícil por terem de decidir um programa de ajuda muito rapidamente e em condições tão complicadas, acusou o ministro sueco das Finanças, Anders Borg.(...)"
Importa aprender com os erros. Um dos mais recentes, e que me convenceu definitivamente de que o anúncio da falência estava por dias, foi a forma como o pessoal do mainstream, desde o chefe do governo de gestão a Pacheco Pereira, desdenhou da geração à rasca. Chegou a ser indecoroso.
A lição de democracia, e de cidadania, na manifestação daquelas 200 mil pessoas foi um grito de indignação que devia envergonhar a geração da ganância e das benesses ilimitadas e os seus tristes satélites. É bom que aprendam a lição para que a multidão expectante se contenha e mantenha a paciência em nome daquilo que querem preservar: a democracia e a liberdade.
A parque escolar e as cooperativas de ensino com crescimento recente são o espelho do que pode acontecer na Educação após a falência das desastrosas associações do supraime aos imobliários e das PPP´s ao betão armado. A guloseima procura novas áreas e os orçamentos da Educação e da saúde estão desprotegidos. Deste post tirei a seguinte passagem:
"(...)Foi por volta da década de noventa do século passado que se percebeu que o orçamento da Educação era demasiado apetitoso para que a ganância, que se afirmou através do PSD e do PS (o CDS e outros ficaram com empregos e fatias menores), o deixasse sossegado; potenciais PPP´s ainda sem dono.(...) as agendas mediáticas foram paulatinamente preenchidas pelo “tudo está mal na escola”, enquanto se edificavam escolas cooperativas em regime de excesso de oferta e em clima de quase mercado. Essa agenda foi levada até às últimas consequências, e com sonoro e central aplauso, a partir de 2005, através da destruição do poder democrático da escola.(...)"
Há um argumento para explicar a bancarrota que já ninguém se atreve a usar: o problema está na massa salarial dos funcionários públicos. Aliás, era bom que nos explicassem porque é que, e apesar da redução salarial e do aumento de impostos, temos de contrair um empréstimo de 9 mil milhões de euros até Junho, de 30 e tal mil milhões de euros até ao final do ano e de 80 mil milhões até final de 2013. Apliquem lá mas é outro teste de stress aos bancos e digam a verdade.
Um dia António Guterres explicará o porquê da desistência e a semântica do pântano. O gráfico da dívida pública é explícito: o antigo primeiro-ministro, e o ministro Sousa Franco, conseguiram uma redução sistemática e talvez tenham previsto o que se lhes seguiu.
Uma torrente diária de "pequena" corrupção serve de cortina de fumo às causas do buraco financeiro. É um vórtice tão alienante como o descrito por Marx. O casos BPN, BCP e BPP vão passando pelos pingos da chuva, mas com um olhar temeroso para a expectante geração à rasca. É sempre tempo para recordar Noam Chomsky e a sua a lista das "10 estratégias de manipulação" através dos meios de comunicação social:
O contínuo buraco do BPN, e também do BCP, criou sérios problema às nossas contas e tem de ser orçamentado contra-vontade. Isso faz subir o défice e os tais mercados não se comovem.
O FMI, que está por cá há uns meses, espera que os portugueses aguentem o caso de corrupção até cerca de 2012 sem grandes convulsões sociais.
Para contar os nossos ês já não chegam os dedos de uma mão. Ao eduquês vieram associar-se o economês, o justicês e por aí fora. É uma praga de linguagem bem pensante e sedutora que inferniza a sociedade.
O bullshit também se instalou nos nosso comentadores encartados como se viu nos últimos dias a propósito da avaliação de professores. Como nada sabem sobre o que acontece nas escolas, debitam uma série de generalidades porque o silêncio foi eliminado da inteligência.
Com a blogosfera docente acontece mais ou menos o mesmo sobre o que se segue em matéria de avaliação do desempenho. A coisa foi suspensa pelo parlamento e quem de direito que faça o seu trabalho. Mas o rol de mesquinhez ao jeito da legislatite-valteriana preenche-nos a cabeça. Nada há a fazer. O ês minou-nos o raciocínio e não há simplex que nos valha. Estamos na falência mas temos uma explicação: a culpa é dos outros.
