Em busca do pensamento livre.

Segunda-feira, 19.06.17

 

 

 

O Governo, apesar da municipalização, manterá a colocação de professores e atenuará a hiperburocracia transferindo a "papelada" dos refeitórios. A sério. A segunda medida foi mencionada como exemplo.

A perplexidade impõe interrogações: a burocracia que inferniza as escolas está centrada nos refeitórios? Estas pessoas da mesa negocial estavam em Marte?

E já agora: o caderno reivindicativo da greve centra-se em três eixos: descongelamentos, vinculações e aposentações decentes.

E de imediato, impõem-se mais interrogações: é táctica igualmente marciana ou é a sério? "Esquecer", também como exemplo, essa mesquinhez não financeira da democracia nas escolas, é motivo para concluirmos que a geringonça já syrizou?

 

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Sábado, 20.05.17

 

 

 

 

A oposição não se cansa de evidenciar que a geringonça segue um caminho diferente. A oposição tem razão. Para além do Governo ter outro discurso, há uma alteração determinante: a reposição de salários e o consequente aumento da confiança. Apesar dessa "recuperação" se diluir na selecção dos factores que ajudaram aos bons resultados na economia, (Ricardo P. Mamede refere: "retoma do crescimento mundial; desvalorização cambial; crescimento e desvio do turismo internacional; continuação da descida das taxas de juro; aumento da confiança; estabilização do sector bancário; retoma da construção e do imobiliário"), e de ainda não se sentir na conta bancária dos destinatários, tem significado político e permite que a maioria que governa se torne mais audível. Existe esperança no futuro.

No ensino registaram-se alterações iniciais: inferno da medição nos mais jovens, rede escolar, contratações de escola e prova de ingresso para professores. Se esse inferno da medição ainda dá sinais em modo politicamente correcto, as outras três variáveis parecem respeitar o espírito inicial. Contudo, das supressões curriculares até ao congelamento e estatuto de carreiras, adiamento de reformas e precarização de profissionais, e passando pelo clima nas escolas (dos alunos por turma aos agrupamentos) e pela hiperburocracia, há todo um universo que desespera pelo regresso à normalidade. 



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Terça-feira, 16.05.17

 

 

 

Cresce o optimismo em relação à situação económica e financeira e há especialistas a concluir que os indicadores determinantes já estão ao nível de 2008. É cedo para consolidar expectativas, mas é tempo de insistir em cenários que incluam pessoas uma vez que se comprovou o efeito positivo (anulado, em parte, pelos impostos indirectos) de contrariar a austeridade a eito. Aliás, a reposição de salários foi a excepção do Governo na exclusão dos professores por serem muitos. É que, e entretanto, foi-se ouvindo: se o descongelamento de carreiras incluir subidas de dois escalões, excluem-se os professores por serem muitos; se as reformas voluntárias forem decentes, excluem-se os professores por serem muitos; se a recuperação da dignidade alterar o estatuto das carreiras (onde se inclui a precarização com décadas), excluem-se os professores por serem muitos. É óbvio, portanto, que se renovem os votos de um "regresso" a 2008, mas que se inicie, no mínimo isso, um exercício transversal. 

 

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Sexta-feira, 12.05.17

 

 

 

"Se apresentar joelhos esfolados ou bolhas nas extremidades inferiores do objecto de profanação, o corpo, tem mais três dias de tolerância de ponto". Ouvi a informação bem humorada, convenhamos, e ainda não a confirmei. Pareceu-me que a bênção, a exemplo da já confirmada, não excluirá os professores por serem muitos.

Não é a primeira vez que a Geringonça não excluí os professores por serem muitos. Foi assim com a reposição salarial no ímpeto inicial da governação (embora o líquido mensal esteja inamovível), que não excluiu os professores por serem muitos. Contudo, quando se fala que em muitos casos o descongelamento de carreiras atingirá dois escalões, excluem-se os professores por serem muitos; quando se projectam reformas voluntárias favoráveis, excluem-se os professores por serem muitos; quando se recupera dignidade no estatuto das carreiras, excluem-se os professores por serem muitos; quando se defende o princípio inalienável dos profissionais votarem nas instituições que servem, excluem-se os professores por serem muitos. Abençoemos, então, o dia de hoje. No caso, que não será o meu, de o leitor se exaltar na adenda descrita no início, sugiro o link por baixo da imagem.

