Em busca do pensamento livre.

Terça-feira, 09.05.17

 

 

 

O Expresso dá eco a estudo que conclui que os "alunos pobres chumbam duas a três vezes mais". Há décadas que os estudos indicam esta realidade, embora existam os que tergiversam de acordo com outros interesses. Em Portugal, por exemplo e onde se fez o estudo, a escola é a mais transbordante da Europa. Não há escola na Europa com um caderno de encargos tão impossível de cumprir. A escola portuguesa é tudo. É como se não existisse sociedade. Não será por acaso que continuamos com os piores registos da OCDE no insucesso e abandono escolares (isto também se lê no PISA). Repito um algoritmo que já tem quase uma década e que não interessa (e, pelos vistos, continua a não interessar) a quem tem governado em grande parte do milénio.

A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.

Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.

Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades, na mesma sociedade e organização, com 100 professores diferentes, os resultados oscilariam muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.

É também por isso que é um logro que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que tudo se resolve mudando o conteúdo físico dos 30%. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% não há ensino.

 

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publicado por paulo prudêncio às 15:31 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 02.04.17

 

 

 

Há escolaridade obrigatória porque as taxas de abandono e insucesso escolares, e de analfabetismo, são elevadas. Se não fosse obrigatória, os números aumentariam: por falta de jeito dos miúdos, por só estarem a gastar dinheiro, porque é no trabalho desde cedo que se aprende ou por serem raparigas (parece que esta variável tende a desaparecer). Ou seja, não há escolha: é obrigatória e muito bem. É um direito, e um dever, constitucional conferido pela rede pública de escolas. Ainda há pouco passou para 12 anos para contrariarmos os números de população adulta sem sequer o ensino secundário.

 

E que relação tem a escolaridade obrigatória com a lógica do cliente escolar e da liberdade de escolha? Tem a relação mais inversamente proporcional possível. Os suecos, e até sem analfabetismo desde o século XIX, experimentaram, em 1995, a generalização da lógica do cliente escolar. Um falhanço, consubstanciado na segregação dos alunos. O cliente escolar desautorizou e baixou o nível do ensino, porque o negócio exigiu, para além de outras variáveis, uma organização com profissionais lowcost. Todos perderam, menos os proprietários das empresas. Haverá outra conclusão antiga, mas menos óbvia: fragilizará a democracia em poucas gerações.

 

Este post usa argumentos que são conhecidos há mais de cinco décadas por quem estuda a importância da escolaridade obrigatória na consolidação das democracias.

 

2ª edição.



publicado por paulo prudêncio às 17:45 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 01.04.17

 

 

 

OCDE veio dizer que há professores na Europa a precisar de tutorias e há quem pense de imediato em Portugal e no regresso dos professores titulares. Não é assim. Há países onde já não há professores, tal os tratos a que o grupo profissional tem sido alvo. No Reino Unido e na Alemanha, por exemplo e lido assim de repente, precisam de tutorias porque há pessoas sem formação académica, e muito menos profissional, que recorrem ao ensino "apenas" para terem um salário. Em Portugal, como na França ou na Espanha, ainda não é assim. Mas não tarda. Por cá, lá abrirão os telejornais com a falta de professores que começa a ser uma preocupação porque a insanidade organizacional, e os excessos no tempo para a aposentação nos do costume, provoca baixas médicas em catadupa.



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Terça-feira, 21.03.17

 

 

 

A Finlândia incluiu mais competências transversais nos currículos nacionais (o processo iniciou-se em 2012 e apenas em 2016 deu os primeiros passos). E porquê a transversalidade? Por causa dos futuros profissionais, mas principalmente pelo tédio dos alunos (até nas raparigas que têm melhores resultados em todas as literacias). A ligeira quebra nas avaliações internacionais terá acelerado a recuperação da antiga interdisciplinaridade; ou melhor: da sua institucionalização. O processo tem cinco anos, não muda com a queda de um Governo (Crato&Rodrigues seriam impossíveis) e regista o pessimismo de 34% dos professores; 21% registaram benefícios. Toda esta sensatez num sistema com escolas com uma dimensão civilizada, descentralizada e autónoma. Não existem exames (mas existe avaliação), não existe avaliação do desempenho (do desempenho, sublinhe-se) dos professores e não existem serviços de inspecção (os sistemas bem sucedidos constroem a confiança): ou seja, estão há muito a contrariar as variáveis determinantes da escola-indústria (nunca li, nos inúmeros relatos do sistema finlandês, uma referência ao excesso de burocracia).

