Podemos considerar a pedagogia do silêncio como uma espécie de metáfora que contraria o insuportável caderno de encargos da escola actual, que atribui à instituição um papel centrado na sala de aula e que contraria o excesso de informação e de ruído a que se sujeitam as crianças até no ambiente escolar. A pedagogia do silêncio elege a sala de aula para além do registo tradicional, situando-a no vasto elenco de possibilidades que definem o conhecimento transformacional da categoria aprendizagem que teve uma espantosa evolução.
O parágrafo anterior é o que de mais significativo registei na interessante conferência de António Nóvoa que se realizou ontem à noite no auditório da Escola Secundaria Rafael Bordalo Pinheiro e que foi organizada, numa iniciativa que inclui conferências às quintas-feiras, pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Centro-Oeste.
António Nóvoa sistematizou um modelo que procura respostas para os desafios da escola do futuro através de um olhar atento para o presente e com uma profunda incursão num passado muito enriquecido por relevantes referências.
O conferencista continua à procura das palavras certas que ajudem a encontrar um caminho. Nesse sentido, talvez fosse curial reflectir sobre o uso da asserção "escola centrada na aprendizagem". É que foi quase exactamente assim que se instituíram as correntes pedocentristas como de alguma forma sistematizo aqui. Prefiro a "escola centrada no ensino", reconhecendo o risco do regresso ao outro termo da contradição, e talvez a "escola centrada na sala de aula" permitisse uma leitura menos equívoca. O peso das palavras é incontornável.
Para António Nóvoa continuamos na pedagogia do século XX e isso deve ser questionado. As ideias de "à sociedade o que é da sociedade e à escola o que é da escola" e "o regresso dos professores" são duas asserções que devem corporizar a ideia de uma "escola centrada na aprendizagem".
O conferencista fez analogias entre o que vivemos e o período iniciado com as correntes pedocentristas. As crianças são o "centro da vida". Propôs como fundamental a ideia de "ensinar os alunos que não querem aprender, porque os outros acabam sempre por o fazer" e socorreu-se de Alain que considerou que "difícil é conduzir as crianças a ficarem agradadas, no fim, com aquilo que, no princípio não lhes agradava nada".
Não sou pessimista, mas quem anda pelas escolas regista o estado de desesperança. Se já não tínhamos sociedade, parece que também já temos menos escola.
Os governos deste milénio agruparam escolas a eito porque estavam ancorados em maiorias absolutas e porque foram abençoados por cooperações estratégicas e pela opinião publicada. Deram corpo a políticas que misturaram a agenda neoconservadora comsalpicos de engenharia social. Os resultados desastrosos acentuaram a ausência de sociedade na Educação das crianças, a desautorização inédita dos professores e a eliminação do decisivo critério de proximidade relacional.
Por mais alertas que se fizessem, a sociedade portuguesa armazenou as crianças e ausentou-se da sua Educação. Não há nada melhor que uma escola possa oferecer a uma família ausente do que um tutor. E sabe-se como essa decisão apenas espelha um estado de desespero e de caminho para o abandono escolar; são raras as excepções.
O caderno de encargos da escola tornou-se insuportável, como há muito não me canso de escrever. Se até aqui o problema era civilizacional e de ensino, agora passou-se para o domínio da sobrevivência.
É interessante o registo de António Nóvoa que apela a mais sociedade. Chega a afirmar que se continuarmos neste caminho, teremos "ensino no privado e social no público".
A inversão da tragédia só se consegue com actos. Não sei se na sociedade o caminho é o apontado por António Nóvoa, mas tenho a certeza que a recuperação da esperança escolar não se fará com as políticas de proletarização dos professores e de ausência de democracia no ambiente escolar.
"O reitor da Universidade de Lisboa (UL) defende que as escolas têm "excesso de missões", que deveriam ser transferidas para outras instituições, como as autarquias ou famílias. Só assim, considera Sampaio da Nóvoa, os estabelecimentos de ensino conseguem estar focados na aprendizagem. "À escola o que é da escola. À sociedade o que é da sociedade", defende.(...)"
Os últimos estudos que indicam a exaustão dos professores portugueses, focando mesmo a proximidade de depressão, referem a maior debilidade em quem lecciona no primeiro ciclo (e nos outros ciclos também, particularmente no secundário, e escrevo isto para que não se estabeleça qualquer ciúme corporativo), por causa da degradação social do seu estatuto, da escola a tempo inteiro (que "degrada" o clima de silêncio na sala de aula), da parafernália de má burocracia que incide particularmente nos atavismos organizacionais desse ciclo de ensino (muito por culpa dos professores, diga-se), e, isto já será conclusão minha, motivada pelas constantes alterações na gestão escolar que fazem com que as escolas do primeiro ciclo mudem todos os anos de sede.
O actual ministro da Educação propõe antecipar os exames do 4º ano e prolongar em mais quatro semanas as aulas para os alunos com mais dificuldades, acompanhando assim o desmiolo dos prolongamenos nos CEF´s, nos Cursos Profissionais e por aí fora e as resposições de aulas, noutros ciclos ensino, mais ou menos estapafúrdias que tentam limpar as consciências dos maus burocratas do MEC e das suas ramificações. Mas será que Nuno Crato pôs alguma vez os pés numa escola (sem ser em registo VIP, claro) ou que pelo menos lê o que se vai estudando sobre a exaustão de alunos e professores?
A associação cultural de uma freguesia rural convidou-me para os ajudar num programa de actvidade física para crianças e jovens que tinham aulas de educação física na escola e natação num clube. Questionei-os sobre as vantagens dos petizes terem de suportar mais actividade física ao fim do dia e até pela noite dentro. Propus-lhes que utilizássemos as instalações e o tempo para um programa para adultos. A começar pela dezena que estava reunida. Pareciam-me sem hábitos de exercício físico e com sérios desvios alimentares. Dei conta que os choquei um bocado. Estavam focados nas crianças e esgotavam-se aí o que era mau para os dois grupos. Vinte anos depois, dou conta do processo que estava em construção e que é descrito por Winterhoff (2008:130).
"(...)O modelo simbiose explica também as crescentes dificuldades que professores e educadores têm com pais, quando se trata de descortinar em conjunto as perturbações das crianças. As queixas destas sobre os professores são, de um modo geral, tidas em conta pelos pais que se encontram num nível de simbiose (no mesmo patamar dos filhos e diluídos num só, digamos assim; comandados pelos petiizes, acrescento), que o professor visado terá feito algo de errado, já que não é de todo possível que a criança diga coisas sem sentido. (...)Contrariamente, uma queixa por parte do professor desencadeia, na maior parte dos casos, uma acção contra o próprio.
(...)Os professores que dão ordens e fornecem uma estrutura são já vistos como reaccionários, consequência de uma autoridade pervertida ao longo de décadas e que suscita conotações exclusivamente negativas. (...)são vistos pelos pais como sendo frios, distantes e pouco afectuosos na sua relação com as crianças. (...)."
Winterhoff, Michael (2008).
"Por que é que os nossos filhos se tornam tiranos?".
Li há tempos a expressão que escolhi para título. Bem sei que os tempos estão de feição para os cortes na despesa do estado e que os elos mais frágeis ficam mais à mão. Como também estamos inundados pelos flagelo do desemprego, talvez seja despropositado focar a atenção na qualidade da organização do trabalho.
Mesmo assim, devemos fazer o que estiver ao nosso alcance para contrariar uma actualidade que nos diz que "(...) temos hoje milhares de pequenos emigrantes do quotidiano, que andam dezenas de quilómetros para ir à Escola. São as vítimas do encerramento cumpulsivo das 5000 pequenas escolas das suas aldeias. Juntam-se a outros milhares de crianças nacionalizadas em nome dum estranho conceito de Escola a tempo inteiro. Todas juntas, constituem uma espécie de órfãs de pais trabalhadores, com quem pouco estão. É preciso debater o papel que este sequestro e este desenraizamento podem jogar no comportamento destas crianças.(...)" O parágrafo que leu é de Santana Castilho (2011:57) em "O ensino passado a limpo".
Tens tido o cuidado de precisar que te estás a referir a este PS, disseram-me noutro dia. É. Tem sido assim. Este PS, ou uma certa esquerda, é uma crença. É uma apreciação que parte do pressuposto que há um PS que não concorda com as políticas da Educação deste governo. Se a Educação é uma das prioridades de um país, depreende-se que no resto não será diferente.
Sabendo-se que este PS se afirma do centro e que teve uma agenda que agradou à direita, reforça-se a ilusão de que sobra um PS de esquerda que não se revê no desastre a que assistimos.
Quem quiser ir em busca dessa preciosidade, deve centrar a pesquisa no discurso à volta de alguns aspectos nucleares: escola a tempo inteiro, plano tecnológico para a Educação, novas oportunidades, parque escolar, gestão escolar e autonomia das escolas, estatuto do aluno, estatuto da carreira dos professores e avaliação de professores.
Vem isto também a propósito de um debate que vi ontem entre Ferro Rodrigues e Fernando Nobre. Quando o apanhei discutiam sobre Educação. Fiquei estarrecido com os argumentos eduqueses e de péssima burocracia aduzidos pelo antigo líder do PS. Tenho ideia que faz parte do grupo do ISCTE, com, entre outros, Vieira da Silva e Lurdes Rodrigues. Defendeu o desastre de modo convicto e sem dúvidas.
Bem sei que o candidato não tem estado por cá. Só se referiu à escola a tempo inteiro, ao plano tecnológico para a Educação, às novas oportunidades e à parque escolar; imaginei o resto e arrepiei-me.
Na escola a tempo inteiro desconhece a escola armazéme a consequente fuga trágica da sociedade na Educação dos petizes. No PTE datou o discurso para uma época em que se concebiam as culturas organizacionais sem contar com as pessoas, uma vez que do milhar de palavras usadas, mil eram sobre hardware. Nas novas oportunidades e na parque escolar não saiu da propaganda oficial, mostrou-se insensível ao pato-bravismo-em-modo-plural e às exigências da modernidade.
Fernando Nobre safou-se, apesar de se ter espalhado no regresso ao back to basics, naquela versão bacoca da minha-quarta-classe-é-que-era, e no desconhecimento dos nossos números muito generosos, e escandalosos, para a privatização de lucros na Educação.
Onde está então a esquerda do PS? Não a encontro mesmo. Talvez até se compreenda a enésima irritação do chefe do governo de gestão com a questão.
Sublinhe-se que não se encontra, no painel partidário com assento no parlamento, um discurso coerente e convicto que assuma a defesa do poder democrático da escola no seu mais amplo significado. Talvez o que acabei de escrever seja uma das explicações para o elevado número de indecisos que as sondagens registam; se é assim na Educação, no resto não será diferente.
