A filósofa espanhola Adela Cortina, está como residente da Universidade do Porto e deu uma interessante entrevista ao Público de Sábado.
Escolhi o espaço sobre Educação porque me pareceu que se ajusta ao que se passou nos últimos anos nas nossas escolas quando necessitávamos ainda mais de gestos responsáveis, (autónomos, portanto) solidários a altruístas. Como se sabe, estes valores não se decretam mas os modelos organizacionais podem estimulá-los.
Adela Cortina recorreu a uma metáfora de dois lobos, que existem dentro de cada um de nós, usada por um chefe índio.
Um lobo concordante e a favor da paz e outro violento e egoísta.
É na alimentação que damos aos contendores que tudo se joga. Se queremos professores responsáveis, mobilizados e altruístas temos de confiar neles como pessoas autónomas. Leva tempo, exige uma enorme paciência com os lobos do outro lado, mas os resultados surgem.
Falei dos professores porque foi o caso mais flagrante com a sua avaliação e com o modelo de gestão escolar ultraliberal. Podia encontrar inúmeros argumentos semelhantes sobre os alunos e até sobre os cidadãos em geral.
O ultraliberalismo estimula o egoísmo, para a propalada prestação de contas usa mecanismos férreos, inaplicáveis, inexequíveis, desumanos e, naturalmente, com péssimos exemplos vindos "de cima". Alimenta o tal lobo egoísta e violento que prevalece num quotidiano que vai das folhas excel aos waps.
Quando alguém argumenta com o fantasma do nazismo, há sempre umas vozes que classificam o orador como injusto, exagerado, desconhecedor, complexado não competitivo e por aí fora.
Ora leia o que Helmut Schmidt disse, algures na década de oitenta do século XX, a Belmiro Azevedo (página 21 da P2 de de 10 de Março de 2013). É uma opinião do interior de Alemanha e de quem não pode ser acusado de desconhecer o país.
Luís Valadares Tavares, ex-presidente do Instituto Nacional da Administração, é um adepto do SIADAP (Sistema Integrado de Avaliação do Desempenho na Administração Pública). Bem sei que a linguagem do sistema é sedutora e bem-pensante, mas a sua aplicação é desastrosa.
Nas respostas a esta entrevista, levanta uma questão pertinente depois de afirmar que o Governo está a "esmagar" a função pública (é mais um que chegou atrasado à tragédia que ajudou a perpetrar).
"(...)Cortar nas aquisições.
Sim, mas há cinco administrações públicas. A directa está controlada, o Governo não tem conseguido controlar é as despesas nas empresas públicas, institutos públicos e nas administrações regional e local.(...)"
Duma entrevista ao escritor angolano Ondjaki (Jornal de Letras de 28 de Novembro de 2012, página 11).
Passos Coelho terá dito, ontem à TVI, que vai implementar um co-pagamento (um eufemismo para o substantivo propinas) no ensino secundário. Ouvi a pergunta, nesse sentido, de José Alberto Carvalho, mas a resposta escapou-me. O que ouvi foi Passos Coelho afirmar que o sector privado já se ajustou e que o público não. Esta enormidade só se pode justificar por radicalismo ideológico.
Compreendo a indignação com as propinas no secundário. As pessoas intuem a realidade. Com a chegada de Passos Coelho ao poder, a agenda de privatização tout court ganhou um alento inédito reforçado pelo sentimento da derradeira oportunidade.
E por que é pessoas informadas na actual maioria estão tão desesperadas?
Em primeiro lugar, porque os últimos estudos e relatórios não ajudam os seus propósitos como esperavam. O derradeiro, encomendado pelo MEC, apresenta, de forma resumida, os seguintes números para o investimento médio por turma: 70000 euros nos 2º e 3º ciclos do ensino básico e 89000 euros no ensino secundário (apura-se um valor médio de 76000 euros) nas escolas do Estado e 85000 euros nas escolas cooperativas.
Este estudo tem um relatório com os números apresentados. Foi, depois, feita uma adenda que incluiu outras variáveis independentes. Os valores nas escolas do estado subiram e o valor médio passou para 86000 euros.
Em segundo lugar, e se olharmos para a discussão em curso, percebe-se o desespero da maioria em propor propinas no ensino secundário. Já não têm espaço para mais supressões de disciplinas, não podem advogar as quatro dezenas para o número de alunos por turma ou aumentar o despedimento sem apelo de milhares de professores (são os que mais contribuem para que Passos e Gaspar andem pelo mundo a elogiar um modelo que cortou na despesa com funcionários públicos).
Para além disso, não conseguem refutar os que defendem uma poupança a custo zero: passar turmas das cooperativas de ensino para as escolas do Estado que têm salas de aula vazias e professores com horários zero. Qualquer que seja a posição de quem se move nesta área, começa a ser impossível o silêncio ensurdecedor.
Lembro-me duma entrevista a José Pinto dos Santos no canal um da RTP: "certo dia, numa reunião de um conselho de administração de uma grande empresa portuguesa digo, a propósito de uma proposta de outra pessoa - por sinal minha amiga -: isso não tem pés nem cabeça; deixou de me falar."
Queria o entrevistado ilustrar a ideia de que em Portugal é muito difícil discordar.
Recordei-me disso a propósito de uma outra coisa que li do Padre António Vieira, em "Sermão de São Francisco Xavier Dormindo", e que também não deixa de ser verdadeira quando as mesmas pessoas se cruzam em reuniões; em Portugal e no resto do mundo.
"Os sonhos são uma pintura muda, em que a imaginação a portas fechadas, e às escuras, retrata a vida e a alma de cada um, com as cores das suas acções, dos seus propósitos e dos seus desejos."
Preocupa-me o radicalismo ideológico de Passos Coelho que ficou ontem bem patente na entrevista à TVI. Lembro-me sempre dos pensadores da mediatrix que se interrogam se nos tempos actuais podia ocorrer uma revolução de forma tão rápida que nem déssemos por ela (veremos como será a contra-revolução).
O primeiro-ministro continua convencido que vai criar um "mundo novo" e até me parece cada vez mais crente, apesar dos frequentes sinais de fuga quando o caminho se torna apertado (a evasão é sempre um boa maneira de dizer que não o deixaram trabalhar e de poder recolher louros qualquer que seja o futuro).
Como noutras circunstâncias históricas, estas personagens providenciais e purificadoras podem ter finais trágicos e deixarem atrás de si um rasto de terra queimada.
Uma entrevista a Christophe Dejours, no antigo P2 do Público, foi ao osso do Taylorismo (bem sei que talvez Frederick Taylor tenha as costas largas, que deveria ser avaliado com o pensamento do seu tempo, por aquilo que defendeu e não pelo que fizeram com as suas teorias, embora a lógica empresarial em que "uns quantos, poucos, apenas pensam, e uns tantos, muitos, apenas fazem" tenha provocado inúmeras dilacerações relacionais) e deixou a comunidade que se interessava pela gestão das organizações em estado de choque.
A blogosfera também reagiu e, como pode ler aqui, o acento tónico foi óbvio: a entrevista apenas constatou o que há muito se sabia. E o mais grave, é que esse "modus operandi" empresarial foi incutido à força nos outros espíritos planetários.
É uma entrevista imperdível. Apresento-a reduzida de acordo com os meus critérios.
Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, Christophe Dejours dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção – uma das raras equipas no mundo que estuda a relação entre trabalho e doença mental. Esteve há dias em Lisboa... (...) ...falou do sofrimento no trabalho. Não apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realização pessoal.(...)
O suicídio ligado ao trabalho é um fenómeno novo?