 

Nota: dizem-me que o Diabo está novamente desiludido depois de fazer bolhas nas extremidades superiores do objecto de profanação por tanto esfregar as mãos. Porquê? Porque desejou que a Geringonça não tolerasse o ponto.

 

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Guia completo para o tratamento das bolhas (também se aplica a joelhos esfolados)



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Terça-feira, 09.05.17

 

 

 

O Expresso dá eco a estudo que conclui que os "alunos pobres chumbam duas a três vezes mais". Há décadas que os estudos indicam esta realidade, embora existam os que tergiversam de acordo com outros interesses. Em Portugal, por exemplo e onde se fez o estudo, a escola é a mais transbordante da Europa. Não há escola na Europa com um caderno de encargos tão impossível de cumprir. A escola portuguesa é tudo. É como se não existisse sociedade. Não será por acaso que continuamos com os piores registos da OCDE no insucesso e abandono escolares (isto também se lê no PISA). Repito um algoritmo que já tem quase uma década e que não interessa (e, pelos vistos, continua a não interessar) a quem tem governado em grande parte do milénio.

A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.

Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.

Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades, na mesma sociedade e organização, com 100 professores diferentes, os resultados oscilariam muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.

É também por isso que é um logro que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que tudo se resolve mudando o conteúdo físico dos 30%. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% não há ensino.

 

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Sexta-feira, 05.05.17

 

 

   

A pessoas estão mais optimistas com este Governo, mas mantêm-se - e acentuam-se com o tempo "inamovível" - as componentes críticas da vida profissional de milhares de professores. E nem todas têm implicações financeiras; algumas melhoravam a capacidade volitiva, atenuavam o burnout e reduziam a despesa.

É a 5ª edição desta curta radiografia. A 1ª é de 5 de Novembro de 2015, a 2ª de 10 de Junho de 2016, a 3ª de 20 de Novembro de 2016 e a 4ª de 26 de Janeiro de 2017. Repito o post enquanto se justificar, não esquecendo as intervenções positivas em variáveis importantes (por exemplo: concursos BCE, prova de acesso e rede escolar).

Há uma legião de professores contratados sujeita a um inimaginável processo de desprezo profissional. O desinvestimento na escola foi brutal também nos seus profissionais. E os professores do quadro? Estão há anos com a carreira congelada, para além dos cortes transversais e da aposentação retardada. As imagens alojam-se e inscrevem os acontecimentos mais significativos: anos a fio com a avaliação do desempenho kafkiana (salva-se a inutilidade), divisões na carreira (um histórico com marcas profundas), mais turmas com mais alunos em horários ao minuto, inutilidades horárias, hiperburocracia, espectro de horário zero e megagrupamentos com um modelo de gestão "impensado" que transportou a partidocracia para dentro das escolas. É natural que o sentimento de "fuga" se afirme com tantos murros na dignidade. Importa sublinhar que os meios de comunicação social estão há uma dezena de anos a publicitar em primeira página a devassa da carreira dos professores e o "tudo está mal na escola pública".

 

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  Faces, Picasso



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Quarta-feira, 26.04.17

 

 

 

A gestão das escolas teve um recente pico mediático com as trapalhadas "na designação de diversos membros dos Conselhos Gerais". A democracia representativa foi uma miragem no modelo em curso e deu lugar a um ambiente de partidocracia que retirou a vivência democrática numa instituição que deveria ser exemplar. O modo de escolher as direcções escolares parece ter sido o único fim da constituição dos Conselhos Gerais e foi mais uma derrota para o antigo arco governativo. Quem decidiu, em 2009, eliminar o modelo que existia, teve a oposição de muitas escolas mas a oportunidade criou alinhados de última hora. É hoje consensual para quem avalia o modelo: as direcções escolares devem ser eleitas, num processo devidamente escrutinado, por todos os que exercem funções nas escolas integrados num caderno eleitoral mais alargado a exemplo do que acontecia até 2009. É, portanto, com alguma expectativa que se espera pelas decisões do Governo actual.