Uma das características dos governos deste PS foi amontoar a eito na Educação. Ancorados numa maioria absoluta, abençoados por uma cooperação estratégica e beneficiando dos sorrisos da opinião publicada, os governos do actual chefe do governo deram corpo a um conjunto de políticas que misturaram uma agenda neoconservadora comsalpicos de uma engenharia social muito ao jeito das ditaduras de extrema esquerda. Os resultados foram desastrosos. Ausência de sociedade na Educação das crianças e desautorização inédita dos professores.
A prepotência confundiu-se com a veia reformista. A forma como se agrupou escolas, ou se impôs um novo modelo de gestão, é um exemplo. O modo como se generalizou o programa de escola a tempo inteiro foi do pior populismo. As conhecidas actividades de enriquecimento curricular envergonham-nos.
A primeira página do Expresso, no seu canto inferior direito, traduz em números a vergonha da sociedade portuguesas: 30% dos alunos reprovam no primeiro ciclo.
Os últimos anos foram nefastos para as nossas crianças. A uma sociedade com pouca ambição escolar somou-se um governo apenas interessado em votozinhos e em destruir o poder democrático das escolas. Poucos duvidam dos caos que se instalou nas escolas e dos maus resultados em consequência da inédita e comprovada perseguição aos professores. Para grande parte das crianças portuguesas o destino ficou traçado pelo desastroso armazenamento escolar.
"(...)A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.
Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.
Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades com 100 professores diferentes, os resultados deveriam oscilar muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.
É também por isso que pode ser um logro absoluto que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que basta mudar o conteúdo físico dos 30% para que tudo se resolva. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% nada acontece e não há ensino".
Sobre este assunto por ler ainda este post onde escrevi os seguinte parágrafos:
"(...) E então, dirá o leitor, não há solução? Claro que há caminhos a percorrer que com sistemática e tempo podem ser bem sucedidos. Desde logo, combater o flagelo do abandono e insucesso escolares está longe de ser uma tarefa exclusiva da escola; é de toda a comunidade. Se há que apurar números e estabelecer objectivos - e claro que há -, então pegue-se na organização administrativa do país (sei que Portugal tem mais de quarenta quadros, quando o moderno e razoável seria um) e faça-se um ranking concelhio com os números do abandono, e do insucesso, e divulgue-se(...)".
Encontrei um texto imperdível no blogue do Paulo Guinote; aqui. Era bom que os arautos da escola a tempo inteiro lessem mesmo o texto. É dilacerante. Vai ao osso. Emocionou-me, sou franco.
Apetece-me partilhar o que sinto. Será que as aulas introduzidas este ano de enriquecimento curricular,no meio das aulas curriculares, estarão a decorrer bem de norte a sul? Que cansaço!.. Que tortura!.. Que inferno!.. Mas a OCDE não pode cá mandar uns rapazes ou raparigas para ver o estado em que a coisa chegou?.. Ando com vontade de fazer um filmezinho sobre um dia de aulas num TEIP, com o novo modelo de AECS pelo meio das aulas, e espetar com ele no Youtub. Um TEIP que tem na escola mais problemática do 1º ciclo apenas 1 prof de apoio. Prof de ensino especial, é uma miragem. Ou não chegam, ou adoecem.. Tudo para os titulares de turma. A rapazeada não pode ver o trabalho à frente. Tento convencê-los o dia inteiro da importância de saberem mais, mas não resulta muito. Quando os tento acalmar e fazer um trabalho sério, lá se vai tudo. Acabou de chegar o prof de hip-hop.. Berros espojamentos no chão… Eu tento retirar-me para um canto da escola para esperar e entrar novamente em cena,e acabar uma aula de matemática que tinha iniciado pela manhã, e eis que me deparo com uma luta de um jovem de 9 anos que já tinha batido numa empregada e tinha acabado de atirar ao chão 4 ou 5 cadeiras. Chamada a polícia, esta coincidiu com a entrada dos meus infantes que regressavam da sua aula de hip-hop. Fascinados pelo cenário tb quiseram assistir. Difícil, foi convencê-los que tinham que subir para a sala, para concluir a aula anterior. Mas, eis que chega a professora de dança, que só hoje se apresentou e leva-os, para terem a sua primeira aula. Hoje não dançaram, foi apenas apresentação. Eu humildemente, retirei-me e procurei o cantinho da escola que tinha procurado, na aula anterior, quando do hip-hop. Mas esta aula de dança, como a aula de teatro, como a de expressões fazem parte de um outro projecto da escola, e os professores são obrigados a estarem presentes e a interagir. Subi e instalei-me na minha cadeira, a tentar descansar um pouco, visto ser apresentação. A aula de dança acabou, mas tinha o Apoio ao Estudo. A hora ia avançada, e aqui a rapazeada olhou-me, implorou-me: _Professora, nós estamos cansados. Eu li nos olhos deles, que aquela hora não podiam estar de outra maneira. Eu tb estava estourada. Não conseguia fazer mais nada! Quanto ao que devia ter feito e não fiz, o problema não é meu. Dos alunos tb não. Foi pouquíssimo o que consegui fazer hoje. Quem sabe se amanhã não consigo acabar a aula de hoje… Se não acabar ficará para o próximo dia. Eu irei lá estar todos os dias em príncipio.. Horas de apoio na sala? 2h 50 m semanais. De referir que estou a falar de uma turma de 4º ano, com níveis de aprendizagem que passam pelo 1º, 2º, 3º e 4ºanos. Dois dos alunos são de Ensino Especial. Possivelmente, quem ler isto, pensará que estou a inventar. É pura verdade e passa-se numa escola portuguesa. Amanhã há outro dia e o sol nascerá de novo. Só peço que o possa ver nascer. Isso será o mais importante. Quanto a fazer coisas sérias e com alguma qualidade, faz parte do passado. Esse já não volta..
O centralismo português é uma das causas do nosso atraso e apaga qualquer veleidade das províncias. Mas compreendo os receios com a regionalização e aceito a inquietação com a municipalização da Educação.
Há duas políticas que elucidam o estado de buraco negro a que chegámos: a generalização do nefasto programa de escola a tempo inteiro como se o país fosse um subúrbio de Lisboa e a ausência de responsabilização municipal nas taxas chocantes de abandono escolar.
O armazenamento escolar de crianças desde tenra idade tem de ter resultados negativos. É inquestionável o valor das creches e dos jardins de infância, mas é muito questionável a política que não perde um segundo a pensar nos horários de trabalho das famílias com crianças pequenas e que massifica as instituições do chamado pré-escolar para períodos de permanência das 07h00 às 20h00 (li, algures, que existe uma instituição com regime nocturno).
É natural que num país que não sabe o que fazer às suas crianças, se discutam coisas como a que vai ler a seguir.
Já dei conta da situação insustentável que se vive em Santo Onofre. São inúmeras as variáveis da organização que entraram em crise ou em falência. A carta que se pode ler a seguir é da responsabilidade dos encarregados de educação de uma turma do primeiro ciclo. Solicitaram-me a publicação. O conteúdo é elucidativo. Entre os vários aspectos referidos, salienta-se a tábua rasa que se fez de um dos aspectos que transformou aquele estabelecimento de ensino numa referência.
"Assunto: Reclamação de horário"
Os pais e Encarregados de Educação dos alunos da turma 3º B da Escola EBI Santo Onofre, reunidos em Assembleia, vêm requerer à Direcção do Agrupamento a alteração do horário dos seus filhos/educandos pelas razões que a seguir indicam.
a) A consistência e a articulação das matérias curriculares, no plano da aprendizagem, exige uma disponibilidade intelectiva e emocional, que não é compatível com o facto de disciplinas de natureza extracurricular figurarem intercaladas com aquelas, porque assim se força a criança a estar concentrada em momentos (fim do dia lectivo) que vão além das suas capacidades.
b) A não uniformização dos tempos de almoço, dada a sua variação ao longo da semana, quebra o estabelecimento de rotinas imprescindivéis para uma boa formação nesta faixa etária, e vem ao arrepio dos problemas de desenvolvimento que caraterizam os alunos com mais dificuldades. Note-se que foram entregues relatórios médicos nos quais se refere que a escola deve “promover um ambiente estruturado e organizado, no qual as rotinas sejam mantidas e os hábitos sejam regulares”. Considere-se ainda que a não uniformização dos tempos no horário traz implicações negativas, em termos práticos, para as famílias, pois exige que os Encarregados de Educação, que optarem por dar almoçam aos seus educandos fora da escola, tenham (pelo menos) uma diponibilidade de tempo desde as 11:50 às 14:10. Impede também o encontro salutar entre irmãos à hora de almoço, pois os horários na EBI não são coincidentes mesmo entre alunos do 1.º ciclo. Obriga a que estes tenham uma autonomia, semelhante à dos alunos dos restantes ciclos, uma vez que terão de almoçar ao mesmo tempo que os mais crescidos (2.º e 3.º ciclos). Aqui levanta-se a questão da indisciplina, que é notoriamente conhecida e cujo problema tem sido difícil de solucionar. Esta junção de níveis etários diferentes apresenta-se como mais um problema para os próprios assistentes operacionais.
c) Esta não uniformização dos intervalos irá obrigar a que os nossos alunos adquiram capacidades de auto-regulação que ainda não têm. Terão de se abstrair dos constantes ruídos que haverá quer nos corredores, quer no recreio. Acresce ainda o número de alunos que a EBI tem como sendo um grande factor de promoção de constante ruído. Esta realidade em nada se compara com os restantes estabelecimentos de ensino do Agrupamento. A ideia de uniformizar os horários no Agrupamento para todas as EB1 deverá ter em conta a tipologia dos estabelecimentos, bem como a ideologia da sua construção. Não se pode nivelar todos por igual, quando na sua essência o não são. Uma Escola Básica Integrada NÃO é o mesmo que uma EB1. Há vários estudos nessa matéria e os resultados da articulação entre ciclos, assentes nesta tipologia, estão mais que comprovados, veja-se os resultados EXCELENTES dos ex-alunos desta escola. Se durante 15 anos este estabelecimento de ensino conseguiu manter um projecto de grande qualidade, o que mudou agora? Porque não fomos informados destas profundas alterações? Temos direito a ser esclarecidos quando os projectos deixam de estar em vigor, atempadamente, para podermos tomar decisões dentro dos prazos. Sentimo-nos enganados.
d) A introdução de áreas não curriculares antes da hora de almoço obriga a que o seu carátcer facultativo seja preterido, em virtude de os alunos que optem pela sua não frequência ficarem com um tempo vazio, note-se que há dias na semana que o intervalo de almoço é de 2h e 10min. Considere-se aqui também o facto de a escola não ter recursos humanos disponíveis para uma adequada ocupação destas crianças, como se pode inferir dos problemas já existentes durante os intervalos, ocorridos nos anos lectivos anteriores. O maior número de actos de violência praticados entre alunos ocorreu durante os intervalos de almoço, como muito bem sabe. Tendo esta escola um horário desdobrado, como poderão garantir a vigilância à hora de almoço se há alunos no recreio e na sala de aula? Aumentaram o número de recursos humanos para acautelar esta situação?
e) Considera-se ainda que esta escola deve recuparar as suas boas práticas decorrentes do projecto de articulação entre ciclos e não imitar as experiências de insensibilidade pedagógica e movidas por meros interesses financeiros, as quais tão desastrosamente têm sido organizadas pela autarquia e que têm sido objecto de crítica por toda a comunidade educativa.