Em Portugal, parece que se queria recuperar a flexibilização institucional do currículo, e logo de 25% da carga horária, quase de supetão. Dizem que parou por causa das eleições autárquicas e da vontade do Presidente. Que não se conte este ridículo fora de portas e que se repita: para além do tempo, "isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia - o inferno acentuou-se (1998-2000) na anterior experiência de gestão flexível do currículo - num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de flexibilização curricular".

A imagem é de um pintor finlandês: um Anjo, mesmo que ferido como é o caso do escolar finlandês, justifica todos os cuidados e merece que se lhe dê tempo para encontrar outros caminhos.

 

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Hugo Simberg.

"O anjo ferido"

Museo de Arte Ateneo.

Galería Nacional.

Helsinski. 

Finlândia. 



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Segunda-feira, 20.03.17

 

 

É, realmente, espantoso passar em tão pouco tempo do exemplo sueco de privatização total dos anos noventa do século XX para o exemplo finlandês. 

 

Entre Helsínquia e Lisboa



publicado por paulo prudêncio às 18:44 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 23.01.17

 

 

 

""Os indignados andaram anos a fio em cima dos corruptos da banca e da política. Os gregos elegeram um Governo que assumiu o protesto e não é que os indignados passaram de imediato para o lado dos bancos e dos políticos? Acusavam os gregos de parasitismo. Com Trump é a mesma coisa. Diz que vai lutar contra o sistema de Washington e é ver os indignados outra vez ao lado da banca e da política. Podem descansar. O sistema americano tem a Constituição e o jogo de pesos e contrapesos". Ouvi a ideia e discordo. O Syriza era muito mais frágil do que Trump e o segundo é muito mais do sistema. Para além disso, é todo o discurso, e a história dos dois movimentos, como se viu na tomada de posse do segundo. 

Por outro lado, não confiaria assim na tal sacrossanta constituição dos EUA e nos referidos "checks and balances". Bem sei que foi alterada 27 vezes desde 1789, mas se olharmos para os seus 230 anos encontramos as maiores barbaridades "constitucionais" (a começar pelas torturas em Guantanamo): da escravatura à perseguição de "comunistas", passando por golpes de estado nas mais variadas latitudes ou pelo apoio a ditadores sanguinários. Trump é disruptor (rompe com o que está), utilizador da pós-verdade (a emoção sobrepõe-se aos argumentos) e já deu sinais de desvalorizar ou mesmo desconhecer o significado da democracia ateniense. Não será tão fácil o poder existente normalizar um Trump tão imprevisível. O seu império megalómano já faliu e voltou a prosperar. É mesmo um caso para seguir com preocupação.

 

A-terrível-humilhação-da-Grécia-Antiga-para-os-criminosos-sexuais

 



publicado por paulo prudêncio às 17:45 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 13.12.16

 

 

 

É natural que apareça um "manifesto que pede menos poder para os directores escolares", que é uma forma de defender a alteração do que existe e o "regresso da democracia às escolas". Foi em 2008 que Lurdes Rodrigues impôs, com a ajuda obstinada de Sócrates e o apoio fervoroso do arco governativo da altura, o modelo vigente, que é uma espécie de "pilar" sobrevivente. Os outros - professores titulares, estatuto do aluno-cliente e avaliação dos professores - caíram por inaplicabilidade (isto para ser brando), embora o último mantenha um estado deplorável de faz de conta ajudado pelo congelamento eterno das carreiras. Estes quatro "pilares" dilaceraram a atmosfera relacional nas escolas, que foram de seguida flageladas pelo além da troika apimentado com dois devaneios cratianos: indústria de exames e afunilamento curricular. Pergunta-se: mesmo assim os resultados dos alunos melhoraram? Claro que sim; até dos menos favorecidos. Há muito que se sabe que cerca de 60% do sucesso escolar se deve à sociedade (com destaque para a ambição escolar das famílias). Os restantes 40% (a organização das escolas e o desempenho dos professores) beneficiaram da capacidade de resiliência dos segundos como os estudos internacionais não se cansam de sublinhar (são os melhores dos países da OCDE a adaptar as aulas aos alunos).