O que é muito novo é a emergência de suicídios e de tentativas de suicídio no próprio local de trabalho. Apareceu em França há apenas 12, 13 anos. E não só em França – as primeiras investigações foram feitas na Bélgica, nas linhas de montagem de automóveis alemães. É um fenómeno que atinge todos os países ocidentais. O facto de as pessoas irem suicidar-se no local de trabalho tem obviamente um significado. É uma mensagem extremamente brutal, a pior do que se possa imaginar – mas não é uma chantagem, porque essas pessoas não ganham nada com o seu suicídio. É dirigida à comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, à empresa. Toda a questão reside em descodificar essa mensagem.
Afecta certas categorias de trabalhadores mais do que outras?
Na minha experiência, há suicídios em todas as categorias – nas linhas de montagem, entre os quadros superiores das telecomunicações, entre os bancários, nos trabalhadores dos serviços, nas actividades industriais, na agricultura.(...)
O que é que mudou nas empresas?
A organização do trabalho. Para nós, clínicos, o que mudou foram principalmente três coisas: a introdução de novos métodos de avaliação do trabalho, em particular a avaliação individual do desempenho; a introdução de técnicas ligadas à chamada “qualidade total”; e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário.
A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.”
Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe…
Mas o assédio no trabalho é novo?
Não, mas a diferença é que, antes, as pessoas não adoeciam. O que mudou não foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador – é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de viver uma traição – a traição dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos são cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que não querem falar connosco.(...)
Uma formação para o assédio?
Exactamente. Há estágios para aprenderem essas técnicas. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc.. E, no fim do estágio, o director do estágio deu a todos a ordem de… matar o seu gato.
Está a descrever um cenário totalmente nazi...
Só que aqui ninguém estava a apontar uma espingarda à cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for, um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensação aguda e eu tive de tratá-la – foi assim que soube do caso. Mas os outros 14 mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, uma aprendizagem do assédio.(...)
E os sindicatos?
Penso que os sindicatos foram em parte destruídos pela evolução da organização do trabalho. Não se opuseram à introdução dos novos métodos de avaliação. Mesmo os trabalhadores sindicalizados viram-se presos numa dinâmica em que aceitaram compromissos com a direcção. Em França, a sindicalização diminuiu imenso – as pessoas já não acreditam nos sindicatos porque conhecem as suas práticas desleais.(...)
Falou de “qualidade total”. O que é exactamente?
É uma segunda medida que foi introduzida na sequência da avaliação individual. Acontece que, quando se faz a avaliação individual do desempenho, está-se a querer avaliar algo, o trabalho, que não é possível avaliar de forma quantitativa, objectiva, através de medições. Portanto, o que está a ser medido na avaliação não é o trabalho. No melhor dos casos, está-se a medir o resultado do trabalho. Mas isso não é a mesma coisa. Não existe uma relação de proporcionalidade entre o trabalho e o resultado do trabalho.
É como se em vez de olhar para o conteúdo dos artigos de um jornalista, apenas se contasse o número de artigos que esse jornalista escreveu.(...).
Os médicos sempre foram considerados uma classe muito solidária…
Foram. Já não são. Eu trabalhei anos nos hospitais, e adorava trabalhar lá, porque existia um espírito de equipa fantástico. Éramos felizes no nosso trabalho. Hoje, as pessoas não querem trabalhar nos hospitais, não querem fazer bancos, tentam safar-se. São todos contra todos. Bastaram uns anos para destruir a solidariedade no hospital. O que aconteceu é aterrador.
O que é importante perceber é que a destruição dos elos sociais no trabalho pelos gestores nos fragiliza a todos perante a doença mental. E é por isso que as pessoas se suicidam. Não quer dizer que o sofrimento seja maior do que no passado; são as nossas defesas que deixaram de funcionar.
Portanto, as ferramentas de gestão são na realidade ferramentas de repressão, de dominação pelo medo.
Sim, o termo exacto é dominação; são técnicas de dominação.
Então, é preciso acabar com essas práticas?
Eu não diria que é preciso acabar com tudo. Acho que não devemos renunciar à avaliação, incluindo a individual. Mas é preciso renunciar a certas técnicas. Em particular, tudo o que é quantitativo e objectivo é falso e é preciso acabar com isso. Mas há avaliações que não são quantitativas e objectivas – a avaliação dos pares, da colectividade, a avaliação da beleza, da elegância de um trabalho, do facto de ser conforme às regras profissionais. Trata-se de avaliações assentes na qualidade e no desempenho do ofício. Mesmo a entrevista de avaliação pode ser interessante e as pessoas não são contra.
Mas sobretudo, a avaliação não deve ser apenas individual. É extremamente importante começar a concentrar os esforços na avaliação do trabalho colectivo e nomeadamente da cooperação, do contributo de cada um. Mas como não sabemos analisar a cooperação, analisa-se somente o desempenho individual.(...)
Não haverá por detrás desta nova organização do trabalho objectivos de controlo das pessoas, de redução da liberdade individual, que extravasam o âmbito empresarial?
É uma questão difícil. Acho que qualquer método de organização do trabalho é ao mesmo tempo um método de dominação. Não é possível dissociar as duas coisas. Há 40 anos que os sociólogos trabalham nisto. Todos os métodos de organização do trabalho visam uma divisão das tarefas, por razões técnicas, de racionalidade, de gestão. Mas não há nenhuma divisão técnica do trabalho que não venha acompanhada de um sistema de controlo, em virtude do qual as pessoas vão cumprir as ordens.
Há tecnologias da dominação. O sistema de Taylor, ou taylorismo, é essencialmente um método de dominação e não um método de trabalho. O método de Ford é um método de trabalho.
Contudo, não penso que a intenção do patronato (francês, em particular), nem dos homens de Estado seja instaurar o totalitarismo. Mas é indubitável que introduzem métodos de dominação, através da organização do trabalho que, de facto, destroem o mundo social.
Qual é a diferença entre taylorismo e fordismo?
Taylor inventou a divisão das tarefas entre as pessoas e a interposição, entre cada tarefa, de uma intervenção da direcção, através de um capataz. Há constantemente alguém a vigiar e a exigir obediência ao trabalhador. A palavra-chave é obediência. “Quando eu disser para parar de trabalhar e ir comer qualquer coisa, você vai obedecer. Se concordar, será pago mais 50 cêntimos pela sua obediência.” A única coisa que importa é a obediência. O objectivo é acabar com o ócio, os tempos mortos.
Só muito mais tarde é que Ford introduziu uma nova técnica, a linha de montagem, que é uma aplicação do taylorismo. Na realidade, não é o progresso tecnológico que determina a transformação das relações sociais, mas a transformação das relações de dominação que abre o caminho a novas tecnologias.
O toyotismo [ou Sistema Toyota de Produção] utiliza um outro método de dominação, o ohnismo [inventado por Taiichi Ohno (1912-1990)], diferente do taylorismo. É um método particular que extrai a inteligência das pessoas de uma forma muito mais subtil que o taylorismo, que apenas estipula que há pessoas que têm de obedecer e outras que mandam.(...)
O que fizeram?
Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas.(...).
(Utilizei este texto num post em 21 de Fevereiro de 2010)
Os resultados destes quase quarenta anos de democracia em Portugal são o que são - por muito que nos custe, temos de reconhecer que há coisas muito boas, coisas muito más e outras razoáveis - e os que têm exercido funções nos órgãos de soberania devem ser comedidos uma vez que não podem encolher os ombros com a tragédia da corrupção perpetrada aos olhos do Estado. No mínimo, não se devem pôr em bicos de pés. É a tal questão da prestação de contas.
Não escreverei nada de especial se manifestar respeito pelo pensamento político de Mário Soares e pela sua coragem. Também leio, vezes sem conta, que alguns dos que lhe estão, ou estavam, mais próximos têm, naturalmente, ligações ao preocupante financiamento partidário e a outras coisas do género.
Para além disso, estamos numa fase de democracia suspensa em que todos os cuidados são requeridos. O sistema escolar português, e nomeadamente a gestão das escolas públicas do ensino não superior, é um exemplo. Tem-se feito tábua rasa da lei de bases do sistema educativo e desde há uns sete a oito anos que para interromper mandatos nas escolas basta que um governante tenha uma epifania contabilística ou acorde mal disposto.
