Recebi por email um texto atribuído a José Matias Alves e que confirmei aqui. É um bom exemplo da crítica ao eduquês que, na minha modesta opinião, interessa combater e implodir.
"Dos Mitos.
O excesso de planificação e de planos.
"Continuamos a viver num sistema marcado por várias ilusões: a ilusão do comando e do controlo, a ilusão do poder dos decretos e do diário de república (vasto cemitério de leis); a ilusão das lideranças heroicas, salvíficas e solitárias; a ilusão da comunidade educativa; a ilusão dos projetos, planos e programas.
Nesta crónica defendemos a tese que quando há um excesso de planificações, planos e projetos a realidade tende a ficar muito aquém do desejado e previsto. Mais: tende a ser substituída pelas ficções das narrativas que se escrevem ou esquematizam. Partindo de Pfeffer and Sutton (2000,2006) identificamos 5 barreiras à ação resultantes deste excesso:
1. Quando o discurso e a escrita substituem a ação. Na arena escolar, muitas vezes basta escrever para não ter de agir. Outras, o esforço de planificar esgota a vontade, a energia ou tempo para concretizar. Outras ainda, o que interessa, segundo a boa regra burocrática não é o fazer mas o que se escreveu sobre o que se vai fazer ou sobre o que já se fez.
2. Quando a memória substitui a nova ação. A ênfase da planificação alimenta-se, em regra, da memória, do passado e isso dificulta um ajustamento às novas realidades emergentes.
3. Quando o medo impede a ativação de novo conhecimento. Quando as pessoas estão sob pressão e com medo do seu futuro, não vão trabalhar com afinco, imaginação e ousadia.
Pfeffer e Sutton encontraram duas consequências negativas em organizações que eram governados pelo medo: (l), levou as pessoas a concentrarem-se apenas no curto prazo, muitas vezes causando problemas a longo prazo, e (2) enfatizou a sobrevivência individual desprezando a coesão do coletivo.
4. Quando a obsessão da medida obstrui o bom senso. Uma preocupação com resultados de medição em sistemas de monitorização que (a) são muito complexas, com muitas medidas, padrões e indicadores difíceis de operacionalizar, (b) são altamente subjetivos na implementação, e (c) muitas vezes fazem perder importantes elementos de desempenho.
5. Quando a concorrência interna transforma amigos em inimigos. Quem é o inimigo? Pessoas dentro da organização ou concorrentes externos?
Se a concorrência e a competição internas são a filosofia de gestão,
(a) promove a deslealdade para com colegas e a organização como um todo,
(b) prejudica o trabalho em equipa, e
(c) inibe a partilha de conhecimentos e a disseminação das melhores práticas.
Vivemos sob o signo da projetocracia, do excesso de planificações e planos. No excesso de retórica e pobreza de práticas (Nóvoa). Da avaliocracia. Precisamos de um novo tempo. Um tempo de leveza dos planos; um tempo de ativação das inteligências adormecidas; um tempo de mais contacto na ação coletiva; um tempo de menos papéis; um tempo de mais reflexão colaborativa; um tempo de uma ação mais humilde, arriscada e empreendedora."
Decorrem as avaliações de alunos do final do 2º período e, como é sublinhado neste post do Paulo Guinote, deve recordar-se que o artigo 42º do Estatuto do Aluno é taxativo e devia sossegar o inferno de invenções de má burocracia que alimentam a cultura organizacional de muitas escolas.
A comunicação social vai dizendo que a disputa no PS anda à volta da trágica herança dos governos chefiados por Sócrates. Como há muitos socráticos, mesmo que com disfarces de última hora, o jogo de sombras baralha as impressões. Há cenários diversos, mentes a fervilhar e riscos de ingovernabilidade.
O surgimento desta crise terá alguma relação com os 4 mil milhões da refundação? Quem está mais próximo da maioria que governa? São muitas as interrogações que se podem fazer.
Olhando a partir do sistema escolar, o PS tem sido falho em programas e em execução. A paixão de Guterres foi "traída" pelos megalómanos do eduquês e da má gestão financeira e o exercício de Sócrates assumiu o segundo passo neoliberal em Portugal (Barroso deu o primeiro) acompanhado de uma engenharia social importada do Chile e que mais parecia da velha Albânia.
Este enfraquecimento de António Seguro e António Costa lá terá os encantos que exigem uma última interrogação: ainda há quem aspire pelos regressos de Sócrates e Lurdes Rodrigues?
António Guterres reconhece "responsabilidade" na situação actual do país
Quando o discurso político remete para "a nuvem" a responsabilidade pelo estado em que estamos, ao menos que apareça alguém com coragem para não fugir às responsabilidades. Se compararmos com o recente discurso do populista e anti-político Cavaco Silva que apontou o dedo aos que estigmatizaram as pescas, a agricultura e a indústria, António Guterres deu um mote que espera-se que faça escola e que impeça erros futuros.
Era bom que Guterres detalhasse o "pântano" e que explicasse porque é que Sousa Franco e João Cravinho não quiseram fazer parte de um segundo Governo. E já agora, também seria interessante que dissesse se deu conta dos devaneios eduqueses da sua equipa no MEC que aumentou desmesuradamente o número de professores, e os apetites dos interesses cooperativos, com os resultados que se conhecem.
Se Portugal é o país europeu com maior aumento de licenciados na área das ciências (segundo um relatório da rede Eurydice sobre o ensino das competências chave na Europa, divulgado esta segunda-feira, e que dá conta que a percentagem passou de 17 para 25 entre 2001 e 2010) é porque o sistema escolar de 1990 a 2005 teve um desempenho de elogiar (até porque os indicadores de excelência também estão mais do que certificados). Já se sabe que Lurdes Rodrigues e Nuno Crato dirão que são alunos nascidos depois de 2005.
Se somarmos as políticas de Lurdes Rodrigues aos achamentos essenciais de Nuno Crato, teremos motivos para desejarmos o céu ou o inferno. Tenho ideia que vamos mais a caminho do segundo. Se não invertermos a rota, os números do futuro próximo mostrarão um país em franca regressão.
A notícia tem também um lado cómico quando mediatiza o eduquês I contra o eduquês II:
"(...)Segundo o relatório, na última década todos os países procederam a revisões do currículo educativo com vista a aproximá-los dos conceitos de competências-chave. Em Portugal, uma das primeiras medidas do actual ministro Nuno Crato foi, pelo contrário, o de revogar o documento que desde 2001 norteava ao ensino básico, pondo fim ao conceito das chamadas “competências essenciais”.(...)"
Não é boa receita o regresso ao "back to basics" tradicional.
"Deliberadamente vamos utilizar terminologia clássica, aclarando, desde logo, que "não se trata de advogar ou propôr o regresso a um passado mítico, e muito menos a defender programas mínimos como ler, escrever e contar ou as tendências de "back to basics". Trata-se, pelo contrário, de abrir novas perspectivas que ponham a aprendizagem, no seu sentido mais amplo, no centro das nossas preocupações" (Novoa, 2009, 194). Somamo-nos à exigência de clareza no debate sobre as coisas públicas: "O buraco negro do debate público sobre educação, capaz de absorver e fazer desaparecer qualquer ideia que se aproxime, é hoje a dificuldade em chamar as coisas pelos seus nomes" (Fernando Enguita, 2009, 72)"
Angel García del Dujo.
La escuela en crisis/Recontrucción del sentido de
la actividad educativa escolar (página 83)
(a tradução é minha)
Concordo que se centre o ensino nos conteúdos e que se subalternize o conjunto quase vazio denominado de livro de competências. Na docimologia tem sido sempre assim: regressamos a sítios anteriores e a oportunidade faz com que apresentemos ideias do passado, muitas vezes abandonadas de forma modista e precipitada, como os caminhos do mundo moderno; no caso actual os EUA e a Grã-Bretanha.
Foi isto que me surpreendeu, ontem, nas imagens de Nuno Crato a falar das metas curriculares. Também me impressionou a pressa e o momento escolhido. Não é bom sinal.
Metas ou objectivos fazem parte da organização do ensino há mais de 40 anos e em Portugal também. A divisão entre gerais, específicas e operacionais generalizou-se na década de oitenta do século passado e as primeiras, as gerais, davam ao processo um ar etéreo e inatingível. Nos programas escolares do início da década de noventa, foram estabelecidas, de forma exaustiva e bem estruturada, metas curriculares (standards) por ano de escolaridade e ficou por fazer a rede do essencial (core standards), embora muitas escolas e grupos disciplinares o tenham realizado.
Em 1998 apareceu o tal livro de competências e desprezaram-se os programas. Os professores, felizmente e em muito casos, não. E porquê? Porque tinham que ensinar todos os dias e porque começaram a perceber que o sistema escolar estava a ficar entregue a "reformistas compulsivos, iluminados e atrevidos". Comprovou-se que tinham razão.
Quanto o actual ministro apresenta o assunto como o fez, dá mais uma machadada na imagem da escola pública. Quem não conhecer a história da pedagogia em Portugal, pensará que temos tido um ensino não estruturado, e sem metas, até à chegada de Nuno Crato. É como sabemos: o eduquês não tem remédio, apenas se disfarça, e quando um sistema entra em plano inclinado há sempre espaço para mais devaneios.