 

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publicado por paulo prudêncio às 17:30 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Terça-feira, 29.11.16

 

 

 

Portugal deve estar a subir no ranking (esse estado febril) do tempo que uma criança de dois anos demora a esvaziar um biberon com leite. Lançar crianças em correrias institucionais é o nosso segredo. Estamos cada vez mais Top Perfomers: velocíssimos na lógica e avessos a maçadas ambientais e culturais. Hoje também se soube pelos testes TIMMS (4º ano de escolaridade), que, entre 1995 e 2015, "Portugal subiu treze lugares na Matemática (continua atrás do Cazaquistão, que raio - este aparte é meu -) e desceu significativamente no Estudo do Meio"; como se observa no gráfico do Público. 

 

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publicado por paulo prudêncio às 17:53 | link do post | comentar | partilhar

Sexta-feira, 07.10.16

 

 

 

A imagem, sobre horas escolares por ano, é de um estudo da OCDE de 2014. Um estudo da mesma organização publicado ontem, "Society at a Glance 2016", tem outro dado impressionante: as crianças até aos dois anos ficam, em média, 25 a 35 horas em creches. Em Portugal, o tempo sobe para 40 horas: uma jornada de oito horas diárias, cinco vezes por semana.

 

Nota: O estudo de 2014 tem outra conclusão da mesma família: Portugal é o terceiro país da OCDE, a seguir ao México e à Turquia, com mais jovens a abandonar precocemente a escola: em cada três alunos, um não conclui o secundário; são os mais afectados pela crise; e pela "eterna" sociedade ausente.

 

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Terça-feira, 27.09.16

 

 

 

A figura da direita é maior? Não. Se medir as figuras verá que são exactamente iguais. A impressão do tamanho é dominada por uma poderosa, e afunilada, ilusão que explica o processo de substituição que domina a rede pública de escolas e a nossa sociedade. Selecção de alunos com base em resultados esperados, e consequente exclusão até dos que necessitam de educação especial, é uma evidência que se acentuou com um regime competitivo que se devia circunscrever à organização escolar. A formação de crianças e jovens em sociedades avançadas, também na ciência, cultura ou desporto, assenta na cooperação em base alargada. Os funis aparecem mais tarde. O contrário envergonha-nos (envergonha mesmo?) e explica os nossos eternos números de insucesso e abandono escolares.

 

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Daniel Kahneman (2011:137), "Pensar, Depressa e Devagar".
Temas e Debates. Círculo de Leitores. Lisboa.



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Sexta-feira, 29.07.16

 

 

 

 

Em 10 anos, quem perdeu mais professores, Público ou Privado? Qual o ministro que cortou mais professores?



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Sábado, 28.05.16

 

 

Como é que diz que se disse?

 

Nem mais.

 

E acrescento o comentário inserido neste post pelo Rui Farpas de Mascarenhas:

 

"Ai as estatísticas! Então as de “felicidade”… Mas embarcando no jogo delas, também se poderá dizer que elas “confirmam” que o paradigma escolar vigente está esgotado, mas (ainda) funciona graças aos professores e à sua dedicação e entrega."



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Domingo, 22.05.16

 

 

 

Por que é que há escolaridade obrigatória? Porque as taxas de abandono e insucesso escolares precoces, e de analfabetismo, são chocantes. Se não fosse obrigatória, os números aumentariam: por falta de jeito dos miúdos, por só estarem a gastar dinheiro, porque é no trabalho desde cedo que se aprende ou por serem raparigas. Ou seja, não há escolha: é obrigatória e muito bem. É um direito, e um dever, constitucional conferido pela rede pública de escolas. Ainda há pouco passou para 12 anos para contrariarmos os números de população adulta sem sequer o ensino secundário.