 

O Paulo Guinote tem um post importante sobre o assunto, "Liberdade para ensinar a liberdade", com a seguinte passagem:

"(...)Governos sucessivos, dominados por forças políticas tidas por alternativas, nada mudaram numa situação em que a liberdade e autonomia dos professores foram cuidadosamente destruídas, assim como a democracia no funcionamento interno das escolas foi transformada numa vaga memória. Defender a Liberdade para as escolas escolherem a sua forma de organização interna é algo que recupera valores que agora, infelizmente, parecem incómodos da Direita à Esquerda na Educação. Seria um bom exemplo para demonstrarem que ainda acreditam no que Abril trouxe ao nosso país, mas tudo o que está em desenvolvimento na área da Educação aponta no sentido inverso. Com a colaboração, nem que seja com simulacros de oposição, de quase todos aqueles que a cada momento se afirmam herdeiros dos valores de Abril.(...)"

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Quinta-feira, 20.04.17

 

 

 

Os números do "desaparecimento" de professores até arrepiam. Desde 2004/2005, "desapareceram" das escolas públicas 42.000 professores; cerca de 25% dos 167.000 que existiam e cerca do dobro da percentagem da redução de alunos (14%). É fazer as contas. Para além disso, o número de professores com menos de 30 anos já ia, em 2016, em 451; 1,4%. Ou seja: os professores, os causadores do défice por serem muitos, "desapareciam" na inversa proporcionalidade da aproximação à bancarrota. O tal financiamento despesista foi afinal para a banca - alguém tem dúvidas? - que prossegue alegremente em registo de perdão de dívida, enquanto os professores congelam, precarizam, imergem em burocracia e inutilidades e "aposentam-se" em "estado crítico para a saúde pública".



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Segunda-feira, 03.04.17

 

 

Ao que chegámos! O que é isto?

 

Hoje morreu um professor, mas isso não foi notícia

De facto é preciso gostar muito de ser professor para se continuar a ser professor. Ou isso, ou somos mesmo parvos

Texto de João André Costa • 03/04/2017 - 07:51 

 

Todos os dias vou para a escola. À chegada, encostados a um muro, os alunos do costume, do 7.º ao 10.º ano a enrolar charros, a fumar charros, a vender charros. Digo-lhes “Bom dia”, eles mandam-me para o c... e eu continuo, porque quando me mandam para o c... é bom sinal, é sinal de que ainda estão vivos, não vá um ficar estendido ao comprido do portão da escola como no mês passado mais os tios, as tias, os pais, as mães e primos mil a acusarem-nos de deixar os filhos fumar droga à porta da escola, e eu quando eles fumam droga é do melhor, a dormir sobre as mesas da sala de aula perante o olhar indiferente dos colegas ou das contínuas, não vá alguém acordá-los, porque ao menos enquanto dormem e curam a “pedrada” não chateiam e quando alguém os acorda é do pior, pegam logo no telemóvel enquanto me chamam de filho da p... para baixo e ameaçam partir-me os dentes todos.

Sou professor. Mas não dou aulas, finjo que dou aulas e de manhã à noite separo alunos e alunas desertos por andar à porrada, levo sopapos, bofetadas, empurrões e estaladas, cospem-me na cara e dão-me pontapés, mas antes assim, porque às crianças nem uma nódoa negra que se veja ao chegar a casa quando ainda ontem a Luísa, professora de História, acabou no hospital depois de um encarregado de educação lhe perfurar um pulmão entre um par de murros na cara, os óculos partidos e não sei quantos pontapés enquanto a coitada da Luísa se torcia e esvaía no chão.