Entenda-se também que as AECs são facultativas, devendo por isso figurar no horário no final das actividades curriculares. Os nossos educandos foram matriculados nesta tipologia de ensino (EBI) pela sua vertente pedagógica que privilegia a articulação entre ciclos, quer por parte dos docentes, quer por parte dos alunos. Refiram-se as inúmeras actividades realizadas ao longo do ano lectivo transacto que apontam todas nesse sentido.
f) Entendemos que os direitos dos nossos educandos não estão a ser garantidos. “As leis devem levar em conta os melhores interesses da criança” e NUNCA razões de ordem económica ou de outro tipo, rivalidades, etc.
Assim, propõe-se:
Que não haja actividades extracurriculares antes das 15:15.
Que essas actividades sejam leccionadas a partir das 15:15.
Que o horário seja reposto à semelhança do ano lectivo transacto.
Que a articulação entre ciclos seja retomada, pela sua relevância pedagógica e como forma de afirmar a imagem da escola.
Números que contrariam ideias feitas. Contudo, importa salientar que se os alunos mais pequenos estão mais tempo na escola é porque vêem reduzidos os momentos com a família e com os amigos do bairro. Portugal começa a ter uma característica: a omissão das crianças no espaço público.
Os pais que, segundo as autoridades, não cuidem das dietas de crianças com obesidade mórbida devem perder os seus filhos. De repente até se pode compreender, mas fiquei inquieto com a notícia. Ouvi na rádio um dos defensores e ainda mais arrepiado fiquei; um psicólogo que usa uma linguagem alinhada com o que denuncio aqui: um discurso bem-pensante no limiar da génese de um totalitarismo. Os tiques são vários e pouco reflectidos. Temos exemplos, como este, que vão fazendo o caminho das consciências. Encontrei, aqui, um post interessante sobre o assunto.
Sabemos que a nutrição dos primeiros cinco anos de vida marca-nos e que nenhuma responsabilidade podemos assumir. Mas daí até a este estado de fervor científico deve ir um passo longo. Ainda por cima num estado que promove medidas que estimulam a obesidade das crianças: a escola a tempo inteiro ou os programas de computadores portáteis, por exemplo. São sinais perigosos.
Temos motivos para sentir vergonha: no nosso país as crianças são um problema e não sabemos como educá-las.
Se associarmos o receio que os portugueses têm em deixar as crianças a brincar com os amigos nos espaços públicos ao armazenamento generalizado da escola a tempo inteiro, temos umas prováveis explicações para o aumento de crianças hiperactivas.
Portugal não tem crianças na rua. Os petizes portugueses estão em casa pregados às consolas, aos televisores ou às redes sociais e nos períodos lectivos são depositados à guarda das instituições escolares; no segundo caso, chegam a passar cerca de 10 horas dentro da mesma sala de aula a realizar as actividades mais diversas. É uma tragédia anunciada.
Nos últimos cinco anos não se ouviu um qualquer governante preocupado com a relação entre os horários de trabalho e o tempo que as famílias dedicam às crianças. Têm apenas uma única e obcecada receita: aumentar o caderno de encargos da escola. Que ninguém tenha dúvidas: degradou-se o serviço da escola pública ao mesmo tempo que a educação das nossas crianças passou a ter encarregados de educação em parte incerta. Só pode dar no seguinte:
"João, Maria, José, tanto faz. São só miúdos irrequietos ou serão hiperactivos? São só muito distraídos ou têm um défice de atenção? Resolve-se com paciência e tempo ou é preciso também a ajuda de um químico? Há cada vez mais crianças com o diagnóstico de Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA) e, por isso, cada vez mais crianças são medicadas com psicoestimulantes, como a conhecida Ritalina.(...)"
Se a sociedade continuar a impor ao caderno de encargos da escola a guarda das crianças doze horas por dia e com isso reduzir o tempo das famílias para a educação dos petizes, os números que vai ler a seguir subirão quase pela certa. Sabemos que os desafios actuais são complexos, mas os horários de trabalho têm de contribuir para a qualidade educativa e para o aumento da natalidade. Sem os fluxos migratórios, a sobrevivência dos portugueses começa a ficar em causa.
A imposição a eito, e de forma obstinada, do modelo de escola a tempo inteiro tem os resultados que se vão conhecendo e provoca este tipo de instabilidade e de desarticulação nos diversos sectores do estado e do serviço público. Há desde logo uma consequência com a duplicação de serviços e com o descontrole administrativo: aumento da despesa em desperdício.
O actual presidente da República apoiou de forma incondicional e estratégica as políticas da anterior ministra da Educação. Nunca se ouviu uma frase a propósito do novo modelo de gestão e da sua lógica centralista e de assumida viragem contra as autonomias. As intervenções do PR a propósito das referidas políticas eram sempre num registo de apoio e com recados para os professores.
Eis que se aproxima a campanha eleitoral e o vale quase tudo entra em campo. É por estas e por outras que a bancarrota nos ameaça constantemente. Ora leia estas afirmações do actual PR, a reportagem toda encontra-a aqui, e tire as suas conclusões.
"(...)Exigiu por isso, ao Governo mais para as escolas e aos pais mais atenção: “Precisamos de mais poderes, precisamos de mais autonomia, eles fazem milagres, mas os pais não podem entregar a criança de manhã na escola deixá-la lá até às sete da tarde e dizer resolvam tudo”, advertiu Cavaco Silva, considerando que Portugal precisa de “ir buscar o exemplo àqueles países em que a escola é assumida com orgulho por toda a comunidade.(...)"
"A escola a tempo inteiro é um bom slogan, mas, a prazo, pode representar um empobrecimento cultural das crianças e das comunidades. Eis-me, outra vez, a defender o retraimento da Escola. É importante que saibamos separar o que é essencial e obrigatório para todas as crianças daquilo que deve ser opcional e responder a diferentes necessidades de diferentes crianças".
A ausência de sociedade no combate ao abandono escolar continua sem uma linha que incomode as consciências. Há muito tempo que não se ouve um governante, ou alguém da área do arco do poder, a debitar uma frase sequer sobre a necessidade da sociedade se mobilizar para derrotar o flagelo do analfabetismo. É tudo com a escola e só com a escola. A única ideia que continua em lista de espera é a avaliação dos professores pelo número de abandonos de alunos; nem que sejam adultos.
Dois séculos depois dos nossos parceiros do norte da europa terem erradicado o analfabetismo, nós continuamos a tentar perpetuar essa vergonha nos dois dígitos e com o recurso cíclico a enchentes de currículos alternativos e de cursos de educação e formação. Ninguém é responsável. E que tal um ranking concelhio dos abandonos escolares até ao final do primeiro ciclo de escolaridade? Pelo menos a vergonha não dormia descansada.
Os últimos governantes exageraram. Não só omitiram a necessidade da sociedade pensar nos horários de trabalho de modo a que as famílias tivessem mais tempo para as crianças, como criaram um modelo de escola a tempo inteiro que sufoca de certificados de frequência o cérebro dos petizes. E não foram de meias medidas: generalizaram a coisa ao país todo, sem qualquer experimentação, e de forma apressada para que nem houvesse tempo para pensar. Uma encruzilhada difícil de resolver.
Professores que leccionam nas actividades de enriquecimento curricular em Mafra, publicam o manifesto que pode ler de seguida de forma resumida e aqui na totalidade.
Excelentíssimos Senhores,
Somos um grupo de profissionais responsáveis pelas Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC) no Agrupamento de Escolas de Mafra e vimos por intermédio da carta aberta anexada informa-los da acção de sensibilização que levaremos a cabo na próxima segunda-feira dia 14 de Junho entre as 8:30 e as 11 da manhã em frente à EB1 Hélia Correia em Mafra.
A referida acção pretende alertar para a necessidade de uma intervenção efectiva por parte das instâncias responsáveis com vista à futura melhoria das condições laborais de profunda precariedade a que a nossa classe docente tem estado sujeita.
Como referido, em anexo segue o nosso manifesto o qual, sendo uma carta aberta, foi também enviado a todos os interessados e implicados na organização destas actividades.
Agradecemos o Vosso acompanhamento desta acção e desta problemática.
Um grupo de profissionais das AEC do Agrupamento de Escolas de Mafra.
Já dei conta por diversas vezes: um dos aspectos que mais me impressionou neste governo do PS foi a ausência de qualquer ideia sobre o tempo que as famílias passam com as crianças e a relação que esse fundamental espaço educativo tem com os horários de trabalho. Nada. Um silêncio ensurdecedor. A única solução passou pela imposição apressada da escola armazém para gáudio de uma irresponsável confederação de pais.
Por outro lado, é também espantosa a forma como estes governos têm tratado os jovens que entram no mercado de trabalho. Basta que se obtenham informações sobre as condições em que os professores leccionam as famosas AEC´s (actividades de enriquecimento curricular) ou olhar para o desrespeito com que são tratados os professores contratados (cobaias no monstro da avaliação do desempenho). É grave. Há outras causas, é evidente, mas as que referi contribuem seguramente para o que pode ler a seguir.
São já muitos os que se questionam com a doença que se apoderou das mentes técnicas dos serviços centrais do ME. Já prognostiquei: para além da elevada temperatura corporal, há por ali uma desmesurada "mania de grandeza" que pode até ser congénita.
Tenho mais algumas pistas. Principalmente da 24 de Julho a paisagem é deslumbrante. O tejo fica debaixo de um olho constante. E isso inspira muito, estou em crer. Apesar da zona da torre de belém ser de difícil alcance visual, é natural que o sítio remeta o cérebro para coisas em grande. Não esqueçamos que foi dali que Portugal deu novos mundos ao mundo.