Metas curriculares vão ser obrigatórias. Agora estão em discussão
Estamos de tal modo que a repetição tornou-se o nosso modo de ser e o sistema escolar não escapa ao alçapão em que estamos metidos, mesmo que se considere que para aprender é necessário repisar muitas vezes.
Os exames são um metabolismo útil e basal nos sistemas escolares que incluem mais do que um aluno. Desta vez, o eduquês (ou rol de inutilidades, e de má burocracia, inventado por quem tem falta de terreno), que vem sempre de onde menos se espera, baptizou-os (sim, porque também existe no modo católico) de prova final.
Num sistema como o nosso, generalizar a coisa em doses industriais pode criar um peso burocrático que transforme um procedimento docimológico num pesadelo organizacional redundante, que apenas confirme o que já se sabia e que se vire contra o próprio, como comprova a história das correntes ideológicas e pedagógicas.
E já que estamos em maré de exaustivas repetições, e para além de não nos devermos esquecer que a primeira regra para aferir a saúde de uma sociedade é verificar se a retórica coincide com a realidade, repito um post de há uns dias:
Discutir em que anos é que há exames, e em que disciplinas, é uma matéria interessante. Tornar a questão numa contenda ideológica só é possível em sociedades imaturas ou em crise (não estou a ser ingénuo, não). E como me tenho cansado de escrever, a nossa sociedade é a parte maior do problema. Proponho a leitura deste comentário da Ana aqui no blogue. É interessante seguir o raciocínio e chocar com o último parágrafo.
Não acredito em cidadãos imaculados nem em organizações imunes aos "pecados" da natureza humana e, por isso, defendo a democracia e o estado de direito. Também não sou dado a teorias da conspiração. Lembro-me sempre de Karl Popper quando leio os que se esquecem que a irrefutabilidade só nos aproxima do totalitarismo.
A linguagem bem-pensante e sedutora fez do eduquês uma via para o totalitarismo e algo parecido levou o sindicalês para o mesmo sítio. Os sindicatos foram seduzidos para uma espécie de participação governativa para adquirirem a alforria da responsabilidade. Deixaram para lugar secundário a força da razão e passaram a nortear a presença na mesa de negociação pelo imediato, pelos corredores do poder, pela promiscuidade partidária e pela dança das cadeiras.
Esta constatação nem se fundamenta apenas no que se assistiu nos últimos anos na Educação. Cada uma faz da vida o que quer, mas tem de ter bem presente que as agendas sindicais não podem ser plasmadas das governativas, que a força da razão não se impõe de imediato e que é com o exemplo que se constrói a democracia.
(1ª edição em 8 de Abril de 2011)
Há modismos que têm contribuído de forma decisiva para os mais nefastos atavismos do nosso sistema escolar: a má burocracia e a inundação de procedimentos inúteis. Em regra, as ideias e os instrumentos que se generalizam no universo organizacional têm como ponto de partida a má didáctica que é utilizada por quem tem de fazer gestão escolar nos diversos patamares, mas que nada sabe de sistemas de informação. E depois é como no ensino: só se ensina o que se sabe.
Os modismos mais recentes, duas a três décadas, têm nome (e podia ficar a tarde toda a elencar): interdisclinaridade, projecto curricular (e com uma série interminável de apêndices), projecto educativo (sem sociedade e com visão e missão), comunidade educativa (sem sociedade), articulação (em diversos planos) e cultura de agrupamento.
Apesar do legislador estar afastado do terreno, nota-se que aprendeu alguma coisa com os fracos resultados verificados nos agrupamentos de escolas em pouco mais de uma década. Pelo menos a semântica evoluiu no sentido de eliminar a impensada ideia de cultura de agrupamento (há quem diga que este modismo foi herdado das multinacionais tayloristas), substituindo-a por agregação ou unidade administrativa.
É que as nossas escolas, algumas com décadas, têm história. Dirigem-se a grupos de alunos de idades muito diferentes, têm percursos escolares diferenciados e caminhos organizacionais elaborados ao longo de anos de trabalho árduo. Uma agregação ou unidade administrativa deve respeitar a autonomia pedagógica das diversas escolas e não terraplenar a história de cada uma delas.
Quem esteve atento às políticas da Educação, percebeu que houve um debate interno no PSD que se resumiu assim: um grupo que desenhou a continuidade das más políticas do PS e que podemos classificar de ultraliberal ou de testa de ferro da privatização de lucros e um outro que construiu o seu discurso na contestação às políticas dos últimos anos e que se disse defensor de um clima de confiança nos professores e de recuperação do poder democrática da escola.
Digamos que o primeiro grupo assentou que nem uma luva ao arco governativo que nos conduziu à bancarrota e que o segundo se apresentou, de forma algo surpreendente, fora desse registo. Usou um discurso sem laivos de má burocracia ou de eduquês e foi sensível ao que os investigadores mais atentos têm diagnosticado: a escola precisa, em nome da igualdade de oportunidades no acesso ao saber, de se libertar de um incomportável caderno de encargos, de recuperar a confiança nos professores e de se dedicar ao ensino.
O segundo grupo parece estar a perder a voz e é fundamentall que a esquerda construa um ideário nas políticas da Educação que se afirme como oposição e que prepare uma alternativa de governo que apague de vez a desastrosa herança dos governos de J. Sócrates.
Qual é a carruagem do nosso tempo? As sociedades da aprendizagem criaram uma atmosfera semântica bem-pensante e atractiva, mas de tal modo vaga, imprecisa e não concreta, que se tornou um obstáculo pedagógico ao escolar do nosso tempo.
Há autores que se socorreram do conceito de governamentalidade de Michael Foucault, em que categorias como sociedade de aprendizagem, sociedade do conhecimento e aprendizagem ao longo da vida foram, e são, referências de uma estratégia politica. Essas categorias originaram formas de governo condutoras dos sujeitos em função das suas habilidades, destrezas e competências, construíram um discurso global, politicamente correcto e aparentemente natural e ingénuo, que gerou no sujeito um estado permanente de ansiedade formativa.
"Foi directo à subjectividade da pessoa, não através do corpo mas por meio da mente, por intermédio de formas, de práticas educativas e pedagógicas que, possibilitando escolhas educativas, moldam a subjectividade das escolhas autónomas".
Tradução e adaptação de uma frase de Marshall 2005.
(Já usei este texto noutros posts)
Esta crónica de Guilherme Valente, editor da Gradiva, acolheu a ideia que colocou em estado de sítio o sistema escolar português nesta década e que promete continuar: o eduquês é da mesma família do poder democrático da escola e os seus defensores são esquerdistas e despesistas.
Há quatro conceitos que se baralham e que importa situar: eduquês, democracia, ideologias e desperdício financeiro.
O eduquês, talvez patenteado por Marçal Grilo, resume-se ao pressuposto de que mais burocracia atenua o insucesso escolar e gera igualdade de oportunidades. Temos dados empíricos suficientes para infirmar a hipótese e suspeitar do oposto: a má burocracia e o rol de inutilidades que a sustentam são factores dissuasores da mobilização profissional dos professores, desde logo pela saturação com o desperdício informacional.
Tem algum fundamento concluir que a responsabilidade pelo logro organizacional é uma patologia esquerdista, embora se deva considerar que as forças políticas com assento parlamentar só foram capazes de acrescentar esquinas ao labirinto e que para além das etiquetas contam as práticas e quem as apoiou. Há, por exemplo, alguma dúvida sobre a forma entusiasta como a direita apoiou, até 2008, J. Sócrates e L. Rodrigues?
Tem ainda menos nexo associar o eduquês à defesa do poder democrático da escola. Está até subjacente um preconceito arrepiante: o eduquês é tão mau como a democracia. A História das sociedades e das ideologias mostra-nos que os totalitarismos sempre objectivaram o controle burocrático dos actores e que a libertação dos processos só foi possível com as conquistas da democracia.
Os sistemas escolares democráticos são caros e a igualdade de oportunidades não se faz sem algum desperdício financeiro. Quem queira saber algo sobre o modo de aprender, tem de ser cuidadoso, deve perceber que é mais correcto falar em ignorância do que em conhecimento sobre o modus operandi e que os resultados do ensino medem-se também a longo prazo. As conclusões apressadas e os regressos a passados comprovadamente incompetentes são riscos que nem na falência financeira devem ocorrer.
Estamos mergulhados num labirinto e num caldo de cultura bullshit. Dos quatro conceitos que preenchem o lugar com saída improvável, há dois que são indispensáveis ao futuro do sistema escolar: a democracia e a eliminação do eduquês.
A presidente do Conselho Nacional de Educação, Ana Maria Bettencourt, não encontra registo diferente, do que tornou o caderno de encargos da escola insuportável, para explicar o excesso de reprovações nos ensinos básico e secundário. As soluções que apresenta são retiradas de uma cassete eduquesa e ignoram que existe sociedade. São duas décadas duma tragédia exponenciada nos consulados de Lurdes Rodrigues e que o actual governo parece não ter aprendido; apesar dum registo diferente. A ideia de mais do mesmo em forma de apoios chega a tornar-se ridícula. Repare-se no detalhe de que tudo está mal na escola. As escolas fazem, têm feito e continuarão a fazer, muito na área social. Não é essa a sua competência, mas a pobreza não deixa ninguém indiferente. Depois lêem achamentos destes por parte da presidente do Conselho Nacional de Educação.