Chamar a polícia? Nem pensar, da última vez que aqui vieram era ver os alunos, ao melhor estilo dos macacos, saltar por cima do portão da escola e apedrejar os vidros do único carro do posto, agora inoperacional por falta de fundos, assim dizem eles ao telefone, ou então miúfa, muita miúfa.

Mas eu é que não posso ter miúfa, nem eu nem os meus colegas, caso contrário não temos emprego nem salário, a minha mulher vive a 200 quilómetros com uma filha recém-nascida entre os braços e as serras e alguém tem de pagar os “aptamis” agora que lhe cessaram o contrato de trabalho. É preciso ter azar.

Por isso venho para a escola todos os dias ao mesmo tempo que cadeiras voam dentro das salas, alunos correm de faca na mão uns atrás dos outros, vidros estilhaçam, computadores são partidos ou roubados, ou partidos e roubados, conforme aprouver às pobres crianças, porque contrariá-las nem pensar, para já não falar dos pneus dos carros dos professores, tantas vezes substituídos por tijolos em pleno dia, e eu às vezes gabo a capacidade destas crianças para a mecânica, pelo que até já fui falar com o senhor Director e propor a criação de um curso profissional, e não tivessem as ferramentas sido todas roubadas à chegada à escola e, estou certo, os nossos alunos teriam um futuro brilhante à sua frente. Estou mesmo certo.

De facto é preciso gostar muito de ser professor para se continuar a ser professor. Ou isso, ou somos mesmo parvos. Ou, se calhar, não há outra alternativa senão a do desemprego. Vou pela terceira hipótese. E por isso continuo, ano após ano, cada vez mais longe de casa, cada vez mais próximo da Lisboa periférica, dos bairros periféricos, das vidas periféricas, para sempre condenadas a girar ao redor de nada, sem passado, presente ou futuro que as sustente, e eu lá no meio da reportagem da RTP enquanto uma mãe me encosta contra a parede e me perfura a barriga com uma faca do pão depois da filha lhe ter dito ter sido violada por um colega na minha sala de aula, e eu enjoado a segurar a barriga e as mãos quentes cheias de sangue quente a fugir-me com a cabeça de encontro ao chão, incapaz de lhe explicar que a filha já não vem à escola desde a semana passada, até porque a mulher já tem as mãos no meu pescoço e eu sufoco mais ou menos ao mesmo tempo que um grupo de populares persegue e pontapeia a equipa da RTP, arauto da liberdade e da informação. Hoje morreu um professor, mas isso não foi notícia."



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Terça-feira, 21.03.17

 

 

 

A Finlândia incluiu mais competências transversais nos currículos nacionais (o processo iniciou-se em 2012 e apenas em 2016 deu os primeiros passos). E porquê a transversalidade? Por causa dos futuros profissionais, mas principalmente pelo tédio dos alunos (até nas raparigas que têm melhores resultados em todas as literacias). A ligeira quebra nas avaliações internacionais terá acelerado a recuperação da antiga interdisciplinaridade; ou melhor: da sua institucionalização. O processo tem cinco anos, não muda com a queda de um Governo (Crato&Rodrigues seriam impossíveis) e regista o pessimismo de 34% dos professores; 21% registaram benefícios. Toda esta sensatez num sistema com escolas com uma dimensão civilizada, descentralizada e autónoma. Não existem exames (mas existe avaliação), não existe avaliação do desempenho (do desempenho, sublinhe-se) dos professores e não existem serviços de inspecção (os sistemas bem sucedidos constroem a confiança): ou seja, estão há muito a contrariar as variáveis determinantes da escola-indústria (nunca li, nos inúmeros relatos do sistema finlandês, uma referência ao excesso de burocracia).

Em Portugal, parece que se queria recuperar a flexibilização institucional do currículo, e logo de 25% da carga horária, quase de supetão. Dizem que parou por causa das eleições autárquicas e da vontade do Presidente. Que não se conte este ridículo fora de portas e que se repita: para além do tempo, "isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia - o inferno acentuou-se (1998-2000) na anterior experiência de gestão flexível do currículo - num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de flexibilização curricular".