Na entrevista de Mário Soares hoje ao Ionline registei a sua invejável energia e o seu optimismo. Observei algumas contradições que podem explicar a condescendência, de origem clubista - neste caso, a troca do inenarrável, mas eleito, Berlusconi por Monti e ainda recentemente o apoio ao Socratismo -, que levou a que as democracias europeias estejam no estado que conhecemos. A distinção entre tecnocratas e tecnocratas esclarecidos deixou-me perplexo. Mário Soares, e após a vitória de Hollande, diz que a Europa está a mudar.
"(...)E veja-se o que se está a passar em Itália, onde já não governa Silvio Berlusconi, mas Mario Monti, que é um tecnocrata, mas um tecnocrata esclarecido.(...)Em certos países já está em crise. É preciso ter cuidado com isso. Sem democracia não há Europa. Acho que há uma transformação em curso e a vitória de Hollande dá um grande impulso a essa transformação.(...)"
E não deixa de ser surpreendente que preveja o que quase todos pagaríamos para assistir.
"A troika pode, ela própria, implodir?"Claro que sim. A troika entrou aqui como se Portugal fosse um protectorado. Mas não é! Isso foi um erro terrível. O primeiro-ministro, com a sua mentalidade neoliberal, disse que era preciso ir além da troika, e isso não faz nenhum sentido, no meu entender. E cada vez faz menos, à medida que a receita se vai desfazendo.(...)"
É muito interessante a entrevista a Maria Filomena Mónica que o Ionline publica hoje. Merece uma leitura integral e não é fácil fazer um destaque.
Noutro dia escrevi que cada vez mais se afirma a ideia dos que dizem que temos sido governados por delinquentes políticos. Não gosto de falar do carácter das pessoas, muito menos das que não conheço. Mas também sei que só os medíocres armados em "grandes" é que não dizem mal de quem quer que seja e que quem ocupa um lugar público tem de ter um escrutínio mínimo.
José Sócrates (JS) está no patamar mais nefasto que consigo estabelecer. Se o actual PS não afirmar essa evidência, não terá "salvação". Mas não é suficiente apontar o inenarrável JS para percebermos o estado de bancarrota a que chegámos.
Há quem tenha coabitado com tudo isso, embora queira manter uma imagem popular menos delinquente e mais anti-político. Está há mais de 20 anos nos mais altos cargos do Estado, trocou a agricultura, as pescas e a "industria" pelos serviços, pelo turismo e pelo betão desenfreado (e nem estou sequer a hierarquizar as actividades citadas, com excepção do betão que alimentou as PPP´s e os sequazes da figura), tem estado rodeado de delinquentes que estão (ou estiveram) presos, foragidos ou também exilados e estimulou um conjunto de políticas que arrasaram o ensino público não superior nos últimos cinco anos.
E se formos esmiuçando, mesmo em termos locais, a lista será quase interminável.
Filomena Mónica: "Sócrates foi um delinquente político"
"Como avalia o desempenho da oposição?
A oposição desapareceu. O PS não existe, nem sei o que é aquilo. O líder não tem carisma, não sabe o que há-de fazer, está condicionado pelo acordo com a troika. E sucede a um delinquente político chamado Sócrates, o pior exemplo que jamais, na História de Portugal, foi dado ao país: ir para Paris tirar um curso de “sciences po”, depois daquela malograda licenciatura – à qual não dou a menor importância, pois há muitos excelentes políticos que não são licenciados. O engenheiro Sócrates foi o pior que a política pode produzir. Depois de tantos processos em que mentiu, aldrabou, não depôs, ninguém percebeu o que se passou com o Freeport, os portugueses perguntam-se onde foi ele buscar dinheiro para estar em Paris. Quem é que lhe paga as despesas e o curso? A esquerda socialista tem ali este belo exemplar a viver no 16ème, e um sucessor que não inspira ninguém. O PCP vive num mundo antes da queda do Muro de Berlim, e o Bloco de Esquerda habita em Marte."
Para já é assim e tenho a consciência que contrario as forças da natureza que dominam a selva. Não há catastrofista, blogger-visionário, secretário de estado da juventude, astrólogo, economista-neo-colonial, mentor-outrora-capitalista-selvagem e por aí fora que não tenha decretado o fim da nação e o apelo sentido à fuga inapelável. Um dos destinos mais recomendados é a minha pátria moçambicana. É uma terra mágica, sem dúvida, e, que se descontarmos as relações humanas que o capitalismo selvagem instituiu, bate aos pontos qualquer território da velha Europa. Estou muito informado do que lá se passa e percebo a ânsia da maioria dos lusitanos. Já vi o sucedido. Noutros tempos, os mainatos (empregados domésticos) eram dois por casa e agora uma mão cheia de euros contrata meia-dúzia. Apelativo para quem tem muitíssimo bom estômago.
Por outro lado, Assunção Esteves, que diz que recusou a Maçonaria e a Opus Dei e que acredita que numa folha A4 podia mudar a Europa toda, também afirma que "(...)um novo paradigma para o capitalismo passa por um regresso da política.(...)". É isso. Não me parece nada mal eliminar a papelada e meter a política a dirigir. Pela parte que me toca começo já a 24 de Novembro. Não sou militante partidário, mas milito na blogosfera e a nível local faço o que possso em acções no terreno. Fico interessado em saber se Assunção Esteves também fez greve para reafirmar que acredita no país, na política e no futuro.
O DN, na última página da edição impressa de hoje, publica uma entrevista do professor sueco Mats Björnsson que participou nesta conferência na Fundação Calouste Gulbenkian. O jornalista destacou a frase "(...)o risco de segregação social num sistema com maior liberdade de escolha (entre escolas públicas e privadas) é óbvio(...)". Há muito que se sabe que é assim e Portugal não foge a essa condição. Mas como não somos capazes de criar o nosso modelo nem de valorizar a nosso conhecimento, passamos a vida a adoptar receitas ou a cair na armadilha de alimentar a chico-espertice que nos conduziu à bancarrota.
Há dias o governo beneficiou doutra epifania euroziana e ameaçou com a liberdade de escolha da escola para 2012. Analisei a irrelevância assim: "(...)O nosso sistema escolar precisa, em primeiro lugar, de uma sociedade melhor, que elimine a guetização de várias comunidades, que pense nos horários de trabalho das pessoas que querem ter filhos sem os armazenar, que discuta a qualidade de vida dos miúdos quando não estão na escola e que encontre soluções para os graves problemas de mobilidade nas grandes zonas urbanas. Há muito que os encarregados de educação mais influentes escolhem as escolas. Na maior parte do país é assim. Os menos influentes não têm condições para o fazer; muitas vezes nem sequer vontade. E não é agora que vão ter melhor informação para tomarem essa decisão. Por outro lado, as experiências conhecidas indicam a auto-selecção das populações no sentido de que a guetização social se prolongue para dentro das escolas com os efeitos negativos associados; com estas medidas pode aumentar a fatal homogeneidade das turmas.(...)"
Mas já se sabe. Quem contraria o pensamento único que domina e afunda o mundo em que vivemos é corporativista e esquerdista radical. A história do sistema escolar português tem vários exemplos de excelência e não nos deve envergonhar. O seu desempenho, qualitativo e quantitativo, recomenda-se se se considerarem os meios disponíveis. Os excessos de despesa com as pessoas, com a privatização de lucros e com o bato-bravismo é mais do domínio da ciência-que-estuda-a-caça-aos-votozinhos,
O P2 do Público de ontem, edição impressa, insere este post do "Correntes". Rareiam os momentos com uma edição impressa numa esplanada à beira-mar. A aquisição limita-se aos fins de semana e feriados e mesmo assim as faltas são frequentes. Mudam-se os hábitos e o online vai impondo a sua lei. Postar os blogues em papel vai escapando e ontem foi por um triz.