Encontrei uma informação sobre a ausência de Portugal no site do FMI que dá que pensar. O blogue Ortodoxia pede explicações para este enigma.
A questão é colocada assim:
"De Portugal não há quaisquer notícias no site oficial do Fundo Monetário Internacional desde Outubro de 2010. Há 5 meses portanto. O equivalente há mesma altura em que o Nepal deixou de ter também notícias relacionadas com o mesmo.
Devido à situação em que o país se encontra poderíamos talvez esperar outra coisa. Não por mera especulação, mas simplesmente porque fazendo a comparação com os restantes que formam o chamado grupo dos PIIGS - que se encontram em posição mais delicada dentro da zona do euro, e que actuaram de forma mais indisciplinada nos gastos públicos e se endividaram excessivamente - a diferença de "tratamento" é no mínimo interessante de seguir.
A saber, a última vez que estes países tiveram notícias no site oficial do FMI foram:
As projecções da Economist Intelligence Unit apontavam para déficits/PIB de 8,5% para Portugal, 19,4% para Irlanda, 5,3% para Itália, 9,4% para Grécia e 11,5% para Espanha.
Possa talvez Teixeira dos Santos elucidar-nos sobre as razões que nos levam a não termos notícias relacionados com o FMI há 168 dias. Talvez ele possa explicar como um país que entrou no radar de desconfiança dos investidores por possuir uma elevada relação dívida/PIB tenha conseguido ser ignorado durante tanto tempo pela organização que pretende assegurar o bom funcionamento do sistema financeiro mundial.
Sabemos que o segredo é a alma do negócio, mas talvez fosse interessante alguém explicar isto."
A primeira página do expresso reflecte a meia-volta-do-medo. Uma auditoria nesta altura exigia cortes de uma tal dimensão que a expectante geração à rasca poderia entrar em ebulição. Os pingos de chuva começam a ser demasiado densos para o financiamento partidário, para as PPP´s, para a traquitana do Estado, para o despautério bancário e para as benesses ilimitadas.
Uma espécie de bloco central é uma hipótese cada vez mais forte e correrá sérios riscos a médio prazo.
O arco da governação e a oposição oficial cativaram os lugares e abespinham-se com qualquer sinal de vida para além do mainstream. Normalmente, acenam aos eleitores com a ameaça de desgraça na economia e nas finanças.
Vamos lá ver se nos entendemos: todos sabemos que há uma componente internacional no que estamos a passar, mas ao fim de 36 anos de democracia era difícil fazer muito pior do que este financiamento partidário, do que estas PPP´s, do que esta justiça, de que esta administração do Estado e do que este despautério bancário.
A descida no IVA do golfe só me mereceu um comentário: "este país merece falir". Mas quando a televisão do Estado faz um trabalho como o que pode ver a seguir, só podemos acreditar que a nação faliu e há muito. E como ninguém queria mesmo acreditar, a RTP até pensou que fosse mais uma cedência aos bancos alemães.
Depois quem critica é demagogo e populista e um perigo para a democracia.
"Despesas da Assembleia da República com funcionários, transportes e subvenções dos grupos parlamentares tiveram crescimento galopante nos últimos anos.(...)"
Governo prepara redução do IVA para o golfe
"Sócrates foi sensível a argumentos do sector. Praticantes poderão pagar apenas 6% de imposto, em vez dos 23% actuais. Solução passará por nova interpretação da lei.(...)"
Se o topo da pirâmide não consegue resolver o problema da hecatombe imobiliária, como é que se fará na europa do euro? A Grã-Bretanha, e a sua city londrina, é o segundo patamar. A seguir dão entrada os países da europa do sul. As economias destes países foram das mais aliciadas pelo corrupção que partiu dos EUA e que, ao que consta, teve a colaboração de bancos alemães. Dá ideia que os países do norte e do centro da europa não foram tão fustigados e que só não deslocalizam a moeda dos PIIGS porque os EUA não deixam.
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