A imagem é de um pintor finlandês: um Anjo, mesmo que ferido como é o caso do escolar finlandês, justifica todos os cuidados e merece que se lhe dê tempo para encontrar outros caminhos.

 

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Hugo Simberg.

"O anjo ferido"

Museo de Arte Ateneo.

Galería Nacional.

Helsinski. 

Finlândia. 



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Quarta-feira, 08.03.17

 

 

 

Após catorze anos de carreiras congeladas (2003 é a data inicial), muito antes, portanto, da troika, é natural a hipersensibilidade ao tema. Fala-se de retroactivos na ordem dos 500 milhões de euros. Mesmo que a quantia seja, por exemplo, um oitavo dos 4 mil milhões do Estado (o anterior Governo até prometeu lucros) que voaram no Novo Banco, ponderam-se os objectivos orçamentais no adiamento com carácter definitivo (para ser brando). Mas exigem-se explicações.

O que torna o assunto menos aceitável, é que não se posicionem as pessoas em 2017, 2018 e 2019 no escalão referente aos seus requisitos legais.

O que é inaceitável é o anúncio, não desmentido, "que para subir na hierarquia do Estado vão ser precisos prémios e promoções". Assiste-se com perplexidade ao regresso do pesadelo kafkiano do mérito-para-as-massas. Bem sei que António Costa anunciou o simplex dois com um animal a voar, mas mesmo que se goste muito de Marc Chagall (um mestre nos seres vivos voadores) não há atenuantes: as pessoas estão saturadas deste género de voo.

 

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Marc Chagall.

 Albertina museum. Viena. Agosto de 2015.



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Terça-feira, 07.03.17

 

 

 

Os totalitarismos estabelecem-se através de leis. Desde logo, com as que são impossíveis de cumprir. Com a velocidade legisliva, é natural que os destinatários se interroguem com a vigência. Faz tempo que o direito abandonou a visão positivista do primado absoluto da lei para integrar uma concepção mais moderna que se pode designar por um "ir e vir constante entre a norma e o caso". Nesse sentido, as fontes que socorrem a capacidade de decisão dos juízes continuam a ser as normas, mas também a jurisprudência e a jurisprudência dogmática (ou doutrina). Ou seja, para além das normas deve considerar-se cada caso em si e também a ciência jurídica produzida pelos jurisconsultos.

 

Importa sublinhar que os totalitarismos não se estabelecem sem a "presença" (nem que seja por alheamento) da maioria das pessoas. As sociedades vão criando um caldo propício às ditaduras, venham elas donde vierem. Desde logo, e como foi dito, pela construção de leis impossíveis de cumprir, mas também por práticas anti-democráticas. Podemos pegar em muitos exemplos. São casos de "impossibilidade" que criaram um estado de sítio legislativo. Em muitos casos, só o fingimento permite o "cumprimento" legal.

 

Para a partilha no facebook acrescentei:

 

Estranhei o conteúdo inocente na SIC (nem sabia e recorri à box). Um juiz tão naïf? E esta mediatização agora? Este nonsense? Acabei de ler a entrevista ao Expresso (dada antes da outra) e percebi muito mais. "Querem afastar-me de tudo; estou cercado; sou escutado; tenho manuais de espiões à porta; decidi falar; são alocados tostões à justiça e milhões à recuperação bancária". Sim; o Juiz Carlos Alexandre pode ser acusado de estar aos papéis em alguns processos, e daí a mediatização, mas a sua narrativa é tão interessante. Sei lá: aconselho a obra maior de Laurence Sterne (e da literatura), "A vida e opiniões de Tristram Shandy". Nota: quando, e durante meses, ou anos, a fio, ligamos a determinados amigos (mais ainda se forem bloggers) e as chamadas são ruidosas e difíceis, e não raramente vão parar ao voice mail, significa que estamos a ser escutados? E anda uma pessoa a trocar de telefone e a dizer mal do hardware:)

Usei parte deste texto noutro post.