"(...) Quase metade (46,7%) do pessoal da administração central está no Ministério da Educação. É um valor extraordinário. (...)", diz Nuno Crato na edição impressa do Público de hoje. E depois? E se fossem 43% ou 54%? É um argumento repetido e sem evidências que determinem o seu valor negativo. Não adianta comparar com o resto da Europa porque as divisões administrativas são incomparáveis. Na Espanha, por exemplo, muitos professores não estão vinculados à administração central, mas às regiões autónomas.
Os 53,3% restantes são muitos ou poucos? Qual é a percentagem que se tem de reduzir nos professores? 4%? A implosão do MEC e das inutilidades corresponderia a que valor despesista? Ou os coffee breaks já atenuaram o ímpeto?
Quem exerce funções nas escolas do estado conhece bem essa realidade. 98% da despesa anual é consumida em salários.
Dirigi uma escola em que dos 4 milhões de euros anuais, apenas 80 mil se destinavam às despesas de funcionamento. Uma gestão financeira rigorosa e inapelável com as inutilidades permitia "milagres" de investimento, um quotidiano civilizado e excelentes resultados dos alunos.
E não me esqueço: o ministro da educação da altura, 2004, também usava uma argumentação semelhante. Certa vez, ladeado pelo guru (não é para rir, não) João Rendeiro do BPP, afirmou que só não contratava gestores para as escolas porque não tinha dinheiro para lhes pagar. Hoje percebe-se bem a lógica de quem exigia pagamentos dourados para gerir a coisa pública. A ladainha de que os professores são demasiados e caros está datada e era esperada noutros tempos e latitudes.
Um comentário a este post de Fevereiro de 2010, recordou-me como a manipulação de uns quantos pode dilacerar a vida de muitos. Não é fácil combater os dogmas e é ainda mais difícil ter a coragem para usar os nomes que o bom senso indica. Fui reler a entrevista inserida no post e trouxe a resposta de Christophe Dejours à última pergunta. É evidente que a avaliação individual no desempenho organizacional é o subterfúgio da desmobilização, da não cooperação e da ausência de liderança.
"(...) O que fizeram?
Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas. (...)."
Nesta notícia do Público estabelece-se uma hierarquia do poder em Portugal.
"(...)Uma entrevista ao primeiro-ministro, José Sócrates, na próxima segunda-feira, vai inaugurar o mandato de Nuno Santos à frente da direcção de Informação da RTP.(...) Em véspera de eleições, Nuno Santos anunciou ainda a realização de um programa de entrevistas de 25 minutos, a dez individualidades, conduzidas por Fátima Campos Ferreira. Mário Soares será o primeiro convidado. Entre os outros destacam-se o cardeal patriarca D. José Policarpo, Belmiro Azevedo, Ramalho Eanes, Ricardo Salgado, Jorge Sampaio e Carvalho da Silva.(...)"
Cavaco Silva tentou passar entre os pingos da chuva, mas ficou como o boneco da imagem; a culpa foi do vento.
Procurei ver as entrevistas que a RTP1 fez aos candidatos presidenciais. Cavaco Silva, um mísero professor (nós registamos) de acordo com os seus altos critérios (Dias Loureiro e Oliveira e Costa não serão miseráveis e infelizes), cumpriu as baixas expectativas e mantém-se como um bom aluno dos mercados mesmo que para isso tenha de hipotecar os portugueses. Aliás, o candidato coloca-se na posição de poder ajudar os portugueses; portanto, do lado de fora.
Questionado se entende que os mercados estão a ser injustos com Portugal, o ainda presidente afirmou que não diria isso para não insultar os ditos. A sério que foi assim.
Para quem viu, segue-se um esclarecimento que a entrevista terá ajudado a baralhar.
Significados.
Ressentido: adjectivo que significa ofendido; melindrado.
Desonesto: adjectivo que pode ter cinco significados: que não revela honestidade; contrário à honestidade, ao decoro e ao pudor; obsceno; indecoroso; indigno; que prevaricou; infiel.
Injusto: adjectivo que significa que não é justo; oposto à justiça; arbitrário; ilegal.
Insulto: nome masculino que significa ato ou palavra ofensiva; injúria, afronta; ofensa; agravo; ultraje.
Mísero: adjectivo que significa miserável; desgraçado; infeliz; pobre; avarento; mesquinho.
O actual presidente do Conselho de Escolas deu uma entrevista ao expresso. Esse conselho é composto por directores de escolas e de agrupamentos e um parceiro privilegiado da tutela. Foi criado no consulado da anterior ministra da Educação e apresentado como interlocutor alternativo aos sindicatos. Existe uma outra estrutura com a mesma composição e criada recentemente.
Há muito que não compro a edição impressa desse semanário e não tive acesso à entrevista. Tenho lido excelentes desconstruções na blogosfera. No blogue visto da província pode ler uma entrevista que causa desespero, onde é analisada a opinião do tal presidente quando afirma que gostava de ser ele a contratar os professores.
Durante o fim-de-semana o Paulo Guinote foi mais abrangente e escreveu uma série de excelentes posts que intitulou de desesperança, uma vez que o entrevistado se chama Manuel Esperança. Pode começar pelo primeiro.
Aqui.
Não serem sugados pelas forças institucionalizadas, tem sido um dos méritos de muitos blogues. O seu papel tem sido "reconhecido" por ministras e secretários de estado que caíram, por chefes de governo em apuros, por agências de comunicação social que se tornaram menos eficazes e até por aqueles que andam pela sociedade à espera que as suas diabruras não sejam denunciadas. Todos se queixam e estão cheios de razão.
Claro que há excepções. Há blogues que perderam credibilidade por se tornar evidente o oportunismo político dos seus editores.
E lembrei-me disto ao reler uma excelente entrevista ao filósofo José Gil na Pública. A páginas tantas responde assim:
Pergunta: "Diz no seu livro Portugal, Medo de Existir que o espaço público deixou de existir e que foi substituído pela comunicação social. É esta que dita que o movimento se faça numa direcção ou noutra."
Resposta: "Acho que é cada vez mais isso. A comunicação social suga essas pequenas forças, que não estão ainda institucionalizadas."
A viagem de carro para Lisboa foi na companhia de uma belíssima entrevista, na antena 2, ao chileno António Skármeta argumentista do célebre filme "O Carteiro de Pablo Neruda".
O seu conceito de ardente paciência pode aplicar-se a muitos domínios da vida. Quando se deseja muito que algo aconteça, nem sempre se consegue manter a lucidez e a determinação durante o período de espera. É difícil o exercício paciente quando o acontecimento que se deseja é insuperável. Mais ainda quando se está de forma inequívoca do lado da razão. Mas é exactamente nesse calor que o exercício paciente nos pode conduzir aos mais interessantes momentos: os esperados e os outros.
Encontrar culpas pode ter um efeito prospectivo. São muitos os que escolhem os princípios de liberdade, de igualdade e de fraternidade da revolução francesa para explicar os problemas de autoridade nas salas de aula, nomeadamente na transposição do conceito de igualdade para a relação do professor com os seus alunos. As questões colocam-se de forma simples e em dois domínios: o aluno deve ser o outro e não um igual e isso é fundamental para garantir o poder democrático da escola e, em consequência disso, o da própria sociedade.
De modo nenhum esta asserção deve ser confundida com a vivência democrática da escola-organização. O que se trata é de tornar claro a quem compete organizar e orientar o ensino. Esta excelente entrevista ao filósofo espanhol Fernando Savater vai no sentido do que acabei de escrever. Foi grave o que se passou nas últimas décadas, onde o aluno igual começou na família e no pré-escolar e projectou-se no inferno burocrático e no excesso de garantismo.
O Paulo Guinote fez, aqui, um post com uma óptima escolha. Tirei um parágrafo que me pareceu muito oportuno numa entrevista muito interessante de Alberto Manguel (2010). Vale a pena ler a totalidade.