Digam-me lá: que outro país, ou que outra inspiração geográfica, conceberia um modelo de avaliação de desempenho com 100 descritores facillitadores da produção até 1000 (mil, para que não haja equívocos) descritores? E que dizer da invenção de uma escola que armazena miúdos de sete anos das oito às dezoito, prevendo-se a abertura do turno nocturno? E de um modelo de gestão da escola-organização com pelo menos 30 edifícios espalhados pelo território a evangelizar?
Dizia um desses especialistas: "os professores ainda não estavam preparados para este modelo de avaliação. É uma questão de tempo. Mais uns dois ou três anos e a coisa vai". Que ninguém se iluda. Para estes e outros assuntos da Educação, vai ser apenas uma questão de tempo na versão 24 de Julho somada à da 5 de Outubro. A menos que... Ou seja, os seus modelo são infalíveis, os aplicadores é que são fracos, coitados. Uns zecos falhos no horizonte marítimo. Este tipo de lamentação depois alastra-se. Os portugueses mais propensos à navegação à vista e mais versados em meter água, adquirem o hábito de antes de olharem para dentro apontarem o dedo aos outros. A sua descarada incompetência tenta sempre mascarar-se com o poder às assessorias. Acaba sempre em tragédia.
"Está lançada a confusão com o corte de cinco por cento no vencimento dos políticos. Afinal, os cortes excluem directores e sub-directores gerais, assessores, adjuntos e restantes membros dos gabinetes ministeriais. O que está a causar mal-estar entre os socialistas no Parlamento.(...)"
Tenho escrito muito sobre a ausência de sociedade no combate às desigualdades escolares. Por mais voltas que se dê à organização do sistema escolar, o nível socio-económico da população é determinante para o sucesso escolar e educativo. Desde há muito que se sabe que a escola é incisiva em cerca de 10 por cento desse objectivo, cabendo nessa pequena parte uma fatia significativa aos professores.
O que impressiona em Portugal são os permanentes sinais de desinteresse escolar e de "abandono" familiar logo nos primeiros anos de escolaridade. E ninguém é responsável; ninguém mesmo. Talvez umas ameaças, justas ou injustas, em relação ao rendimento social de inserção e nada mais.
Já o enunciei e volto a fazê-lo: se a nossa babilónica divisão administrativa só considera claramente dois níveis, o central e o local, então que se responsabilize os concelhos por esta tragédia anunciada. A não ser assim, as turmas de currículos alternativos e os cursos de educação e formação continuarão a proliferar em cada geração como uma espécie de parque de estacionamento dos centros de emprego e formação profissional e dos serviços prisionais.
Há quem faça qualquer coisa no sentido positivo; o que pode ler aqui é significativo.
Em ano eleitoral foi o despesismo que se sabe: cenouras em doses significativas, como se refere aqui, mais os gastos centralistas no sistema escolar que teimam em alimentar os aparelhos do bloco central e depauperam as finanças da nação. Feitas as contas, há que voltar ao programa de 2005.
Valentes fechos de escolas (em alguns casos uma medida quase incontestável e positiva) e amontoados organizacionais com a pomposa denominação de agrupamento a servir de engodo.
Como pode ler na notícia que se segue, a ideia dos mega-agrupamentos vai fazendo o seu caminho. A fusão do que existe parece varrer o país de norte a sul e de este a oeste. Os arquitectos do parque escolar concebem mais uma espécie de divisão administrativa (para acrescentar às 38 já existentes - Teotónio Pereira referiu esse número em 2002 -) centralizando a megalomania no edificado em favor da anti-crise financeira. Valha-nos não sei o quê.
O Ramiro Marques faz, aqui, um breve balanço que deve ser lido com atenção.
"A investigação independente sobre a relação entre o tamanho das escolas e o aproveitamento dos alunos não deixa margem para dúvidas.
Os alunos aprendem melhor em escolas de pequena e média dimensão.
A indisciplina e a violência escolares são mais reduzidas nas pequenas escolas.
Os professores e os alunos têm maior satisfação, empenhamento e motivação quando trabalham e estudam em escolas de pequena e média dimensão.
Os socialistas preparam em segredo mais uma tragédia para a escola pública portuguesa: a criação de mega-agrupamentos. Esses mega-agrupamentos vão originar gigantescas unidades de gestão onde impera o anonimato, a despersonalização, a indisciplina generalizada, o absentismo e a quebra na qualidade das aprendizagens."
"O Governo prepara-se para fechar cerca de 500 escolas do 1.º ciclo com menos de 20 alunos. No próximo ano cerca de dez mil alunos começarão as aulas em centros escolares com melhores condições.(...)"
Não seria mais moderno, razoável e sensato que se conhecesse o local e se encontrasse a melhor solução? Estudar as alternativas, equacionar as distâncias que as crianças têm de percorrer diariamente até à nova escola, perspectivar o impacto que pode ter para a comunidade e por aí adiante. Em suma: não seria melhor pensar mesmo e depois decidir? O modelo empresarial de gestão pública e a lógica de mercado puro e duro não se aplicam a estes domínios. Estamos todos fartos de saber isso. O que é grave, é que dá ideia que esta gente não conhece outra cartilha. A democracia dá mesmo muito trabalho e não está ao alcance de "tayloristas" apressados, despesistas e mal disfarçados.
Custe o que custar, ou seja, com a possibilidade de se remeter o que vou escrever a seguir para o domínio da subjectividade por parte dos que advogam em sentido contrário, temos de concluir: estamos numa fase alta das consequências da ofensiva pública do anterior governo contra os professores portugueses. A questão do momento tem uma simples formulação e uma difícil solução: quanto tempo vai demorar a reerguer a escola pública?
Ninguém sabe quantos anos vão ser necessários, mas todos percebem que é crucial um reset em alguns diplomas (e não basta ficar quieto porque os efeitos vão em bola de neve): estatutos (professores e alunos), avaliação dos professores, gestão escolar, escola-armazém, horários dos professores, excesso de burocracia (programas de avaliação externa que visem, exclusivamente e apenas, esse objectivo) e organização curricular.
Tenho fortes suspeitas de que o patrocinador oculto das políticas para a educação da OCDE (principalmente das que constam do famoso relatório OCDE.pt/bravodébora, que foi muito elogioso para a escola-armazém) só pode ser a empresa Novartis Biociências S/A que, ao que me parece, é proprietária da patente do medicamento comercializado com o nome de Ritalina.
E não é que uma das confederações de pais e encarregados de educação decide propor uma penalização para as famílias que abandonem as crianças na escola? Independente, e a montante, da criterização deste castigo estão duas coisas fundamentais:
nos últimos quatro anos não se ouviu uma palavra sequer por parte dos nossos governantes sobre a relação entre os horários de trabalho e o tempo que as famílias passam com as crianças;
com os aplausos ensurdecedores desta confederação, o anterior governo agrupou escolas e impôs um desenho de escola a tempo inteiro num mesmo modelo de funcionamento quer se tratasse de uma escola de uma pequena vila ou de uma sobrelotada de um bairro periférico de uma grande cidade.
Sabemos que são objectivos difíceis, mas quem foi que disse que o mundo não avança com a conjugação da utopia com o possível? Portugal está vazio de sonho e de poesia.
Mas voltando ao conceito de abandono, importa precisar que essa classificação não se pode estabelecer do mesmo modo com que se agrupou escolas ou se definiu o programa das escolas-armazém.
Daniel Sampaio demorou algum tempo (também pode ser considerado demasiado, claro) a perceber o cariz nefasto das políticas educativas do anterior governo. É evidente que os resultados dessas malfeitorias foram importantes e vão exigir tempo para corrigir.
Mas mais vale reconhecer o erro do que manter uma postura obstinada e teimosa. A escola a tempo inteiro já só tem adeptos dentro da seguinte perspectiva: um mal necessário.
"Merece toda a atenção a proposta de escola a tempo inteiro (das 7h30 às 19h30?), formulada pela Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap). Percebe-se o ponto de vista dos proponentes: como ambos os progenitores trabalham o dia inteiro, será melhor deixar as crianças na escola do que sozinhas em casa ou sem controlo na rua, porque a escola ainda é um território com relativa segurança. Compreende-se também a dificuldade de muitos pais em assegurarem um transporte dos filhos a horas convenientes, sobretudo nas zonas urbanas: com o trânsito caótico e o patrão a pressionar para que não saiam cedo, será melhor trabalhar um pouco mais e ir buscar os filhos mais tarde.
Ao contrário do que parecia em declarações minhas mal transcritas no PÚBLICO de 7 de Fevereiro, eu não creio à partida que será muito mau para os alunos ficar tanto tempo na escola. Quando citei o filme Paranoid Park, de Gus von Sant, pretendia apenas chamar a atenção para tantas crianças que, na escola e em casa, não conseguem consolidar laços afectivos profundos com adultos, por falta de disponibilidade destes. É que não consigo conceber um desenvolvimento da personalidade sem um conjunto de identificações com figuras de referência, nos diversos territórios onde os mais novos se movem.
O meu argumento é outro: não estaremos a remediar à pressa um mal-estar civilizacional, pedindo aos professores (mais uma vez...) que substituam a família? Se os pais têm maus horários, não deveriam reivindicar melhores condições de trabalho, que passassem, por exemplo, pelo encurtamento da hora do almoço, de modo a poderem chegar mais cedo, a tempo de estar com os filhos? Não deveria ser esse um projecto de luta das associações de pais?
Importa também reflectir sobre as funções da escola. Temos na cabeça um modelo escolar muito virado para a transmissão concreta de conhecimentos, mas a escola actual é uma segunda casa e os professores, na sua grande maioria, não fazem só a instrução dos alunos, são agentes decisivos para o seu bem-estar: perante a indisponibilidade de muitos pais e face a famílias sem coesão onde não é rara a doença mental, são os promotores (tantas vezes únicos!) das regras de relacionamento interpessoal e dos valores éticos fundamentais para a sobrevivência dos mais novos. Perante o caos ou o vazio de muitas casas, os docentes, tantas vezes sem condições e submersos pela burocracia ministerial, acabam por conseguir guiar os estudantes na compreensão do mundo. A escola já não é, portanto, apenas um local onde se dá instrução, é um território crucial para a socialização e educação (no sentido amplo) dos nossos jovens. Daqui decorre que, como já se pediu muito à escola e aos professores, não se pode pedir mais: é tempo de reflectirmos sobre o que de facto lá se passa, em vez de ampliarmos as funções dos estabelecimentos de ensino, numa direcção desconhecida. Por isso entendo que a proposta de alargar o tempo passado na escola não está no caminho certo, porque arriscamos transformá-la num armazém de crianças, com os pais a pensar cada vez mais na sua vida profissional.