1ª edição em 16 de Setembro de 2016.

 

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Segunda-feira, 06.03.17

 

 

 

Diz o Público que "a reestruturação da função pública vai ter limites às progressões e que para subir na hierarquia do Estado vão ser precisos prémios e promoções". A ideia arrepia e compreende-se a apreensão dos que falam do regresso da cultura Lurditas D´Oiro. Por favor: isso não! O "dividir para reinar" com um suposto mérito-para-as-massas é aterrador. Dá ideia que a patologia kafkiana (para ser brando) passou dos bastidores para a primeira linha. Se há pessoas com memória curta, obriguem-nas a ver o "Eu, Daniel Blake".

 

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Domingo, 19.02.17

 

 

 

O "Governo vai mudar o currículo das escolas" contrariando decisões muito desfavoráveis aos alunos, principalmente aos mais jovens, promovidas por Crato com o empobrecimento curricular. É o passo seguinte depois do questionamento saudável a uma variável da mesma família: a indústria dos exames. É mais um motivo de esperança no sentido da moderação e da sensatez. Mas não chega. É preciso eliminar o que resta dos procedimentos da "guerra" aos professores, e à organização das escolas, da autoria de Lurdes Rodrigues.

A "nova" gestão flexível dos currículos eleva a exigência da escola (se a municipalização se abstiver). Não bastará disseminar directrizes centrais. Será preciso mais estudo, mais autonomia e mais responsabilidade, para que se afirmem valores de liberdade, maturidade e transparência. E tudo isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de mudança curricular.

 

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Quinta-feira, 26.01.17

 

 

 

O ambiente no país melhorou com o novo Governo, mas é inquestionável, e com todo o realismo, que se mantêm as componentes críticas da vida profissional de milhares de professores. Temos o dever de o sublinhar. E nem todas têm implicações financeiras; algumas melhoravam a capacidade volitiva, atenuavam o burnout e reduziam a despesa.

É a 4ª edição desta curta radiografia. A 1ª é de 5 de Novembro de 2015, a 2ª de 10 de Junho de 2016 e a 3ª de 20 de Novembro de 2016. Vou repetindo o post enquanto se justificar, sem esquecer boas intervenções em variáveis importantes (por exemplo: concursos BCE, prova de acesso e rede escolar).

Há uma legião de professores contratados sujeita a um inimaginável processo de desprezo profissional. O desinvestimento na escola foi brutal também nos seus profissionais. E os professores do quadro? Estão há anos com a carreira congelada, para além, obviamente, dos cortes transversais e da aposentação retardada. As imagens alojam-se e inscrevem os acontecimentos mais significativos: anos a fio com a avaliação do desempenho kafkiana (salva-se a inutilidade), divisões na carreira, mais turmas com mais alunos em horários ao minuto, inutilidades horárias, hiperburocracia, espectro de horário zero e megagrupamentos com um modelo de gestão "impensado" que transportou a partidocracia para dentro das escolas. É natural que o sentimento de "fuga" se afirme com tantos murros na dignidade. Importa sublinhar que os meios de comunicação social estão há uma dezena de anos a publicitar em primeira página a devassa da carreira dos professores e o "tudo está mal na escola pública".

 

 

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 Faces, Picasso



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Segunda-feira, 16.01.17

 

 

 

Petição:

Reforma aos 60 anos e 36 anos de serviço para professores



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Terça-feira, 13.12.16

 

 

 