"(...)A escola não tem culpa, é a nossa sociedade que é culpada. A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa. Nesses centros de aprendizagem, estamos a criar seres humanos que não confiam nas suas próprias capacidades e que começam a acreditar que o seu único objectivo na vida é arranjar trabalho para conseguir sobreviver até chegar à reforma – que também já lhes estão a tirar. O que estamos a fazer é horrível. Não tem nada a ver com os valores da Internet, com a competência do professor, faz tudo parte de um conjunto. Somos culpados enquanto sociedade(...)".
E lembrei-me de novo do argumento do quarto chinês de John Searle a propósito da entrevista que a anterior ministra da Educação deu ao Expresso. Nada há a fazer. É como o analista e programador de sistemas de informação (e desculpem-me estar a elevar a coisa) que cria uma solução que ninguém consegue utilizar, que se apressa a responsabilizar exclusivamente os utilizadores pelo insucesso e que não concebe sequer a ideia que o caminho que escolheu estava errado. Se for teimoso e obstinado é mau. Todavia, e se estiver protegido por quem seja ainda mais incompetente, é inevitável que aconteça uma qualquer desgraça.
A tragédia criada por ML Rodrigues, e por um grupo de "sábios" e de académicos que agora acelera no descrédito das "boas novas", está longe do fim. Nem sei se já estamos a sair dos escombros ou se se mantém um estado de guerra total ao poder democrática da escola. Pelo que vamos percebendo, o actual PS, e a sua agenda neoliberal na Educação, só espera por um próximo acto eleitoral para deixar o sistema escolar em cacos e entregá-lo de mão beijada aos seus parceiros de bloco central e de desgraçada governação na primeira década deste milénio. Temo que a cooperação estratégica tenha aprendido pouco.
"A mente humana é ainda um dos mistérios a ser desvendado pelo ser humano, isso explica o vasto debate existente nessa área de pesquisa, debate esse que une as descobertas científicas à investigação filosófica. Essa união é uma das características da discussão contemporânea sobre a mente. No âmago dessa discussão, como um dos temas centrais, existe um suscitar de questões muito interessantes, oriundo das novas descobertas envolvendo aquilo que os pensadores chamam de Inteligência Artificial. Sendo assim, o presente trabalho de pesquisa, intitulado de “O argumento do quarto chinês e a crítica de Daniel Dennett” pretende apresentar as linhas gerais da tentativa de John Searle – através do seu célebre argumento do quarto chinês – refutar a ideia de que a mente humana seja como um programa de computador e a crítica de Daniel Dennett a essa tentativa. Segundo Searle, o argumento evidencia que a mente humana não pode ser como um programa de computador porque ela trabalha fazendo uso da semântica, enquanto os programas de computador efetuam suas tarefas de maneira exclusivamente sintática. Dennett afirma que o argumento é falho, porque quando analisamos uma pequena parte do cérebro ela também não compreende o que está fazendo, todavia, o sistema (nervoso) como um todo produz entendimento.
O trabalho é de natureza filosófica, sendo realizado basicamente através da pesquisa bibliográfica. Compõe-se de duas partes: primeiramente, apresentar-se-á o argumento de John Searle e suas consequências, para posteriormente demonstrar a crítica que esse argumento recebeu por parte de Daniel Dennett."
Encontra aqui o sítio do texto
Quinta Essência é o meu programa de informação preferido. Às sextas-feiras, das 13h00 às 14h00, João Almeida conduz de modo magistral (mas magistral mesmo, não é apenas o adjectivo que estava mais próximo da sinapse classificadora) uma entrevista na Antena 2 da RDP. Para além de uma voz radiofónica, João Almeida transmite alegria e sabedoria em doses contagiantes. Em regra, a escolha dos entrevistados é acertada.
Na última sexta fiquei sem saber o nome do convidado. Também não me parece muito importante. Percebi que era um navegador e que a certa altura disse assim: "não podemos confiar nas notícias de trinta segundos: dão imagens opostas da realidade dos países".
Cortesia do Sérgio Moreira.

A entrevista a Christophe Dejours, no P2 do Público, vai ao osso do Taylorismo (bem sei que talvez Frederick Taylor tenha as costas largas, que deveria ser avaliado com o pensamento do seu tempo, por aquilo que defendeu e não pelo que fizeram com as suas teorias, embora a lógica empresarial de "uns quantos, poucos, apenas pensam, e uns tantos, muitos, apenas fazem" tenha provocado autênticos desastres) e deixou a comunidade que se interessa pela gestão das organizações (e das pessoas) em estado de choque.
A blogosfera também reagiu e, como pode ler aqui, o acento tónico foi óbvio: a entrevista apenas constatou o que há muito se sabia. E o mais grave, é que esse "modus operandi" empresarial foi incutido à força nos outros espíritos planetários.
É uma entrevista imperdível. Apresento-a reduzida de acordo com os meus critérios.
Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, Christophe Dejours dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção – uma das raras equipas no mundo que estuda a relação entre trabalho e doença mental. Esteve há dias em Lisboa... (...) ...falou do sofrimento no trabalho. Não apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realização pessoal.(...)
O suicídio ligado ao trabalho é um fenómeno novo?
O que é muito novo é a emergência de suicídios e de tentativas de suicídio no próprio local de trabalho. Apareceu em França há apenas 12, 13 anos. E não só em França – as primeiras investigações foram feitas na Bélgica, nas linhas de montagem de automóveis alemães. É um fenómeno que atinge todos os países ocidentais. O facto de as pessoas irem suicidar-se no local de trabalho tem obviamente um significado. É uma mensagem extremamente brutal, a pior do que se possa imaginar – mas não é uma chantagem, porque essas pessoas não ganham nada com o seu suicídio. É dirigida à comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, à empresa. Toda a questão reside em descodificar essa mensagem.
Afecta certas categorias de trabalhadores mais do que outras?
Na minha experiência, há suicídios em todas as categorias – nas linhas de montagem, entre os quadros superiores das telecomunicações, entre os bancários, nos trabalhadores dos serviços, nas actividades industriais, na agricultura.(...)
O que é que mudou nas empresas?
A organização do trabalho. Para nós, clínicos, o que mudou foram principalmente três coisas: a introdução de novos métodos de avaliação do trabalho, em particular a avaliação individual do desempenho; a introdução de técnicas ligadas à chamada “qualidade total”; e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário.
A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.”
Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe…
Mas o assédio no trabalho é novo?
Não, mas a diferença é que, antes, as pessoas não adoeciam. O que mudou não foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador – é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de viver uma traição – a traição dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos são cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que não querem falar connosco.(...)
Uma formação para o assédio?
Exactamente. Há estágios para aprenderem essas técnicas. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc.. E, no fim do estágio, o director do estágio deu a todos a ordem de… matar o seu gato.
Está a descrever um cenário totalmente nazi...
Só que aqui ninguém estava a apontar uma espingarda à cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for, um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensação aguda e eu tive de tratá-la – foi assim que soube do caso. Mas os outros 14 mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, uma aprendizagem do assédio.(...)
E os sindicatos?
Penso que os sindicatos foram em parte destruídos pela evolução da organização do trabalho. Não se opuseram à introdução dos novos métodos de avaliação. Mesmo os trabalhadores sindicalizados viram-se presos numa dinâmica em que aceitaram compromissos com a direcção. Em França, a sindicalização diminuiu imenso – as pessoas já não acreditam nos sindicatos porque conhecem as suas práticas desleais.(...)
Falou de “qualidade total”. O que é exactamente?
É uma segunda medida que foi introduzida na sequência da avaliação individual. Acontece que, quando se faz a avaliação individual do desempenho, está-se a querer avaliar algo, o trabalho, que não é possível avaliar de forma quantitativa, objectiva, através de medições. Portanto, o que está a ser medido na avaliação não é o trabalho. No melhor dos casos, está-se a medir o resultado do trabalho. Mas isso não é a mesma coisa. Não existe uma relação de proporcionalidade entre o trabalho e o resultado do trabalho.