Alunos portugueses chumbam muito e é preciso investir no apoio
"Não vale a pena investir [na educação] se as pessoas não aprendem", reforçou a presidente do CNE, que nas suas recomendações apela a uma "mudança profunda na atitude das escolas e dos professores face ao insucesso". Para o CNE, a solução passa pelo "reforço da formação em exercício dos professores e maior autonomia das escolas" para poderem "organizar as melhores soluções".
A propósito da intenção de se castigarem os encarregados de Educação por causa do comportamento dos seus educandos, o sociólogo João Sebastião, do Observatório para a Segurança Escolar e especialista em violência escolar, disse ao Público que "(...)as escolas são desresponsabilizadas pelo comportamento dos seus alunos. (...)Quando há problemas com alunos, o que se deve fazer primeiro é avaliar o que as escolas fizeram por eles e há muitas que não fizeram nada: limitam-se a repetir suspensões, a empurrar os alunos complicados para outras escolas ou para os Cursos de Educação e Formação."
O discurso deste sociólogo vai na linha daquele que, em 2006, quis classificar os professores, pontuando-os, pelo abandono escolar dos alunos. Foi grave e é preocupante que se continue a orientar o dito observatório com estes raciocínios. Na afirmação de João Sebastião encontramos as lógicas que desresponsabilizaram a sociedade como a causa primeira do insucesso escolar, ao mesmo tempo que sobrecarregavam as escolas com um caderno de encargos impossível de cumprir. Não me esqueço do pai com sete filhos que, a viver numa casa só com um quarto, colou na porta da entrada: "só recebo os assistentes sociais às 5ª feiras das 12h00 às 14h00".
Em 1998 não havia blogosfera e muito menos tanta mediatização. É pena porque era bom confrontarmos posições e analisarmos as evoluções. Disse, numa posição minoritária e olhado de forma desconfiada pelas pessoas das Escolas Superiores de Educação e das Faculdades de Ciências da Educação, à Ana Benavente e ao saudoso Paulo Abrantes que colocar a interdisciplinaridade e a ideia de transversalidade como locomotivas curriculares criaria um monstro de inutilidades e de má burocracia nos sistemas de informação escolares.
Os alunos e os professores precisavam de conteúdos nucleares bem definidos e que sem essas aprendizagens consolidadas a interdisciplinaridade seria um logro e as áreas curriculares não disciplinares uma perda de tempo e um faz de conta.
Mas, e como nos lembramos, os programas das disciplinas eram coisas do passado. As nossas escolas eram, e são-no cada vez mais, "fábricas" tayloristas e desconhecê-lo seria fatal.
Usei, como exemplo e nessas interessantes discussões, a maior das inutilidades: os projectos curriculares de turma e as competências essenciais e transversais. Apenas um exercício arriscado de autonomia impediu muitas escolas de convocar conselhos de turma insanos e semanais para aferir as referidas competências.
Já cansa tanta análise semântica. As competências existem e defini-las é uma mera redundância. Só se ensina o que se sabe e é preciso conhecer os conteúdos que têm que ser ensinados e, espera-se, aprendidos. A decisão do governo é um primeiro passo. Existem vários caminhos em torno de um mesmo objectivo. O que tenho lido sobre o que pensa Nuno Crato desagrada-me nas matérias que tenho dado conta noutros posts. Espero que esta decisão elimine o que é essencial.
É pena que ainda não se tenha reconhecido que os modelos de avaliação de professores e de gestão escolar são produtos dos mesmos trágicos devaneios. Até aceito que se tenha reconhecido, como dizem os que argumentam que é falta de coragem, de conhecimento do terreno e uma questão de tempo.
O documento que orienta o ensino básico desde 2001 será substituído por metas curriculares centradas nos conteúdos que alunos devem dominar.
Depois da primeira reunião de Maria de Lurdes Rodrigues com os Conselhos Executivos, telefonei a quem tinha sido eleito para me substituir e disse-lhe mais os menos isto: estas pessoas não gostam dos professores e das salas de aula e vão diabolizar os horários docentes. A impressão sustentou-se nas palavras da ex-ministra e na vibração de quem a acompanhava.
E assim foi. As actvidades escolares dos professores foram paulatinamente preenchidas pelos procedimentos eduqueses e de má burocracia que medravam há anos. Encheu-se o universo docente de inutilidades várias para satisfazer o lumpen.
O resultado é o que se sabe. Até os professores que gostam de leccionar chegam à sala de aula exaustos de inutilidades e só pensam no dia da fuga.
Qual é a carruagem do nosso tempo? As sociedades da aprendizagem criam uma atmosfera semântica bem-pensante e atractiva, mas de tal modo vaga, imprecisa e não concreta, que se torna um obstáculo pedagógico ao escolar do nosso tempo. Há autores que se socorrem do conceito de governamentalidade de Michael Foucault, em que categorias como sociedade de aprendizagem, sociedade do conhecimento e aprendizagem ao longo da vida são referências de uma estratégia politica. Essas categorias originam ainda formas de governo condutoras dos sujeitos em função das suas habilidades, destrezas e competências, constroem um discurso global, politicamente correcto e aparentemente natural e ingénuo, que termina a gerar no sujeito um permanente estado de ansiedade formativa.
"Foi directo à subjectividade da pessoa, não através do corpo mas por meio da mente, por intermédio de formas, de práticas educativas e pedagógicas que, possibilitando escolhas educativas, moldam a subjectividade das escolhas autónomas". Tradução e adaptação de uma frase de Marshall 2005.
(Já usei este texto noutros posts)
Os nossos ês já não cabem nos dedos de uma mão. Ao eduquês associaram-se o economês, o justicês e por aí fora. É uma praga de linguagem bem pensante e sedutora que inferniza a sociedade.
O bullshit também se instalou nos nossos comentadores como se vê sempre que o assunto é a avaliação de professores. Mesmo que nada saibam sobre o que acontece nas escolas, debitam uma série de generalidades porque o silêncio foi eliminado das inteligências.
Em muitas das nossas escolas acontece mais ou menos o mesmo sobre a avaliação do desempenho. O rol de mesquinhez e de incompetência, ao jeito do legislês, preenche demasiadas cabeças que não podem ficar em roda livre. É triste, mas é assim. O ês minou-lhes o raciocínio e não há simplex que lhes valha. A má burocracia é o seu metabolismo de sobrevivência.
Não adianta remeter para a ilusão, para a precipitação ou para o radicalismo. O actual governo, pela voz do primeiro-ministro, prometeu suspender aquela coisa revoltante e kafkiana. Não há argumento que justifique a falta de palavra num assunto tão sério. Basta ler os relatos dos últimos dias. Não compreender a indignação que se instalou nos professores é desconhecer dois significados: de dignidade e de seriedade.
Querem ver que mora um “eduquês” em cada um de nós?…
David Justino fez muitos disparates no seu exercício ministerial e depois prolongou-os na cooperação estratégica entre a presidência de Cavaco Silva e o governo de José Sócrates. Leia o parágrafo que o Miguel Pinto citou e diga lá se não há um grande confusão no discurso sobre Educação.
“Um bom professor, tal como uma boa escola, é aquele que consegue contrariar o determinismo sociológico do estatuto socioeconómico familiar pela qualidade do seu ensino, pela forma como potencia as aprendizagens, pelas expectativas que consegue criar e pelas capacidades que consegue desenvolver nos alunos. Por isso dá tanto trabalho ser professor!” David Justino, Difícil é Educá-los, p. 92
Mesmo correndo o risco de repetir o que já escrevi vezes sem conta, e considerando a polémica actual que diz que os críticos do eduquês são inimigos da inclusão e da democracia, afirmo que a má e excessiva burocracia (o eduquês em forma de monstro) fez mais pela exclusão de alunos e pela não afirmação dos direitos democráticos do que a quase totalidade das outras variáveis conhecidas. Apenas a má sociedade, onde se inclui a pobreza e a falta de ambição escolar, conseguiu níveis ainda mais elevados.
As políticas educativas do meu espaço político, a esquerda (no caso português a coisa preencheu a mente de todos os partidos políticos que passaram pelo parlamento), convenceram-se que a burocracia seria o advogado de defesa do aluno-réu perante o todo poderoso professor-juiz e que assim se garantiria a igualdade de oportunidades. Substituiu-se a palavra do professor pela evidência documental e nasceram inúmeras inutilidades informacionais: projectos curriculares, adequações curriculares, objectivos mínimos, relatórios individuais de apoio educativos, competências em vez de conteúdos, planos de recuperação e de acompanhamento e por aí fora. Os professores tudo fizeram para escapar a esse inferno. Por direito de sobrevivência, usaram a farsa para esconderem a mágoa e a saturação e apoiaram menos os alunos desprotegidos. Pelo contrário, quando encontraram ambientes organizacionais despoluídos e civilizados, mobilizaram-se para a inclusão e ajudaram a democracia a crescer.
Considerar a interdisciplinaridade o guião da organização curricular e submeter a cultura organizacional a essa impossibilidade, foi um passo para a presença asfixiante da má burocracia e do desperdício de tempo.
Quando olhamos para esse fatalismo e procuramos sinais nos discursos existentes, encontramos os partidos com assento parlamentar aprisionados ao caos.
O discurso do aluno como um igual e nunca no patamar da alteridade, é outro vestígio material.