A nível da família, constato muitas vezes uma diminuição do prazer dos adultos no convívio com as crianças: vejo pais exaustos, desejosos de que os filhos se deitem depressa, ou pelo menos com esperança de que as diversas amas electrónicas os mantenham em sossego durante muito tempo. Também aqui se impõe uma reflexão sobre o significado actual da vida em família: para mim, ensinado pela Psicologia e Psiquiatria de que é fundamental a vinculação de uma criança a um adulto seguro e disponível, não faz sentido aceitar que esse desígnio possa alguma vez ser bem substituído por uma instituição como a escola, por melhor que ela seja. Gostaria, pois, que os pais se unissem para reivindicar mais tempo junto dos filhos depois do seu nascimento, que fizessem pressão nas autarquias para a organização de uma rede eficiente de transportes escolares, ou que sensibilizassem o mundo empresarial para horários com a necessária rentabilidade, mas mais compatíveis com a educação dos filhos e com a vida em família.
Aos professores, depois de um ano de grande desgaste emocional, conviria que não aceitassem mais esta "proletarização" do seu desempenho: é que passar filmes para os meninos depois de tantas aulas dadas - como foi sugerido pelos autores da proposta que agora comento - não parece muito gratificante e contribuirá, mais uma vez, para a sua sobrecarga e para a desresponsabilização dos pais."
"Creio que a escola é a depositária de todos os problemas... Há um problema de nutrição com as crianças? Tem de se ensinar nutrição na escola... Há um problema de circulação rodoviária? Tem de se ensinar isso na escola... E de repente acho muita piada porque começamos às nove e chegam as cinco sem que sequer tenha sido possível chegar ao estritamente escolar, que é ler e escrever, por exemplo."
Gosto da rua. Satisfaz-me a ideia de passear nos mais diversos sítios e tenho pelo espaço onde nos movimentamos o maior dos apreços.
Assisti a muitos movimentos de rua e acredito na validade desse tipo de manifestação de vontades. Mas já não sou muito dado a grandes aglomerações de pessoas em recintos fechados, sejam concertos musicais ou espectáculos desportivos.
Feita esta declaração de interesses, vamos então à ideia que me trouxe aqui.
Sou professor e pai. São cerca de três o número de dezenas de anos que preenchem, de modo consecutivo, a minha vida profissional.
Exerci quase todas as funções que um professor pode exercer numa escola. Tenho a seguinte certeza: nas 12 cidades de Portugal onde fui professor, conheci encarregados de educação para todos os gostos e feitios. Guardo da relação com os encarregados de educação dos meus alunos, directos e indirectos, a melhor das recordações.
E para que isso fosse assim, houve sempre um princípio que todos respeitámos: o professor é o profissional, o que sabe do seu ofício e da organização do espaço onde o ensino acontece, e os encarregados de educação educam do melhor modo que são capazes.
Com o novo modelo de gestão escolar que se avizinha(va), começo a verificar sinais que indicam que algo de grave se poderá vir a passar: qualquer coisa que rapidamente se chamará de "estado de direito na rua". Assim mesmo.
Escolas invadidas por propósitos desqualificados, desqualificantes e efémeros. Não vale a pena estarmos com eufemismos: está criado na sociedade portuguesa um ambiente contrário ao exercício profissional dos professores. É evidente que continuarão a existir encarregados de educação bem formados, claro que sim. Mas o ambiente que se está gerar é propício aos maiores desmandos.
E mais: está em causa o exercício de autoridade por parte das escolas e dos professores. Se, como muitos consideram, é na família que se realiza grande parte do exercício afectivo das crianças e jovens, é na escola que o lado racional mais se afirma. A escola representa uma espaço que se situa entre o público e o privado. E só isto dava pano para mangas, porque as latitudes do afirmado não têm fronteiras tão definidas assim.
Esta ideia de trazer a família para o exercício do poder nas escolas pode ter efeitos desastrosos. A ser assim, as crianças e os jovens podem confundir os papéis e com isso alargarem aos dois espaços a componente menos racional e com isso verem diluir-se o exercício de autoridade necessário à formação da sua personalidade: a formação desta, com muitos também afirmam, apoia-se na sua própria negação.
Os mais avisados têm bem presente o que aconteceu com a hegemonia das "teses rogerianas" (Carl Rogers), onde o primado da relação empática entre professores e alunos se tornou um desígnio primeiro: entrava-se na sala de aula e não se sabia onde estava o professor.
Os professores necessitam de recuperar o espaço para ensinar. E que ninguém se iluda: se o caminho a percorrer tiver este sentido único, todos vão perder: os alunos, os seus encarregados de educação e os professores. E, como muitos afirmam, a médio prazo também a própria democracia.
"Segundo a investigadora, as crianças entre os seis e os 12 anos "trabalham hoje para e na escola, no seu ofício de alunas, cerca de oito a nove horas diárias, ou seja, cerca de 40 a 45 horas semanais"."A intenção deste livro é criar um debate público sobre a questão da ocupação das crianças e, de alguma maneira, alertar para o direito das crianças", disse à agência Lusa a investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Universidade do Porto.A desenvolver um trabalho de investigação sobre questões levantadas pelo conceito de "Escola a Tempo Inteiro e as Actividades de Enriquecimento Curricular", a autora considera que "as crianças estão muito ocupadas, têm muitos trabalhos e actividades para fazer todos os dias" ficando sem tempo para brincar."Essas actividades podiam ser brincar, mas são sempre em função da escola", sublinha, acrescentando que "os pais têm uma preocupação muito excessiva em relação ao tempo escolar".(...)"
"Quando ouvi a proposta dos pais, através da CONFAP, para que as escolas passassem a estar abertas 12 horas por dia e, de seguida, conheci a resposta positiva do Ministério da Educação, dei comigo a pensar que o melhor seria propor já, numa atitude politicamente muito mais arrojada, a escola aberta 24 horas por dia.
Atendendo às dificuldades das famílias para que pais e filhos se encontrem, que não seja para dormirem sob o mesmo tecto (é esta a nova definição de família), atendendo à necessidade dos pais obterem rendimentos que permitam um “nível de vida adequado aos tempos modernos”, trabalhando mais e mais horas em empregos quantas vezes instáveis, atendendo ainda ao tipo de vida que criámos nas cidades, em que nos levantamos com o sol e chegamos a casa depois dele se ter deitado, consumindo três e quatro horas em transportes que vão furando por entre um caótico trânsito, atendendo às exigências e às dificuldades que hoje representa a educação de uma criança e de um jovem, …claro que os pais têm toda a razão e, por isso, o Ministério da Educação, que existe também para lhes agradar, também tem.
Mas o que não estamos a perceber é que esta exigência, que já se seguiu a outras de apenas 8 horas, é uma exigência em progresso, que ainda está na sua fase larvar e que vai chegar (quanto tardará não sei, talvez uns trinta anos, cinquenta, quem sabe) a uma fase madura e muito mais perfeita: a E24, ou seja, a escola aberta 24 sobre 24 horas. Além de se poderem apoiar os pais de um modo muito mais consistente e continuado, sem quebras de ritmo, podendo a escola finalmente incluir no seu currículo as tão proclamadas educação do consumidor, educação sexual, educação do consumo, educação da saúde, educação da autoridade (há tanta falta dela!), educação rodoviária, educação ambiental, educação para os media, educação para a sustentabilidade, educação para a paz, educação para as artes, e tantas outras e tão necessárias educações, sem atropelos desnecessários, além disso, os pais também poderão ganhar a sua vida à vontade, passear e descansar do cansaço do trabalho permanente, constituir novas e renovadas famílias sempre que necessário, além de deixar de ser problemática a perda de quatro ou cinco horas diárias nos trajectos casa-empregos-casa.
Ao Estado, como é óbvio, esta pretensão dos pais vem de encontro a um velho desejo de se transformar na grande oportunidade social educadora de todos os cidadãos, sem favorecer as desigualdades sociais, acolhendo todos, sem excepção, 24 horas por dia. Finalmente, alcança-se a tão almejada igualdade de oportunidades, ricos e pobres poderão ter, de uma vez por todas (como gostamos desta expressão!), acesso à mesma educação de qualidade, garantida pelo Estado. Podemos dizer que as escolas, aí sim, serão instituições verdadeiramente educadoras e capazes, melhor, totalmente capazes. Os professores no desemprego poderão ser contratados, todos poderão ser melhor proletarizados, em ambientes e ritmos de trabalho mais cronometrados pelo Ministério da Educação.
Num contexto de tanta incerteza social, que mais e melhor poderíamos pedir? Se a escola pública se oferece para ser uma instituição total, que totalmente ocupa os nossos filhos e netos, que mais poderíamos ansiar como educadores? Se obtemos a sua segurança, a sua educação escolar e o seu pão, que melhor poderemos crer ter? E se a escola agora até acolhe os avós, cada vez mais dependentes e em cima das nossas costas até uma tão avançada idade, nós que temos de trabalhar mais e mais, que melhor instituição poderia haver para acolher, em novas dinâmicas intergeracionais, crianças e avós, 24 horas por dia?
De facto, a E24 é a grande solução social do futuro. Famílias não haverá (e para que é que deveria haver, se os pais não ligam nada aos filhos e os filhos aos pais, se as famílias se fazem e desfazem ao ritmo dos bonecos de neve), os empregos serão cada vez mais precários, incertos e mal pagos (e para quê ser diferente se podemos agora combinar dois e três turnos?), o isolamento das pessoas e sobretudo das mais pobres e sós será ultrapassado (poderemos ficar sós todos juntos e a todo o tempo, em instituições de acolhimento verdadeiro!). As novas instituições E24 são o futuro por que tanto ansiamos. E o Ministério da Educação português, a pedido dos pais, oferece-nos, por antecipação, este futuro. Portugal mantém, assim, o seu perfil de povo inovador, gente de sensacionais descobertas, que abre novos mundos ao mundo!
Que mais e melhor poderei eu dizer? Viva a E24, a verdadeira revolução da educação promovida pelo Estado, a pedido dos pais!
PS: se alguém considerar este texto exagerado, peço apenas que sobreviva uns cinquenta anos, o que comigo já não ocorrerá!"
"Encarregados de educação têm papel reforçado nos órgãos das escolas, mas Confap e CNIPE trocam acusações.