É como se em vez de olhar para o conteúdo dos artigos de um jornalista, apenas se contasse o número de artigos que esse jornalista escreveu.(...).
Os médicos sempre foram considerados uma classe muito solidária…
Foram. Já não são. Eu trabalhei anos nos hospitais, e adorava trabalhar lá, porque existia um espírito de equipa fantástico. Éramos felizes no nosso trabalho. Hoje, as pessoas não querem trabalhar nos hospitais, não querem fazer bancos, tentam safar-se. São todos contra todos. Bastaram uns anos para destruir a solidariedade no hospital. O que aconteceu é aterrador.
O que é importante perceber é que a destruição dos elos sociais no trabalho pelos gestores nos fragiliza a todos perante a doença mental. E é por isso que as pessoas se suicidam. Não quer dizer que o sofrimento seja maior do que no passado; são as nossas defesas que deixaram de funcionar.
Portanto, as ferramentas de gestão são na realidade ferramentas de repressão, de dominação pelo medo.
Sim, o termo exacto é dominação; são técnicas de dominação.
Então, é preciso acabar com essas práticas?
Eu não diria que é preciso acabar com tudo. Acho que não devemos renunciar à avaliação, incluindo a individual. Mas é preciso renunciar a certas técnicas. Em particular, tudo o que é quantitativo e objectivo é falso e é preciso acabar com isso. Mas há avaliações que não são quantitativas e objectivas – a avaliação dos pares, da colectividade, a avaliação da beleza, da elegância de um trabalho, do facto de ser conforme às regras profissionais. Trata-se de avaliações assentes na qualidade e no desempenho do ofício. Mesmo a entrevista de avaliação pode ser interessante e as pessoas não são contra.
Mas sobretudo, a avaliação não deve ser apenas individual. É extremamente importante começar a concentrar os esforços na avaliação do trabalho colectivo e nomeadamente da cooperação, do contributo de cada um. Mas como não sabemos analisar a cooperação, analisa-se somente o desempenho individual.(...)
Não haverá por detrás desta nova organização do trabalho objectivos de controlo das pessoas, de redução da liberdade individual, que extravasam o âmbito empresarial?
É uma questão difícil. Acho que qualquer método de organização do trabalho é ao mesmo tempo um método de dominação. Não é possível dissociar as duas coisas. Há 40 anos que os sociólogos trabalham nisto. Todos os métodos de organização do trabalho visam uma divisão das tarefas, por razões técnicas, de racionalidade, de gestão. Mas não há nenhuma divisão técnica do trabalho que não venha acompanhada de um sistema de controlo, em virtude do qual as pessoas vão cumprir as ordens.
Há tecnologias da dominação. O sistema de Taylor, ou taylorismo, é essencialmente um método de dominação e não um método de trabalho. O método de Ford é um método de trabalho.
Contudo, não penso que a intenção do patronato (francês, em particular), nem dos homens de Estado seja instaurar o totalitarismo. Mas é indubitável que introduzem métodos de dominação, através da organização do trabalho que, de facto, destroem o mundo social.
Qual é a diferença entre taylorismo e fordismo?
Taylor inventou a divisão das tarefas entre as pessoas e a interposição, entre cada tarefa, de uma intervenção da direcção, através de um capataz. Há constantemente alguém a vigiar e a exigir obediência ao trabalhador. A palavra-chave é obediência. “Quando eu disser para parar de trabalhar e ir comer qualquer coisa, você vai obedecer. Se concordar, será pago mais 50 cêntimos pela sua obediência.” A única coisa que importa é a obediência. O objectivo é acabar com o ócio, os tempos mortos.
Só muito mais tarde é que Ford introduziu uma nova técnica, a linha de montagem, que é uma aplicação do taylorismo. Na realidade, não é o progresso tecnológico que determina a transformação das relações sociais, mas a transformação das relações de dominação que abre o caminho a novas tecnologias.
O toyotismo [ou Sistema Toyota de Produção] utiliza um outro método de dominação, o ohnismo [inventado por Taiichi Ohno (1912-1990)], diferente do taylorismo. É um método particular que extrai a inteligência das pessoas de uma forma muito mais subtil que o taylorismo, que apenas estipula que há pessoas que têm de obedecer e outras que mandam.(...)
O que fizeram?
Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas.(...).
O blogue de Ramiro Marques publica uma entrevista a Mário Nogueira; aqui. Leia com atenção. Afinal, o modelo de gestão é, a par (para não escrever "antes de") da divisão da carreira e do monstro da avaliação, o cerne da questão e não uma matéria de desistência militante.

A generalização dos motores de pesquisa de informação pela internet começa a ter história e a provocar preocupações nos que se inquietam com as aprendizagens das novas gerações. O google, por exemplo, é uma ferramenta poderosíssima para os adultos e muito questionável para os mais jovens. Ora leia a entrevista a Umberto Eco.
"(...) Sim, no caso do Google, ambos os conceitos convergem. O Google cria uma lista, mas no momento em que olho para a lista que o Google gerou, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para os adultos como eu, que adquiriram conhecimento de outro modo -, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas deveriam ensinar a arte da discriminação. (...). A educação deveria regressar às estratégias das oficinas da Renascença. Aí, os mestres podiam não ser capazes de explicar aos alunos por que razão uma pintura era boa em termos teóricos, mas faziam-no de maneiras mais práticas. Olha, isto é o aspecto que o teu dedo pode ter e este é aquele que deve ter. Olha, esta é uma boa combinação de cores. A mesma abordagem deveria ser utilizada nas escolas quando se lida com a internet. O professor deveria dizer: "Escolham qualquer assunto: a história da Alemanha ou a vida das formigas. Pesquisem em 25 páginas web diferentes, comparando-as, e tentem descobrir qual tem informação importante e pertinente". Se dez páginas disserem a mesma coisa, pode ser sinal de que essa informação está correcta. Mas isso também pode acontecer porque alguns sites se limitaram a copiar os erros dos outros. (...)"

A nova ministra da Educação não foge às comparações com a sua antecessora; é inevitável. Isabel Alçada é afável, simpática, conhece as escolas e as salas de aula e tem um discurso que enaltece a profissionalidade docente. É reconfortante comparar com o discurso anterior e verificar que desta vez não temos uma ministra disposta a perder os professores para ganhar o lumpen.
Não parece ser uma burocrata pura e dura, com as vantagens e as desvantagens dessa impressão: não se deve esperar um rasgo, ou um grande conhecimento, na necessidade de destruir o muro de burocracia que asfixia o ensino e se se olhar para o mar de grelhas em que navegam as bibliotecas escolares, e o tal de plano nacional de leitura, é caso para pensarmos que nesta matéria vamos ter mais do mesmo, provavelmente de modo inconsciente e sempre com sorriso desconhecedor a ajudar a abrir mais uma resma de papel.
É óbvio que fiquei convencido que haverá alterações significativas nas matérias mais mediatizadas.
Que me desculpem os meus colegas, mas quando ouço um governante dizer que 80.000 entregaram objectivos, ou que 49.000 foram avaliados - ou como foi o caso de Isabel Alçada, que referiu que 6.000 entregaram não sei o quê de ontem para hoje -, não me venham com a ladainha que os sindicatos e os movimentos são isto e aquilo ou que os partidos políticos só querem não sei o quê. Uma semana depois de 120.000 professores "invadirem" a rua, 80.000 entregaram objectivos. Não esqueçamos. Só por isso é que ainda temos de ouvir coisas híbridas. É certo que vencemos na maioria dos assuntos, mas foi necessário um extremo sacrifício de uns quantos e um longo espaço temporal.