 

E que relação tem a escolaridade obrigatória com a lógica do cliente escolar e da liberdade de escolha? Tem a relação mais inversamente proporcional possível. Os suecos, e até sem analfabetismo desde o século XIX, experimentaram, em 1995, a generalização da lógica do cliente escolar. Um falhanço, consubstanciado na segregação dos alunos. O cliente escolar desautoriza e baixa o nível do ensino, porque o negócio exige, para além de outras variáveis, uma organização com profissionais lowcost. Todos perdem, menos os proprietários das empresas. Há outra conclusão óbvia: fragiliza a democracia em poucas gerações.

 

Este post usa argumentos que são conhecidos há mais de cinco décadas por quem estuda a importância da escolaridade obrigatória na consolidação das democracias.

 

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publicado por paulo prudêncio às 20:13 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 05.05.16

 

 

 

A escola deve estar fora do mercado total. Mas isso não significa uma rejeição ao ensino mesmo privado ou à iniciativa privada em sentido lato. A história da escola assenta na regra, na finalidade, na exigência e em processos de inovação e emancipação social. O eterno confronto entre a pedagogia e o senso comum não deve ser mercantilizado. A sobreposição do segundo secundariza o efeito de elevador social ou de gerador de igualdade de oportunidades.

 

O nivelamento por baixo tomou conta do sistema português. Há concelhos em que a lei do mercado para obter alunos origina um vale tudo, nomeadamente onde as ideias de desregulação adulteram a deontologia dos profissionais em prejuízo de alunos e encarregados de educação.

 

Há quem aponte os nórdicos. Na Finlândia, com um século de independência, os professores não dependem do juízo inspectivo ou avaliativo (nem existem). A acção pedagógica conferida pela sociedade assenta numa "evangelização" dos ideais de unidade nacional depois de séculos de ocupação: sueca durante mais tempo e russa num curto exercício temporal.

 

Os finlandeses optaram pelo primeiro vector no confronto da pedagogia com o senso comum. Já os suecos, e depois de conviverem mais de um século sem analfabetismo, acharam-se em condições de estabelecer um mercado total. O desastre já foi assumido e o processo de "nacionalizações" em curso devia ser bem estudado por quem acena com a liberdade de escolha na contenda actual que rodeia os colégios ditos "privados". Até se devia estranhar o silêncio das forças políticas que usam essa argumentação quando os professores da escola pública se confrontaram com milhares de horários zero, e em muitos casos afastados das suas famílias e impedidos de concorrer aos tais colégios financiados pelo Estado, ou com mais de 20 mil desempregados.

 

 

 Reescrito. 1ª edição em 7 de Julho de 2014

 

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publicado por paulo prudêncio às 17:29 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 19.07.15

 

 

 

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"No concelho das Caldas da Rainha, só cerca de 30% dos alunos que se inscrevem no 7º ano de escolaridade é que chegam ao exame do 12º ano com frequência do ensino regular e no país não é muito diferente", disse o especialista em Educação. Este recuo até aos anos sessenta do século passado era imprevisível há cerca de uma década. O Público divulga um interessantíssimo estudo sobre o sistema escolar polaco em que se destaca o facto de mais de "50% dos jovens irem para as universidades" quando nos anos setenta "80% dos jovens entravam  no ensino vocacional no fim do ensino primário".

 

Aconselho a leitura do artigo onde se destaca a autonomia das escolas, o evitar "algumas ideias loucas, como as que apareceram nos EUA, de punir os professores por maus resultados", "na aula de Física de uma das turmas do 2.º ano do IX Liceu de Varsóvia estão apenas 13 alunos. E não é porque tenha havido faltas", "a liberdade dos professores, e a sua forte autonomia para preparar aulas e leccionar, é apontado como um dos segredos" e "os docentes da Polónia são os que menos tempo passam nas salas de aula na OCDE, com 18 horas de carga lectiva por semana – em Portugal, são mais quatro horas semanais".