As duas confederações nacionais de associações de pais estão em pé de guerra: a Confap duvida da legalidade da CNIPE e escreveu ao procurador-geral da República; a CNIPE acusa a Confap de não cumprir acordo com o Ministério.
O presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap) enviou, em Abril, uma carta ao procurador-geral da Repúblico. Albino Almeida "tem dúvidas" sobre o cumprimento pela Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE) de todos os trâmites, exigidos pela lei, para constituição da estrutura e pediu esclarecimentos a Pinto Monteiro. Ainda aguarda resposta mas, ao JN, garantiu que irá "levar o caso até às últimas consequências". Como?, questionámos. Assim que o Parlamento retomar funções irá expor a situação a todos os partidos, explicou.
"Temos 1875 associações federadas", afirma, explicando que, anualmente, entre Setembro e Outubro, os pais, em cada escola, elegem os seus representantes e cada associação envia cópia da acta da sua eleição, até 31 de Dezembro, para a Confap e concelhias regionais ou federações. "É a sua prova de vida" e sem ela não poderão receber qualquer apoio financeiro da confederação.
De acordo com o relatório e contas de 2008, a Confap recebeu de subsídio 195725,37 euros. O protocolo com o Ministério da Educação (ME) que financia a estrutura e a reconhece como parceiro social foi assinado em 1996.
"O processo de legalização está concluído: constituímos uma comissão instaladora; aprovámos os estatutos em assembleia geral; estamos inscritos no portal do Ministério da Justiça e nas Finanças e só não somos parceiro social por teimosia da senhora ministra", retorquiu ao JN o vice-presidente da CNIPE. As associações incritas, garantiu, "já ultrapassam as 500".
Joaquim Ribeiro acusa Maria de Lurdes Rodrigues de proteger Albino Almeida e a Confap de não cumprir o protocolo com o ME. "Metade da verba que recebem devia ser gasta em formação e não é. A maioria do dinheiro é gasta na própria estrutura. É um crime. O ME paga e o protocolo não é cumprido", assegura. Manifestando-se profundamente "revoltado e ofendido", Joaquim Ribeiro refere que a CNIPE já escreveu "seis vezes" à ministra da Educação pedindo-lhe uma reunião.
"Os pais devem saber quantas associações estão registadas na CNIPE. É uma grande escuridão", insiste Albino Almeida. O papel dos pais foi reforçado nas escolas, nomeadamente através da nova lei de gestão escolar. Os docentes não podem representar mais de 50% do Conselho Geral - Albino Almeida acusa professores de se organizarem em associações de pais, nas escolas onde leccionam, para assim reforçarem a presença no órgão. "São esses que apoiam a CNIPE".
O JN tentou ouvir o ME, mas não conseguiu qualquer esclarecimento.(...)"
"Mário Nogueira, dirigente da Fenprof, apelou ontem à imediata intervenção da Inspecção-Geral de Trabalho junto das empresas privadas ou instituições particulares de solidariedade social que, por contrato com as câmaras, asseguram as Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC) nas escolas. "Muitos dos 15 a 20 mil professores que trabalham nesta área estão a ser explorados e usados de forma inqualificável", denunciou.
O sindicalista admite que a IGT pouco mais poderá fazer do que garantir que a lei geral do trabalho é cumprida - nomeadamente que não existem recibos verdes e que estão a ser celebrados contratos de trabalho com os docentes. Por isso, reclama também a criação de "um quadro legislativo global que regule o funcionamento das AEC" e que, "para além de assegurar a existência de regras, garanta que elas são iguais para todos".(...)"
Levei pouco tempo até começar a detalhar o que pensava sobre o modelo de escola a tempo inteiro porque constatava, todos os dias, o tipo de sociedade que estávamos a edificar.
Tomei desde cedo uma posição contrária à ideia centralista de impor um mesmo modelo de escola total para situações diversas: desde o subúrbio duma área metropolitana até a uma pequena ou média cidade ou à mais pacata das vilas deste pequeno país - com tantos habitantes como quase órgãos de gestão para os diversos sectores e nos diversos patamares da organização do território -.
Mas hesito sempre em escrever sobre este assunto por pudor: também não gosto da mediatização dos problemas da disciplina escolar como me envergonho quando os professores põem a circular textos escritos pelos seus alunos onde os erros, gramaticais, por exemplo, abundam.
A situação actual no que à guarda dos nossos petizes diz respeito é vergonhosa e tem de ser denunciada. O opróbrio é de tal ordem que nos deveria envergonhar a todos. A questão tem uma simples formulação: não sabemos o que fazer com as nossas crianças.
As famílias têm os filhos e depois contam os minutos em que "têm de aturar os miúdos". Sabemos das excepções e de quem sofre com o facto de não dispor de mais tempo para a miudagem; mas são isso mesmo, excepções. A regra é a desresponsabilização: das famílias e da sociedade.
Alguém coloca como central a ideia de discutir a organização do trabalho de modo a que as famílias passem mais tempo com as suas crianças sem as "armazenar" das 08h00 às 20h00?
"O Ministério da Educação informou hoje ter "sinalizado situações incorrectas e constatado a existência de irregularidades" nas Actividades de Enriquecimento Curricular no ano lectivo transacto, em Abrantes.
Em Abrantes, desde o dia 1 de Junho de 2009 que os cerca de 50 professores envolvidos em Actividades de Enriquecimento Curricular deixaram de prestar esse serviço nas escolas do concelho, reivindicando três meses de salários em atraso, o que motivou que cerca de mil alunos do ensino básico ficassem sem duas daquelas actividades, nomeadamente expressão Físico-Motora e Ensino da Música, da responsabilidade da empresa leiriense 'Lúdico Ideias'(...)"
Não é só em Abrantes como se sabe. E o pântano vai muito para além da desgraçada ideia de generalizar a "escola armazém" ao país todo e com o mesmo horário. Sabe-se da questionável qualidade das actividades e do degradante estatuto que é atribuído aos jovens professores que leccionam nestes programas. Tudo isto exige reflexão e ponderação aos responsáveis. Mas o que se vê é apenas propaganda, laudos aos mentores e ausência de uma avaliação séria.
"(... ) O senhor de Guermantes cumprimentava no pátio dois casais que eram mais ou menos próximos do seu mundo: uns primos seus, que, tal como os casais de operários, nunca estavam em casa para tratar dos filhos, porque a mulher saía logo de manhã para a "Schola", para aprender contraponto e fuga, e o marido para o seu atelier, onde fazia escultura em madeira e cabedais martelados, (...)"
Houve um fenómeno estranho no que às políticas da Educação dos últimos quatro anos diz respeito - pronto, está bem, caro leitor, sei que foram imensos os acontecimentos raros e até as epifanias, mas a simplificação ajeita-me os escritos -.
Sabe-se que este governo emergiu do partido socialista e também se conhece que vários dos seus membros estudaram ou leccionaram no ISCTE (Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa) com particular destaque para os ministros da Segurança Social e da Educação. É claro que também se imagina que Émile Durkheim deve dar voltas e mais voltas no túmulo quando toma nota das habilidades deste governo: é que cerca de um século depois das suas invenções, o que se tem visto por aqui é uma dedicação exclusiva à manipulação das estatísticas, acrescentada de um rol de conclusões decorrentes daquilo que já se começa a classificar como "sociologia por encomenda".
E como é que foi possível que ao fim de quatro anos não tenhamos ouvido, por parte destes governantes, uma palavra sequer dirigida à organização do trabalho de modo a possibilitar mais tempo para a Educação das nossas crianças? O que se registou foi um silêncio ensurdecedor e incompreensível. Nem uns apelos aos encarregados de educação sobre duas questões fundamentais: a hora em que os mais pequenos se deitam ou o tempo gasto na utilização das tecnologias e a sua relação com o aumento da obesidade infantil, por exemplo.
Foram anos perdidos e com a agravante de se ter acentuado a ideia de "escola armazém" de um modo que vai ser muito difícil reverter. Nisso estamos cada vez mais afastados dos países que o actual governo gostava de apontar como exemplo.
Tenho escrito várias entradas sobre o assunto. Numa delas entrou um comentário muito pertinente e que colo de seguida.
"Não é ficção...
Em Julho/Agosto de 2005 fui até à Holanda... cerca de 10 dias.
Foi com surpresa que verifiquei que todo o comércio... desde lojas de chineses... a centro comerciais... fechavam rigorosamente às 18:00 ou 18:30h (não me recordo bem)... de 2ª a 5ª feira. Às 6ºs feiras fechavam às 20:30. No 1º Sábado da minha estadia... fui a um centro comercial por volta das 16:45h ... e para meu espanto... passado alguns minutos verifiquei que todas as lojas estavam a encerrar. Pensei que algo de anormal se estava a passar... perguntámos qual a razão. Era simples... informaram-nos que o comércio encerrava aos sábados às 17:00h e que no domingo estava encerrado... esclarecendo-nos que tinham sido medidas tomadas pelo governo holandês para protecção às famílias. Disseram-nos também que as empresas iniciavam o fim de semana à 6ª feira ao meio-dia... e se quisessem fazer mais 1:30h de 2ª a 5ª... não abririam à 6ª feira.
Estranho não é? E não me lembro de os ouvir queixarem-se de falta de produtividade...
Realmente... há gente muito estranha...
Ah... e já agora... são loucos por andar de bicicleta...
Também me pareceu serem pessoas que estavam muito bem com a vida...
Mas deixem lá... provavelmente foram só impressões minhas...
No blogue do Ramiro Marques, aqui, encontrei um texto que deve merecer a sua atenção. Na minha modesta opinião, é apenas mais uma constatação de algumas evidências que o desastrado projecto de escola a tempo inteiro tentou contrariar através de um modelo único, apressado e desrespeitador da autonomia de cada uma das escolas, que foi espalhado pelo país.
"Estudos recentes mostram que os melhores programas educativos são os que equilibram as aulas com os tempos de brincadeira e de descanso. A brincadeira ao ar livre é tão importante para o desenvolvimento e o bem-estar das crianças como a aprendizagem da Matemática, da Leitura e da Escrita.
Um estudo publicado esta semana na revista Pediatrics mostra que as crianças de 8 e 9 anos que tiveram acesso a mais de 15 minutos de brincadeira ao ar livre por dia têm melhor desempenho escolar do que as que tiveram menos tempo. O estudo dirigido pela pediatra Romina Barros, professora na Faculdade de Medicina Albert Einstein, concluiu que é um erro manter as crianças muitas horas seguidas dentro da sala de aula em actividades formais de aprendizagem. Este estudo vem confirmar um outro, dirigido por professores da Universidade de Harvard e publicado no Journal of School Health, que concluiu pela existência de uma relação positiva entre a prática da educação física e o desempenho escolar nas áreas académicas.