Adenda às 22.24: foi importante Isabel Alçada ter afirmado que vai fazer alterações nos horários dos professores. Aguardemos.
Tem aqui a opinião de Ramiro Marques; aqui a de Miguel Pinto; aqui a de Helena Feliciano.
Tem aqui um vídeo com a entrevista.

Encontrei uma entrevista a Maria Helena da Rocha Pereira, professora de estudos clássicos na Universidade de Coimbra, com a passagem que a seguir destaco:
"A cultura grega nunca foi para mim algo enterrado historicamente. Por isso trabalhei bastante sobre a sua presença na literatura portuguesa contemporânea, verificando que os melhores poetas contemporâneos têm um sentido profundo do helenismo: Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Miguel Torga, etc. (...) Vejo sempre tudo através dessa mediação (a cultura grega e latina como mediação para observar o mundo contemporâneo) e verifico que há características positivas e negativas dos tempos actuais que também existiram na Antiguidade. Ao contrário da ideia dos historiadores de que a História não se repete, há algo que se está a repetir: a perda dos padrões éticos, como no final do Império Romano."
Nesta entrevista de José Sócrates a Maria Flor Pedroso na Antena 1, pode concluir-se que o actual primeiro-ministro é promotor das nefastas políticas da Educação e que sobre o monstro da avaliação não muda uma vírgula ao seu comportamento obstinado e teimoso. Se ouvir a partir dos 15 minutos até regista alguma crispação e um tom a roçar o mal-educado.
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Conheço pouco de Rita Lello mas achei interessante uma frase sua numa entrevista à Pública de 13 de Setembro: "quando tinha 15 anos houve alguém que me perguntou qual era o meu projecto de vida. Fiquei aterrada e pensei: mas é obrigatório ter um?"

"Segundo Mário Soares, o Partido Socialista já não pode chegar à maioria absoluta. E "ninguém pode ter a certeza que vai ganhar. O próprio Sócrates não tem", confessa", diz ainda o antigo presidente da República. Pode ler a entrevista completa aqui.
A páginas tantas Mário Soares responde assim:
"Mas este PS é inspirado no Blair...
Foi. Realmente, ao princípio, em 2004, talvez fosse um pouco inspirado por Blair. Depois, percebeu, com a crise. Como todos os partidos socialistas europeus estão a perceber. Veja o que se está a passar com o SPD na Alemanha, com o PS em França, apesar de todas as dificuldades que eles têm. Mas eu confio na actual líder, Martine Aubry, fiz com ela uma entrevista para a RTP1 muito interessante. Espero que o socialismo europeu dê uma grande volta. Este Brown é melhor que o Blair, mas de qualquer maneira não é um homem ainda capaz de dar a volta. Tem de aparecer um novo líder no Partido Trabalhista inglês. O próprio movimento socialista, a Internacional Socialista e o Partido Socialista Europeu têm de ser refundados (...)."

A edição impressa de hoje do novo jornal diário "I" tem uma reportagem alargada sobre a luta dos professores relacionando-a com o momento político. Resultou numa coisa bonita como o Paulo Guinote testemunha aqui e digitalizou aqui.
Recebi ontem um telefonema de um dos seus jornalistas para uma entrevista. A minha relação com os órgãos de comunicação social tem uma dicotomia clara: antes e depois do "correntes". Sempre escrevi uns textos para as edições impressas dos jornais nacionais e regionais e fui entrevistado algumas vezes por órgãos de comunicação social dos diversos suportes, mas depois do "correntes" comecei a ser muito mais comedido; remeto-os muitas vezes para o blogue. Mas a luta dos professores é o que é e nem sempre consigo dizer que não às entrevistas telefónicas e que depois são passadas para as edições impressas; e importa que se diga, também sabemos da azáfama das redacções dos jornais.
E tudo isto para dizer que o jornalista que ontem me entrevistou baralhou-se e imputou-me declarações que não fiz e que ainda por cima se contradizem de algum modo com textos que tenho escrito no blogue. Não é a primeira vez que isso acontece e nem será a última. Não vou entrar em detalhes porque a coisa nem é muito importante, mas fica o reparo para depois não dizerem que eu não gosto de sair da blogosfera.
O ex-ministro das finanças do actual governo, Campos e Cunha, tem uma entrevista, aqui, que deve ser lida com toda a atenção.
A edição do JL (jornal de letras, artes e ideias), de 14 a 27 de Janeiro de 2009, tem uma interessante entrevista com José Brangança de Miranda.
A certa altura a jornalista pergunta a Bragança de Miranda se ele nunca quis ser artista. O entrevistado diz uma série de coisas sobre o seu percurso pessoal e profissional e termina assim: "Felizmente, veio a Revolução que acabou com todas essas ilusões."
Porquê, diz a jornalista?: "Porque a Revolução era bem mais importante. E foi um momento fantástico que só quem o viveu pode verdadeiramente perceber. Quem não teve a sorte de ter vivido o 25 de Abril tem que se contentar com os mundiais de futebol."
(Reedição. 1ª edição em 14 de Março de 2009)

(encontrei esta imagem aqui)
Nada há de positivo a esperar da ainda ministra da Educação; há muito tempo que é assim. O jornal DN de ontem publica uma entrevista, em formato duplo, a duas das figuras mais mediatizadas destes quatro anos negros: a ministra da Educação e o secretário-geral da Fenprof.
É impressionante como a senhora ministra não dá a mão à palmatória em nenhum dos assuntos, nem nos mais polémicos e onde o disparate está mais do que certificado. Já nem sei o que diga; talvez surreal, como o Miguel Pinto sugere aqui, seja a única expressão adequada. Se quiser ler a entrevista, pode fazê-lo aqui.
(encontrei esta imagem aqui)
Vi com alguma atenção a entrevista ao primeiro-ministro e assisti ao habitual rescaldo.
Percebi que o chefe do governo deixou "cair" a pessoa que ocupa as funções de ministra da Educação e que classificou a avaliação de professores, entre outras coisas, de complexa e burocrática. Não se referiu ao estatuto da carreira de professores nem ao inenarrável modelo de gestão escolar. Fala-se da tentativa de criar um "homem novo" para as eleições que se avizinham e reconhece-se a importância da justa, e muito difícil, que começou contra quase todos, luta dos professores portugueses. A nossa inevitável vitória em nome da razão, da defesa da escola pública e do seu ainda tímido poder democrático, começa a fazer o seu inexorável caminho.
Esta mudança está muito longe de chegar. Muito longe mesmo. Não basta propalar intenções, é necessário mudar políticas, suspender diplomas e dizer toda a verdade; custe o que custar. Quem erra corrige, mas corrige mesmo. Chega de farsas. Agora é tarde para cosméticas de última hora. Ninguém se esquece dos inacreditáveis ataques ao professores portugueses. Ouço dizer que estará para breve um confronto entre dois blocos: o social de esquerda contra o social de direita.
Vamos aguardar. Amanhã é outro dia e a luta está bem viva como sempre. O chefe do governo disse que estava bem consigo e nós também nos sentimos muito bem com o que temos feito.
Ligações aos órgãos de comunicação social:
Ao Sol, aqui.
Ao Público, aqui.
Ao Expresso, aqui.
Ao DN, aqui.
(encontrei esta imagem aqui)
"O que proponho é mais trabalho para professores e alunos"
"Foi deputada do PS, foi assessora para a Educação do Presidente da República Jorge Sampaio e assumiu agora a presidência do Conselho Nacional da Educação (CNE). Ana Maria Bettencourt é professora e investigadora. É o contacto com as escolas do Norte da Europa que a faz ter a certeza que para conquistar o sucesso escolar é preciso mais trabalho, de professores e de alunos. Ainda não sabe qual vai ser a agenda do CNE para os próximos quatro anos, mas quer dar continuidade ao parecer sobre a educação dos 0 aos 12 anos, assim como a outro sobre o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos. “Como organizar a escola, para que todos aprendam”, é a grande questão a responder em ambos os pareceres.(...)"