Mesmo os partidos políticos mais à esquerda não se conseguem libertar desses registos. Nem percebo se querem ou se reconhecem os efeitos desastrosos para a igualdade de oportunidades. Alguns dos protagonistas conseguem um discurso menos contaminado, mas quando lemos os documentos percebemos que têm tudo por fazer e um longo caminho a percorrer; claro que é necessário que queiram, repito.
E apesar da excelência de alguns dos nossos académicos, não deixa de ser impressionante como parece que ninguém defendeu o eduquês, a nova gestão pública e por consequência a "nova" gestão escolar, o modelo de avaliação de professores com prestação de contas fora da sala de aula e em inferno de má burocracia e por aí fora.
Quem está atento à campanha eleitoral na área das políticas da Educação, percebeu que, para além dos caminhos sugeridos pelo arco da governação ou pelos partidos da esquerda, há um debate interno no PSD que se pode resumir assim: um grupo que desenha a continuidade das más políticas do PS e que podemos classificar de neoliberal ou de testa de ferro da privatização de lucros e um outro que construiu o seu discurso na contestação às políticas dos últimos anos e que se diz defensor de um clima de confiança nos professores e de recuperação do poder democrática da escola.
Digamos que o primeiro grupo assenta que nem uma luva ao arco governativo que nos conduziu à bancarrota e que o segundo se apresenta de forma algo surpreendente de fora desse registo, com um discurso sem laivos de má burocracia ou de eduquês e sensível ao que os investigadores mais atentos têm diagnosticado: a escola precisa, em nome da igualdade de oportunidades no acesso ao saber, de se desamarrar de um incomportável caderno de encargos e de se libertar para o ensino.
É o que estes actores (os que escreveram e os mencionados) estão a disputar na área do PSD: uns no primeiro grupo e outro no segundo.
Justificou-se um especialista norte-americano em supervisão bancária: os casos do tipo Lehman Brothers e Goldman Sachs eram quase impossíveis de detectar. Eram verdadeiros labirintos burocráticos, construídos ao longo de anos, e que permitiam aos seus mentores as mais sofisticadas patranhas. O monstruoso e complexo elenco de indicadores e de descritores impedia qualquer veleidade aos auditores externos e aos clientes lesados.
Contudo, estas instituições tinham uma linguagem bem-pensante e sedutora que não só embeveceu o mundo académico e político como se viria a tornar totalitária se não tivesse sofrido o abalo que se conhece. É exactamente o mesmo que é preciso fazer ao monstruoso edifício de má burocracia que asfixia as nossas escolas. Sabemos que é difícil derrubar uma industria que move milhões, mas o país está num estado em que tudo deve ser equacionado e considerado possível. O belo nunca foi fácil.
Apesar de tudo, os professores conseguiram que o desmiolo da avaliação do desempenho fosse suspenso. Quem quiser estudar o assunto, deve ler com atenção esta peça do jornal Público onde se salienta o estado a que chegou a explosiva mistura da má burocracia com o eduquês, com o poltiquês e com o sindicalês.
Para contar os nossos ês já não chegam os dedos de uma mão. Ao eduquês vieram associar-se o economês, o justicês e por aí fora. É uma praga de linguagem bem pensante e sedutora que inferniza a sociedade.
O bullshit também se instalou nos nosso comentadores encartados como se viu nos últimos dias a propósito da avaliação de professores. Como nada sabem sobre o que acontece nas escolas, debitam uma série de generalidades porque o silêncio foi eliminado da inteligência.
Com a blogosfera docente acontece mais ou menos o mesmo sobre o que se segue em matéria de avaliação do desempenho. A coisa foi suspensa pelo parlamento e quem de direito que faça o seu trabalho. Mas o rol de mesquinhez ao jeito da legislatite-valteriana preenche-nos a cabeça. Nada há a fazer. O ês minou-nos o raciocínio e não há simplex que nos valha. Estamos na falência mas temos uma explicação: a culpa é dos outros.
A democracia vive do contraditório e apareceram vozes a defender o modelo de avaliação revogado. São deste PS e apresentam um argumentário com alguns pés e pouca cabeça.
Se nos casos de António Costa, da Câmara de Lisboa, de Jorge Lacão ou de alguns deputados se compreende a necessidade de disputar os votozinhos, já as declarações de Isabel Alçada demonstram a inconsciente incompetência (para ser brando na hora da vitória) que infernizou a vida das escolas.
Desculpem-me se for deselegante para pessoas que se incluem nos grupos seguintes e que nada têm a ver com o desmiolo, mas importa sublinhar um aspecto: não basta revogar os diplomas. É fundamental dispensar a tralha de eduquês, de teses iscteianas, de ideias bostonianas e de desenvolvimentos curriculares esenianos-e-psico-educativos para que o sistema escolar respire. É uma industria que move milhões, que está colada ao poder central e que é difícil de derrubar. Mas se o país está na falência, por algum lado se tem de começar. E, como se prova, não é proibido sonhar.
Mais uma pérola da má burocracia e do eduquês. Este tipo de patologias contaminam tudo em que tocam. A análise dos detalhes que levam à peça que pode ler a seguir, demostra bem o delírio que se apoderou das mentes que competem com o ME na poluição de escolas.
Há tempos, talvez em 2008, escrevi um post em que afirmei que o modelo de avaliação de professores que o SPGL andava a divulgar como alternativo ao do ME era preenchido pela mesma má e inexequível burocracia; mudava apenas alguma nomenclatura.
Os últimos acontecimentos reforçam o que se sabia: eram almas gémeas os que se entenderam em 2008 ou acordaram (salvo seja) em 2010. A mesa de negociação onde se sentaram o ME e a plataforma de sindicatos estava decorada de eduquês e de toda toda a tralha burocrática que empurrou o poder democrático para fora da escola e conduziu o país a uma falência perpetrada pela oligarquia instalada.
Mas que grande confusão. Só nos faltava mais isto. O modo como se atropela e desrespeita o nosso sistema escolar é mesmo de bradar aos céus. Vivemos num sistema sem um rumo claro e onde se determina com uma autoridade conferida por sabe-se lá quem; a cultura do atrevimento generaliza-se, digamos assim. Já não bastava a mediatizada "parque escolar" ser questionada por uma série de coisas, com saliência para a oportunidade em desenvolver nesta altura um programa com elevada incidência financeira, fica-se agora a saber que os arquitectos (arquitectos mesmo) copiaram uma ideia holandesa que se inspirou na velha escola pedocentrista (considerada de desequilíbrio na relação pedagógica) de montessori (Maria Montessori 1870), que se integrou na corrente da escola moderna (início do século XX), e que resultados tão desastrosos pode provocar se for aplicada como é referido aqui ou aqui.
Antes da análise detalhada para um registo de blogue, convém enunciar um pressuposto: se as ideias da "parque escolar" fossem aplicadas num investimento privado seria lá com eles; mas pegaram num investimento público deste montante e deram largas a coisas como as que pode ler a seguir; e isso é um exercício demasiado atrevido para não nos beliscarmos. Generalizam-no sem testagem por amostra, afinal a política obstinada que desgovernou o sistema escolar nos últimos anos. Nos casos da avaliação de professores ou do estatuto da carreira, por exemplo, os resultados são a desgraça que se conhece.
"A sala de aula já não é o espaço mais importante da escola, acredita a Parque Escolar. A arquitectura poderá transformar o ensino?(...)"
Leu bem. A parque escolar decretou a subalternização das salas de aula. Ponto final. Se isso não acontecer, já conhecem os responsáveis: os professores.
"(...)Uma escola descentrada da sala de aula, em que os alunos se espalham por espaços informais, com os seus computadores portáteis, cruzando-se com os professores na biblioteca e discutindo projectos - é esta a visão que a Parque Escolar tem para o ensino em Portugal.(...)"
Ou seja, o pior do discurso bem-pensante do eduquês: o espaço escolar (e não a escola) destina-se à informalidade, ao entretenimento e à aprendizagem. O ensino fica arrecadado na memória dos desfasados da pós-modernidade.
"(...)A modernização das escolas anunciada pelo Governo de José Sócrates não é apenas um projecto em que as velhas escolas, com a pintura a cair e janelas que não fecham, passam a ter um novo rosto. A ideia é aproveitar as obras - e o ano escolar que agora termina foi de esforço para as escolas, obrigadas a trabalhar no meio de máquinas, e poeira - para modernizar também a concepção do ensino.(...)"
É o que sempre se temeu: este governo não se limita à organização do sistema, tem para nos oferecer uma nova concepção de ensino com pelo menos um século de existência. Só que desta vez recorre aos gadgets das tecnologias como outrora se sonhou com a construção do homem novo.
E quando se questiona exactamente o que está a mudar é que nos confrontamos com ideias de quem só conhece a capital (que deixou degradar durante 20 anos o seu parque escolar porque quem exerceu cargos políticos como profissão exclusiva, e de uma ponta à outra no espectro partidário, optou pelo ensino privado para os seus filhos e não "viu" o que acontecia à escola pública).
Veja-se.
"(...)Num modelo muito inspirado em experiências de países como a Finlândia ou a Holanda, a Parque Escolar propõe uma escola com espaços mais informais (é o conceito da learningstreet, ver texto nestas páginas), locais para pequenas exposições de trabalhos e, acima de tudo, uma biblioteca, que passa a assumir um lugar central, com jornais, revistas, computadores, Internet. No caso dos liceus antigos, mantém-se por vezes a biblioteca original como "memória histórica" e espaço mais formal, e cria-se uma nova.