Estes estudos revelam que a brincadeira ao ar livre e o contacto com a natureza são factores essenciais ao desenvolvimento, aprendizagem e bem-estar da criança. Estas conclusões arrasam o conceito de escola a tempo inteiro. Melhor seria que o ME apostasse no financiamento dos ATLs e colocasse um ponto final nas AECs."
"A petição lançada por um professor para a responsabilização dos pais pelo comportamento dos filhos na escola vai ser hoje debatida no plenário da Assembleia da República.
A 08 de Abril foram entregues na AR cerca de 15 000 assinaturas a pedir alterações legislativas que responsabilizem os pais pelo comportamento dos filhos nas escolas.
"Temos hoje uma situação ao nível das escolas de violência e indisciplina e quando confrontamos os pais não temos muito sucesso", disse em Maio passado Luís Braga, presidente do conselho executivo do Agrupamento de Escolas de Darque, Viana do Castelo, perante os deputados da Comissão de Educação da Assembleia da República (AR), ao explicar os motivos que originaram a petição.
Luís Braga considerou que as associações de pais são por vezes pouco representativas do universo de alunos e lamentou que quando chama os encarregados de educação à escola seja frequentemente confrontado com a indisponibilidade destes por motivos laborais, propondo alterações nestas áreas para acautelar uma maior representatividade e instrumentos legais que permitam a todos os pais acompanhar os filhos.(...)"
É muito importante que se debata este assunto e temos de ser capazes de agir no sentido de possibilitar às famílias mais tempo para a Educação dos petizes. Uma sociedade quase ausente com uma escola a tempo inteiro não é o melhor dos caminhos.
É realmente preocupante perceber que a agenda mediática raramente dedica uma linha aos constrangimentos da organização do trabalho que impedem as famílias de estar mais tempo com as suas crianças.
Assiste-se a um interessante debate sobre os caminhos políticos a seguir, desde o mundo da economia e das finanças até às áreas sociais e à organização do trabalho.
Há dados que são irrefutáveis. A hecatombe a que se assistiu recentemente no mundo financeiro global não consegue, e desta vez isso é claro, imputar responsabilidades ao direito do trabalho. Termos como "flexigurança" ou "accountability" saíram da argumentação para darem lugar à "estabilidade no emprego" ou para a "flexibility" nos modelos de apuramento de responsabilidades nas mais variadas organizações em que se enquadra o exercício profissional das pessoas.
Tudo isto tem uma relação muito directa com o que se passa em Portugal e com a luta dos professores.
O actual regime político fundou-se, desde logo, por oposição ao anterior mas também contra o período designado por "PREC" onde as chamadas esquerdas radicais assumiram o poder. Desde aí, estabeleceu-se uma governança que se veio a afirmar como de "arco do poder" que afastou do exercício executivo central os partidos políticos situados à esquerda do que sustenta o actual governo. Isso teve dois efeitos negativos: manteve essas forças políticas num posição "cómoda" de não participação na gestão da coisa pública ao nível macro e não lhes proporcionou o dever de responsabilidade pelos actos governativos praticados. No resto da Europa sabe-se que não foi assim.
Há quem afirme que Portugal é ingovernável porque não apresenta alternativas reais de governo. Os grandes partidos "estruturaram" desde cedo o sentido do voto e uma mudança nesse estado que considero letárgico leva tempo. Mas não nos enganemos. A história recente comprova os mais fundados receios: as mudanças só se efectivam se conseguirmos quebrar os desígnios que nos sufocam e se provocarmos outra geometria político-partidária que possibilite a afirmação de alternativas de governo e que inclua todos: os das más provas dadas mas também os que se afirmam por políticas diferentes. Fazer pior do que o actual é quase impossível e os discursos laudatórios do sentido de estado de quem nos tem governado estão virados do avesso. É insuficiente regular o que existe e é imperativo emancipar para aquilo que é possível.
O que se assistiu em Portugal nesta primeira década do século XXI foi a uma consonância de políticas e de agendas, nomeadamente na área da Educação, subscrita de modo implícito pelo "arco do (todo)poder(oso)". O erra fatal do actual governo foi, como se sabe, o de preencher a agenda política dos partidos à sua direita. Os professores portugueses só encontraram apoio firme, informado e desde a primeira hora numa voz política na Assembleia da República: a da deputada do bloco de esquerda Ana Drago. É factual e indesmentível. As outras vozes que acompanharam os justos protestos, fizeram-mo ao sabor da oportunidade ou quando já nada existia para sustentar o seu contrário.
Aproxima-se a passos largos o momento em que os portugueses vão eleger o governo para a próxima legislatura.
Nesta altura importa que os partidos políticos sejam claros e se afirmem sem tibiezas. Não basta afirmar que o monstro da avaliação é burocrático, que a divisão da carreira assentou em critérios absurdos ou que os professores perderam autoridade. Isso está vencido e é óbvio. Queremos saber é o que trazem. Queremos respostas:
acaba a divisão da carreira?
como se progride?
há quotas ou vagas?
avalia-se a componente funcional?
quem é que avalia?
as escolas podem escolher entre um modelo de gestão unipessoal ou colegial?
o órgão de gestão mantém os poderes previstos?
quem é que o elege?
o que se entende por autonomia na gestão escolar?
qual é o modelo organizacional que se propõem para o ME de forma a eliminar o muro burocrático que asfixia o ensino?
a organização do trabalho obedecerá a outros critérios de modo a que a guarda das crianças seja também um direito e um dever das famílias?
Um texto imperdível do sociólogo Alberto Gonçalves. É a primeira vez que leio um escrito deste autor. Não sei o que pensa sobre o caminho a seguir, mas concordo com o diagnóstico que é feito. Leia e tire as suas conclusões; aqui.
"A corrida às reformas é notória entre professores e educadores ao serviço do Ministério da Educação. Um total de 3003 registos de Janeiro a Julho (já publicado em DR) significa um aumento homólogo de 36%.
A média mensal de docentes a pedir a reforma à Caixa Geral de Aposentações (CGA) eleva-se a 429, de acordo com as listagens publicadas em Diário da República (DR) relativas ao período que vai de Janeiro a Julho próximo. Olhando para os primeiros sete meses de 2008, conclui-se que a média andava pelos 315 pedidos mensais de aposentação, uma vez que o número global do período se elevava a 2206.(...)"
O êxodo continua: os professores que podem, e com maior ou menor penalização, abandonam o ensino. Há aqui qualquer coisa de premeditado por parte de quem exerce as funções governativas? Se pensarmos no silêncio que os actuais governantes fazem sobre a matéria e na não alteração das condições em que se realiza o ensino nesta fase tão conturbada, é caso para nos questionarmos: é isto que este governo quer e estimula? Pela minha parte não tenho grandes dúvidas em afirmar que sim.
"As férias estão mesmo a chegar e as dores de cabeça dos pais também. Quem lhes dera ter também dois meses e meio de descanso, como os filhos. Ou talvez não! A verdade é que para a maioria dos pais é impossível gozar as mesmas férias que os miúdos. Por isso, o melhor é procurar alternativas que não seja ficar em casa.
Depois de nove meses de aulas, é tempo de não fazer nada, aconselha a psicóloga educacional Maria Dulce Gonçalves, do centro de psicologia Lispsi, em Lisboa. "O tempo de férias é um tempo para saborear o não fazer nada, é tempo de recarregar baterias e retemperar ânimos para o próximo ano lectivo", aconselha.(...)"
Triste sociedade a nossa. Ausente e sem qualquer estratégia para garantir o necessário equilíbrio educativo; no que se refere ao tempo que as crianças passam com a família, sabe-se que corresponde a cerca de 60% da responsablidade no sucesso escolar.
Mas lemos o título da notícia e ficamos incrédulos com o estado a que chegámos na Educação das nossas crianças e dos nosso jovens: as famílias tremem com as férias dos petizes? Já não basta termos confederações de associações de pais e de encarregados de educação a só pugnarem por mais e mais escola a tempo inteiro e sem uma qualquer exigência à sociedade para que esta se organize no sentido de permitir aos encarregados de educação mais tempo disponível para as suas crianças, temos agora também um pavor declarado quando começam as férias. Lemos recomendações de técnicos especializados que alertam para a necessidade das crianças brincarem sem a tutela das instituições onde são em muitos casos armazenadas ao longo do ano lectivo. Como é que as crianças olharão para tudo isto? É que elas olham mesmo e seguem os exemplos que registam.
O blogue de Ramiro Marques tem uma entrada, aqui, sobre a escola a tempo inteiro no primeiro ciclo do ensino básico que tem alguns aspectos muito relevantes.
"(...)Dos relatos, destaco: "Nalguns casos, temos meninos que entram na escola às 7:30 e saem de lá às 19:00, o que é terrível, como devem calcular". Ou: "Além das AEC, existem ainda as chamadas Actividades de Apoio à Família...como forma de resposta aos pais que não têm onde deixar os educandos, entre as 8:00 e as 9:00 e entre as 17:30 e as 19:30. Temos um grande número de crianças que estão na escola desde as 8:00 até às 19:30".
Que bem-estar pode estar reservado a crianças que passam quase 12 horas dentro de uma escola? É isto a Escola a Tempo Inteiro? Talvez fosse mais rigoroso chamar-lhe "prisão a meio tempo".
O livro é muito interessante porque se baseia em depoimentos de professores que estão nas escolas e não nos gabinetes das DREs ou da DGIDC."
"O Governo está a ponderar antecipar para o 2º ciclo do básico a segunda língua estrangeira, no âmbito de um conjunto de ajustamentos àquele nível de escolaridade, que deverão passar pela introdução do conceito de escola a tempo inteiro. A ministra da Educação considerou, ainda, que os apoios às famílias no âmbito do alargamento da escolaridade obrigatória poderão não ser suficientes, mas podem fazer a diferença na opção entre o trabalho e o ensino.(...)
Em Fevereiro do ano passado, a ministra anunciou a intenção do Governo de alargar ao segundo ciclo o conceito de "escola a tempo inteiro", que introduziu na antiga primária. "Estamos a avaliar, a preparar, a analisar propostas. São questões que estão a ser colocadas em cima da mesa para depois serem tomadas decisões", acrescentou agora, sem, no entanto, adiantar prazos para a sua concretização.(...)
"Estamos a tentar competir com o mercado de trabalho, mas não é uma competição em pé de igualdade. É apenas minorar eventuais impactos negativos nas estratégias de sobrevivência das famílias. Nem o país tem condições para estar a pagar um salário a um jovem para que ele continue a estudar", afirma Maria de Lurdes Rodrigues.(...)"