“As escolas não prepararam os professores”
"(...)As escolas superiores não prepararam os professores para o mundo complexo que é a educação. Não posso generalizar, mas todos os professores que encontro no terreno não preparam bem os futuros professores para responder à diversidade e a diferenciação entre os alunos. Há um problema com a formação inicial e também com a contínua. Neste momento em que não precisamos tanto de formar novos professores, a formação contínua tem que ser a grande aposta. Os recursos da formação inicial devem ser canalizados para a contínua.(...)"
É uma entrevista que até arrepia. Ana Maria Bettencourt, a nova presidente do Conselho Nacional de Educação fala para o jornal Público sobre Educação. Tem algumas ideias interessantes e até toca em algumas das componentes críticas da formação de professores. Mostra-se fascinada pela Finlândia mas só nos aspectos que não comprometem o governo e as políticas apoiadas pelo partido político onde ela se integra. Mas depois cai no mais aflitivo eduquês, com ideias que só podem sair da cabeça de quem está há décadas sem por os pés numa escola. O que mais me arrepia é a ideia de concentrar nas competências dos professores a quase exclusividade no combate ao abandono escolar desresponsabilizando o resto da sociedade na luta contra esse flagelo. E di-lo com receitas de formação e de "trabalho quotidiano". Isto é trágico. Do Conselho Nacional da Educação espera-se "aconselhamentos" sobre o modo com se educa as nossas crianças e recomendações sobre o tempo que as famílias dedicam a essa decisiva tarefa e se a sociedade colabora nesse sentido.
Passei pelos blogues do Paulo Guinote e do Ramiro Marques e encontrei dois comentários sobre o assunto que subscrevo.
Paulo Guinote;
"Entrevista de Ana Maria Bettencourt ao Público. Algumas ideias vagamente interessantes, envoltas num discurso embevecido com o Norte da Europa e deslumbrado com leituras de há 25 anos, ignorando que antes da cereja é preciso fazer o bolo. E assim temos mais uma especialista na arte que não pratica."
Ramiro Marques:
"É uma entrevista cheia de lugares comuns e de propostas requentadas. (...)E quer que os professores trabalhem ainda mais. (...)O que Ana Maria Bettencourt propõe é uma nova dose reforçada de políticas educativas à Maria de Lurdes Rodrigues. Os alunos não aprendem? A culpa é dos professores que "dão sempre mais do mesmo" e trabalham "para uma aluno imaginário". Os alunos têm problemas na aprendizagem da Matemática? O que fazer? Ela responde: "os professores têm de trabalhar mais". Nem uma palavra sobre a necessidade de os alunos se esforçarem mais. Nem uma frase sobre o número excessivo de alunos por sala ou o número exagerado de turmas por professor nos 2º e 3º CEB. Nem um lamento sobre o excesso de burocracia nas escolas ou os horários sobrecarregados dos professores.(...)"
O Ramiro Marques, com o seu blogue Profavaliação, aqui, tem tido um papel enorme e decisivo nesta justa luta dos professores. É impressionante o que ele tem feito e a história encarregar-se-á de o sublinhar.
Já nos encontrámos pessoalmente e vamos trocando umas ideias sobre a situação de quando em vez. O Ramiro Marques tem tido a cortesia de sublinhar o papel do "correntes". Agradeço-lhe. Desta vez publica uma entrevista que me fez, aqui.
Para as minhas memórias colo-a também de seguida.
Vi a entrevista que o actual primeiro-ministro de Portugal deu ao canal de televisão "sic generalista". Estive com uma relativa atenção e despertei quando se tratou o tema da Educação. E o entrevistado foi claro:
"antes desta avaliação de professores as escolas viviam em paz e tranquilidade mas os alunos abandonavam os estabelecimentos de ensino".
É grave, é triste, é cruel, não é rigoroso e é de uma injustiça brutal. Não é preocupante que alguém diga uma coisa dessas, pois vivemos em democracia e felizmente as pessoas são livres de dizer o que bem entendem.
O que é grave é um primeiro-ministro pensar uma coisa dessas com tal convicção que se acolhe no argumento de que os seus antecessores todos só não diziam o mesmo porque disfarçavam o problema. Ou seja, os outros todos eram uma espécie de cobardes que se escondiam perante as dificuldades. Agora não: agora temos um corajoso iluminado: de uma penada e lá vai o abandono escolar através da alteração do processo de avaliação dos professores.
Já o escrevi por diversas vezes: o actual governo acreditou que o combate às taxas de abandono escolar que nos envergonham podia ser concretizado com o recurso quase exclusivo ao trabalho dos professores. E mais: deveria avaliar-se os professores pelo sucesso nesse combate. Com isso, e com outras medidas associadas, desresponsabilizou-se o resto da sociedade na luta contra esse flagelo nacional. É desastroso e brutalmente injusto.
Há estudos que indicam que cerca de 60% da responsabilidade no sucesso escolar dos alunos não depende da escola. E mesmo dos 40% sobrantes, só 10% é que dependem directamente dos professsores.
Percebeu-se o embaraço do primeiro-ministro quando falou das questões da Educação. Dá ideia que o ponteiro da culpa começa a mudar de posição.
Fiz, a 2 de Dezembro de 2006, um post sobre uma interessante entrevista a José Pinto dos Santos na RTP1.
Pouco tempo depois, e com o crescimento do youtube, comecei a procurar um vídeo sobre a entrevista: nada, nem um sinal. Fui à procura de blogues ou sites sobre o assunto e encontrei um que fazia referência ao programa televisivo. Era de um português que estudava na Califórnia. Escrevi-lhe um email a perguntar se me podia ajudar. Isto ocorreu no início de 2007 e não obtive resposta.
Não é que num dia destes, e no meio do turbilhão de emails e comentários sobre a luta dos professores, aparece-me um comentário no blogue a um post de 2006 (é comum entrarem comentários a posts antigos e datados e que até dão algum trabalhinho para responder...) sobre o post da citada entrevista. Era de Rui Gonçalves, o tal português que estudava na Califórnia mas que agora vive em Aveiro, com cinco vídeos com a entrevista.
Fiquei surpreendido. Já quase que não me lembrava do conteúdo. Como o Rui me indicava o seu telefone pessoal, liguei-lhe a agradecer a gentileza e, entre outras coisas interessantes, soubemos que nascemos na mesma cidade, a bela capital moçambicana.
Obrigado meu caro Rui Gonçalves.
O Rui tem, aqui, o seu blogue individual que nasceu com a tal ida à Califórnia. Uma visita que se recomenda.
Antes dos vídeos, republico o que então escrevi no citado post:
José Pinto dos Santos é professor numa importante escola de gestão, em França, onde passou a leccionar depois de anos a fio ligado à administração de empresas multinacionais.
José Pinto dos Santos foi convidado para realizar uma conferência, para gestores reconhecidos no mundo dos negócios multinacionais, sobre os desafios da globalização. No dia anterior deu uma “grande entrevista”, à jornalista Judite de Sousa, no primeiro canal da televisão portuguesa. Interessante, na forma e no conteúdo. Nem dei pelo tempo: ficava por ali mais umas horas a ouvir o senhor, e desconfio que a Judite de Sousa também.
José PInto de Sousa, de modo informal e convicto, falou muito sobre Portugal e sobre os portugueses e também sobre a gestão no mundo da sociedade da informação e do conhecimento. E de globalização. Mas só vendo e ouvindo, claro.
A reter a a seguir atentamente.
Revi os vídeos antes de os publicar: como tudo muda e tão depressa. Dois anos depois, o mundo não é o mesmo e gostaria de ouvir de novo o entrevistado.
Ora clique. Cada vídeo tem cerca de 10 minutos.
Vídeo 1.
Vídeo 2.
Vídeo 3.
Vídeo 4.
Vídeo 5.
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