A biblioteca deve ser um "espaço aberto à comunidade": juntas de freguesia ou outras entidades poderão usá-las para iniciativas abertas ao exterior. Os novos pavilhões gimnodesportivos e salas polivalentes podem ser cedidos ou alugados pela escola, que se abre ao bairro e pode ter fontes de rendimento alternativas. "A ideia é levar a escola para fora dos seus limites físicos, trazendo para dentro as pessoas de fora", explica Teresa Heitor. Em muitos casos pretende-se ainda instalar um Centro de Novas Oportunidades.(...)"
O país está repleto, e bem, pela rede de bibliotecas escolares e municipais desde o século passado. As bibliotecas escolares são há muito o que aqui se desenha. Só não são mais abertas às comunidades porque os clientes usam, e bem, a rede municipal. Estas políticas fazem recordar os tempos dos três e quatro pavilhões desportivos por avenida ou da desmultiplicação das piscinas municipais de tamanho desmesurado e insustentável.
Há mais exemplos como os enunciados. Até a ideia de alugar os pavilhões desportivos escolares às comunidades é apresentada como solução inovadora. Francamente. Há mais de 30 anos que o país conhece essa realidade.
A peça jornalística insere também, e obviamente, um depoimento de quem parece alertar para a sensatez. Tardiamente.
"(...)Será este programa ambicioso de mais sobretudo quando é preciso adaptá-lo a edifícios antigos? "A arquitectura está relacionada com a vida, tem que servir a vida, não é a vida que vai servir a arquitectura", defende Michel Toussaint, vice-presidente da secção regional sul da Ordem dos Arquitectos e professor de arquitectura na Universidade Técnica de Lisboa. "A questão patrimonial tem os seus limites, [senão] o edifício transforma-se num museu, ou então abandona-se e vai-se para outro lado. Se estamos perante um conjunto patrimonial, ele tem que ser conservado, sem dúvida, mas a forma de o conservar é também habitá-lo. A arquitectura não tem sentido se não for habitada. As escolas têm que continuar a ser escolas."
Quanto à concepção dos espaços de ensino, Toussaint lembra que um país como a Holanda, por exemplo, "tem uma tradição de experimentalismo na arquitectura, e isso tem muito a ver com a própria sociedade". Em Portugal "há outras tradições de ensino, outras condições financeiras, de organização social, de eficácia administrativa e até de experiência arquitectónica". Pode não ser fácil transferir experiências de outros países.(...)"
(1ª edição em 6 de Junho de 2010)
A actual ministra da Educação respondeu com uma gargalhada quando foi confrontada com a proposta da Fenprof sobre a extinção das direcções regionais. Já escrevi sobre a proposta e não vou voltar a fazer. O que me faz regressar ao assunto é a resposta de Isabel Alçada.
Não sei, nem sei se alguém sabe, o que é que a senhora ministra sabe de gestão escolar nos seus diversos níveis, de sistemas de informação ou de cultura organizacional. Publicamente, e nessa matéria, o desconhecimento é a única certeza.
Mas o riso como resposta insere um comportamento que se temia fazer parte do seu léxico. As últimas décadas do ME foram vincadas por uma série de "técnicos" sem sala de aula e que olhavam com sobranceria e desprezo para o que vem das escolas. Os piores tiques do centralismo e das oligarquias manifestaram-se da forma trágica que se conhece. Só se riem porque se convenceram que a auto-sustentação das suas cadeiras é um imperativo para a existência do sistema escolar em Portugal. É uma desgraça que já nem nos consegue surpreender.
O fenómeno articular nasceu em 1990 para enquadrar uma série de síndromas eduquesas que começavam a ganhar força e terreno. Foi aí que se notou a saturação em relação à pedagogia por objectivos e em que as teorias curriculares iniciaram um metabolismo de invenções técnico-pedagógicas, de má burocracia e de infantilização da aprendizagem; um processo imparável.
Para solidificar o edifício, construiu-se um modelo de gestão inspirado nas teorias tayloristas de organizar empresas: poucos pensam e muitos executam, processos muito burocráticos para a prestação de contas, imposição do unipessoal e vários patamares de lideranças intermédias com o consequente aumento dos custos financeiros. Este acervo de ideias seduziu tecnocratas com alergia às salas de aula, que se entretiveram a desenhar sistemas como se a actividade lectiva não fosse o topo da hierarquia e para quem os saberes organizacionais da escola eram desprezíveis.
Inventaram um modelo que se testou em cerca de 30 escolas portuguesas de 1992 a 1998. O balanço foi negativo. Percebeu-se a inutilidade dos departamentos curriculares, que apenas apresentaram como aspecto positivo a diminuição dos membros dos conselhos pedagógicos - objectivo que se podia atingir de maneira diferente -.
Com o novo milénio consolidaram-se as ideias empresariais do downsizing e abandonou-se o taylorismo. O achatamento organizacional apelou à informação da chamada primeira linha e reduziu os patamares de decisão. Mas não no ME de Portugal que teimou em caminhar à revelia da história, da modernidade e da racionalização da despesa.
Em 2005 chegaram os iluminados que impuseram as tais ideias que medravam desde 1990, mas que os teimosos das salas de aula insistiam em questionar. Os desastrosos resultados estão à vista e só não os regista quem não quer mesmo ver o estado de sítio organizacional a que se chegou.
(1ª edição em 26 de Julho de 2010)
A tragédia que se abateu sobre o poder democrático das nossas escolas vai ter, nos tempos mais próximos, um novo pico. O ISCTE produziu grande parte da engenharia social e financeira que cilindrou a democracia nas escolas. Quase todos os políticos escolhidos para o exercício, têm a mesma proveniência e são especializados em sociologia, trabalho e empresas. Lançaram, de forma certificada, o caos no sistema. Agora que estão quase vencidos pela realidade e sem qualquer veleidade de emancipação, caiu-lhes a máscara. Em desespero, arquitectam um ataque para fustigar os seus inimigos de estimação: os professores. Acreditam que o momento é, de novo, propício.
Gente que não pôs os pés numa escola básica ou secundária tomou as rédeas do sistema e anarquizou-o numa lógica que consideraram anti-elitista. A sério: houve por ali qualquer coisa como isto. Viveram obcecados com os "privilégios" dos professores. Tudo o que não fosse 45 horas semanais de aulas era elitismo.
Agora querem cavalgar a onda do desvario financeiro e descarregar ódio. Resta-lhes pouco tempo de poder. Um dos mentores ainda no activo "dirige" a Direcção-Geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular (DGIDC). Ouvir este áudio ou ler esta entrevista ajuda a perceber.
A entrevista versa o programa novas oportunidades, onde o responsável afirma não saber dos custos nem sequer dos da máquina de propaganda montada à sua volta. Manter-se-á sem cortes. Há duas frases que são emblemáticas. A comparação com o ensino regular é de bradar e dá uma boa ideia da sustentação do desastre.
"Sabemos que alunos de determinadas vias de ensino aprendem a fazer exames e a tirar notas, mas não sabemos se sabem alguma coisa quando acabam. Isso não acontece com os nosso alunos porque são obrigados a demonstrar competências".
"A democratização de acesso implica verdadeira abertura social e de mobilidade, o que cria pressão junto de determinadas elites que não deixaram de reagir. Há uma democratização mal tolerada do acesso aos diplomas escolares".
(1ª edição em 25 de Outubro de 2010)
Circula por email um clássico muito certeiro da autoria de JLSarmento.
Para um professor, a escola serve para ensinar.
Para um economista, serve para qualificar.
Para um burocrata, serve para normalizar.
Como a hierarquia está invertida, no topo estão os burocratas e no fundo os professores.
J. L. Sarmento
O caderno de encargos da escola tornou-a incapaz de se dedicar ao ensino. Dá ideia que a sociedade portuguesa desapareceu da Educação dos petizes. A última novidade é a Educação financeira. Não se ria. Trata-se de preparar os nossos alunos para a sobrevivência na economia de mercado. Ora leia aqui.
Encontrar culpas pode ter um efeito prospectivo. São muitos os que escolhem os princípios de liberdade, de igualdade e de fraternidade da revolução francesa para explicar os problemas de autoridade nas salas de aula, nomeadamente na transposição do conceito de igualdade para a relação do professor com os seus alunos. As questões colocam-se de forma simples e em dois domínios: o aluno deve ser o outro e não um igual e isso é fundamental para garantir o poder democrático da escola e, em consequência disso, o da própria sociedade.
De modo nenhum esta asserção deve ser confundida com a vivência democrática da escola-organização. O que se trata é de tornar claro a quem compete organizar e orientar o ensino. Esta excelente entrevista ao filósofo espanhol Fernando Savater vai no sentido do que acabei de escrever. Foi grave o que se passou nas últimas décadas, onde o aluno igual começou na família e no pré-escolar e projectou-se no inferno burocrático e no excesso de garantismo.
Descentralizar não significa privatizar: muito menos no sistema escolar.
É eficaz eliminar a burocracia de serviços centrais através de contratos de autonomia (charter schools). Não podem é ser contratos onde a inscrição mantém a dependência das invenções técnico-pedagógicas de serviços centrais: alguém tem de perder o emprego.