É natural que apareça um "manifesto que pede menos poder para os directores escolares", que é uma forma de defender a alteração do que existe e o "regresso da democracia às escolas". Foi em 2008 que Lurdes Rodrigues impôs, com a ajuda obstinada de Sócrates e o apoio fervoroso do arco governativo da altura, o modelo vigente, que é uma espécie de "pilar" sobrevivente. Os outros - professores titulares, estatuto do aluno-cliente e avaliação dos professores - caíram por inaplicabilidade (isto para ser brando), embora o último mantenha um estado deplorável de faz de conta ajudado pelo congelamento eterno das carreiras. Estes quatro "pilares" dilaceraram a atmosfera relacional nas escolas, que foram de seguida flageladas pelo além da troika apimentado com dois devaneios cratianos: indústria de exames e afunilamento curricular. Pergunta-se: mesmo assim os resultados dos alunos melhoraram? Claro que sim; até dos menos favorecidos. Há muito que se sabe que cerca de 60% do sucesso escolar se deve à sociedade (com destaque para a ambição escolar das famílias). Os restantes 40% (a organização das escolas e o desempenho dos professores) beneficiaram da capacidade de resiliência dos segundos como os estudos internacionais não se cansam de sublinhar (são os melhores dos países da OCDE a adaptar as aulas aos alunos).

 

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Segunda-feira, 05.12.16

 

 

 

O DN diz que o "Ministério queria injetar sangue novo nas escolas, mas não tem como fazê-lo" por questões financeiras. É um assunto discutível e com muitas variáveis. Repito o que tenho escrito: há uma legião de professores em burnout. Basta olhar para os números (mais de 40% dos professores tem mais de 50 anos de idade) e conhecer horários e a generalidade das burocracias. Pelos vistos, nada vai acontecer brevemente. Há, desde logo, inutilidades horárias e burocracia cuja eliminação reduzia a despesa.

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publicado por paulo prudêncio às 16:45 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 20.11.16

 

 

É a 3ª edição desta curta radiografia. É um facto que o ambiente no país está desanuviado, mas também é inquestionável que nada mudou no essencial na vida profissional de milhares de professores. A 1ª edição foi em 5 de Novembro de 2015 e a 2ª em 10 de Junho de 2016. Vou repetindo o post enquanto se justificar e apesar da eliminação de algumas variáveis importantes que não constavam do exame (por exemplo: concursos BCE e prova de acesso).

Há uma legião de professores contratados sujeita a um inimaginável processo de desprezo profissional. O desinvestimento na escola foi brutal também nos seus profissionais. E os professores do quadro? Estão há anos com a carreira congelada, para além, obviamente, dos cortes transversais. As imagens alojam-se e inscrevem os acontecimentos mais significativos: anos a fio com a avaliação do desempenho kafkiana (salva-se a inutilidade), divisões na carreira, mais turmas com mais alunos em horários ao minuto, inutilidades horárias, hiperburocracia, espectro de horário zero e megagrupamentos com um modelo de gestão "impensado" que transportou a partidocracia para dentro das escolas. É natural que o sentimento de "fuga" se afirme com tantos murros na dignidade. Importa sublinhar que os meios de comunicação social estão há uma dezena de anos a publicitar em primeira página a devassa da carreira dos professores e o "tudo está mal na escola pública".

 

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Terça-feira, 25.10.16

 

 

 

A desqualificação do modo de escolher as direcções escolares é mais uma derrota para a herança de Lurdes Rodrigues (LR). O veredicto poderá acontecer com a vontade de alguns dos seus, outrora, correligionários. É reconhecida a desqualificação dos actuais Conselhos Gerais para promover concursos públicos seguidos de eleição. LR decidiu, em 2009, eliminar um modelo com avaliação positiva para controlar, a partir do poder central, os "indisciplinados" professores. Teve a oposição de muitas escolas, mas a oportunidade criou alinhados de última hora. 

 

Em 11 de Janeiro de 2012escrevi que "(...)mesmo entre nós, e no caso do sistema escolar, o arco governativo não descansou enquanto não eliminou o poder democrático das escolas substituindo-o por uma amálgama com tiques do PREC e da ditadura.(...)" Não foram necessários muitos anos para se perceber o erro grave, nomeadamente com a entrada nas escolas do pior da partidocracia local. É consensual para as organizações que estudam e avaliam a situação vigente: as direcções escolares devem ser eleitas, num processo devidamente escrutinado, por todos os que exercem funções nas escolas.

 

1102a

 

Antero



publicado por paulo prudêncio às 17:08 | link do post | comentar | partilhar


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25 de Abril de 2004
Autor:
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