 

"(...)Durante a era comunista no país, dominava claramente a opção pelo ensino vocacional, para o qual seguiam 80% dos estudantes no final do ensino primário. Nos anos 1990, a Polónia tinha 11,1% da população dos 18-24 anos no ensino superior. A meio da década, ainda antes da reforma, já era o dobro. E hoje, mais de 50% dos jovens vão para as universidades: são entre 1,5 e dois milhões de estudantes em cada ano, alimentando as mais de 400 instituições de ensino superior do país.

Para Mikolaj Herbst esta é a peça que falta para entendermos o sucesso polaco. A expansão das inscrições nas universidades alterou a forma como os estudantes perspectivavam o seu sucesso académico no ensino básico: “Em Educação, as expectativas e motivação podem fazer uma grande diferença”.(...)"



publicado por paulo prudêncio às 20:38 | link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Sexta-feira, 10.07.15

 

 

 

 

"Gregos são os que trabalham mais horas na Europa, alemães no pólo oposto", diz o Expresso através de mais um estudo da OCDE que se confessa pouco rigoroso. Até dá jeito que se contem as horas assim, mas já se sabe que o argumentário também permite afirmar que os alemães trabalham menos horas mas produzem muito mais e por aí fora. Os olhos do fanatismo ideológico até ajeitam as folhas excel e a tese dos preguiçosos desorganizados ganha logo força. O que se sabe é que a maioria desses relatórios, e salvo melhor opinião, servem para alimentar tecnocratas que estão na estratosfera, mas que têm que produzir uns clássicos (com todo o respeito pelos verdadeiros clássicos).



publicado por paulo prudêncio às 17:37 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Domingo, 21.06.15

 

 

 

E quais são as instituições mais confiáveis nas sociedades mais atrasadas? As religiosas, diz o estudo do Público do passado fim de semana, e as da alta finança, digo eu e já explico.

 

Na página 15 da revista, e citando Pedro Magalhães, lê-se que "para pessoas como Putnam, a origem deste capital tem a ver com as instituições políticas no passado serem mais ou menos centralizadas, hierarquizadas, autoritárias; quanto mais, maiores os padrões de desconfiança". Villaverde Cabral "adverte que no caso português havia um indicador nada desprezível: o distanciamento ao poder é inversamente proporcional ao nível de educação".

 

Quem conheça o sistema escolar português não vacilará na conclusão: a hiperburocracia, por exemplo, deve-se a um estado insuportável de desconfiança. Por outro lado, a história recente comprovou a generalização da desconfiança para cima das classes média e baixa (quem não se lembra do mil vezes repetido: não prestam contas) enquanto a alta, com os casos BES & BPN como expoentes, vivia numa roda livre da máxima confiança.

 

Voltando ao sistema escolar, e agarrando num exemplo do momento, pensemos no acesso ao ensino superior: o júri nacional de exames montou paulatinamente uma teia que divinizou a desconfiança num processo de exames que equivale a 30% da nota de acesso, enquanto que estudos recentes comprovaram que há mais de uma década que há instituições mais endinheiradas que cometem irregularidades graves, e que têm provocado injustiças brutais e "irreparáveis", nos outros 70% da nota. E nada muda, nem sequer são emitidos quaisquer sinais disso, e repito uma antiga impressão inesquecível para quem tem memória para além do dia anterior: confiar?! Só confiamos no BES.

 

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publicado por paulo prudêncio às 15:58 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 30.05.15

 

 

 

Vale a pena ler a reportagem da revista do Expresso (páginas 42 a 48) sobre o sistema escolar Finlandês. Há, desde logo, uma variável decisiva na Finlândia: uma criança que revele uma dificuldade mais acentuada beneficia de imediato de uma equipa de especialistas. Ou seja: uma municipalização a sério e não como a que queremos implementar em que os autarcas substituem a gestão das escolas para governarem o ambiente local em mais do mesmo (até com 25% da oferta curricular entregue às suas imaginações e sem qualquer linha "à finlandesa").