Sabe-se que autonomia implica responsabilidade e confiança. Exige uma sociedade onde impere esse clima. Portugal devia e podia ser um país assim. Há exemplos desse exercício. Alguns investigadores falam de "autonomia clandestina" como receita para o sucesso organizacional. E falam bem. Estamos muito longe de ser uma sociedade confiante. Não adianta apontar dedos; o único certeiro é o que se dirige à consciência de cada um.
É decisivo que se fale de financiamento. Sem essa clarificação nada se faz. Há, desde logo, duas perguntas a fazer: é legítima a privatização de lucros na escolaridade obrigatória (para já não falar da seguinte)? Defendo que não. A contratação de professores deve obedecer sempre a concurso público? Defendo que sim.
Aprende-se com a sociedade americana, mas as cópias não se aconselham. Para o sonho americano existe uma formulação apenas: sou patrão ou aspiro a sê-lo. Na europa existe um grupo, os chamados intelectuais, que são capazes de trabalhar tanto como os patrões e que aspiram a viver do seu salário. E isso confundiu os neocons, mas também os governantes actuais. Encontraram uma solução: o esmagamento através da prestação de contas com monstros burocráticos. Fazem-no em casa com medo das contaminações e têm um canal mundial para a propagação da receita: chama-se OCDE e em Portugal é a tecno-religião dos partidos políticos todos com assento na Assembleia da Republica, com particular destaque para os do arco-do-poder.
Valeu-nos, por agora, um grupo alargado de professores que andam pelas escolas da escolaridade obrigatória, que pensam para além das tecno-religiões, que só querem ser patrões de si próprios e prestar contas pelo seu exercício profissional. Nada será como dantes.
Não coloca a questão de, no mínimo, avaliar o programa e os seus efeitos. Veja o vídeo e perceberá o que quero dizer.
Quando dou conta que a rubrica "blogues em papel" do jornal Público insere um post do correntes guardo-a em formato digital. Desta vez foi sobre as metas de aprendizagem e com os critérios do jornal ficou assim: "O exercício das metas de aprendizagem protagonizado pela ministra da Educação é mais um monumento ao eduquês e ao monstro burocrático (...). É mais do mesmo (...). É claro que os programas disciplinares têm de ser revistos e que devem integrar uma rede de aferição de conteúdos nucleares e de metas de aprendizagem. Mas esse é um problema técnico e não pode entrar nas prioridades discursivas de um sistema escolar tão ausente da sociedade, com números altíssimos de abandono escolar."
São demasiados os que estão fora do metabolismo da escola e que lhe querem determinar o caminho. São em excesso os que fogem da sala de aula e que estabelecem juízos sobre o que lá se deve passar.
É grave que ambos queiram transformar técnicas de ensino em instrumentos da escola-organização. Estes dois mundos tocam-se mas são de insucesso comprovado os relatos da imposição do primeiro ao universo do segundo. Para além de tudo, e se 60% do sucesso escolar fica com as famílias, 30% está reservado para a escola-organização e 10% para o ensino. Só as fatalidades inscritas no primeiro parágrafo é que levam a que febre da avaliação dos 10% seja a marca da última década. Talvez porque dos 30% pouco se saiba e dos 60% é melhor nem falar.
Quando leio, como aqui, que a pontuação das aulas observadas dos professores deve acrescentar valor à avaliação externa tenho pena da escola. A proposta é do governo e não me admira. Sobre avaliação não aprenderam e não têm remédio. Mas que o secretário-geral da Fenprof diga que sim à ideia é que já nem sei se tenho vontade de rir, apesar de sempre ter escrito que em eduquês se redigem os textos dos entendimentos e dos acordos.
Os pais que, segundo as autoridades, não cuidem das dietas de crianças com obesidade mórbida devem perder os seus filhos. De repente até se pode compreender, mas fiquei inquieto com a notícia. Ouvi na rádio um dos defensores e ainda mais arrepiado fiquei; um psicólogo que usa uma linguagem alinhada com o que denuncio aqui: um discurso bem-pensante no limiar da génese de um totalitarismo. Os tiques são vários e pouco reflectidos. Temos exemplos, como este, que vão fazendo o caminho das consciências. Encontrei, aqui, um post interessante sobre o assunto.
Sabemos que a nutrição dos primeiros cinco anos de vida marca-nos e que nenhuma responsabilidade podemos assumir. Mas daí até a este estado de fervor científico deve ir um passo longo. Ainda por cima num estado que promove medidas que estimulam a obesidade das crianças: a escola a tempo inteiro ou os programas de computadores portáteis, por exemplo. São sinais perigosos.
O anterior monstro burocrático para a avaliação de professores caiu porque pretendia medir o que era imensurável. Encontra aqui uma explicação mais detalhada. O que agora se quer implementar mantém a imensurabilidade. Só funcionará em ambiente de faz de conta. Quem se movimenta nos corredores de produção não entende o que se passou.
O estatuto do aluno é um instrumento fundamental do sistema escolar. Nas últimas décadas, o seu registo de excesso de garantismo e de infantilização acentuou um dos aspectos mais negativos da organização escolar: a inundação de má burocracia. Valeram coisas óbvias: a liderança em muitas salas de aula e a autonomia clandestina de muitas escolas.
Para já, e pelo que se pode saber pela comunicação social (o site do ME está há dias offline), caiu algum do auge do eduquês perpetrado pela outra equipa da Educação deste governo. As provas de recuperação (que o estado de sítio, ou seja, que o incumprimento generalizado de diplomas legais fez que não fossem aplicadas de forma generalizada) e a diferenciação entre faltas justificadas e injustificadas são da história.
Transmite-se à sociedade, onde imperam os citados fenómenos de excesso de garantia e de infantilização, um sinal positivo. O novo diploma foi promulgado pelo presidente da República, não sei se contrariado como é costume. Pelo que se viu da fervorosa cooperação nas políticas da Educação, é natural que Cavaco Silva esteja aborrecido com mais este "recuo".
É um economista que passa a vida a zurzir no sistema escolar actual. Antes é que era, é a regra das suas sentenças. Dirige uma universidade de formação de gestores e de economistas. Pergunta-lhe o jornalista: mas não temos um problema de gestão nas empresas? Claro, diz o economista, temos de esperar que as novas gerações, que são melhor formadas, cheguem ao poder.
É inegável que Portugal tem feito progressos nos números da escolaridade. O analfabetismo está quase erradicado e a taxa de abandono escolar precoce tem diminuído apesar de ainda estar acima dos 30%. Tenho ideia que cada vez existem mais portugueses competentes, qualquer que seja o ângulo de análise. Mas estamos obviamente insatisfeitos. Nem é por essa ser uma das características dos humanos, é porque alguns dos números apresentados envergonham-nos.
Sabemos há muito que, e em números redondos, 60% do sucesso escolar se deve às famílias, 30% à organização escolar e 10% aos professores. Escolas com um número aceitável de alunos, grupos socialmente heterogéneos e turmas com cerca de 20 ou menos estudantes são três condições básicas. Mas mesmo isso pode não ser suficiente, se a sociedade estiver ausente e se a educação dos petizes não for uma objectivo primeiro. Não adianta pensar que tudo se muda alterando apenas a escola e seja em que sentido for. Não se eleva a educação nem a escolaridade transformando a escola num local de passagem, de entretenimento e de guarda de crianças; estas intenções podem mesmo ser desastrosas.
Vale a pena ouvir a entrevista da actual ministra no link que vou sugerir. De acordo com os argumentos da ministra da Educação, o motivo para mais mais esta contestação não está na ideia desajustada que lançou, mas na incompreensão dos diversos actores do sistema. Na opinião de Isabel Alçada as pessoas é que são avessas à mudança e não são as incompreendidas propostas que se inspiram na estratosfera ou não têm pés nem cabeça, como se tem comprovado.
Afinal, a ideia de terminar com as reprovações não é para já. A intenção era lançar a discussão no sentido mais profundo. Ou seja, antes desta ministra o sucesso escolar estava por discutir. Não há mesmo pachorra. É interessante (se não fosse trágico) que toda esta questão continue a ser discutida como se não houvesse sociedade e com uma única via: sobrecarregar o já insuportável caderno de encargos da escola.
Foram anos a fio de infantilização da educação e do ensino - com a agravante dos últimos quatro onde se desautorizou de forma inaudita o papel democrático da escola pública - para ainda termos de aturar mais esta pérola do eduquês lusitano. Sabemos que há sociedades onde isto é possível, mas, e muito francamente, introduzir uma coisa destas por aqui, e nesta fase, pode ser desastroso. Das três uma: são efeitos do calor que se tem feito sentir na capital, está aberta a silly season ou a estratosfera está em plena laboração.
Quanto se tem de dirigir alguma organização não é necessário ter muitas ideias. O mais difícil até é ser parco na lucubração e encontrar as duas ou três que podem servir de alavanca para arrastar tudo o resto.
Há uma característica portuguesa que me parece única: a utilização intensiva de diminutivos. Os inhos são uma instituição nacional e sua atenuação contribuiria para a resolução de uma série de problemas no sistemas escolar.