Um discurso sem nexo, mas mais do que isso: podia ser um emaranhado de ideias - a propósito de assuntos muito sérios - de uma antiga especialista do trabalho, ou coisa assim, a tentar debitar umas colheradas na Educação.
"O excesso de trabalhos de casa está a prejudicar a forma com as crianças olham para o conhecimento, alerta uma especialista, considerando que, depois da escola, os mais pequenos deveriam brincar, aprendendo naturalmente desta forma coisas úteis para a vida.(...)
(...)"Para os adultos trabalhar é que é muito sério e não percebem que as crianças aprendem a brincar. Não percebem que se uma criança estiver cinco horas na escola depois deveria brincar e que essa brincadeira serve também para aprender coisas que vão ser importantes para a vida", considerou.
Contra tarefas para casa como "cópias de textos, repetições de palavras (várias vezes), fichas com contas e problemas diversos que na maior parte das vezes se limitam a reproduzir os conteúdos dos livros ou o que eventualmente foi feito e explicado na aula", Maria José Araújo propõe antes que, por exemplo, andem de bicicleta ou façam um bolo com os pais.(...)"
Instalou-se, novamente, a desorientação na educação das nossas crianças; sabemos que este tipo de estado de sítio é cíclico e que não tem fim à vista.
Querer implementar uma política de "escola-armazém" igual para o todo nacional, à força e à pressa, e ainda por cima numa sociedade que "exige" aos professores a marcação de trabalhos de casa em catadupa como certificação da sua qualidade profissional, pode ser desastroso numa sociedade onde as pessoas trabalham cada vez mais horas e em que a mobilidade urbana leva horas sem fim. As crianças não podem estar "enjauladas" oito a dez horas por dia numa mesma sala de aula e ainda por cima regressarem a casa inundadas de tarefas escolares. O actual governo retirou responsabilidades à sociedade na "guarda" das crianças, num processo inaudito e acelerado de escola a tempo inteiro, deixando a instituição escolar isolada e com o intuito de a penalizar nos casos de insucesso e abandono escolar. E mais: fez, e faz, gala mediática da coisa.
Agora todos atiram contra todos e em todas as direcções. Os verdadeiros responsáveis esperam que um qualquer acto eleitoral os faça sair de cena com a aura de eméritos reformadores incompreendidos e sem qualquer acto de contrição ou sequer de "mea culpa". Números e mais números e desígnios de manipulação mediática com fins eleitorais é o que lhes resta. E o que é trágico também, é que durante quatro anos estas políticas foram apoiadas de forma sistemática pela confederação de pais e encarregados de educação que tinha presença mediática.
"Uma criança pequena trabalha diariamente na escola tantas horas como um adulto e ainda leva trabalho para casa, um excesso que preocupa especialistas e deixa angustiados muitos encarregados de educação, que pedem que em casa os deixem ser apenas pais.
Quando fez a sua tese de mestrado, a investigadora Maria José Araújo, do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Universidade do Porto, concluiu que uma criança pequena em idade escolar trabalha em média nove horas por dia, "o exacto equivalente ao trabalho profissional de vida de um adulto"(...)"
O efeito "escola armazém" associado à sociedade ausente (leia-se família sem tempo para as crianças) começa a fazer as suas vítimas. E os encarregados de educação mais conscientes começam a ficar atónitos com a vida tão ocupada dos seus petizes.
(...)"Segundo explicou ao PÚBLICO o presidente da Confap o objectivo é, até ao final da próxima legislatura (2013), conseguir-se uma “educação de qualidade e não apenas um espaço onde os pais depositam as crianças”. Para Albino Almeida é muito importante que as crianças entrem nas escolas antes do primeiro ciclo, já que “os estudos científicos mostram que estes meninos têm um desempenho e um rendimento superior”.
No entanto, para a presidente da Cnipe, não faz sentido acordar uma idade ideal “sem promover um debate alargado a nível nacional”. Maria José Viseu recordou, em declarações ao PÚBLICO, que “há vários países europeus que estão a defender a aproximação às famílias” e que o mais importante de tudo é assegurar que as crianças vão ser transportadas em condições de segurança e que não vão ser obrigadas a percorrer grandes distâncias para as escolas."(...)
Ora aqui está uma divergência que interessa seguir com toda a atenção, uma vez que, e nos últimos anos, a única voz que se fazia ouvir era a do representante da Confap. Não sei a que estudos científicos é que o senhor da Confap se refere, mas ao que julgo saber a escola só influencia em cerca de 40% o sucesso escolar (10% para os professores nesses quarenta) ficando a fatia maior, de 60%, para as responsabilidades familiares. Talvez seja por isso que a representante do Cnipe diz que “há vários países europeus que estão a defender a aproximação às famílias”. Bem sabemos que cada país é o que é, e que numa sociedade ausente como a nossa as escolas ainda têm que ajudar na "guarda" das crianças; mas isso não significa projectar uma escola a tempo inteiro com a desresponsabilização de todos os outros sectores da sociedade.
Deputados da Oposição vão pedir esta semana ao Tribunal Constitucional a fiscalização sucessiva do segundo modelo simplificado de avaliação. Esta segunda-feira também começa a semana de consulta aos docentes sobre acções de luta no 3.º período.
Tal como se previa a luta dos professores volta a aquecer. Tenho ideia que do modo com tudo isto está a decorrer, as trapalhadas (e pesei bem a palavra, mas não me saiu coisa melhor) vão evidenciar-se em catadupa.
O aumento da escolaridade e da permanência dos alunos nas escolas foram destacados pela ministra da Educação entre as metas a atingir pela comunidade dos países ibero-americanos até 2021.
(...)As metas em causa implicam, segundo a ministra da Educação, "três desafios essenciais para o esforço da sua concretização": "a exigência de lidar com a diversidade" das situações económicas, sociais e de condição dos alunos, "a garantia da qualidade da aprendizagem", apesar das dificuldades económicas que os países enfrentam, e "o desafio da globalização".
(...)Participam na conferência, a nível de ministros da Educação ou embaixadores, representantes de Andorra, Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba Equador, El Salvador, Espanha, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Uruguai, Venezuela e Porto Rico, este com estatuto de observador.
Sem qualquer desprimor para com os países referidos, não vejo a tal Finlândia, por exemplo, a seguir estes caminhos. Mas é como se sabe: os europeus, mais lá para o centro e norte do continente, até devem ficar aturdidos com estas soluções; não são sociedades exclusivas e ausentes e assumem como desígnio primeiro o tempo que os encarregados de educação dedicam aos seus educandos. Cá pelo canto da europa, já se conhece a receita: paulatinamente até à escola das 24 horas para gáudio sabe-se bem de quem e com incremento das filas de espera dos gabinetes dos atónitos pedopsiquiatras.
A sério? Mas mesmo a sério? Há, por exemplo, alguma relação entre os objectivos individuais e a pontuação de 1 a 10 que um professor obtém no final do ciclo de avaliação? Não há a mais ténue relação. Os objectivos individuais são uma excrescência para dar um ar de modernidade e para garantir o que é óbvio: nada se faz sem objectivos. Mas entre esta última asserção e os fundamentos aduzidos pelo ministério da Educação actual vai um abismo descomunal mas que ajuda a explicar o estado de desorientação a que se chegou.
E ainda a saga dessa coisa supérflua que dá pelo nome de objectivos individuais no monstro burocrático que em Janeiro de 2008 era para cumprir "já e sem delongas" porque estava na hora de dar, finalmente, lugar ao propalado rigor. Foi o que se viu. Mais de um ano depois, a sapiente senhora ministra da Educação ainda anda metida nisto. É uma coisa descomunal. Vamos ver o que se diz, por hoje, na Assembleia da República..
Pois é; é uma malta muito rigorosa, muito contida nos gastos, muito cheia de transparência e de prestação de contas; tudo para os outros, claro. Não se consegue ler a notícia sem abanar a cabeça, tal o despudor e o descaramento da coisa. Um caso a seguir muito atentamente.
Não vale a pena continuarmos a assobiar para o lado e dizermos que a violência escolar ainda não atingiu as escolas portuguesas. Temos de agir depressa e com firmeza. Os professores precisam que os pais recuperem a autoridade e que tenham tempo para os filhos; e isso não se faz alargando o já dilatado conceito de "escola armazém".
E mesmo assim muito timidamente, ao que parece. São industrias muito poderosas e conceitos multinacionais que os impérios, mesmo que em queda, teimam em exportar.
Esta notícia tem como referência os professores do 1º ciclo e relaciona-se com o computador "gota de água" (ou "magalhães" e "gota de água" é em Cabo Verde? Tanto faz, desde que se perceba). E há mais: o processo burocrático a que se sujeitam estes professores é inenarrável; mais parecem uns agentes comerciais, com procedimentos à moda antiga, das empresas envolvidas no negócio.
Com ou sem Manuel Alegre não votarei neste partido socialista nas próximas eleições legislativas. Só o equacionaria fazer nas seguintes condições: se revissem o conceito de escola "armazém" e de "amontoados" de escolas, respeitando a especificidade das diversas zonas do país; se retirassem do ECD a divisão da carreira de professores em duas categorias; se suspendessem o monstro burocrático que é avaliação de professores e se não mexessem no modelo de gestão das escolas. Depois destas democráticas e modernas decisões, colocaria a possibilidade de votar no partido socialista nas próximas eleições, mas, e como é evidente, com uma outra liderança e que estabelecesse um solene compromisso: o trio de pessoas que está com funções de governo no ministério da Educação não ocuparia qualquer pasta num próximo executivo.
O ponto alto da "escola armazém". Mas porque será que estas mesmas pessoas não se questionam, por uma vez, pelo menos, se o mais importante seria não alargar os horários dos armazéns de crianças? Decerto que retorquiriam: e o que é que fazíamos? O que importa discutir é o horário de trabalho dos encarregados de educação e a sua disponibilidade para passar mais tempo com os educandos. Mas isso, por estranho que pareça, não interessa nem a esta minoria de pais, nem a esta ministra da Educação e nem ao partido político que suporta este governo. Se é isto a esquerda moderna, ora vou ali e venho já.
Parece que a segurança interna, que é quem produz o dito relatório, se fartou e não espera mais pelos dados do gabinete da ministra da Educação. Cá para mim a segurança interna deve estar "infestada" de professores e, por isso, cansada dos procedimentos atávicos do ministério da Educação. Querem ver que aplicaram um sistema de grelhas, com descritores e tudo, para o tratamento de dados?