 

Das muitas questões interessantes, retiro quatro:

 

1. O inferno da papelada. E acrescente ao que vai ler um inferno de burocracia digital com redes informacionais inundadas de ficheiros Word a operacionalizarem tanta complexidade.

 

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2. Há uns estudos recentes que dizem que os nossos alunos que entraram na escola em 1997 eram felizes e obtinham bons resultados (os que não abandonavam a escola, é evidente). Mas os ultraliberais ficam-se pela prosa e têm horror à poesia: a felicidade não se mede, dirão de imediato os mais descomplexados competitivos.

 

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3. Portugal é o único país da Europa onde a carreira do professores é devassada. Na Finlândia é muito valorizada, naturalmente. Mas não é apenas isso, como não me canso de repetir.

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4. Na Finlândia só há exames no fim do secundário (o que é muito diferente de se dizer que não se avalia antes disso ou que não há um clima de exigência e disciplina) e a poesia permite experimentar um "modelo sem disciplinas". Acima de tudo, salienta-se o seguinte:

 

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Por cá, o tratamento dos resultados escolares das crianças já vai em rankings e nem sei mais o quê, a organização das disciplinas afoga-se no "estruturante" com quilómetros de metas e não resisti: trouxe um pequeno texto de Fernando Mora Ramos no facebook (o meu comentário foi curto: Não falta...)

 

"Falta ainda lançar no mercado o campeonato mundial da chucha para lactentes entre os seis e os nove meses apenas para aqueles que já gatinhem e possam - será o objectivo - roubar a chucha ao oponente e mesmo aos da mesma equipa, acumulando um número de chuchas que leve à sua consagração - do gatinhante em causa - como o da Dentada de Ouro na Chucha, ou o Chucha-Mor."

 



publicado por paulo prudêncio às 17:06 | link do post | comentar | partilhar

 

 

 

Uma reportagem interessante, na revista do Expresso, sobre o sistema escolar finlandês.

 

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publicado por paulo prudêncio às 11:43 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 04.05.15

 

 

  

 

Mesmo que se veja boa fé nas teses de mercado total de Milton Friedman, a conclusão é óbvia: as ideologias totalitárias, do capitalismo selvagem ao comunismo, "esquecem-se" da natureza humana e originam desastres humanitários ou atingem objectivos contrários aos enunciados.

 

É evidente que a escola devia estar fora do mercado total. Para além da sua histórica natureza organizacional assentar na regra, na finalidade, na exigência e em processos de inovação e de emancipação social, o também eterno confronto entre a pedagogia e o senso comum não deve ser mercantilizado, porque o risco de sobreposição do segundo é elevado e relega o efeito de elevador social ou de gerador de igualdade de oportunidades do primeiro para uma ordem muito secundária.

 

É exactamente esse nivelamento por baixo que está a tomar conta do sistema escolar português, existindo concelhos em que a lei do mercado para obter alunos origina um vale tudo. É só dar asas à imaginação e ao conhecimento para presenciar comportamentos impensáveis, nomeadamente onde as ideias de desregulação originam desvios inclassificáveis que adulteram a deontologia dos profissionais da Educação em prejuízo de alunos e encarregados de educação.

 

São muitos os que apontam os exemplos nórdicos. Na Finlândia, com cerca de um século de independência, os professores são independentes de qualquer tutela, mesmo que inspectiva ou avaliativa, uma vez que a acção pedagógica lhes foi conferida pela sociedade para uma espécie de "evangelização" nos ideais de unidade nacional depois de séculos de ocupação: sueca durante mais tempo e russa num exercício temporal muito inferior.

 

Os finlandeses optaram claramente pelo primeiro vector no confronto da pedagogia com o senso comum. Já os seus invasores suecos, e depois de conviverem mais de um século sem analfabetismo, acharam-se em condições de estabelecer um mercado total. O desastre já foi assumido e o processo de "nacionalizações" em curso devia ser bem estudado.

 

 

 1ª edição em 7 de Julho de 2014



publicado por paulo prudêncio às 19:48 | link do post | comentar | ver comentários (12) | partilhar


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25 de Abril de 2004
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