Nas últimas décadas construiu-se paulatinamente um edifício de burocracia monstrusa para assegurar aos miúdos o reino dos céus e da terra. O excesso de garantismo chega a irritar as crianças e os jovens. Ao fim de 4 ou 5 anos de escola já são veteranos das regras, mas mesmo assim assistem a permanentes e acesos debates, que envolvem os mais altos dignitários da nação, para se regulamentar uns quaisquer duzentos e quarenta e oito artigos que defendam os disparates que eles estão fartos de saber que não podem cometer.
E não é só na escola. Tenho ideia que na maioria das casas passa-se o mesmo. São mesmo uns pequenos ditadores.
Se o sistema escolar pusesse fim a este estado de sítio, melhorava rapidamente uma série de componentes críticas: reuniões sem sentido; planos de recuperação, de acompanhamento e afins que mais não são do que má burocracia; relatórios atrás de relatórios a justificar uma nota negativa; e por aí adiante.
É espantoso o tempo que se teima em gastar para não educar os jovens. São gerações de inhos a fugir à responsabilidade de ter que dizer um não e ponto final. É importante destruir este edifício. A começar pelo estatuto do aluno. Repare-se na seguinte pérola para a falta injustificada de um aluno adulto. Se isto não é de bradar aos céus, pelo menos tenho quase a certeza que não há país no mundo que utilize procedimento semelhante.
Diz o Artigo 20.º (Faltas injustificadas) no nº 3: As faltas injustificadas são comunicadas aos pais ou encarregados de educação ou, quando maior de idade, ao aluno, pelo director de turma ou pelo professor titular de turma, no prazo máximo de três dias úteis, pelo meio mais expedito.
Há uns meses utilizei estes mesmo artigo para outro post e terminei assim: "(...)É a era da comunicação na versão do sistema escolar português. Doses de comunicação. Então uma pessoa falta injustificadamente e tem de ser avisada do facto? Até um aluno adulto? E no prazo máximo de três dias? Avisado de quê? É para se lembrar que anda na escola? Ou é para o caso de não estar informado que havia uma aula? Não internem esta gente nâo, que vão ver onde é que isto vai parar.(...)"

O mundo das organizações empresariais, por gerarem lucros financeiros em muitos casos incomensuráveis mas também por proporcionarem benefícios inquestionáveis para o aumento da esperança e da qualidade da vida humana, ganharam preponderância em relação à gestão de outro tipo de instituições, considerando-se nesse grupo os estudos relativos aos diversos níveis dos sistemas escolares.
Sendo assim, os pressupostos que orientavam a vida das primeiras eram quase copiados e impostos ao metabolismo das segundas; muitas vezes com resultados desastrosos, como aqui é referido.
Também a evolução do pensamento político, e dos respectivos sistemas, afectou de modo significativo as relações dentro das salas de aula e as condições que as envolvem. Houve modas político-sociais ou de terapia psicológica que se transformaram em correntes de ensino; como aqui, se lhe interessar esse conhecimento.
Os acontecimentos recentes em Portugal trouxeram de novo para a agenda mediática a questão da autoridade dos professores. Começa mesmo a ser recorrente.
Essa discussão faz eco na blogosfera. Alguns bloggers mantêm o assunto na sua linha editorial e fizeram nos últimos dias posts a não perder: Paulo Guinote, aqui, Ramiro Marques, aqui, José Luiz Sarmento, aqui e Mário Machaqueiro da APEDE, aqui.
Tenho dedicado, naturalmente, vários posts ao assunto e não me canso de repetir: (...)Vem isto a propósito de outro clássico da vida das sociedades: a recuperação da autoridade (por parte dos adultos em relação às crianças e aos jovens) na vida das escolas e não só, claro. No que se refere ao quotidiano das nossas escolas, pode dizer-se assim: a autoridade é também um direito do aluno; de todos os alunos, salientando-se que nesse grupo estão incluídos os que têm mais vontade em aprender. E isso, o exercício da autoridade, deve acontecer com os professores mais capazes de liderar e com os professores menos capazes de liderar. E por mais voltas que dermos, tudo começa na casa de cada um. Quando não começa, a escola tem de o impor: com regras simples e claras e sem tibiezas. Mas, para isso, a escola não pode estar só nem a tempo inteiro: é isso que as crianças e os jovens esperam e desejam."
Não há receitas infalíveis para a liderança e há muitos aspectos que podem ser aprendidos. O link que indiquei do Paulo Guinote faz essa abordagem.
Mas há uma associação que se relaciona com o desvalorização actual do ensino e com a filosofia taylorista de gestão das organizações e das pessoas que teve efeitos nefastos e que contaminou os sistemas escolares.
Podemos considerar ainda os exemplos mais conhecidos de empowerment e de accountability que mais não eram que as sedutores e bem-pensantes ideias de "dou-te responsabilidades mas quero a respectiva prestação de contas". E estas asserções, lançadas no universo escolar com um acompanhamento mediático que insinuava a "definitiva e corajosa solução do problema", trouxeram um clima social propício à desautorização dos professores, principalmente dos mais frágeis.
É precisamente por tudo o que foi descrito, e por se perceber que a forma da sala de aula estar imune a modismos mas também porque tem de recuperar a justificação para a sua existência, é que muitos defendem que a única saída é a que indica um ensino centrado nos conteúdos, devendo esta preposição ser lida não apenas no sentido da mediação mas também da inter-transformação (sei que é mais uma palavrão, mas encontra a sua explicação num dos links indicados neste post) da relação pedagógica.
(1ª edição em 14 de Março de 2010)
Quando um ministério faz um comunicado para o assunto destes, não é preciso muito mais para se perceber a gritante falta da rumo.
Tenho dedicado algum do meu tempo a escrever sobre o muro de procedimentos burocráticos que asfixia o ensino em Portugal. Criei no correntes, aqui, uma rubrica denominada "tijolos do muro" onde insiro também algumas histórias curiosas.
Para além de textos com um apreciável número de caracteres, incluo aquelas pequenas pérolas - algumas bem kafkianas - com que a vida na escola-organização se vai confrontando.
O blogue do Paulo Guinote é aquilo que se sabe. Para lá da excelência de conteúdos, criou um "fórum/chat" que deve ser único na blogosfera. Apesar de ter lido quase tudo o que o Paulo Guinote escreveu, tenho mais dificuldade em fazê-lo com os comentários: escapam-me muitos e tenho pena. É um registo irrepetível e uma verdadeira fonte de inspiração.
Noutro dia fui ler um conjunto de comentários que ainda estava pela dezena e meia.
Retirei dois para este post. Os autores tinham nicks (se bem me lembro) e tenho pena de não os identificar pelo nome.
Ora leia que vale bem a pena. São elucidativos dos caminhos da famosa bancarrota.
"(...)oito e meia da manhã. prova de LP trazida de madrugada por elementos da GNR. três vigilantes. um coadjuvante. dois membros do secretariado. exame para UM aluno do 8º a tentar passar para o 10º ano… o aluno não apareceu…"
"Isso é um excelente exemplo dos tempos que correm: tudo se mobiliza pelo aluno, e ele não quer saber daquilo para nada.
Há algum tempo vi uma cena parecida com essa. Um dos rufias da escola fez lá um disparate e foi levado à direcção. Estavam: aluno, mãe, pai, director, subdirectora, director de turma, psicóloga, professor da disciplina, e professor que trata dos casos de indisciplina. Tudo à volta do menino…"
A polémica à volta do salto dos alunos do 8º para o 10º está a ocupar a agenda mediática. Veja-se lá, como pode ler aqui, que a avaliatite incontinente que contaminou as cabecinhas do ME está a caminho da assembleia da República pela mão do "inefável" presidente do CDS-PP. É bom recordar, que na última vez que este senhor esteve no governo nomeou uma secretária de estado da Educação de péssima memória e que dizia coisas bárbaras como as que pode ler aqui ou aqui. Estamos entregues, sem dúvida, a uma agenda de casos, em que os extremos se tocam, e em que apenas a memória pode prestar um bom serviço à nação.
Dizia-me a directora de turma de um oitavo ano: "tenho dois alunos com dezassete anos, uns turistas conscientes, que estão constantemente no limite de faltas - um até já reprovou por faltas depois de lhe ter feito sei lá o quê e ainda teve a lata de recorrer para a direcção regional - carregados de negativas e vão agora poder fazer exame do 9ºano, havendo na mesma turma alunos com a mesma idade, e outros mais novos, obviamente, que se esforçarm e estudaram muito e o "máximo" que conseguem é a passagem para o 9º ano; bem sei que os tais dois vão reprovar nos exames, mas como é que explico esta coisa aos outros?".
É esta intersecção do real com as mentes deste ME que nos deixa perplexo. Mas o que é que levou esta gente a decidir uma coisa destas? Digam lá se não tenho razão quando escrevo que têm de registar com frequência a temperatura corporal na estratosfera?

Quem quer que se meta na aventura de reflectir sobre o estado do sistema escolar português pode escolher os mais variados pontos de partida. A minha opção navega na história mais recente e encontra no tratamento da informação o seu desígnio primeiro.
Podia optar por outra designação: "sistema escolar por blocos". Mas a ideia de bloco da precaução tem duas vantagens: é o bloco que mais asfixia o privilégio de ensinar e pode tornar mais inteligível o que quero exprimir.
Consideremos três blocos e caracterizemo-los então.
O bloco do ensino é o lugar que determina toda a actividade que cada um dos professores faz dentro da sala de aula; neste imenso universo deve centrar-se a sua avaliação do desempenho, onde é indiscutível que cada professor deve estar sempre preparado para fundamentar as suas opções científicas e didácticas e os critérios que escolheu para avaliar os seu alunos.
O bloco da organização escolar é o espaço que se destina a criar as melhores condições para que cada uma das aulas se realize: é a sua primeira finalidade. Solicita aos professores duas informações: a classificação de cada um dos alunos e a respectiva assiduidade. Deve seleccionar a informação que pretende obter para a fornecer em tempo real e com a exigência que produza conhecimento. Este bloco deve ser dirigido por um professor e tenho ideia que será melhor conduzido por aqueles que revelem um desempenho muito profissional no bloco do ensino.
O bloco da precaução caracteriza-se por um universo informativo que é obtido apenas para arquivo e que existe por dois motivos: ou porque está determinado de modo central, muitas vezes com a supervisão das auditorias externas (vulgo Inspecção-geral da Educação) dos serviços centrais do ministério da Educação, ou porque emergiu das invenções técnico-pedagógicas em que se transformaram o ministério da Educação e as escolas de formação de professores. E aqui encontramos um inumerável elenco de invenções burocráticas: inúmeras actas e relatórios sem parâmetros indicadores de informação estruturante, projectos educativos impossíveis de avaliar, projectos curriculares de turma e de escola, programas educativos individualizados, documentos definidores de objectivos com designações variadas de acordo com os gostos e os feitios dos promotores de ocasião, e por aí fora numa lista que podemos considerar como quase interminável.
Este bloco da precaução, que foi construído paulatinamente ao longo de anos e que criou um muro de burocracia no exercício da gestão da informação escolar, é tão difícil de derrubar que essa tarefa só é comparável à queda do muro de Berlim.
Sobre o muros dos professores portugueses escrevi, em tempos, assim:
“há muros por tantos lados que o seu porvir é tão diverso quanto os propósitos das suas edificações. Quando a liberdade dos homens esbarra num qualquer aglomerado, de tijolos ou de verdades incontestáveis, e por muito consistente que seja a argamassa que as compõe, o obstáculo acaba por ceder e cai de modo drástico e estrondoso. O que mais impressiona nas quedas, e remeto-me para a do muro de Berlim, é a incredulidade dos que estiveram anos a fio do lado errado: em muitos casos, começaram por crer nas virtudes dos dogmas; depois, sustentaram as suas vidas na acomodação aos manipulados e "cinzentos" privilégios dos funcionários médios e superiores dessas sociedades; por fim, acabaram como defensores acérrimos de burocracias monstruosas, repetitivas e desprovidas de qualquer sentido libertador da condição humana.
A situação dos professores portugueses pode explicar-se do mesmo modo: imersos num tentacular assombro burocrático, que começa no "muro" da 5 de Outubro para alastrar-se à restante máquina administrativa, os professores, indignados e saturados, e sem liberdade para ensinar, ecoam os seus protestos dos lugares mais recônditos do país até ao histórico Terreiro do Paço. Incrédulos, os funcionários do chamado "eduquês" ("uma industria que move milhões") estão atónitos, mas ainda esperançosos: têm, nas equipas que têm governado o ministério da Educação, uma força de vanguarda e um último e desesperado bastião. Não é fácil assistir a uma queda sem fim e presenciar a ruína das convicções mais profundas, trabalhadas árduamente durante décadas.”
A institucionalização do bloco da precaução, e a sua aparente autoridade, parte dos serviços centrais do ministério da Educação e alarga-se de um modo “impensado” à organização da maioria das escolas. A sua operacionalização através dos recursos humanos que requisita é responsável por um custo financeiro que tem tanto de volumoso como de ineficaz.
As invenções burocráticas devidamente preenchidas, são, por precaução, a única consciência profissional de muitos estabelecimentos de ensino. E isso retira sentido de autonomia, de responsabilidade e gera fenómenos de subserviência, de medo e de despesismo financeiro
Só assim foi possível verificar um conjunto denominado de boas práticas que tornava "exequível" aquilo que depois se provava ser inaplicável: é essa uma parte crucial da história recente da avaliação do desempenho dos professores e do arrastamento insuportável desta coisa sem pés nem cabeça. Quando se tentou perceber as boas práticas das escolas ditas de referência, o ridículo eliminou rapidamente a visibilidade mediática que se quis impor. Também por precaução se deixou de falar nisso.
Cortesia da Isabel Silva.
Um texto imperdível, e com uma imagem hilariante, do Luís Redes; aqui.

O estatuto do aluno regressa a um pico informativo e arrasta o enjoativo debate costumeiro à volta dos disparates (sim, disparates) dos nossos legisladores e da maioria dos políticos que se pronuncia sobre o assunto. Sei que o que acabei de escrever pode parecer radical, mas estou convicto que encerra uma elevada dose de sensatez. Há muito que estou aqui e cada vez mais me convenço da justeza dos meus argumentos.
O Público tem hoje uma notícia interessante sobre o assunto; aqui. "Número de faltas dos alunos é uma incógnita" é o título da notícia. E e o jornal continua assim: ""Um progresso absolutamente extraordinário", foi assim que José Sócrates classificou, há um ano, a redução do número de faltas dos alunos, agora desmentida pelo Governo".
Que dizer desta despudorada e conhecida manipulação? Só se espera que com os números da crise, e com o programa de combate à mesma, não tenha acontecido o mesmo. É que se aconteceu pode haver falência, ou algo parecido, pela certa.
Já li, com um tremendo esforço, o novo estatuto do aluno. Os legisladores ensandeceram de vez e não se enxergam. A mudança nas provas de recuperação é do mais puro eduquês: se, por exemplo, um aluno obtém um qualquer excesso de faltas, deve fazer uma série de coisas com conhecimento e co-responsabilização da família. É para rir, não é?
Diz o Artigo 20.º (Faltas injustificadas) no nº 3: As faltas injustificadas são comunicadas aos pais ou encarregados de educação ou, quando maior de idade, ao aluno, pelo director de turma ou pelo professor titular de turma, no prazo máximo de três dias úteis, pelo meio mais expedito.
É a era da comunicação na versão do ME português. Doses de comunicação. Então uma pessoa falta injustificadamente e tem de ser avisada do facto? Até um aluno adulto? E no prazo máximo de três dias? Avisado de quê? É para se lembrar que anda na escola? Ou é para o caso de não estar informado que havia uma aula? Não internem esta gente nâo, que vão ver onde é que isto vai parar.
blogues que sigo
A educação do meu Umbigo (Paulo Guinote)
Anabela Magalhães (Anabela Magalhães)
Atenta Inquietude (José Morgado)
Blog DeAr Lindo (Arlindo Ferreira)
educar A educação (Nuno Domingues)
O estado da educação e do resto (Mário Carneiro)
Professores Lusos (Ricardo M.)
outros blogues
As minhas leituras (José Luiz Sarmento)
Desvarios de um Louco (Elenáro)
Donatien Alphonse François (DAF)
I-diário mínimo (Maria Fernanda Fernandes)
Partilha do Saber (Telmo Bértolo)
Pérola da cultura (Helena Feliciano)
blogues locais
Água com linhas (Ana Luisa Frazão)
MyM (Maria Filomena Ruivo Ferreira)
O que eu andei... (João Bonifácio Serra)
Postal - um verbário (Rui Antunes Correia)
Verbíario Volátil (Vasco Tomás)
blogues política
Do Portugal Profundo (António B. Caldeira)
O país do Burro (Filipe Tourais)
The Conscience of a Liberal (Paul Krugman)
(Re) Flexões (Francisco Santos)
mais informação
Centro Cultural das Caldas da Rainha
acordos(61)
agrupamentos(136)
além da troika(40)
amizades(66)
amontoados(91)
antero(145)
bancarrota(237)
banda desenhada(112)
basquetebol(36)
blogues(997)
caldas da rainha(49)
campanhas eleitorais(153)
cartoon(112)
cinema(136)
coisas boas(72)
coisas muito más(37)
coisas óbvias(50)
coisas tontas(212)
contributos(499)
corrupção(161)
crise da democracia(253)
crise da europa(107)
crise financeira(382)
crise mundial(113)
crónicas(109)
dacl(50)
debates(38)
democracia(59)
desemprego(61)
desenhos(245)
direito(67)
direitos(173)
economia(308)
educação(1667)
eduquês(85)
efemérides(152)
em defesa da escola pública(63)
entrevistas(49)
escola em luta(38)
escola-armazém(36)
escolas em luta(734)
escolas privadas e cooperativas(101)
escolas públicas(46)
estatuto da carreira(250)
ética(50)
europa(36)
exames(59)
facebook(44)
falência(84)
falta de pachorra(202)
filosofia(124)
finanças(126)
fotografia(123)
gestão(42)
gestão escolar(571)
greve(38)
história(141)
humor(338)
ideias(245)
literatura(207)
luta jurídica(55)
manifestação(138)
manipulação(84)
música(413)
obama(37)
parque escolar(42)
paulo guinote(115)
pintura(46)
poesia(89)
política(2729)
política educativa(2490)
por onofre(95)
portugal(89)
primeira página(36)
público-privado(105)
queda do governo(68)
rede escolar(140)
rss da educação(40)
sindicalismo(62)
sociologia(37)
tijolos do muro(157)
troika(47)
ultraliberais(53)
vídeos(827)